FARDA, SAIAS E BATINA:

MARIA

ADENIR

PERARO

FARDA, SAIAS E BATINA: Ä ILEGITIMIDADE

NA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S CUIABÁ,

1853-90

CURITIBA 1997

DE

TE

Author Ester Regueira Ramalho

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MARIA

ADENIR

PERARO

FARDA, SAIAS E BATINA: Ä ILEGITIMIDADE

NA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S CUIABÁ,

1853-90

CURITIBA 1997

DE

TERMO DE APROVAÇÃO

FARDA, SAIAS E BATINA: A I L E G I T I M I D A D E NA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE CUIABÁ, 1853-90

Tese aprovada como requisito parcial Doutor,

nos

cursos

de

Pós-Graduação

em

p a r a o b t e n ç ã o do grau

História,

Setor

de

Ciências

H u m a n a s , L e t r a s e A r t e s , U n i v e r s i d a d e F e d e r a l do P a r a n á , p e l a B a n c a Exame formada pelos professores:

Orientador:

Professor Doutor Sérgio Odilon Nadalin D e p a r t a m e n t o de H i s t ó r i a , UFPR

Professor Doutor Renato Pinto Venâncio P r o f e s s o r a D o u t o r a L u i z a R. R i c c i V o l p a t o Professora Doutora Hilda Pívaro Stadniky Professor Doutor Euclides Marchi

C u r i t i b a , 09 de j a n e i r o de 1998.

ii

de

de

T E R M O DE A P R O V A Ç Ã O

FARDA, SAIAS E BATINA: A I L E G I T I M I D A D E NA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE CUIABÁ, 1853-90

Tese aprovada como Doutor,

nos

cursos

de

requisito

Pós-Graduação

Humanas, Letras e Artes, Universidade

parcial em

p a r a o b t e n ç ã o do g r a u

História,

Setor

de

Ciências

F e d e r a l do P a r a n á , pela B a n c a

Exame formada pelos professores:

Orientador:

Pre De

S.'"l .{ y / «

Curitiba,

ii

de

de

Tive um chão (mas já faz todo feito de certezas tão duras como lajeados.

tempo)

Agora (o tempo é que o fez) tenho um caminho de barro umedecido de dúvidas. T h i a g o de Mello

Mamãe,

por

que

em

um país

vive

tanta

gente? Ao Lucas, autor desta indagação, aos 6 anos, à q u e m possa este estudo servir de estímulo ao c o n h e c i m e n t o do u n i v e r s o em que v i v e r a m seus antepassados cuiabanos, esta tese é dedicada.

Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual. O de que um tira o prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o porquê é que é. Guimarães

Rosa

C o m as a m i z a d e s que nasceram e as que se fortaleceram entre Cuiabá, Curitiba e Maringá, ao l o n g o d o s a n o s do t r a b a l h o de p e s q u i s a e escrita, divido a dedicatória.

IV

Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Guimarães

Rosa

Ao Professor Doutor Sérgio Odilon pela paciência na orientação desta

c o m p r e e n s ã o d e q u e o rio não quer parte, ele quer é chegar a ser mais fundo,

meu agradecimento

V

Nadalin, tese e

ir a nenhuma grosso, mais

primeiro.

A gente principia

as coisas,

que, e desde aí perde porque

o poder

a vida é mutirão remexida

e

no não saber

por

de continuação

de todos, por

-

todos

temperada.

Guimarães Rosa

A Ana Rosa, Luiza, Neuza e Mário Sérgio, dedicados na digitação e na p r o g r a m a ç ã o estatística; A Bethânia, pela c o l a b o r a ç ã o na c o l e t a d o s d a d o s ; A D. B o n i f á c i o P i c h i n i n i pelo espaço de pesquisa no arquivo da Cúria M e t r o p o l i t a n a ; A o s c o l e g a s do D e p a r t a m e n t o de H i s t ó r i a da U F M T que viabilizaram meu afastamento para a pósg r a d u a ç ã o e p a c i e n t e m e n t e a g u a r d a r a m o r e t o r n o de mais um doutor; Aos professores doutores Renato Pinto Venâncio e Maria Luiza Andreaza, por me fazerem p e r c e b e r , n o e x a m e d e q u a l i f i c a ç ã o , q u e eu estava indo a meu esmo; A C A P E S , p o r p r o p i c i a r o s u p o r t e n e c e s s á r i o à minha qualificação profissional; A Hilda, interlocutora

costumeira, a indicar-me que só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte; Aos amigos de Curso de P ó s - g r a d u a ç ã o , em particular à Judite, C h r i s t i a n e e N e l s o n , p e l o p r a z e r da d e s c o n t r a ç ã o e da discussão; A Cleuza, Maria Benício, Eunice, Iolanda A n g e l a e, e m e s p e c i a l à R u t h , p e l o s e s t í m u l o s a s s í d u o s ; A o D a n t e (in memorian), Edu, Eva, Daniel, Rogéria, Rafael e Betinho, pela f e l i c i d a d e do reencontro e pelo sabor de novas a m i z a d e s em Curitiba; Aos afetuosos Luiz, Jair, V a l d i r e C l á u d i o , i r m ã o s n o s m o m e n t o s de alegrias e de t r i s t e z a s p r o f u n d a s ; A m e u s p a i s , S a n t o (in memorian) e Roza, paulistas d e s b r a v a d o r e s de Maringá, constantes na guarda de L u c a s ao l o n g o desta minha jornada, quero

agora agradecer, pois só estava era entretida lugares de saída e de chegada.

vii

na idéia

dos

SUMÁRIO

LISTA

DE QUADROS

LISTA DE TABELAS LISTA

vi/i. E GRÁFICOS

xi

DE ANEXOS

xii.

INTRODUÇÃO

1

PARTE I - A P R O V Í N C I A DE M A T O G R O S S O : AS V É R T E B R A S DA S O C I E D A D E CIVIL

22

1.1 OS MOURÕES DA FRONTEIRA OESTE E O SENTIDO DA ITINERÂNCIA

23

1.2 OS H O M E N S DO REI

51

1.3 SOB O E S T I G M A DA D E F E S A DAS F R O N T E I R A S : DA C A S E R N A AOS CAMPOS DE BATALHA

70

1.4 DE VOLTA AO COMEÇO

80

PARTE II - P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á : A C I R C U N S C R I Ç Ã O DO OBJETO

92

II. 1 O TEMA DA I L E G I T I M I D A D E E OS R E G I S T R O S P A R O Q U I A I S

93

II.2 O C O M P O N E N T E D E M O G R Á F I C O

120

PARTE III - A R E M I S S Ã O DO P E C A D O

162

III 1 O P R I N C Í P I O DA F R O N T E I R A E A F R O N T E I R A DE P R I N C Í P I O S

163

III.2 E R R A N T E S E A V E N T U R E I R O S : O S E N T I D O DO M A T R I M Ô N I O E OS ILÍCITOS

195

III.3 M U L H E R E S DE JESUS CONSIDERAÇÕES

NO U N I V E R S O DOS I L E G Í T I M O S

FINAIS

233 266

ANEXOS FONTES

TRATOS

271 E REFERÊNCIAS

BIBLIOGRÁFICAS

vii

305

LISTA D E Q U A D R O S

1. M a p a p o p u l a c i o n a l de M a t o G r o s s o - 1771

30

2. P o p u l a ç ã o de M a t o G r o s s o : 1 7 7 1 - 1 8 1 9

37

3. P o p u l a ç ã o

de

Cuiabá

e da

província

de

Mato

Grosso

nos

anos

que

a n t e c e d e r a m a G u e r r a do P a r a g u a i : 1849, 1855, 1862

43

4. P o p u l a ç ã o de C u i a b á e p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o : 1869 a 1890 5. P o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de

Cuiabá,

segundo

88 a raça -

1872 6. P o p u l a ç ã o

133 da p a r ó q u i a de

São

Gonçalo

de P e d r o

II, s e g u n d o

a raça

1872 7. P o p u l a ç ã o

-

134 da p a r ó q u i a

Senhor Bom Jesus

de C u i a b á ,

segundo

e r a ç a - 1890

o

sexo 135

8. P a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . P o p u l a ç ã o c o n s i d e r a d a em r e l a ç ã o à n a c i o n a l i d a d e e s t r a n g e i r a e e s t a d o c i v i l - 1872

137

9. R e p a r t i ç ã o da p o p u l a ç ã o l i v r e e e s c r a v a da p a r ó q u i a S e n h o r B o m Jesus de C u i a b á , por a t i v i d a d e s p r o d u t i v a s - 1872

141

10. R e p a r t i ç ã o da p o p u l a ç ã o a t i v a ( l i v r e e e s c r a v a ) por s e t o r e s de p r o d u ç ã o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á - 1872 11. P o p u l a ç ã o

branca

da

paróquia

1872

Senhor

Bom

148 Jesus

de

Cuiabá 149

12. P o p u l a ç ã o e s c r a v a ( m e s t i ç a e n e g r a ) da p a r ó q u i a S e n h o r B o m Jesus de C u i a b á - 1872

150 Vlll

13. P o p u l a ç ã o n e g r a (livre e e s c r a v a ) da p a r ó q u i a do S e n h o r Bom J e s u s de C u i a b á - 1872 14. P o p u l a ç ã o

150

c a b o c l a l i v r e da p a r ó q u i a

Senhor Bom

J e s u s de C u i a b á

1872

-

151

15. P o p u l a ç ã o m e s t i ç a ( l i v r e e e s c r a v a ) da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á - 1872 16. P o p u l a ç ã o

151

branca

da

paróquia

Senhor

Bom

Jesus

de

Cuiabá

1890

-

152

17. P o p u l a ç ã o

mestiça

da

paróquia

Senhor

Bom

Jesus

C u i a b á - 1890 18. P o p u l a ç ã o

de 152

negra

da

paróquia

Senhor

Bom

Jesus

de C u i a b á -

1890

153

19. P o p u l a ç ã o

cabocla

da

paróquia

Senhor

Bom

Jesus

de C u i a b á

1890

-

153

20. P o p u l a ç ã o

recenseada

do

município

de

Cuiabá;

por

paróquias

1890

-

155

21. P o p u l a ç ã o r e c e n s e a d a q u a n t o à f i l i a ç ã o . P a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á - 1890 22. A e

ilegitimidade

160 em

diversas

paróquias

brasileiras

-

séc.

XIX

23. I d e n t i d a d e

XVIII 170

dos

batizandos

da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á .

(1853-1890)

179

24. F r e q ü ê n c i a de b a t i s m o s de c r i a n ç a s n a t u r a i s da p a r ó q u i a S e n h o r J e s u s de C u i a b á : 1 8 5 3 - 1 8 9 0

Bom 183

IX

25. F r e q ü ê n c i a de b a t i s m o s de c r i a n ç a s e x p o s t a s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á : 1 8 5 3 - 1 8 9 0

188

26. F r e q ü ê n c i a de b a t i s m o s de c r i a n ç a s l e g i t i m a d a s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á : 1 8 5 3 - 1 8 9 0 27. T a b e l a

provisória

de

193 emolumentos

parochiaes

do

Bispado

C u y a b á : 1882 28. M u l h e r e s

219

de

Jesus

e

reincidentes

de

filhos

ilegítimos:

1853 - 1870 29. M u l h e r e s

241 de

Jesus

e

reincidentes

de

filhos

i l e g í t i m o s : 1871 -

1890

244

30. M u l h e r e s vez:

de

reincidentes

de

filhos

ilegítimos

por

mais

de

1853 - 1870

249

31. M u l h e r e s r e i n c i d e n t e s de f i l h o s i l e g í t i m o s por m a i s de uma vez: 1890

1871250

32. B a t i z a d o s

e

compadrio

na

paróquia

senhor

Bom

Jesus

C u i a b á : 1853 - 1890 33. I l e g i t i m i d a d e Cuiabá:

uma

e

compadrio

de 257

na

paróquia

1853 - 1890

Senhor

Bom

Jesus

de 259

X

LISTA D E T A B E L A S E G R Á F I C O S

1. Batizados de legítimos e ilegítimos. Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá: 18531890

181

Figura 1 - Batizados de legítimos e ilegítimos da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá: 1853-1890

183

2. Mulheres reincidentes de filhos ilegítimos: 1853-1890

252

Figura 2 - Mulheres com filho ilegítimo e reincidentes: 1853-1890

253

XI

LISTA DE A N E X O S

I - Ficha de Batismo 2-Batizados

por

272 ano

1853

-

1890.

