Gramática
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde.
Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco [...], num
suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho,
exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o
fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos
pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse
podia parar e enxugar a testa, [...]. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas
essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a
água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando
com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo,
tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida. [...]

(Clarice Lispector, “Amor” in Laços de Família)

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