RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE ESTÁGIO EM PSICOLOGIA ESCOLAR E DA EDUCAÇÃO

RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE ESTÁGIO EM PSICOLOGIA ESCOLAR E DA EDUCAÇÃO

Graciele Nunes Machado1 Tábata Silva Pameggiani2 Cíntia de Sousa Carvalho3 RE

Author Maria do Carmo Bentes Olivares

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RELATO DE EXPERIÊNCIA SOBRE ESTÁGIO EM PSICOLOGIA ESCOLAR E DA EDUCAÇÃO

Graciele Nunes Machado1 Tábata Silva Pameggiani2 Cíntia de Sousa Carvalho3 RESUMO: Este trabalho trata-se de um relato de experiência sobre um conjunto de atividades desenvolvidas com um grupo de crianças de uma Escola Pública Municipal, que participaram diariamente de um projeto de contra-turno na mesma escola em que cursam suas respectivas salas de ensino regular. O objetivo do trabalho foi observar e experienciar algumas estratégias de atuação de um psicólogo escolar. Foram observadas as principais demandas das crianças relacionadas às dificuldades de aprendizagem, questões socioeconômicas e arranjos familiares, realizando semanalmente algumas atividades com a finalidade de buscar refletir acerca destes pontos, deixando com que as crianças pudessem usufruir de um espaço de troca de ideias e escuta coletiva. Tal experiência permitiu que conhecêssemos a realidade escolar e seu contexto cotidiano, bem como todos os atravessamentos que ocorrem no processo ensino-aprendizagem.

Palavras-Chave: Educação. Psicologia. Crianças.

Introdução O ambiente escolar atual mais do que nunca se torna o cenário para o desenvolvimento dos indivíduos e é neste mesmo contexto que as dificuldades individuais de cada aluno surgem. É, portanto, neste ambiente subjetivo e dinâmico que o profissional de psicologia pode auxiliar através de intervenções interdisciplinares

entre

equipe

pedagógica,

alunos,

família

e

demais

funcionários da instituição, promovendo assim ações que objetivem melhorar

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as condições de aprendizagem e socialização entre os alunos.

Acadêmica de Psicologia – UIFIMES. E-mail: [email protected] Acadêmica de Psicologia – UNIFIMES. E-mail: [email protected] 3 Doutora em Psicologia – PUC – Rio. Docente Efetiva do Centro Universitário de Mineiros. UNIFIMES. E-mail: [email protected] 1 2

Revista Interação Interdisciplinar v. 01, nº. 02, p. 228-235, Ago - Dez., 2017 UNIFIMES – Centro Universitário de Mineiros

Sendo assim, este relato se dá através das observações realizadas durante o estágio em Psicologia Escolar e da Educação, na qual foram observadas as atividades executadas pelo programa de contra turno de uma escola Municipal da Cidade de Mineiros/GO, que conta com tal programa que oportuniza aos alunos com necessidades específicas de dificuldade de aprendizagem, abandono afetivo e questões socioeconômicas, serem acolhidos diariamente

com

atividades

programadas

para

auxiliá-los

em

seus

desenvolvimentos. A escolha por esta área de atuação se deu pelo reconhecimento da importância de se ter psicólogo escolar inserido nestas instituições de ensino, com a finalidade de levantar demandas não somente voltadas ao âmbito educacional, mas também questões sociais, subjetivas e culturais, que acabam por interferir no desenvolvimento e na aprendizagem dos alunos. Desse modo, o objetivo deste trabalho é relatar a experiência no desenvolvimento de atitudes e habilidades básicas necessárias ao desempenho do psicólogo escolar, favorecendo o estudo teórico sobre a psicologia escolar e da educação, proporcionando assim uma experiência de observação da atuação interdisciplinar que o profissional de psicologia escolar deve exercer neste ambiente. Marco teórico “A escola constitui-se espaço amplo de socialização que busca favorecer experiências e a produção de conhecimento para a vida, integrando crianças e jovens às principais redes sociais importantes para sua formação”. (Conselho Federal de Psicologia)

Sendo a escola um espaço dinâmico e complexo aonde as interações sociais vão se estabelecendo de forma mais diversificada e a aprendizagem deve ocorrer de forma gradual e eficiente, cabe, portanto, aos profissionais da psicologia analisarem de forma peculiar tal ambiente, para que assim possam

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exercer suas funções de modo mais ajustado às necessidades de cada instituição. Este profissional, então, deve analisar o meio social em que a escola está inserida, o público que esta atende, a comunidade escolar e social que a estrutura, as formas de gestão e até a política educacional colocada em pratica diariamente (ANDAlÓ, 1984).