Paróquia

Senhor

Cuiabá

Bom

Jesus

de 273

3 - Profissão dos padrinhos: 1853 a 1870

274

4 - Profissão dos pais: 1853-1870

275

5 - Profissão dos padrinhos: 1853-1890

275

6 - Profissão dos padrinhos

276

7 - Profissão dos pais

277

8 - Clérigos padrinhos de crianças naturais (ilegítimas). Paróquia Senhor B o m Jesus de Cuiabá. 1853-1870

278

9 - Clérigos padrinhos de crianças naturais. 1871-1890 10 - Localidades

279

das origens e residências dos cônjuges da paróquia Senhor Bom

Jesus de Cuiabá, Mato Grosso, no período de 1871-1890. População livre e escrava

280

I I - Origem dos cônjuges - população livre e escrava: paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá: 1871-1890

281

12 - Freqüência de casamento por idade

282

13 - Origem dos justificantes solteiros - população masculina

283

xii

14 - Origem dos justificantes viúvos 15 - Processos

de

justificação

284 de

estado

de

solteiro.

Década

1850 16 - Processos

285 de

justificação

de

estado

de

solteiro. Década

1860 17 - Processos

de

justificação

de

estado

de

solteiro. Década

de

justificação de

estado

de

solteiro. Década

de

justificação de

estado

de

viuvez.

Década

de

justificação de

estado

de

viuvez.

Década

de 298

de

justificação de

estado

de

viuvez.

Década

1870 22 - Processos

de 297

1860 21 - Processos

de 293

1850 20 - Processos

de 290

1880 19 - Processos

de 287

1870 18 - Processos

de

de 299

de

justificação de

1880

estado

de

viuvez.

Década

de 301

xiii

INTRODUÇÃO

O privado precisa deixar de uma zona maldita, proibida obscura. Michelle Perrot

ser e

A e l a b o r a ç ã o d e s t a t e s e é m a r c a d a por e m b a t e s , divergências,

em

particular

c o n s t r u ç õ e s vida privada ARIES

acerca

e vida

do

cotidiana,

enfoque

da

contestações

vida

privada.

e As

c o n c e b i d a s de f o r m a d i s t i n t a por

e D U B Y , por si só, t ê m c o n t r i b u í d o p a r a i n f l a m a r as d i s c u s s õ e s e

provocar

controvérsias. A q u e s t ã o p r i m e i r a r e s i d e na d i f i c u l d a d e de e s t a b e l e c e r f r o n t e i r a s e

e s p a ç o s para o p r i v a d o . Se, p a r a a E u r o p a , o s é c u l o X I X e s b o ç a r i a a i d a d e de ouro do p r i v a d o , no c a s o b r a s i l e i r o n e m s e m p r e as p a l a v r a s e os f a t o s são precisos.

Na r e a l i d a d e , p a r a o s é c u l o X I X b r a s i l e i r o , p a i r a no ar o d e s a f i o do

d e l i n e a m e n t o dos círculos sociedade

civil,

concéntricos

o privado,

o íntimo

e

entrecruzados,

e o individual,

desenhados

entre

a

s e g u n d o p r o p o s i ç ã o de

PERROT.1 Tal

reconhecimento

implica

admitir

um

recorte

variável

da

a t i v i d a d e h u m a n a e n t r e a e s f e r a p r i v a d a e a e s f e r a p ú b l i c a , c o m o que a c o n s t i t u i r u m a z o n a de a t r a ç ã o de c o i s a s o p o s t a s . N e s s e s e n t i d o , é o p o r t u n a a a f i r m a ç ã o de A L E N C A S T R O de que no decorrer política

e jurídica

ordem privada

prenhe

nacional,

a vida

de contradições

privada

do processo escravista

com a ordem

de

organização

desdobra-se

numa

pública.2

E s s e p r o c e d i m e n t o , por sua v e z , r e m e t e - n o s a e s p a ç o s de m a r c a s indeléveis

o n d e se c o n t r a p õ e m o c o l e t i v o e o i n d i v i d u a l , o m a s c u l i n o e o

1

PERROT, Michelle. Introdução. In: PERROT, Michelle, (org.) História da vida privada. Da Revolução Francesa à Primeira Guerra, v. 4. Tradução Denise Bottmann e Bernardo Joffily. São Paulo : Companhia das Letras, 1991. p. 10. 2 ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Vida privada e ordem privada no império. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de. (org:) História da vida privada no Brasil. Império: a corte e a modernidade nacional, v. 2. São Paulo : Companhia das Letras, 1997. p. 16.

2

f e m i n i n o . R e m e t e - n o s à b u s c a dos s i n a i s de i n t e r v e n ç ã o e de c o n t r o l e , à apreensão

sintomática

de c o n f l i t o s , t e n s õ e s

segundo lugar, o pressuposto realidade

histórica,

e resistências.

incontestável

edificada

de

Implica,

em

de que a vida p r i v a d a é u m a

maneiras

diversas

por

sociedades

d e t e r m i n a d a s , e s p a ç o de e s p e c i f i c i d a d e s e de d i f e r e n ç a s . A i n f e r e n c i a n a t u r a l , é, p o i s , b u s c a r o s e n t i d o da vida p r i v a d a em oposição

à vida

pública,

no

significado

concebido

por

PROST.3

Nessa

a c e p ç ã o , o p ú b l i c o é o E s t a d o , e t u d o o q u e e s c a p a ao seu p o d e r r e f e r e - s e ao p r i v a d o . D i f e r e n t e , p o r t a n t o , d a q u e l a o r i g i n a r i a m e n t e p e n s a d a por que reduz t o d a a h i s t ó r i a da v i d a p r i v a d a

a u m a m u d a n ç a na s o c i a b i l i d a d e . A

p r o p o s i ç ã o de A R I E S c o n s i s t e em s a b e r como em que o privado privado

e o público

é separado

do público,

se confundem

ARIES,

se passa

para

de uma

sociabilidade

uma sociabilidade

na qual o

c h e g a n d o m e s m o a a b s o r v ê - l o ou a r e d u z i r sua

e x t e n s ã o . E m o u t r a s p a l a v r a s , o f o c o da q u e s t ã o é a passagem de uma sociabilidade anônima de grupos em que as pessoas podiam se reconhecer para uma sociedade anônima sem sociabilidade pública, em que dominavam ou um espaço profissional, ou um espaço privado, o privado preponderando nas sociedades anônimas nas quais a sociabilidade pública praticamente desaparecera.4 D a s d i f e r e n ç a s e n t r e as c o n c e p ç õ e s de v i d a p ú b l i c a e vida p r i v a d a vai r e s u l t a r u m a s i g n i f i c a ç ã o m e n o s m o n o l í t i c a a c e r c a de tais e s f e r a s . A p e r t i n ê n c i a de t a i s f o c o s d i f e r e n c i a d o s se i n s t a l a no paralelismo problemática

do Estado

e a da sociabilidade,

entre

a

p a r a s e r m o s f i é i s às p a l a v r a s do

próprio ARIÈS. Se, de um lado, o e s p a ç o da v i d a p r i v a d a é o da c o n s t r u ç ã o , dinâmica

é

a

da

oposição

à vida

pública,

é preciso

ter

em

conta

cuja as

3

PROST, Antoine. Fronteiras e espaços do privado. In: PROST, Antoine e VTNCENT, Gérard, (org.) História da vida privada. Da Primeira Guerra a nossos dias. v. 5. Tradução Denise Bottmann. São Paulo : Companhia das Letras, 1992. p. 15. 4

ARIES, Philippe. Por uma história da vida privada. In: ARIES, Philippe e CHARTEER, Roger, (org.) História da vida privada. Da Renascença ao Século das Luzes. Tradução Hildegard Feist, v. 3. São Paulo : Companhia das Letras, 1991. p. 16.

J

d i f i c u l d a d e s na p e r c e p ç ã o de t a i s d e l i m i t a ç õ e s , pois as d i s t i n ç õ e s entre tais e s f e r a s nem s e m p r e têm o m e s m o s e n t i d o em t o d o s os m e i o s sociais. N e m s e m p r e o m u r o d i v i s o r se o b j e t i v a e n t r e o p ú b l i c o e o p r i v a d o . N e m s e m p r e a vida p r i v a d a

e a f a m í l i a são e l e m e n t o s

coincidentes,

c o n f u n d i r . Há q u e se b u s c a r c o m p l e x i d a d e s

embora

possam

se

e e s p e c i f i c i d a d e s , de m o d o a

a p r e e n d e r não só a c o n s t i t u i ç ã o da v i d a p r i v a d a a p a r t i r dos e m b a t e s com os i n t e r e s s e s a m p l i a d o s ao n í v e l do c o l e t i v o , m a s , s o b r e t u d o , a o r g a n i z a ç ã o no i n t e r i o r de suas f r o n t e i r a s . Resta, contudo, a dificuldade de conhecer algo além da face externa e pública da vida privada; a impossibilidade de chegar ao outro lado do espelho. Nesse âmbito, o dizível fabrica o indizível, a luz cria a sombra. O não-dito, o desconhecido, o incognoscível - e a consciência trágica que temos disso avançam no ritmo do saber que cava sob nossos pés mistérios insondáveis.D Estar igualmente

comodamente

à

soleira

do

privado

significa

acomodar

as h e s i t a ç õ e s na i n v e r s ã o da o r d e m das c o i s a s e i m p e d i r que tal

e s p a ç o seja c o n h e c i d o , v i s i t a d o e l e g i t i m a d o .

É essa p o s t u r a que nos p r o v o c a

e nos i n s t i g a d i a n t e de um o b j e t o c i r c u n s c r i t o na h i s t ó r i a s o c i a l do p r i v a d o : a i l e g i t i m i d a d e na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á - 1853/90. N ã o p r e t e n d e m o s e x t r a p o l a r as d e l i m i t a ç õ e s de u m a h i s t ó r i a s o c i a l do p r i v a d o , pois t e m o s em c o n t a os l i m i t e s p a r a a t e c i t u r a de u m a h i s t ó r i a dós i n d i v í d u o s , p o n t u a d a por r e p r e s e n t a ç õ e s ,

e m o ç õ e s e e x p e c t a t i v a s de vida.

E s t a m o s a t e n t o s às d i f i c u l d a d e s e m r e l a ç ã o às f o n t e s q u e s u s t e n t a r i a m u m a h i s t ó r i a de i n d i v í d u o s e de sua p r i v a c i d a d e . Ao m e s m o t e m p o , no h o r i z o n t e d e s t a p e s q u i s a , p a i r a o r e c e i o de i r m o s r u m o aos p e r i g o s de u m a inferencias.

história

de

A c o n s t a n t e b u s c a da o b j e t i v i d a d e de a n á l i s e do o b j e t o p r o p o s t o

foi o norte d e s t a t e s e , e m b o r a , por i n ú m e r a s v e z e s , f ô s s e m o s t e n t a d o s d e b r u ç a r - n o s s o b r e a l g u n s c a s o s p a r t i c u l a r e s de h i s t ó r i a s i n d i v i d u a i s .

5

PERROT, Michelle, op. cit., p. 12-3.

a

4

Não podemos deixar

de r e c o n h e c e r

o sentido

impresso

por

tais

casos, pois a c a b a r a m por a d q u i r i r o c a r á t e r c o n d u t o r de n o s s a s a b o r d a g e n s e s o l i d i f i c a r a o p ç ã o pelo e n f o q u e da v i d a p r i v a d a . São a l g u n s p e r s o n a g e n s que e n r e d a r a m o c e n á r i o da h i s t ó r i a de M a t o G r o s s o , e m p a r t i c u l a r da p a r ó q u i a Senhor B o m J e s u s de C u i a b á , ao l o n g o do s é c u l o X I X , i m p r i m i n d o a s p e c t o s d i s t i n t o s e d e c i s i v o s na c o n s t r u ç ã o dos e s p a ç o s da v i d a p r i v a d a . M a r i a B e r n a r d a P o u p i n o é a p r i m e i r a p r o t a g o n i s t a e no 1797 e s t a v a p r e s a na c a d e i a de C u i a b á .

