3. Leia o texto abaixo e responda o que se pede:
Quando estes índios tomam alguns
contrários, se logo com aquele ímpeto os
não matão, levam-nos vivos para suas
aldeias (ou sejam portugueses ou quaisquer
outros índios seus amigos), e tanto que
chegam a suas casas lançam uma corda mui
grossa ao pescoço do cativo para que não
possa fugir, e arrumam-lhe uma rede em que
durma e dão-lhe uma índia moça, a mais
formosa e honrada que há na aldeia, para
que durma com ele, e também tenha cuidado
de o guardar, e não vai para parte que não
no acompanhe.
Esta índia tem cargo de lhe dar muito bem
de comer e beber; e depois de o terem desta
maneira cinco ou seis meses ou o tempo que
querem, determinam de o matar; e fazem
grandes cerimonias e festas aqueles dias, e
aparelhão muitos vinhos para se
embebedarem, e fazem-nos da raiz duma
erva que se chama “aipim”, a qual fervem
primeiro e depois de cozida mastigam-na
umas moças virgens espremendo-a nuns
potes grandes, e dali a três ou quatro dias o
bebe. E o dia que hão de matar este cativo,
pela manhã se alguma ribeira está junto da
aldeia levam-no a banhar nela com grandes
cantares e folias tanto que chegam com ele á
aldeia, atam-no pela cinta com quatro cordas
cada uma para sua parte e três, quatro
índios pegados em cada ponta destas e
assim o levam ao meio dum terreiro, e tirão
tanto por estas cordas que não se possa
bolir para uma parte nem para outra, as
mãos deixam soltas porque folgam de o ver
defender com elas. Aquele que o há de
matar empena-se primeiro com penas de
papagaio de muitas cores por todo o corpo:
há de ser este matador o mais valente da
terra, e mais honrado. Traz na mão uma
espada dum pau muito duro e pesado com
que costumam de matar, e chega-se ao
padecente dizendo-lhe muitas coisas e
ameaçando-lhe sua geração que o mesmo
há de fazer a seus parentes; e depois de o
ter afrontado com muitas palavras injuriosas
dá-lhe uma grande pancada na cabeça, e
logo da primeira o mata e lhe fazem
pedaços. Esta é uma índia velha com um
cabaço na mão, e assim como ele cai acode
muito de pressa com ele a metê-lo na
cabeça para tomar os miolos e o sangue:
tudo enfim cozem e assam, e não fica dele
coisa que não comam. Isto é mais por
vingança e por ódio que por se fartarem.
Depois que comem a carne destes contrários
ficam nos ódios confirmados e sentem muito
esta injúria, e por isso andam sempre a
vingar-se uns contra os outros. E se a moça
que dormia com o cativo fica prenha, aquela
criança, que pare depois de criada, matam-
na e comem-na e dizem que aquela menina
ou menino era seu contrário verdadeiro por
isso estimam muito comer-lhe a carne e
vingar-se dele. E porque a mãe sabe o fim
que hão de dar a esta criança, muitas vezes
quando sente prenhe mata-a dentro da
barriga e faz com que morra. E acontece
algumas vezes afeiçoar-se tanto a este
cativo e tomar-lhe tanto amor que foge com
ele para sua terra para livrá-lo da morte.
Muitos índios que do mesmo modo se
salvarão, ainda que são alguns tão brutos
que não querem fugir depois de os terem
presos; porque houve algum que estava já
no terreno atado para padecer e davam-lhe a
vida e não quis senão que o matassem,
dizendo que seus parentes o não teriam por
valente, e que todos correriam com ele; e
daqui vem não estimarem a morte; e quando
chega aquela hora não na terem em conta
nem mostrarem nenhuma tristeza naquele
passo. Finalmente que são estes índios
muito desumanos e cruéis, não se movem a
nenhuma piedade: vivem como brutos
animais sem ordem nem concerto de
homens, são muito desonestos e dados á
sensualidade e entregam-se aos vícios.
Todos comem carne humana e têm-na pela
melhor iguaria de quantas pode haver: não
de seus amigos com quem eles têm paz se
não dos contrários. Tem esta qualidade
estes índios que de qualquer coisa que
comam por pequena que seja hão de
convidar com ela quantos estiverem
presentes, só há esta proximidade entre
eles.
(Pero de Magalhães Gândavo. Tratado da
Terra no Brasil)
a) Que imagem de índio Gândavo passa para os leitores através do seu relato?
b) Qual o objetivo deste texto de Gândavo?
c) O que acontecia primeiramente quando os índios capturavam seus inimigos? Como era o
tratamento?
d) O que acontece com o prisioneiro depois de seis meses de vida “boa” nas mãos do
inimigo?
e) O que acontece se a moça que cuidava do prisioneiro ficasse gestante do mesmo?
f) Há prisioneiros indígenas que tinham a oportunidade de fugir. Mas por que eles não
fugiam?
g) Qual é a única “boa atitude” que estes índios possuíam em seus corações?
h) Ao olhar de hoje, podemos dizer que essas atitudes dos índios daquela época era uma
monstruosidade contra o próximo, e crueldade. Mas para a época deles, podemos dizer que
essas atitudes são “erradas” ou “desumanas”? Por que?
Lista de comentários
Resposta:
a) A imagem de índio que Gândavo passa para os leitores através do seu relato é a de um povo considerado cruel, desumano e brutal. Descreve-os como guerreiros que capturam seus inimigos e os submetem a rituais violentos, incluindo a matança e o canibalismo.
b) O objetivo do texto de Gândavo é descrever as práticas e costumes dos índios brasileiros encontrados pelos colonizadores portugueses. Ele busca retratar as características dos nativos, seus hábitos, comportamentos e rituais, sob o ponto de vista dos europeus da época.
c) Quando os índios capturavam seus inimigos, se não os matavam imediatamente, levavam-nos vivos para suas aldeias. Lá, amarravam-nos e designavam uma índia moça, formosa e honrada para cuidar do prisioneiro. Esse tratamento inicial incluía alimentação adequada e até mesmo uma companhia feminina.
d) Depois de cinco ou seis meses (ou o tempo que quisessem), decidiam matar o prisioneiro. Para isso, realizavam festas e cerimônias, e o matador, empenado com penas de papagaio, fazia um discurso ameaçador ao cativo antes de matá-lo com uma pancada na cabeça.
e) Se a moça que dormia com o prisioneiro ficasse grávida, o filho nascido dessa união seria morto e comido pelos índios, acreditando que a criança era um inimigo verdadeiro e, por isso, merecedora desse tratamento.
f) Alguns prisioneiros indígenas não fugiam mesmo tendo a oportunidade porque não consideravam a morte como um evento trágico ou doloroso. Preferiam morrer dignamente e serem mortos por seus captores, demonstrando coragem e valentia diante da morte.
g) A única "boa atitude" que esses índios possuíam em seus corações era a hospitalidade alimentar, ou seja, o costume de compartilhar a comida com todos os presentes, independentemente da quantidade disponível.
h) Ao olhar de hoje, podemos dizer que as atitudes dos índios daquela época eram consideradas cruéis, desumanas e monstruosas, pois envolviam práticas como canibalismo e assassinato ritualizado. No entanto, é importante lembrar que o contexto histórico e cultural da época era diferente do nosso, e os padrões morais e éticos eram moldados por crenças e tradições próprias daquelas sociedades. Julgar as ações do passado a partir de nossa perspectiva contemporânea pode não levar em conta essas diferenças culturais e pode não ser totalmente justo em relação à compreensão das motivações e crenças dos povos indígenas da época.
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