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Sobre tais aspectos, o Conselho Federal de Psicologia vem ainda ressaltar que: Compreender e atuar na complexidade do cotidiano escolar não tem sido tarefa fácil se a criança e o jovem são vistos isoladamente, considerados na qualidade de portadores de diferentes carências e patologias, o que se acentua, nos casos das classes populares, com as questões sobre violência e riscos (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2013, p.46).

Cabe a este profissional analisar e avaliar as instituições de forma específica, bem como cada profissional e aluno, o que exige habilidades, capacidades, sensibilidade e criatividade, para poder de fato estruturar intervenções eficientes à problemática demandada pelos indivíduos inseridos nestas instituições. De acordo com Facci (1998): Esta compreensão também demanda muito esforço, muito aprofundamento teórico e muita sensibilidade, assim como solidariedade para se colocar no lugar do outro, e contribuir para que ele consiga enxergar outras facetas da sua vida, de forma que possa tomar consciência do seu lugar, nesta sociedade dividida em classes, e possa ter o desejo e condições de transformar essa sociedade. (p. 235).

Sendo assim, Reger (1997), descreve como deve ser a atuação deste profissional voltado à psicologia escolar, destacando que este não somente exercerá suas funções utilizando-se de testes ou psicoterapia, tendo em vista o grande número de alunos que necessitam de tais intervenções, portanto deve buscar difundir ideias a toda comunidade escolar, alcançando assim o maior número de pessoas e as informando acerca do quanto a saúde mental é relevante para a aprendizagem das crianças (REGER, 1997).

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Assim, Andaló (1984) afirma que: Em nosso trabalho como psicólogos escolares, nessa perspectiva de agente de mudanças, temo-nos voltado basicamente para a constituição de grupos operativos com alunos, professores e equipe técnica, no sentido de encaminhar uma reflexão crítica sobre a instituição, incluindo o processo de ensinoaprendizagem, a relação professor-aluno, as mudanças sociais que estão ocorrendo, evidenciando com isso, a defasagem cada vez maior que se estabelece entre a escola e a vida. Dessa maneira, procuramos desfocar a atenção sobre o aluno como única fonte de dificuldades, como o único responsável e culpado pela crise geral pela qual a escola passa, propiciando uma visão

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mais global e mais compreensiva desta crise, procurando considerar todos os seus aspectos e, conjuntamente, encontrar formas alternativas de enfrentá-la (p.04).

Vale esclarecer que as atribuições do psicólogo educacional podem ser as abaixo listadas, de acordo com o Conselho Federal de Psicologia (1992, p.6): Diagnosticar as dificuldades dos alunos dentro do sistema educacional e encaminhar aos serviços de atendimento da comunidade, aqueles que requeiram diagnostico e tratamento de problemas psicológicos específicos, cuja natureza transceda a possibilidade de solução na escola, buscando sempre a atuação integrada entre escola e comunidade (p. 6). Elaborar e executar procedimentos destinados ao conhecimento da relação professor-aluno, em situações escolares especificas, visando, através de uma ação coletiva e interdisciplinar a implementação de uma metodologia de ensino que favoreça a aprendizagem e o desenvolvimento (p. 6)

Portanto, a finalidade do psicólogo na Educação deve se voltar ao compromisso em auxiliar a estruturação de uma escola democrática, de qualidade, que visa garantir o direito dos alunos e professores. A escola deve ser, portanto, colaborativa, onde todos os indivíduos se apropriem de seus conflitos e os resolvam de foram integrada, valorizando este espaço de construção do saber e de valores sociais tão importantes para o desenvolvimento de cidadãos que darão continuidade aos processos políticos e sociais. (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2013). Procedimentos e resultados A respeito da experiência vivida neste estágio relatada neste trabalho, se deu através da observação das atividades do projeto, bem como da interação entre as crianças, coordenadora e monitoras. A escuta das crianças e dos funcionários do projeto, a realização de dinâmicas e rodas de conversa, pesquisas bibliográficas voltadas à Psicologia Escolar e da Educação, e leitura

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do documento orientador do projeto Novo Mais Educação foram realizadas com a finalidade de melhor compreender todos os processos ocorridos, bem como a finalidade

do

programa

em

que

estávamos

atuando.