E m o f í c i o d a t a d o de m a r ç o d a q u e l e

ano, seu a d v o g a d o r e q u e r i a ao c a p i t ã o - g e n e r a l Montenegro

ordenasse

que

o juiz

s u p l i c a n t e por não ser a cadeia casa de depósito

de mulher

de

(ilegível)

grávida.

i n í c i o de

C a e t a n o P i n t o de

f o r a de C u i a b á de juízo

mandasse

eclesiástico,

Miranda soltar

a

nem menos

a

N o s t e r m o s i n i c i a i s da p e t i ç ã o a l e g a v a :

da lúgubre e funesta situação e horror de uma enchovia, recorre e busca amparo e proteção de V. Ex. uma infeliz e desdi tosa mulher... cuja falta a suplicante contraiu um invicto consórcio com seu marido Francisco de Paula Azevedo, de que hoje lhe serviu das péssimas conseqüências, que já antes pessoas prudentes e discretas vaticinavam, sendo a suplicante alvo em que se empregam os perniciosos efeitos daquela primeira causa, até se ver reduzida à estreites de uma rigorosa e indecente prisão a que procedeu o vigário da vara de Cuiabá, sem conhecimento de causa, usurpando a jurisdição régia, contra uma vassala de Sua Majestade, de quem lhe não pertence outro conhecimento diferente do que lhe prescrevem os sagrados cânones e concilio tridentino, nunca aos termos de prisão. O v i g á r i o da vara de C u i a b á , s e g u n d o i n f o r m e do j u i z de f o r a ,

foi

p e s s o a l m e n t e a p r e s e n t a r os a u t o s de j u s t i f i c a ç ã o de s e v i c i a s i n t e n t a d a s p e l a r e q u e r e n t e , c o m s e n t e n ç a s p r o f e r i d a s , s e g u n d o as q u a i s d e v e r i a ser r e c o l h i d a à casa de seu m a r i d o ou à c a d e i a . I g u a l m e n t e , s o l i c i t a r a a u x í l i o p a r a a p r i s ã o da ré, que se r e c u s a r a a r e t o r n a r à c a s a do c ô n j u g e e em c o n s e q ü ê n c i a seria e n c a m i n h a d a à prisão a fim de reduzi-la

a seu

dever.

O magistrado alegava, ainda: a razão que eu tive para conceder o auxílio foi o de estar persuadido que aos juizes eclesiásticos pertence o conhecimento das ações de divórcio e que por isso, se eles podem separar os cônjuges, havendo e provando-se motivo justo é coerente que eles tenham o direito e o poder para fazê-los reunir, quando

5

injustamente querem subtrair-se às obrigações que se impuseram, pois contrário seguir-se-iam o escândalo da igreja e a desordem da sociedade. P o r ú l t i m o , a n t e s de n e g a r a s o l t u r a , a c r e s c e n t a v a : tendo requerente me julgo

sido presa autorizado

determinação sido presa

pelo

meu alcaide

para

de V. Exa., sem a ajuda

por

por auxílio

a mesma

dependendo

em liberdade,

da condição

secular.6

do braço

concedido

por

visto

pois

mim,

a não

não ser esta

que se não verifica

do

de

a ter

I n d e p e n d e n t e m e n t e da p o s i ç ã o do

j u i z de f o r a , em Vila B e l a o c a p i t ã o - g e n e r a l d e t e r m i n o u q u e a ré f o s s e p o s t a em l i b e r d a d e .

Em j u l h o de 1797, logo a p ó s h a v e r d e i x a d o a p r i s ã o , M a r i a

B e r n a r d a v e i o a f a l e c e r , d e i x a n d o um f i l h o n a s c i d o em m a i o . Nesse

episódio,

estão

muito

claros

a

interferência

da

E c l e s i á s t i c a no seio da f a m í l i a e o seu p a p e l de o r d e n a m e n t o — ao o divórcio

e ao p u n i r

um

ato

de a d u l t é r i o

que

acabou

Justiça

consumar

por r e s u l t a r

no

n a s c i m e n t o de um f i l h o i l e g í t i m o . Sem d ú v i d a , esse é um m o m e n t o e s p e c í f i c o para

t e n t a m o s d i s c u t i r os d e l i n e a m e n t o s e n t r e as e s f e r a s do p ú b l i c o e do

privado,

naquilo

que

se p o d e r i a

designar

de

uma

sociedade

civil

quase

invertebrada, parafraseando PERROT. Inês de A l m e i d a L e i t e , a s e g u n d a p r o t a g o n i s t a , é s e n h o r a de g r a n d e p r e s t í g i o , c a s a d a com um p r ó s p e r o c o m e r c i a n t e em C u i a b á . Ele v i ú v o e com v á r i o s f i l h o s e ela

uma j o v e m de 16 a n o s . D e s s a u n i ã o n a s c e r a m

diversos

f i l h o s . O c a s a l n o t a b i l i z o u - s e p e l o s c a r g o s e f u n ç õ e s j u n t o à I r m a n d a d e do S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . C o n t u d o , a j o v e m s e n h o r a , em torno de seus 30 anos,

conheceu

Bretanha,

tenente

João

Manuel

da M a r i n h a

Augusto brasileira,

Leverger,

nascido

recém-chegado

na

região

a Cuiabá.

da

Dessa

r e l a ç ã o a d ú l t e r a n a s c e u u m a c r i a n ç a , e x p o s t a na c a s a dos p a d r i n h o s , a d o t a d a em 1833 p e l o p a i , que p a s s o u a d e s e m p e n h a r a f u n ç ã o de a d i d o m i l i t a r no P a r a g u a i . O c a s a m e n t o de Inês f o i m a n t i d o até 1842, q u a n d o f i c o u viúva. N o ano s e g u i n t e , c o n t r a i u n ú p c i a s c o m J o ã o M a n u e l A u g u s t o .

6

ALENCAR, Adauto. Roteiro genealógico de Mato Grosso, v. II p. 3.

6

Esse episodio é extremamente interessante e ilustra o capítulo "O p r i n c í p i o da f r o n t e i r a e a f r o n t e i r a de p r i n c i p i o s " . D e n o t a uma e s t r a t é g i a na s o l u ç ã o de c a s o s de a d u l t é r i o c o m f i l h o i l e g í t i m o . A p ó s a c r i a n ç a ser e x p o s t a na

casa

dos

padrinhos,

o pai

recorreu

à adoção

imediata

em

cartório,

j u s t i f i c a n d o o ato p e l a n e c e s s i d a d e de a s s e g u r a r a s u c e s s ã o da h e r a n ç a . A t e r c e i r a p r o t a g o n i s t a e l e i t a é D a m i a n a M a r i a da C o s t a , que em m a r ç o de 1858, a t r a v é s de i n s t r u m e n t o p ú b l i c o , c o n s t i t u í a o a l f e r e s F r a n c i s c o P e r e i r a de M o r a i s J a r d i m c o m o seu p r o c u r a d o r j u n t o ao J u í z o E c l e s i á s t i c o de C u i a b á . D a m i a n a era c a s a d a c o m P e d r o G o m e s de M e l o e c o n t r a ele m o v i a uma a ç ã o de d i v ó r c i o em r a z ã o das sevicias

c o m e t i d a s p e l o m a r i d o e da

i m o r a l i d a d e que r e c a í a s o b r e sua f i l h a M a r i a n a , m e n o r de i d a d e , s e d u z i d a e d e f l o r a d a p e l o p a d r a s t o . 7 De tal ato de s e d u ç ã o r e s u l t a r a o n a s c i m e n t o de um filho ilegítimo. P a r a r e s p a l d a r - s e d a s s é r i a s a c u s a ç õ e s da e s p o s a , o réu a p r e s e n t o u na sua d e f e s a a c e r t i d ã o de b a t i s m o de M a r i a n a , c u j o r e g i s t r o f o r a

assentado

em 23 de j u l h o de 1843, na c a t e d r a l do S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á :

parda

de

foram

vinte

dias,

padrinhos

exposta

o mesmo

em

Antonio

casa

de Antonio

Joaquim

Joaquim

e sua mulher

Silva

Prado;

Dona Marianna

Roza.

N a q u e l a o c a s i ã o , a m ã e p ô d e c o n t a r c o m o a u x í l i o de um e m p r e g a d o de seus pais, J o s é F e r r e i r a da Silva, a f i m de e n v i a r a c r i a n ç a p a r a longe de sua f a m í l i a : logo testemunha cidade

para

(Cuiabá)

que

nasceo

do engenho e entregar

e s c r a v a do c a s a l a d o t i v o , é tia da Autora,

foi

pela

de seo Pai, a Donna

mesma

que ainda

Marianna

tudo observou

impôs a ella testemunha

Damianna era vivo,

Roza.

entregue trazel-a

a

elle

a

esta

L u i s a da Silva P r a d o ,

em s i g i l o , pois Marianna

Roza,

que

segredo.

D a m i a n a p e r t e n c i a a u m a f a m í l i a de p o s s e s e t i n h a n o m e e h o n r a a serem

preservados.

7

Um

filho

ilegítimo

seria

razão

de

desaprovação

LIBELO Civil de Divórcio, 1858. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá. Caixa n° 11.

e

7

r e p r e e n s ã o de seus pais.

A g r a v i d e z i n d e s e j a d a não d e v e r i a vir a p ú b l i c o e o

m e l h o r a f a z e r seria o c u l t a r o n a s c i m e n t o da c r i a n ç a . Na mais intimidade,

o

segredo

fazia-se

escravos, calando muitas vezes

instalar,

compartilhado

por

recôndita

parentes

e

os s e n t i m e n t o s m a t e r n o s .

Ao r e p l i c a r as a c u s a ç õ e s do m a r i d o , D a m i a n a r e a f i r m a v a a c o n d i ç ã o de mãe e d e f e n d i a - s e a l e g a n d o as r a z õ e s que a l e v a r a m a e n c a m i n h a r a r e c é m n a s c i d a à casa de A n t ô n i o J o a q u i m da Silva P r a d o e de sua m u l h e r . Tida

ali

como

seu

exposta,

nascimento

pela

necessidade

que

a fim de não se tornar

não magoar

e afligir

seus

pais

a mesma

público que

então

teve

de ocultar

a sua infelicidade;

então

vivião.

o

e assim

também

Acrescentava, ainda, que,

d e p o i s do f a l e c i m e n t o d e s t e s , t e v e c o n t i n u a m e n t e a f i l h a em sua c o m p a n h i a . O arrazoado

dessa

defesa

decorria

das

alegações

do

marido,

que

d e s c o n h e c e r que D a m i a n a f o s s e m ã e de M a r i a n a , por ser ela uma

dizia

criança

exposta e enjeitada. O p r o c e s s o de d i v ó r c i o nos r e v e l a , por o u t r o l a d o , quando

grávida,

havia

sido

tirada

do

poder

materno

pelo

que M a r i a n a , padrasto

e

c o n s e r v a d a por a l g u m t e m p o e m c a s a de M a r i a R i b e i r o . S e g u n d o a r e q u e r e n t e , de onde tornou-a à luz ao dito filho,

traser

para

a companhia

da supplicante

com o fito

de continuar

seduzindo-a.

depois

de ter

dado

R e a f i r m a v a D a m i a n a q u e seu m a r i d o , ao a b u s a r da j u v e n t u d e da menina, confunde a fidelidade que a moral estabelece a favor da sociedade e de humana Natureza e a que com mais (sic) do vínculo as Mães zelão de seus filhos, e a respeito dos quaes devem todos aquelles que interpretativamente ocupão o lugar de Paes como o Réo, foi este mesmo quem a prostituiu e a fez grávida, como o passar do tempo se provará. P e d r o G o m e s de M e l o

r e d o b r a v a as a c u s a ç õ e s c o n t r a a m u l h e r ,

a t r i b u i n d o a prostituição

e a gravidez

desgoverno

No

da

Autora.

dizer

de M a r i a n a ao mau procedimento do

réu,

Damiana

embriagava-se

h a b i t u a l m e n t e a f a s t a v a - s e da c a s a , d e i x a n d o M a r i a n a só, entregue

a si

e e

mesma

8

entre

os escravos

e camaradas,

o p o r t u n i z a n d o a g r a v i d e z da m e n i n a .

Ao a c i o n a r o p e d i d o de d i v ó r c i o , D a m i a n a não d e i x a v a t r a n s p a r e c e r p r e o c u p a ç ã o com os b e n s do m a r i d o , c o m o i m ó v e i s r u r a i s e e s c r a v o s , pois ela m e s m a era p r o p r i e t á r i a de e n g e n h o nas p r o x i m i d a d e s de C u i a b á , tido por h e r a n ç a dos pais. As s e v i c i a s de q u e e r a v í t i m a — p a n c a d a s com coices

e prisão

acorrentada



conforme

processo, pareciam incomodá-la

depoimento

m e n o s que

chicote,

de t e s t e m u n h a s

no

a f r a g i l i d a d e da f i l h a e sua

e x p o s i ç ã o aos d e s í g n i o s do p a d r a s t o . M a r i a do R o s á r i o , ao t e s t e m u n h a r d i a n t e do J u í z o E c l e s i á s t i c o , dizia rasto

de modo

o pescouço...

que o collar somente

ver o réu acorrentar da corrente

liberando-a

de ferro

empregava

em todos

marido

comer;

marido

e nem tinha

seo referido O

depoente.

e presenciar cozinhando

o que

para

farinha

e lavando

a roupa,

que a Autora

desse

fazer

dizer

entretanto, de

que este a injuriava

divórcio

em

apreço

motivos

de todo

Além

que

da casa,

ouvido

processo

dela,

e leval-a

inflamar-lhe

os serviços

socando

marido,

ver

mulher

ocasionou

por r o g o

a t e s t a v a a i d o n e i d a d e de D a m i a n a por

sua

disso,

a Autora

se

era para

seo

do seo

dito

de desgostos

ao

... explicita

duas

situações

d i s t i n t a s . Em p r i m e i r o lugar, a q u e s t ã o da i l e g i t i m i d a d e no i n t e r i o r da m o r a l familiar

e a estratégia

da

exposição

do

nascituro

na

casa

de

parentes

p r ó x i m o s , r e c u r s o esse s e l a d o p e l a i m p o s i ç ã o do s e g r e d o . P a r t i c u l a r m e n t e no caso de D a m i a n a , h o u v e a a g r a v a n t e de u m a p a t e r n i d a d e

provavelmente

n e g r a ou m e s t i ç a , pois a c r i a n ç a e x p o s t a é r e f e r i d a c o m o p a r d a . O s e g u n d o a s p e c t o diz r e s p e i t o ao c r i m e de s e d u ç ã o , a m p l a m e n t e c o n d e n a d o e c o m b a t i d o pela

Igreja

Católica,

motivo

aliás

da

rápida

intervenção

da

Justiça

E c l e s i á s t i c a em f a v o r da a c e i t a ç ã o do p e d i d o de d i v ó r c i o . N ã o se d e v e c o g i t a r que as a c u s a ç õ e s

de

sevicias

tivessem

peso

decisivo

nesses

processos.

E m b o r a se c o n s t i t u í s s e m em c o n d i ç ã o m í n i m a p a r a que as m u l h e r e s p u d e s s e m f a z e r t r a m i t a r um p e d i d o de d i v ó r c i o , n ã o e r a m m o t i v o s u f i c i e n t e p a r a o ê x i t o do i n t e n t o . A i n t e r v e n ç ã o da I g r e j a , a t r a v é s de seus p á r o c o s , o b j e t i v a v a - s e no

9

c o n t r o l e s o c i a l sobre as v i d a s p r i v a d a s . A I g r e j a e x e r c i a r i g o r o s a v i g i l a n c i a não só s o b r e os atos, m a s t a m b é m

s o b r e as i n t e n ç õ e s , c o n f o r m e e n f a t i z a

N O R A ao t r a ç a r um p a r a l e l o e n t r e I g r e j a e E s t a d o na F r a n ç a . E n t r e t a n t o , as t e n t a t i v a s de d e l i n e a m e n t o e n t r e p ú b l i c o e p r i v a d o , os e s f o r ç o s e n v i d a d o s na compreensão

da e s f e r a da v i d a p r i v a d a ,

revelam-nos

conflitos e

estratégias e resistências, que, mescladas à coloração cultural,

tensões,

cristalizam

práticas constitutivas desse espaço particular. Ana das D o r e s , D o m i n g a s R o d r i g u e s e D e o l i n d a do E s p í r i t o Santo são o u t r o s e x e m p l o s a s e r e m c o n s i d e r a d o s . E s t ã o e n t r e m u i t a s m ã e s que, na d é c a d a de 80 e n c a m i n h a r a m q u e i x a s à c h e f a t u r a de P o l í c i a c o n t r a r a p t o r e s e d e f l o r a d o r e s de j o v e n s m e n o r e s de i d a d e . Aos o l h o s do p o d e r p ú b l i c o , t a i s m u l h e r e s e s t a v a m d e f e n d e n d o a h o n r a das f i l h a s e o

recurso à autoridade

p o l i c i a l era o m e i o p a r a f o r ç a r o r a p t o r a r e p a r a r seu erro e a h o n r a das f i l h a s . E n t r e t a n t o , Ana das D o r e s , m a i s do q u e d e f e n d e r a h o n r a da V i t o r i a n a , grávida,

de 14 a n o s de i d a d e , p a r e c i a d e f e n d ê - l a das a g r u r a s f i n a n c e i r a s que

c e r t a m e n t e se a c e n t u a r i a m a p ó s o n a s c i m e n t o da c r i a n ç a . T e n t a v a , e v i t a r que V i t o r i a n a p a s s a s s e

a integrar

o contingente

davam à luz f i l h o s i l e g í t i m o s e do qual a p r ó p r i a das

assim,

das m u l h e r e s

que

Dores

ser

parecia

integrante. O c a s o do c r i m e de s e d u ç ã o de M a r i a n a em que seu p a d r a s t o é r e s p o n s a b i l i z a d o , ou os e x e m p l o s das m ã e s

q u e a p e l a v a m à c h e f a t u r a de

P o l í c i a , r e v e l a m um a s p e c t o n ã o c o n s i d e r a d o até o m o m e n t o : a i n c a p a c i d a d e do

indivíduo

para

resolver

determinados

conflitos

inerentes

à sua

vida

p r i v a d a . N e s s e s c a s o s , a a l t e r n a t i v a é o r e c u r s o à J u s t i ç a E c l e s i á s t i c a ou à P o l í c i a , que p a s s a m a se i n s e r i r na v i d a p r i v a d a p o r rogo do i n d i v í d u o . N ã o seria esse um e l e m e n t o c o n s t i t u t i v o da i n t e r - r e l a ç ã o e n t r e p ú b l i c o e p r i v a d o a ser c o n s i d e r a d o ? E s s e a s p e c t o r e v e l a q u e o e s p a ç o p r i v a d o não se c o n s t r ó i unicamente

em

oposição

ao p ú b l i c o ;

a fronteira

entre

ambos

é

também

d e m a r c a d a p e l a a ç ã o de i n d i v í d u o s ao e s t i p u l a r e s p e c i f i c a m e n t e as s i t u a ç õ e s c o n f l i t u o s a s p a s s í v e i s da i n t e r v e n ç ã o da a u t o r i d a d e do p ú b l i c o .

10

Os e x e m p l o s m e n c i o n a d o s e s t i v e r a m s e m p r e a i n d i c a r - n o s que no e s p a ç o f a m i l i a r r e s i d i a m s o l u ç õ e s d i f e r e n c i a d a s e, m u i t a s v e z e s , n e g o c i a d a s , para os c a s o s de i l e g i t i m i d a d e , i n d e p e n d e n t e m e n t e da c o n d i ç ã o s o c i a l da m ã e do n a s c i t u r o .

Ao longo do s é c u l o X I X , e s s a s e v i d ê n c i a s se i n s i n u a m em um

p r o c e s s o d i n â m i c o , r e v e l a n d o t e n s õ e s e r e s i s t ê n c i a d i a n t e da i n t e r v e n ç ã o e c o n t r o l e da I g r e j a .

São um f o r t e i n d í c i o de que no â m b i t o da v i d a p r i v a d a

estão sendo alinhavadas práticas, estratégias e alternativas que um

tecido

social

sociabilidade, eclesiástica.

com

ora

no

amarras, recurso

ora

à

resistência

intervenção

da

popular,

autoridade

ora

na

laica

ou

A r e c u s a à e x p o s i ç ã o de c r i a n ç a s i l e g í t i m a s na R o d a e o r e c u r s o

ao p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l , por e x e m p l o , desse

na

sustentarão

quadro

na

paróquia

são e l e m e n t o s v i t a i s na c o m p r e e n s ã o

Senhor

Bom

Jesus

de

Cuiabá.

Igualmente

i m p o r t a n t e é a e s t r a t é g i a de e x p o r os i l e g í t i m o s em casa de p a r e n t e s . E n t r e as d i v e r s a s e s t r a t é g i a s t e c i d a s e s t a v a a da limpeza família.

Promovia-se o casamento

do nome

de um f i l h o i l e g í t i m o c o m um

de

parente

p r ó x i m o , em g e r a l e n t r e tios e s o b r i n h o s ou e n t r e p r i m o s , e a s s e g u r a v a - s e ao b a s t a r d o a a s s e p s i a do n o m e . H á i n ú m e r o s e x e m p l o s de i l e g í t i m o s do sexo masculino

que

desposam

notadamente entre militares. Um estratégia

exame era

primas

menos

comum

e

adquirem

o

sobrenome

paterno,

g

cuidadoso

em

uma

permitiria

sociedade

de

apenas

dizer

práticas

que

homogâmicas.

E n t r e t a n t o , u m a a n á l i s e m a i s m i n u c i o s a nos i n d i c a que os s o b r e n o m e s cruzam

entre

primos

consanguíneos

e

que

tais

tal

casamentos

se

tornaram-se

s o l u ç ã o c o m u m p a r a r e i n t r o d u z i r f o r m a l m e n t e i l e g í t i m o s na f a m í l i a p a t e r n a . O

caso

de

Damiana,

evidencia-se

para

nós

como

uma

das

m a n i f e s t a ç õ e s e x p r e s s a s de i n t i m i d a d e , q u e p o d i a a s s e m e l h a r - s e à de o u t r a s m u l h e r e s s o l t e i r a s , f i l h a s de g r a n d e s p r o p r i e t á r i o s de t e r r a s em M a t o G r o s s o , e

de

senhores

8

de

engenho.

Podemos

ALENCAR, Adauto. op. cit., v. I e II.

apreender

daí

uma

das

possíveis

11

e s t r a t é g i a s u t i l i z a d a s p e l a s m u l h e r e s p a r a a c o b e r t a r o n a s c i m e n t o de f i l h o s i l e g í t i m o s e sua a b s o r ç ã o p e l a r e d e de p a r e n t e l a . R e v e l a - s e a s s i m o p r o c e s s o de r e e n c o n t r o com as r e s p e c t i v a s m ã e s

a p ó s seu c a s a m e n t o d i a n t e da I g r e j a

C a t ó l i c a . M a s t a l v e z não f o s s e e s s e o c o m p o r t a m e n t o população mato-grossense, família

a zelar.

mulheres

livres

c o n v e r t e s s e em

forros,

motivo

o

no

espaço

nascimento

de m u r m ú r i o

obtidas

nos

registros

da

de

intimidade

crianças

de

homens

ilegítimas

não

e se

ou de s e g r e d o , tal c o m o p a r e c i a ser

f r e q ü e n t e e n t r e as f a m í l i a s r i c a s . E s s a informações

da

das p e s s o a s s e m p o s s e s , a q u e l a s sem um n o m e de

Possivelmente, e

da m a i o r p a r t e

impressão

paroquiais,

ou

nos é cara, d i a n t e seja,

das

a constatação

de

e x p r e s s i v a s t a x a s de c r i a n ç a s i l e g í t i m a s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , ao longo da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X I X , em p a r t i c u l a r

no r e c o r t e

e n t r e 1853 e 1890. A abordagem

da p r o v í n c i a

de M a t o

p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , p r i v a d a , não se p r e n d e significado

histórico

exclusão

de

particularmente

na p e r s p e c t i v a da e s f e r a da

fundamentalmente

da

Grosso,

à preocupação

homens

e

da vida

de p e r s c r u t a r

mulheres

sem

posses

o e

a f a s t a d o s das d e c i s õ e s p o l í t i c a s na s o c i e d a d e b r a s i l e i r a do s é c u l o X I X e da c o n q u i s t a da c i d a d a n i a . 9 E f e t i v a m e n t e , ao i n s e r i r a i l e g i t i m i d a d e no e s p a ç o do i l í c i t o e das t r a n s g r e s s õ e s , p r o c u r a m o s a p r e e n d e r t r a ç o s de c o n j u g a l i d a d e , s o c i a b i l i d a d e e de c o n v i v i a l i d a d e e n g e n d r a d o s nas r e l a ç õ e s a f e t i v a s em u m a r e g i ã o de f r o n t e i r a . O p r i v a d o , n e s s a p e r s p e c t i v a , t e m a c o n o t a ç ã o de e s p a ç o em que as p e s s o a s r e l a c i o n a v a m - s e , u n i a m - s e , e n l a ç a v a m - s e a f e t i v a m e n t e , em resposta à contingência Um viver as

colonial

pessoas:

decorrentes província

de v i v e r em u m a r e g i ã o de f r o n t e i r a e de i t i n e r â n c i a .

p e r p a s s a d o por c a m a d a s de s e n s a ç õ e s c o n t r a d i t ó r i a s e n t r e

instabilidade, da p r ó p r i a

externalidade

de M a t o G r o s s o

9

precariedade,

estava

de

provisoriedade acumulação

submetida,

e

ambigüidade,

do c a p i t a l

ainda

BRESCIANI, Maria Stella M. A mulher e o espaço público. In: Paulo : Marco Zero/ANPUH, 1992.

q u e em

a que

a

momentos

Jogos da política.