Sendo

assim,

descreveremos brevemente questões a respeito desta instituição educacional e as atividades realizadas e observadas durante o estágio.

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Na escola, o projeto Novo Mais Educação conta com um espaço separado das salas de aula regulares. O projeto é uma estratégia do Ministério da Educação que tem como objetivo melhorar a aprendizagem em língua portuguesa e matemática no ensino fundamental, por meio da ampliação da jornada escolar de crianças e adolescentes, em complementação da carga horária no turno e contra-turno escolar. O programa tem por finalidade contribuir para: Alfabetização, ampliação do letramento e melhoria do desempenho em língua portuguesa e matemática das crianças e dos adolescentes, por meio de acompanhamento pedagógico específico; Redução do abandono, da reprovação, da distorção idade/ano, mediante a implementação de ações pedagógicas para melhoria do rendimento e desempenho escolar; Melhoria dos resultados de aprendizagem do ensino fundamental, nos anos iniciais e finais; Ampliação do período de permanência dos alunos na escola. Ao iniciar a experiência do estágio, inicialmente foi observada toda a rotina das

crianças durante

compreendermos

melhor

a

o

período de

dinâmica

do

aula no

projeto

e

programa, para

conhecê-las

mais,

posteriormente organizamos através dos dados observados temas que, a princípio, acreditávamos que seria interessante trabalhar, como o aspecto familiar. Assim, no segundo momento, foi apresentado um vídeo simples e sucinto com o nome de “ Guido descobre o que é família”, voltado ao público infantil, que retratava os diversos tipos de família, com o propósito de mostrar a eles que não existe só um tipo de família. Após o filme, pedimos para que as crianças retratassem suas respectivas famílias, desenhando no papel.

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Segundo Sio: O desenho como possibilidade de brincar, de falar, de registrar, marca o desenvolvimento da infância, porém, em cada estágio, o desenho assume um caráter próprio. Estes estágios definem maneiras de desenhar que são bastante similares em todas as crianças, apesar das diferenças individuais de temperamento e sensibilidade. (2004, p. 07).

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Sendo a criança um ser global, na qual se expressa em diversas manifestações, como falar, cantar e desenhar, utilizamos destas manifestações ao longo do estágio para interagirmos com elas. Assim, no encontro seguinte foi realizada uma roda de conversa com os alunos para mostrar todos os desenhos dos colegas, com o intuito de conhecer a família do outro e falar sobre o assunto apresentado no vídeo anterior. As crianças foram bastante colaborativas, se expressaram, falaram e algumas se emocionaram ao falar de suas famílias. Foi deixado claro para eles que, se sentissem a necessidade de falarem algo que não gostariam de falar na frente das outras crianças, que poderiam estar conversando com nós (estagiários) individualmente, que não veio a ocorrer. Em outro momento, aplicamos a “Dinâmica do balão”, que tinha como objetivo mostrar a eles o quanto é importante cuidarmos dos nossos próprios corpos ou objetos, ressaltando que não se pode pegar, estragar ou mexer nos pertences dos outros, mas sim cuidar como se fossem deles. Tendo em vista o descomprometimento relacionado aos cuidados pessoais, bem como com seus objetos, assim observado durante os encontros anteriores. A dinâmica ocorreu da seguinte forma: cada criança ganhou um balão cheio amarrado num barbante para que eles pudessem amarrar no pé, demos a instrução para que eles imaginassem que era um presente muito importante e que cada um cuidasse do seu, e assim ficamos em silêncio para ver o que ocorreria. Após um tempo percebemos que eles não iriam fazer nada, um de nós (estagiários) estouramos o balão do outro para ver qual seria a reação dos mesmos, como se esperava todos começaram a correr e estourar o balão um do outro. Após a dinâmica, foi realizada uma roda de conversa para que pudéssemos falar sobre a dinâmica e o que aconteceu, além de sabermos como se sentiram. Explicamos que a orientação que era apenas para proteger seu balão (seu presente) e não foi dito para estourar o balão (o presente) dos outros. Algumas crianças perguntaram o porquê nós (estagiários) estouramos o do outro, a partir da pergunta explicamos para eles a importância de não copiar os maus atos e comportamentos do outro, trabalhando também a inveja e o cuidado.