São

12

históricos distintos.10 N e c e s s á r i o se f a z r e s s a l t a r a a p r o p r i a ç ã o dos c o n c e i t o s de p ú b l i c o e de p r i v a d o n e s t a p e s q u i s a . Ao t o m a r o p ú b l i c o c o m o r e p r e s e n t a d o p e l o E s t a d o nacional brasileiro e pela Igreja Católica e o privado

c o m o o e s p a ç o das

m a n i f e s t a ç õ e s das i n t i m i d a d e s , p a r t i m o s de n o v o s e n f o q u e s a p o n t a d o s

pela

h i s t o r i o g r a f i a n a c i o n a l e e s t r a n g e i r a , m o s t r a n d o a v i a b i l i d a d e de t r a b a l h a r m o s c o m t e m a s e s p e c í f i c o s c o m o f a m í l i a , s e x u a l i d a d e , c a s a m e n t o , m u l h e r e s , etc. Por vida p r i v a d a , p o r t a n t o , na e s t e i r a de N O V A I S , e n t e n d e m o s o e s p a ç o das m a n i f e s t a ç õ e s da i n t i m i d a d e , da c o n v i v i a l i d a d e e da s o c i a b i l i d a d e , no c o t i d i a n o das p e s s o a s em c o n t r a p o n t o à e s f e r a do p ú b l i c o ,

gestadas

representada

por suas i n s t â n c i a s m á x i m a s , o E s t a d o n a c i o n a l e a I g r e j a C a t ó l i c a . 1 1 C o n s i d e r a n d o a a p l i c a b i l i d a d e de tais c o n c e p ç õ e s na c o n f i g u r a ç ã o s o c i a l b r a s i l e i r a , a p a r t i r da i n s e r ç ã o da c o l ô n i a nos q u a d r o s da c i v i l i z a ç ã o ocidental

e

da

formação

do

Estado

nacional

brasileiro,

estudaremos

a

i l e g i t i m i d a d e na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . N e s s e p r o c e s s o , as relações

de s o c i a b i l i d a d e

serão

apreendidas

como

manifestações

da

vida

privada. A c i r c u n s c r i ç ã o do o b j e t o na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o no c o n t e x t o da c o l o n i z a ç ã o

moderna

européia,

na

condição

de a n t e m u r a l

da

colônia

b r a s i l e i r a na d e f e s a da f r o n t e i r a o e s t e , p e r m i t e - n o s r e f l e t i r sobre o p r o c e s s o de c o n s t i t u i ç ã o da vida p r i v a d a d i a n t e do E s t a d o n a c i o n a l b r a s i l e i r o e da Igreja Católica. Desenvolvemos a pesquisa

r e c o r r e n d o b a s i c a m e n t e a três a c e r v o s :

A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á ; Informação Histórica

Regional

da

N ú c l e o de D o c u m e n t a ç ã o

Universidade

Federal

de M a t o

e

Grosso

( N D I H R ) ; e A r q u i v o P ú b l i c o do E s t a d o de M a t o G r o s s o ( A P E M T ) , em C u i a b á .

10

NOVAIS, Fernando. Condições da privacidade na colônia. In: SOUZA, Laura de Mello e. (org.) História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo : Companhia das Letras, 1997, v. 1. p. 14-39. 11

NOVAIS, Fernando, op. cit., p. 17.

13

Somados a esses acervos

e s t ã o o do I n s t i t u t o B r a s i l e i r o

de G e o g r a f i a e

E s t a t í s t i c a ( I B G E ) , no R i o de J a n e i r o , o n d e l o c a l i z a m o s os R e c e n s e a m e n t o s Gerais do f i n a l do s é c u l o X I X , r e f e r e n t e s à p r o v í n c i a do M a t o G r o s s o e o da Biblioteca

Nacional

do

Rio

de

Janeiro,

onde

encontramos

as

C O N S T I T U I Ç Õ E S P r i m e i r a s do A r c e b i s p a d o da B a h i a , de 1707. O A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á p r e s e r v a e r e ú n e rica documentação principalmente,

eclesiástica aos

séculos

do

Estado

XIX

e

XX,

de com

Mato uma

Grosso

referente,

pequena

parte

de

podem

ser

d o c u m e n t o s s o b r e o f i n a l do s é c u l o X V I I I . E s s e s d o c u m e n t o s

e n c o n t r a d o s t a n t o em l i v r o s ou em c a i x a s , em f o r m a de p r o c e s s o s ,

como

avulsos. A p e s a r de o r g a n i z a d a e, p o r t a n t o , c a d a s t r a d a , a d o c u m e n t a ç ã o está a exigir

um t r a b a l h o de r e s t a u r a ç ã o e de m i c r o f i l m a g e m d e v i d o ao p r e c á r i o

e s t a d o de c o n s e r v a ç ã o . G r a n d e p a r t e das f o l h a s j á se e n c o n t r a m em p r o c e s s o de

desidratação,

quebrando-se

quando

tocadas,

o que

é de

se

lamentar

p r o f u n d a m e n t e . S e g u n d o o a t u a l a r c e b i s p o , D. B o n i f á c i o P i c h i n i n i , não há r e c u r s o s p r o v e n i e n t e s da p r ó p r i a C ú r i a p a r a tal f i n a l i d a d e . O a r q u i v o da C ú r i a f o i l e v a n t a d o e c a d a s t r a d o em 1986, por O t á v i o C a n a v a r r o s . O a r r o l a m e n t o , r e a l i z a d o em d u a s e t a p a s , p a u t o u - s e na p r i m e i r a pelo

cadastramento

de

documentos

em

caixas

a r q u i v a m e n t o ) , d i v i d i d o s em F U N D O S e S É R I E S — J u í z o E c l e s i á s t i c o ; C o l e ç ã o II —

(lista

de

unidades

de

e denominados: Coleção I

O r d i n á r i o s ; C o l e ç ã o III — J u r i s d i ç õ e s

E p i s c o p a i s . N a s e g u n d a e t a p a , f o i r e a l i z a d o o c a d a s t r o geral dos l i v r o s de r e g i s t r o s , c o n s t i t u í d o s de c i n c o t i p o s : b a t i z a d o s , c r i s m a s , c a s a m e n t o s , ó b i t o s e índices. A C o l e ç ã o III r e ú n e 54 ( c i n q ü e n t a e q u a t r o ) f u n d o s , dos quais 29 ( v i n t e e n o v e ) são de p a r ó q u i a s . Os l i v r o s de r e g i s t r o s da p a r ó q u i a da Sé ( N o s s o S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á ) são os m a i s a n t i g o s , d a t a n d o de 1816 o p r i m e i r o r e g i s t r o de b a t i s m o e de 1820 o p r i m e i r o de c a s a m e n t o . C o m r e l a ç ã o às o u t r a s p a r ó q u i a s , e n c o n t r a m o s t a m b é m l i v r o s de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s e de

14

c a s a m e n t o s , m a s não de ó b i t o s , p o i s e s t e s e n c o n t r a m - s e a p e n a s nas c a i x a s . As d a t a s dos p r i m e i r o s r e g i s t r o s nas d e m a i s p a r ó q u i a s , t a n t o

de

b a t i s m o c o m o de c a s a m e n t o , são: A) P a r ó q u i a

de São G o n ç a l o

de P e d r o II — b a t i s m o —

1843;

c a s a m e n t o — 1843; B) P a r ó q u i a de N o s s a S e n h o r a do R o s á r i o . O p r i m e i r o livro data

de

1835 e o ú l t i m o livro de 1898; C) N o s s a S e n h o r a d a s B r o t a s ( E n g e n h o ) — ao t o d o s o m a m

três

livros para b a t i s m o , s e n d o o p r i m e i r o de 1843, e de c a s a m e n t o um l i v r o , d a t a d o de 1847 a 1892; D ) P a r ó q u i a de N o s s a S e n h o r a da G u i a — b a t i s m o

(Livro n° 1,

1850 a 1942); E ) P a r ó q u i a de N o s s a

S e n h o r a da G u i a do C o x i p ó da P o n t e



b a t i s m o ( L i v r o n° 1, 1897 - 1 9 0 7 ) ; F) P a r ó q u i a s d i v e r s a s — o L i v r o n° 2 (vol. 1), c o n t é m r e g i s t r o s de b a t i z a d o s r e f e r e n t e s à c a t e d r a l ( 1 8 8 6 a 1898); S a n t o A n t ô n i o do L i v r a m e n t o — Várzea Grande — Pissarão e Curalinho (1898); G) P a r ó q u i a de S a n t o A n t ô n i o do L e v e r g e r — c a s a m e n t o - 1850 a 1888 ( f o r m a m c i n c o livros); H) P a r ó q u i a de S a n t a C r u z das P a l m e i r a s — c a s a m e n t o , Livro n° 1 1927 a 1933. C h a m o u - n o s a a t e n ç ã o um l i v r o de r e g i s t r o de b a t i z a d o s r e f e r e n t e à c o l ô n i a T e r e s a C r i s t i n a , dos í n d i o s b o r o r o s - c o r o a d o s , c o m 254 b a t i z a d o s q u e , s e g u n d o a f o l h a de r o s t o , t e r i a m sido os Baptismos

ministrados

durante

a

viagem. N a s c a i x a s p o d e m ser e n c o n t r a d o s d o c u m e n t o s d i v e r s o s , tais c o m o :

15

autos de j u s t i f i c a ç ã o de e s t a d o de s o l t e i r o s , de c a s a d o s ,

de v i ú v o s e de

divórcio,

registros

documentos

relativos

à

corte

e

à

Santa

Sé,

vários

( b a t i s m o s , c r i s m a s , ó b i t o s ) , i n v e n t á r i o s , c r i a ç ã o de p r e l a z i a s , etc. A d o c u m e n t a ç ã o p a r o q u i a l por nós s e l e c i o n a d a não se r e s t r i n g e aos r e g i s t r o s de b a t i s m o da p a r ó q u i a da Sé. I n c l u i p r o c e s s o s de d i v ó r c i o e a u t o s de j u s t i f i c a ç ã o de e s t a d o de s o l t e i r o , de v i u v e z e de c a s a d o r e f e r e n t e s ao p e r í o d o em e s t u d o . Essa d o c u m e n t a ç ã o n ã o é n u m e r i c a m e n t e e x p r e s s i v a . Os

autos

de

justificação

do

estado

de

solteiro

encontram-se

d i s t r i b u í d o s em 6 c a i x a s , ao l o n g o dos a n o s de 1848 a 1925, num total de 514 peças. Foram s e l e c i o n a d o s a p e n a s dez a u t o s por d é c a d a e s t u d a d a , p e r f a z e n d o q u a r e n t a a u t o s , r e f e r e n t e s ao p e r í o d o de 1850 a 1890. Tais a u t o s p e r m i t e m p e r c e b e r as d e t e r m i n a ç õ e s da I g r e j a C a t ó l i c a r e l a t i v a s ao c a s a m e n t o . Ou s e j a , a n e c e s s i d a d e de c o m p r o v a ç ã o , por p a r t e dos n o i v o s , do e s t a d o de s o l t e i r o , ou de v i u v e z , com d e p o i m e n t o s de t e s t e m u n h a s , assim c o m o a p r e s e n t a ç ã o do r e g i s t r o de b a t i s m o ao v i g á r i o geral da p a r ó q u i a . P e r m i t e m a i n d a que se c o n s t a t e m

origem e profissão dos justificantes. Não

por m e r o a c a s o , os autos s e l e c i o n a d o s f o r a m a q u e l e s q u e a p r e s e n t a v a m d a d o s sobre os m i l i t a r e s ,

c o m o j u s t i f i c a n t e s ou t e s t e m u n h a s , d a d o o i n t e r e s s e em

a u f e r i r sua a t u a ç ã o em u m a p r o v í n c i a de f r o n t e i r a . A

estrutura

dos

autos

de j u s t i f i c a ç ã o

do

estado

de

viuvez

é

p r a t i c a m e n t e a m e s m a dos a u t o s de j u s t i f i c a ç ã o do e s t a d o de s o l t e i r o , q u a l seja: - O f í c i o e n c a m i n h a d o ao v i g á r i o g e r a l e j u i z de g ê n e r e e c a s a m e n t o s do J u í z o E c l e s i á s t i c o por p a r t e do j u s t i f i c a n t e p e d i n d o a j u s t i f i c a ç ã o

do

e s t a d o de v i u v e z ; - N o t i f i c a ç ã o do e s c r i v ã o às t e s t e m u n h a s d e p o e n t e s ; - T e r m o de j u r a m e n t o e d e p o i m e n t o das t e s t e m u n h a s

(geralmente

3); T e r m o de d a t a ; T e r m o de v i s t a ; T e r m o de t o r n a ; T e r m o de c o n c l u s ã o .

16

Tais a u t o s t r a z e m i n f o r m a ç õ e s s o b r e os e m o l u m e n t o s c o b r a d o s p e l a I g r e j a na m o n t a g e m do p r o c e s s o de j u s t i f i c a ç ã o de viuvez. I n f o r m a m t a m b é m s o b r e os dados d e m o g r á f i c o s e a c o n d i ç ã o s o c i a l , p r o f i s s ã o dos j u s t i f i c a n t e s e a dos ex-cônjuges. Contêm em média 6 folhas (frente e verso), e o prazo entre inicio e

t é r m i n o de c a d a p r o c e s s o n ã o é s u p e r i o r a três s e m a n a s . Os autos de d i v ó r c i o , b a s t a n t e l o n g o s , e n c o n t r a m - s e na c a i x a n° 11

e c o n t ê m em m é d i a 50 f o l h a s ( f r e n t e e v e r s o ) . A p e n a s três a u t o s

foram

e n c o n t r a d o s para o p e r í o d o q u e n o s i n t e r e s s a : um r e f e r e n t e à d é c a d a de 1850 ( 1 8 5 8 ) e dois à d é c a d a de 1860 ( 1 8 6 4 e 1866). Regra

geral,

os r e q u e r i m e n t o s

de d i v ó r c i o

são

acionados

pelas

m u l h e r e s . Tão r i c a s em d e t a l h e s são as p a r t e s que c o m p õ e m os a u t o s que permitem

se p e r c e b a m

as

relações

famílias. Pelos custos apresentados,

íntimas

e cotidianas

dos

casais

e/ou

r e f e r e n t e s às d e s p e s a s c o b r a d a s

pelo

v i g á r i o geral e p e l o s a d v o g a d o s das p a r t e s , s u b e n t e n d e - s e t r a t a r e m os a u t o s de f a m í l i a s p e r t e n c e n t e s à e l i t e da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . Fonte n o r m a t i z a d o r a da I g r e j a C a t ó l i c a , p r i o r i z a d a a q u i , CONSTITUIÇÕES

Primeiras

do Arcebispado

da Bahia,

são as

d a t a d a s de 1707, em

v i g o r até o f i n a l do i m p é r i o . As C O N S T I T U I Ç Õ E S e x p l i c i t a m o d i s c u r s o da Igreja

Católica

e dispõem

os

instrumentos

de

controle

sobre

múltiplos

a s p e c t o s da v i d a de livres e de e s c r a v o s . D i v i d i d a s em c i n c o l i v r o s , d i s p õ e m no L i v r o n° 1, t í t u l o 62, s o b r e as r e g r a s do s a c r a m e n t o do m a t r i m ô n i o , dos f i n s e e f e i t o s . No t í t u l o 64, t r a t a m das i n s t r u ç õ e s que d e v e r i a m p r e c e d e r ao m a t r i m ô n i o , com a p r e s e n t a ç ã o de c e r t i d õ e s p e l o s c o n t r a e n t e s s o l t e i r o s , a s s i m c o m o da j u s t i f i c a t i v a do ó b i t o do m a r i d o ou da m u l h e r , p e l o s

contraentes

v i ú v o s . N o título 71, t r a t a m do c a s a m e n t o dos e s c r a v o s . No t í t u l o 18, d i s p õ e m a r e s p e i t o dos c r i t é r i o s de n o m e a ç ã o dos p a d r i n h o s q u a n d o do s a c r a m e n t o do b a t i s m o . N o Livro n° 5, t í t u l o s 19, 22 e 2 3 , e n c o n t r a m - s e d i s p o s t a s as r e g r a s a r e s p e i t o do c r i m e

por

adultério

e de c o m o

p e n a l i d a d e s para os c l é r i g o s a m a n c e b a d o s m e s m o livro.

se p r o c e d e r á

contra

ele.

As

são t r a ç a d a s no t í t u l o 5 d e s s e

17

No N ú c l e o de D o c u m e n t a ç ã o e I n f o r m a ç ã o H i s t ó r i c a R e g i o n a l da Universidade

Federal

de

m i c r o f i l m a d o s de j o r n a i s microfilmoteca

Mato

Grosso,

recorremos

locais. A documentação

desse N ú c l e o

refere-se

aos

às

leituras

em

rolos

l e v a n t a d a no a c e r v o

relatórios

da

dos p r e s i d e n t e s

da

p r o v í n c i a e p e r i ó d i c o s da i m p r e n s a l o c a l , da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XIX. As c a r t a s p a s t o r a i s c o n t i d a s nos p e r i ó d i c o s p e r m i t i r a m , no â m b i t o da p r o v í n c i a , que a t e n t á s s e m o s a a s p e c t o s da a t u a ç ã o dos p á r o c o s em r e l a ç ã o aos

fiéis,

com

respeito

aos

emolumentos

paroquiais.

Além

disso,

esses

p e r i ó d i c o s t r a z e m i n f o r m a ç õ e s s o b r e os m i l i t a r e s , c l e r o , a u t o r i d a d e s , e n f i m , sobre

as r e l a ç õ e s

Arquivo Público

travadas do E s t a d o

entre

eles.

de M a t o

Essas

leituras

Grosso,

onde

nos

remeteram

encontramos

ao

maiores

i n f o r m a ç õ e s sobre as f o r ç a s m i l i t a r e s na p r o v í n c i a . A pesquisa

no

Arquivo

Público

de

Mato

b a s i c a m e n t e no l e v a n t a m e n t o de d a d o s r e l a t i v o s à

Grosso

centrou-se

c o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e os

p r e s i d e n t e s da p r o v í n c i a e os c o m a n d a n t e s de c o r p o s , d i s t r i t o s , d e s t a c a m e n t o s m i l i t a r e s e o M i n i s t é r i o da G u e r r a . Essa c o r r e s p o n d ê n c i a é e n c o n t r a d a

t a n t o em l i v r o s q u a n t o em l a t a s

e c a i x a s e p o s s i b i l i t a e s t u d a r o g o v e r n o p r o v i n c i a l em sua o r g a n i z a ç ã o e f o r m a , a t r a v é s do a p a r a t o m i l i t a r . P o s s i b i l i t a t a m b é m p e r c e b e r o a l c a n c e e c o n t r o l e do g o v e r n o s o b r e as f r e g u e s i a s da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , s e j a a t r a v é s do p r o c e s s o de a r r e g i m e n t a ç ã o de h o m e n s p a r a o E x é r c i t o e a G u a r d a N a c i o n a l , s e j a a t r a v é s do c o n t r o l e de d e s p e s a s ou de p e n a l i d a d e s , ou m e s m o de p r o m o ç õ e s , a que os m i l i t a r e s e s t a v a m s u j e i t o s . F o r a m c o n s u l t a d o s os L i v r o s n° s 125, 128, 190 1857 A e 1877 C.

e as L a t a s - 1850 B,

O L i v r o n° 125 t r a t a da c o r r e s p o n d ê n c i a da p r e s i d ê n c i a

com o M i n i s t é r i o da G u e r r a e n t r e os a n o s de 1852 e 1853. O L i v r o n° 128 r e f e r e - s e aos a n o s de 1852 a 1855 e o de n° 190 aos a n o s de 1860 a 1863. E s t e s dois ú l t i m o s t r a t a m da c o r r e s p o n d ê n c i a dos p r e s i d e n t e s da p r o v í n c i a com os c o m a n d a n t e s dos c o r p o s de c a v a l a r i a , i n f a n t a r i a e c a ç a d o r e s , assim c o m o a p r e s e n t a m c o r r e s p o n d ê n c i a da p r e s i d ê n c i a c o m os c o m a n d a n t e s dos

18

distritos e destacamentos militares. Ressalte-se

que

os

livros

apresentam

incompletas, quebradas, enfim, desidratadas.

com

freqüência

folhas

T a m b é m nesse A r q u i v o

seria

n e c e s s á r i o um t r a b a l h o de r e s t a u r a ç ã o e de m i c r o f i l m a g e m dos d o c u m e n t o s , com certa urgência. Por sua v e z , os d o c u m e n t o s c o n t i d o s nas latas e c a i x a s p r e c i s a r i a m ser c a t a l o g a d o s , p o i s se d e s c o n h e c e o q u e e x i s t e d e n t r o de c a d a l a t a , e isso exige do p e s q u i s a d o r u m a g a r i m p a g e m i n c e s s a n t e no p r o c e s s o de s e l e ç ã o da documentação. O n ú c l e o da tese c o n s t i t u i - s e de t r ê s p a r t e s . A p r i m e i r a d e l a s — " A p r o v í n c i a de M a t o Grosso: as v é r t e b r a s da s o c i e d a d e c i v i l " —

encontra-se

d i v i d i d a em q u a t r o c a p í t u l o s . E m " O s m o u r õ e s da f r o n t e i r a o e s t e e o s e n t i d o da

itinerância",

analisamos

a inserção

de

Mato

Grosso

no

contexto

da

c o l o n i z a ç ã o m o d e r n a e u r o p é i a e sua p o s i ç ã o e n q u a n t o a n t e m u r a l da c o l ô n i a b r a s i l e i r a na d e f e s a da f r o n t e i r a o e s t e . T r a t a m o s , itinerância

dos

destacamentos

militares,

ainda,

como

do d u p l o s e n t i d o da

agentes

p o v o a m e n t o e m a n t e n e d o r e s da s e g u r a n ç a . D e s t a c a m o s ,

fixadores

do

igualmente, como o

i n í c i o da G u e r r a do P a r a g u a i a c e n t u a o c a r á t e r i t i n e r a n t e dos

contingentes

masculinos. N o s e g u n d o c a p í t u l o — " O s h o m e n s do r e i " — d e s t a c a m o s c o m o a d e f e s a e o p o v o a m e n t o da c a p i t a n i a f o r a m

viabilizados mediante a montagem

de um a p a r a t o a d m i n i s t r a t i v o e m i l i t a r . R e s s a l t a m o s , a i n d a , as i m p l i c a ç õ e s do r e c r u t a m e n t o e da i t i n e r â n c i a da p o p u l a ç ã o m a s c u l i n a a d u l t a no â m b i t o da v i d a p r i v a d a , v i a b i l i z a n d o a r e d e f i n i ç ã o de p a p é i s e n t r e h o m e n s e m u l h e r e s . No terceiro capítulo

— " S o b o e s t i g m a da d e f e s a das f r o n t e i r a s : da

c a s e r n a aos c a m p o s de b a t a l h a " — e x a m i n a m o s o d i s t a n c i a m e n t o

cultural

e n t r e a c o r t e e a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , b e m c o m o a g r a v i d a d e da s i t u a ç ã o e c o n ô m i c a da p r o v í n c i a , e v i d e n c i a d a

p e l a G u e r r a do P a r a g u a i .

t a m b é m as m a n i f e s t a ç õ e s de s o l i d a r i e d a d e

Indicamos

no p e r í o d o da g u e r r a e n t r e a

19

p o p u l a ç ã o local e os m i l i t a r e s

p r o c e d e n t e s de o u t r a s p r o v í n c i a s .