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No último encontro, para finalizar nossa experiência, levamos o filme “Divertidamente” para as crianças assistirem. O filme tem como tema central as emoções, assim realizamos uma sessão de cinema, com pipoca e suco, mas com o propósito de que eles entendessem a mensagem central do filme: como lidar com a tristeza em seu cotidiano, ao invés de afugentá-la a qualquer custo, como

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expressar a raiva, alegria, nojo e medo. No final do filme uma das crianças chorou e as outras foram consolá-la. A mesma parecia estar vivenciando naquele momento a separação de seus pais. Assim, terminamos falando sobre o filme e o que eles tinham entendido através de um diálogo coletivo. Na última semana do estágio, confeccionamos uma “caixa do segredo”, com o objetivo de deixar algo nosso com eles, orientamos que a caixa era um objeto onde pudessem escrever algum segredo importante ou relatar o que quisessem que soubéssemos e que em alguns meses voltaríamos para buscá-la. Falamos para eles o quanto gostamos de estar com eles e o quanto foi importante para nós, tanto no âmbito pessoal, quanto no profissional. Essa estratégia foi realizada no sentido de criarmos uma forma de não rompermos abruptamente o vínculo com as crianças, criando uma situação que fosse vivenciada como abandono. Não houve dificuldades para a experiência deste estágio junto à instituição, estavam sempre dispostos em ajudar a executar nossas ideias de intervenções. As queixas encontradas durante tal experiência junto à instituição-escola são voltadas aos alunos, tais como a dispersividade e desatenção, desinteresse, agitação, baixo rendimento e fraco nível de aprendizagem, rebeldia e agressividade, bem como dificuldades na relação professor-aluno e entre os próprios educandos e relação aluno e família. Relatar os momentos vividos nos parece um tanto quanto difícil, pois no papel não cabe os pequenos gestos, os desafios, as novas relações de confiança, de ética e de amizade que ali surgiram. A escola nos abraçou em seu meio e essa experiência é algo muito além do que um simples aprendizado teórico. Foi uma troca vivencial, em que relações foram construídas e vínculos foram feitos. Finalmente, podemos dizer que a escola é um ambiente de desafios, de criação, não apenas do conhecimento, mas de uma realidade que oferece novas possibilidades a todos; onde cabe à Psicologia se inserir cada vez mais, buscando o seu espaço de valor e de direito; mostrando o quanto pode contribuir, permitindo trocas, criando novas oportunidades, valorizando as

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pessoas verdadeiramente responsáveis pela educação. Durante a realização deste estágio e observação, as experiências vividas foram

muito

valiosas

à

construção

da

experiência

acadêmica

e

do

desenvolvimento como futuro profissional. O convívio com as crianças e o diálogo com estas, demonstrou um grande número de crianças com problemas

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familiares, como violência, carência afetiva, carência econômica, base familiar frágil, fazendo com que estas expressem através de seu comportamento e verbalizações o que estão vivenciando. REFERÊNCIAS ANDALÓ, Carmem Silvia de Arruda. O papel do psicólogo escolar. Psicol. cienc. prof.,

Brasília ,

v. 4, n. 1, p. 43-46,

1984 .

Disponível em:

. Acessos em 19 jun. 2017. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Atribuições Profissionais do Psicólogo no Brasil. CFP. 1992. CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para Atuação de Psicólogas (os) na Educação Básica / Conselho Federal de Psicologia. Brasília: CFP, 2013. FACCI, M. G. D.; O psicólogo nas escolas municipais de Maringá: a história de um trabalho e a análise de seus fundamentos teóricos. 1998. 252 f. Dissertação (Mestrado em Educação)– Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista (UNESP), Marília. REGER, Roger. Introdução á Psicologia Escolar: Psicólogo Escolar: educador ou clínico?. 3º Ed. Casa do Psicólogo. 1997 SIO. Rosa Terezinha Gomes de. portância do desenho no desenvolvimento infantil crianças de 02 a 07 anos, 2004, pg.15. Disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2004/anaisEvento/Docu

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mentos/CI/TC-CI0086.pdf.Acessado em: 19 de jun. 2017.

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