D e n o m i n a m o s o q u a r t o c a p í t u l o — " D e v o l t a ao c o m e ç o " , e n e l e examinamos a gradual recuperação

e c o n ô m i c a da p r o v í n c i a , v i a b i l i z a d a a

partir

e da r e a b e r t u r a

do f i n a l

Paraguai.

do c o n f l i t o

Evidenciamos

bélico

o movimento

de

da n a v e g a ç ã o

recuperação

do

demográfica

rio

como

r e s u l t a n t e m e n o s da c h e g a d a de e s t r a n g e i r o s do q u e de m i g r a n t e s de o u t r a s p r o v í n c i a s b r a s i l e i r a s e do c r e s c i m e n t o v e g e t a t i v o . A s e g u n d a p a r t e da t e s e — " P a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á : a c i r c u n s c r i ç ã o do o b j e t o " —

estrutura-se em dois capítulos. No primeiro —

"O t e m a da i l e g i t i m i d a d e e os r e g i s t r o s p a r o q u i a i s " — l o c a l i z a m o s o o b j e t o na

produção

historiográfica

nacional

e

estrangeira

e

apresentamos

um

t r a b a l h o de c r í t i c a das f o n t e s em r e l a ç ã o ao e s t a d o e c o n t e ú d o dos r e g i s t r o s paroquiais.

Apresentamos,

ainda,

os

padrões

de

registro

de

batismo

e n c o n t r a d o s n a s atas r e f e r e n t e s aos f i l h o s l e g í t i m o s , n a t u r a i s ou i l e g í t i m o s , legitimados, expostos e indígenas. No

segundo

sub-título



"O

d i s c u t i m o s a p e r s p e c t i v a d a d a p e l a Escola demográficas,

permitindo

chegar

aos

componente

demográfico"

dos

c o m as

sistemas

Annales

demográficos



pesquisas europeus.

R e m e t e m o s as p r o p o s t a s ao e s t u d o das p o p u l a ç õ e s do p a s s a d o b r a s i l e i r o , na tentativa

de

uma

aproximação

em

relação

aos

padrões

demográficos

da

p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , a p a r t i r de v a r i á v e i s c o m o s e x o , r a ç a , e s t a d o civil, a t i v i d a d e s (pardos)

e caboclos,

produtivas

contidas

nos

dos h o m e n s

brancos,

recenseamentos

de

negros, 1872

e

mestiços de

1890,

r e l a t i v o s à p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o . P o r f i m , a t e r c e i r a p a r t e — " A r e m i s s ã o do p e c a d o " ,

apresenta-se

c o m p o s t a de t r ê s c a p í t u l o s . N o p r i m e i r o — " O p r i n c í p i o da f r o n t e i r a e a f r o n t e i r a dos p r i n c í p i o s " — a n a l i s a m o s c o m o as e s p e c i f i c i d a d e s h i s t ó r i c a s da província

de

Mato

Grosso

viabilizaram

a

reprodução

da

bastardía

no

c o n t i n g e n t e m a i s a m p l o da p o p u l a ç ã o , e x t r a p o l a n d o a p o p u l a ç ã o e s c r a v a e instalando-se

entre

a

população

livre,

tanto

pobre

como

da

elite.

20

E x a m i n a m o s , a i n d a , o nivel de a c e i t a ç ã o dos f i l h o s i l e g í t i m o s nas f a m í l i a s c u i a b a n a s , em s u a s mais v a r i a d a s

performances.

Ao l o n g o do s e g u n d o c a p í t u l o — " E r r a n t e s e a v e n t u r e i r o s : o s e n t i d o do m a t r i m ô n i o e os t r a t o s i l í c i t o s " — f o c a l i z a m o s os tratos i l í c i t o s

como

e s p a ç o s em q u e se i n s e r i a m as u n i õ e s c o n s e n s u a i s e s t á v e i s em c o n f r o n t o c o m a moral da I g r e j a C a t ó l i c a , u n i õ e s e s s a s r e v e s t i d a s , p o r é m , de l e g i t i m i d a d e social. A n a l i s a m o s o s e n t i d o do m a t r i m ô n i o e d o s t r a t o s i l í c i t o s , a p a r t i r de e x e m p l o s a l o c a d o s em f o n t e s p a r o q u i a i s — os a u t o s de j u s t i f i c a ç ã o de v i u v e z e de c a s a m e n t o — , i n d i c a d o r e s de q u e c o n c u b i n a t o e i l e g i t i m i d a d e e r a m f a c e s de u m a só m o e d a . No

terceiro

capítulo



"Mulheres

de

Jesus

no

universo

dos

i l e g í t i m o s " — d e d i c a m o - n o s ao e s t u d o das m ã e s das c r i a n ç a s i l e g í t i m a s na p a r ó q u i a S e n h o r Bom J e s u s de C u i a b á , l e v a n d o em c o n t a sua c o n d i ç ã o s o c i a l , práticas

e ofícios

por

elas

desenvolvidos

no

cotidiano.

Averiguamos

a

p o s s i b i l i d a d e de as m ã e s dos i l e g í t i m o s s e r e m r e i n c i d e n t e s e as e s t r a t é g i a s por elas d e s e n v o l v i d a s para dar c o n t a da p r o l e . N o s s o f o c o de a n á l i s e c e n t r a d o nas m u l h e r e s que n ã o l e v a v a m

s o b r e n o m e de f a m í l i a , m a s ,

foi sim,

n o m e s e v o c a t i v o s de s a n t o s ou de s i t u a ç õ e s de v i d a , em c o n t r a p o n t o à p a r c e l a de m u l h e r e s d e s i g n a d a s c o m o Donas.

N o â m b i t o da s o c i a b i l i d a d e , f o r a m alvo

de n o s s a s a t e n ç õ e s as r e l a ç õ e s s o c i a i s d e c o r r e n t e s do p a r e n t e s c o de m o d o a v i s l u m b r a r m o s

estratégias

i n s i n u a v a m em e s p a ç o s s o c i a i s m a i s

espiritual,

r e s t r i t a s à v i d a p r i v a d a e que se

fluidos.

D ú v i d a s , h e s i t a ç õ e s , l a c u n a s , f o r a m a l g u n s dos m ú l t i p l o s d e s a f i o s que e n f r e n t a m o s ao longo da e l a b o r a ç ã o d e s t a t e s e . A f i n a l , ela r e s u l t a da i n s i s t ê n c i a de p r o p ó s i t o em p e r s c r u t a r a s p e c t o s da v i d a p r i v a d a , em d e s v e n d a r conflitos e tensões,

práticas e estratégias

amplo. E q u í v o c o s e i m p r o p r i e d a d e s

c e r z i d a s no t e c i d o s o c i a l

pela opção teórico/metodológica

mais para

a b o r d a g e m do o b j e t o da p e s q u i s a d e v e m ser d e b i t a d o s e x c l u s i v a m e n t e a nós. A sedução

p e l o e s t u d o da c o n s t r u ç ã o da v i d a p r i v a d a p e r c o r r e u c o n o s c o as

t r a j e t ó r i a s da p e s q u i s a . M u i t a s v e z e s e m t r i l h a s p r i n c i p a i s , o u t r a s v e z e s em

2 1

r a i a s p a r a l e l a s ou a a b r i r - n o s a t a l h o s . A p o s s i b i l i d a d e de a p r o p r i a ç ã o do t e m a da i l e g i t i m i d a d e e n q u a n t o e l e m e n t o c a p a z de p r e c i s a r as f r o n t e i r a s e n t r e a v i d a p ú b l i c a e a p r i v a d a , aos p o u c o s f o i t r a n s m u t a n d o s e d u ç ã o em o b s e s s ã o . D e i x e m o s , p o r t a n t o , a s o l e i r a do p r i v a d o . A d e n t r e m o s .

PARTE I

A PROVÍNCIA DE MATO

GROSSO:

AS VÉRTEBRAS DA SOCIEDADE CIVIL

A vida material engole o novo e o reproduz como algo comum e corrente Robert Blair St. George

1.1

OS

MOURÕES

DA

FRONTEIRA

OESTE

E

O

SENTIDO

DA

ITINERÂNCIA

A c o n t e x t u a l i z a ç ã o h i s t ó r i c a de n o s s o o b j e t o de e s t u d o , a t r a v é s de um f o c o m a i s a m p l i a d o , r e p o r t a - n o s às l i n h a s g e r a i s n o r t e a d o r a s do p r o c e s s o de o c u p a ç ã o e c o l o n i z a ç ã o de M a t o G r o s s o , em p a r t i c u l a r a p a r t i r da sua constituição enquanto capitania. A e x p a n s ã o g e o g r á f i c a r u m o à r e g i ã o c e n t r a l i n s e r e - s e no q u a d r o das p r e t e n s õ e s g e o p o l í t i c a s p o r t u g u e s a s , o r i e n t a d a s p e l o a l a r g a m e n t o e d e f e s a d a s f r o n t e i r a s , c o n t r a os e s p a n h ó i s .

A o b j e t i v a ç ã o d e s s e s p r o p ó s i t o s se dá em

m e a d o s do s é c u l o X V I I I e e m e r g e do d e b a t e l u s o - e s p a n h o l a c e r c a d o s l i m i t e s das r e s p e c t i v a s á r e a s u l t r a m a r i n a s na A m é r i c a . As d i s p o s i ç õ e s d o s T r a t a d o s de M a d r i e de S a n t o I l d e f o n s o

deslocaram o alvo dos planos expansionistas

p o r t u g u e s e s p a r a as f r o n t e i r a s o e s t e e a m a z ô n i c a , n e m s e q u e r

contempladas

p e l o t r a t a d o de U t r e c h t . A d e s p e i t o d i s s o , a a ç ã o de m i n e r a d o r e s , p r e a d o r e s e sertanistas,

através

da

descoberta

do

ouro

e

de

seu

poder

catalisador,

i m p r i m i r a m a r c a s e s p e c í f i c a s na c o n q u i s t a e p o v o a m e n t o do s e r t ã o de M a t o G r o s s o a p a r t i r da s e g u n d a d é c a d a d a q u e l e s é c u l o . E n t r e os a n o s de 1718 e 1734, as d e s c o b e r t a s a u r í f e r a s na B a i x a d a C u i a b a n a e no v a l e do G u a p o r é 1 2 lançaram

as

bases

para

a

posse

e

ocupação

da

região

mato-grossense.

C o n t u d o , a p r e o c u p a ç ã o e f e t i v a com a f r o n t e i r a o e s t e c o n s u b s t a n c i o u - s e na c r i a ç ã o das c a p i t a n i a s de M a t o G r o s s o e G o i á s , 1 3 c u n h a da a m b i ç ã o alavancada

em

uma área

nevrálgica

dos domínios

coloniais

ibéricos

lusa da

América.

12

Em 1718, Pascoal Moreira Cabral, seguindo os caminhos trilhados por Antônio Pires de Campos, descobriu ouro no rio Coxipó-Mirim. Miguel Sutil, por sua vez, descobriu as minas do ouro Senhor Bom Jesus de Cuiabá, no ano de 1719. Os irmãos Pais Leme descobriram no vale do Guaporé, em 1732. 13 As capitanias de Mato Grosso e Goiás, criadas em de 1748, foram desmembradas de São Paulo.

24

A g a r a n t i a da p o s s e foi v i a b i l i z a d a a t r a v é s de m e d i d a s q u e v i s a v a m criar estabelecimentos

de o c u p a ç ã o ,

com

caráter,

inicialmente,

militar

e,

p o s t e r i o r m e n t e , de p o v o a m e n t o . A c r i a ç ã o da c a p i t a n i a de M a t o G r o s s o i n s e r e - s e no â m b i t o

das

m e d i d a s de c a r á t e r m i l i t a r para i m p e d i r o a v a n ç o d o s e s p a n h ó i s s o b r e o v a l e do G u a p o r é .

Essas

medidas

diziam

respeito

à montagem

de

um

aparato

a d m i n i s t r a t i v o e m i l i t a r , e s t r u t u r a d o a p a r t i r da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XVIII. D e n t r e as m e d i d a s q u e d e v e r i a m ser t o m a d a s por D. A n t ô n i o R o l i m de M o u r a , p r i m e i r o g o v e r n a d o r e e m p o s s a d o em 1751, e s t a v a m a de f u n d a r a capital

de

Mato

Grosso,

estabelecer

privilégios

e

isenções

fiscais

para

m o r a d o r e s e c o l o n o s , i n c e n t i v a r a c r i a ç ã o de g a d o v a c u m e c a v a l a r e f u n d a r a l d e i a s a d m i n i s t r a d a s p a r a os í n d i o s m a n s o s . S o m a d a a e s s a s , e s t a v a a de criar

uma

Companhia

de

Dragões.

Por

tal

razão,

trazia

instruções

para

p r o m o v e r o a l i s t a m e n t o em o r d e n a n ç a d o s h o m e n s da c a p i t a n i a , no s e n t i d o de mantê-los

executados

e

disciplinados.

O v a l e do G u a p o r é a b r i g o u a a n t i g a c a p i t a l de M a t o G r o s s o — V i l a B e l a da S a n t í s s i m a T r i n d a d e — e s t a b e l e c i d a no s í t i o de P o u s o A l e g r e , em 1752, e a s s i s t i u , a p a r t i r de e n t ã o ,

a u m a p o l í t i c a de p o v o a m e n t o

mais

e f e t i v a . 1 4 A s s i m , o a r r a i a l S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , f u n d a d o em 1719 em decorrência

da d e s c o b e r t a

das

lavras

de

Sutil,

e a capital,

passaram

c o n s t i t u i r os p r i n c i p a i s n ú c l e o s de p o v o a m e n t o da c a p i t a n i a . A converteu-se

na

principal

atividade

econômica

no

decorrer

a

mineração do

século,

a t r a i n d o e f o r j a n d o u m a p o p u l a ç ã o v o l t a d a à e x t r a ç ã o do o u r o e d i a m a n t e s . C o m as d e s c o b e r t a s do o u r o em M a t o G r o s s o e G o i á s , no d e c o r r e r do

século

XVIII,

população

da

14

acentua-se

colônia,

no

a

modificação

sentido

do

da

litoral

distribuição em

direção

espacial ao

da

interior,

Vila Bela da Santíssima Trindade, diferentemente de outras localidades de Mato Grosso, no século XVIII, foi construída obedecendo a um plano prévio traçado nas instruções régias recebidas pelo capitãogeneral Antônio Rolim de Moura.

25

impulsionada

desde

as d e s c o b e r t a s

em M i n a s

anterior. A p o p u l a ç ã o b r a s i l e i r a q u e , e m a u m e n t o u m a i s de 13 vezes n u m

G e r a i s , no f i n a l do

1660, e r a de 184.000

p e r í o d o de c e m a n o s ,

século

habitantes,

motivada pela corrida

ao o u r o . b As i n s t r u ç õ e s n o r t e a d o r a s da a ç ã o de A n t ô n i o R o l i m de M o u r a e dos a d m i n i s t r a d o r e s s u b s e q ü e n t e s c o n t i n h a m o p r o p ó s i t o de

dotar a c a p i t a n i a de

um a p a r a t o c i v i l , m i l i t a r e e c l e s i á s t i c o , q u e r no v a l e do G u a p o r é , ao n o r t e de M a t o G r o s s o , q u e r no e x t r e m o sul. H o m e n s de c o n f i a n ç a , 1 6 com h a b i l i d a d e s a d m i n i s t r a t i v a e m i l i t a r , v i n d o s de P o r t u g a l , f o r a m a s s e n t a d o s nas linhas fronteira, visando assegurar a ocupação

e c o n s o l i d a ç ã o do d o m í n i o

de luso.

P a s s a r a m , e n t ã o , a ser r e s p o n s á v e i s p e l a d e f e s a e p e l a p o l í t i c a de p o v o a m e n t o da c a p i t a n i a . E s s e s h o m e n s v i e r a m a c o n s t i t u i r a c l a s s e d o m i n a n t e e c o m p o r o p o d e r local. Ao l o n g o da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X V I I I , f o r a m

construídas

v á r i a s f o r t i f i c a ç õ e s e n ú c l e o s de p o v o a m e n t o na c a p i t a n i a . A r e g i ã o do v a l e do G u a p o r é p a s s o u a ser g u a r n e c i d a , a p a r t i r de tropa

de

1760,

por

um

corpo

de

200 d r a g õ e s , a l o j a d o s na F o r t a l e z a N o s s a S e n h o r a da C o n c e i ç ã o ,

p o s t e r i o r m e n t e d e n o m i n a d a F o r t e de B r a g a n ç a . A n o s d e p o i s , o d e s t a c a m e n t o militar

do

Forte

Príncipe

da B e i r a , c o n s t r u í d o e m 1776, à m a r g e m d i r e i t a

do rio G u a p o r é , iria r e s p o n s a b i l i z a r - s e

p e l a d e f e s a ao norte da

capitania.

Além dos m o t i v o s e s t r a t é g i c o s j á m e n c i o n a d o s , o F o r t e P r í n c i p e da B e i r a d e v e r i a servir t a m b é m c o m o i n s t r u m e n t o a g l u t i n a d o r das p o p u l a ç õ e s b r a n c a , n e g r a e i n d í g e n a . 1 7 D e v e r i a , a i n d a , s e r v i r de p o n t o de a p o i o e v i a b i l i z a r o

15

MARCÍLIO, Maria Luiza. Crescimento histórico da população brasileira até 1872. Cadernos CEBRAP. Crescimento populacional (histórico e atual) e componentes do crescimento (fecundidade e migrações). São Paulo, n° 16, 1973. p. 10. 16

O capitão-general Luís Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, por exemplo, expressaria a tenacidade e habilidade administrativa dos governadores da capitania de Mato Grosso. Em seu governo, foram edificadas as grandes fortificações, com o fito de impedir a sonegação de impostos de ouro, ataques indígenas e frentes de penetração espanhola. Era nobre da alta estirpe - Décimo Senhor de Morgado do Casal Vasco, Nono Senhor de Morgado dos Melo e Lousã, Quinto Senhor de Insua e de Espinchel. 17

MEIRELES, Denise Maldi. Guardiães da fronteira: rio Guaporé, século XVIII. Petrópolis : Vozes, 1989. p. 186.

26

abastecimento Grão-Pará

da r e g i ã o , por i n t e r m é d i o da C o m p a n h i a

e Maranhão,

cujos

comboios

percorreriam

de N a v e g a ç ã o os

rios

do

Amazonas,

Madeira e Guaporé. A

região

do

extremo

sul,

concomitantemente,

mostrava-se

i n t e r e s s a n t e à C o r o a p o r t u g u e s a sob d o i s a s p e c t o s : p e l a s r i q u e z a s

naturais,

por c o m p r e e n d e r os p a n t a n a i s do rio P a r a g u a i e por r a z õ e s e s t r a t é g i c a s , p e l o r e c e i o de q u e , a t r a v é s da b a c i a do P a r a g u a i , os e s p a n h ó i s a t i n g i s s e m o v a l e do

Guaporé.

Além

disso,

era

uma

região

intensamente

habitada

por

p o p u l a ç õ e s i n d í g e n a s , r e s i s t e n t e s à p r e s e n ç a do h o m e m b r a n c o . D e s s e m o d o , no e x t r e m o sul da c a p i t a n i a , a o c u p a ç ã o e p o v o a m e n t o f o r a m r e s u l t a n t e s , i n i c i a l m e n t e , da c o n s t r u ç ã o do F o r t e de C o i m b r a e dos p o v o a d o s de A l b u q u e r q u e ( C o r u m b á ) e V i l a M a r i a ( C á c e r e s ) , f u n d a d o s e n t r e 1775

e

1778,

por

ordem

do

então

governador,

capitão-general

Luís

A l b u q u e r q u e de M e l o P e r e i r a e C á c e r e s . E s s a s p o v o a ç õ e s , f u n d a d a s à m a r g e m direita

do

portuguesa. missão

rio

Paraguai,

permitiram

fortificar

as

O F o r t e de C o i m b r a , 1 8 i n c l u s i v e ,

de v e l a r

pela

fronteira,

mas

frentes

deveria

também

de

de

penetração

cumprir

resistência

não só a

aos

ataques

i n d í g e n a s na d é c a d a de 1790. E s p e c i f i c a m e n t e , no a n o de 1797, a i n d a c o m a preocupação

de

fortalecer

a

fronteira

sul

como

medida

para

prevenir

p o s s í v e i s i n v a s õ e s c a s t e l h a n a s , f o i f u n d a d o o p r e s í d i o m i l i t a r de M i r a n d a , r e g i ã o h a b i t a d a p e l o s í n d i o s T e r e n a , às m a r g e n s do rio Apa. A p o l í t i c a de p o v o a m e n t o , c o n f o r m e p r e c o n i z a v a A n t ô n i o R o l i m de M o u r a , por meio de casais Catarina

e Rio

Grande,19

de Ilhéus, foi

como

apenas

em

estava

sendo

praticada

parte

efetivada.

em

Santa

A defesa e o

p o v o a m e n t o , c o n t u d o , f o r a m g a r a n t i d o s p e l a e n t r a d a de h o m e n s v i n d o s da m e t r ó p o l e p a r a o c u p a r p o s t o s a d m i n i s t r a t i v o s , m i l i t a r e s e e c l e s i á s t i c o s , e por

18

O Forte de Coimbra foi fundado em 1775, entre dois morros, e por isso a região ficou conhecida por Fecho dos Morros. 19

MELGAÇO, Barão de. Apontamentos chronológicos da província de Mato Grosso. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v. 205, out./dez., 1949. p. 243.

27

u m a i m e n s a g a m a de a v e n t u r e i r o s , em b u s c a de ouro. F o s s e m comerciantes

ou

preadores

de

índios,

esses

homens,

mineradores,

vindos

através

de

c o m b o i o s e m o n ç õ e s , o b j e t i v a r a m o e n r i q u e c i m e n t o r á p i d o . P o r isso m e s m o , não se f a z i a m a c o m p a n h a r das r e s p e c t i v a s f a m í l i a s . A f i x a ç ã o d e s s e s h o m e n s na c a p i t a n i a d e c o r r i a das

intermitentes

d e s c o b e r t a s dos veios a u r í f e r o s e do a p r o v e i t a m e n t o dos p o n t o s de p a s s a g e m das rotas das minas. N e s s e s e n t i d o , o d e s e q u i l í b r i o entre os s e x o s , em f a v o r do m a s c u l i n o , d u r a n t e t o d o o s é c u l o X V I I I , c o n s t i t u i u - s e em t r a ç o m a r c a n t e das r e g i õ e s m i n e r a d o r a s e, em p a r t i c u l a r , de M a t o G r o s s o e de G o i á s .

Este desequilíbrio, embora seja evidente entre a população livre, é mais acentuado na parcela escrava da população, cujas razões não são difíceis de serem compreendidas. Na verdade, é a escravatura, presente em maior proporção no trabalho das minas que determina tão acentuada diferença; aí encontramos para cada 100 mulheres, 164 homens em Mato Grosso e Goiás e 138 em Minas Gerais.20 O p e r c u r s o n o r m a l , por via f l u v i a l , 2 1 e n t r e P o r t o F e l i z , no rio T i e t ê , e C u i a b á d e m a n d a v a , d e s s e s h o m e n s , c e r c a de c e n t o e o i t e n t a dias. O m e s m o t e m p o era e x i g i d o , em r a z ã o da d i s t â n c i a , p a r a a q u e l e s que f a z i a m o r o t e i r o i n v e r s o , c o m o os c o m e r c i a n t e s de a l i m e n t o s e m e r c a d o r e s de e s c r a v o s . As monções

que d e s c i a m

Lourenço

até

atingir

os r i o s P a r a n á ,

Miranda,

o

segundo

rio

Cuiabá,

Taquari, relatos

Paraguai

de

e

coevos,

São eram

f r e q ü e n t e m e n t e a t a c a d a s por a n i m a i s s e l v a g e n s e índios. As traziam

expedições

ainda

animais,

de

povoamento,

além

dos

além

respectivos

de

alimentos

proprietários.

e

escravos,

Apesar

dos

o b s t á c u l o s d e c o r r e n t e s das g r a n d e s d i s t â n c i a s e d o s i n ú m e r o s p e r i g o s , c o m o c a c h o e i r a s que v i r a v a m as e m b a r c a ç õ e s , i n c l u s i v e m u i t a s v e z e s m a t a n d o seus

20 21

MARCÍLIO, Maria Luiza. op. cit., p. 22.

Esse era apenas um dos caminhos utilizados pelas expedições monçoeiras, pois, a partir do rio Paraná, podiam percorrer outras rotas fluviais como, por exemplo, rio Pardo até o Porto do Sanguessuga, seguindo depois o Camapuã, afluente do Coxim, até passar pelos rios Taquari, Paraguai e, finalmente, o Cuiabá. (BRUNO, Ernani Silva. História do Brasil: geral e regional. Grande oeste. v. VI. São Paulo : Cultrix, 1967. p. 41).

28

o c u p a n t e s , a o c u p a ç ã o foi e f e t i v a d a e a d e f e s a m a n t e v e - s e c o m o p r i o r i t á r i a . P o r isso m e s m o , nas e x p e d i ç õ e s de g u e r r a recebiam

patentes

e títulos.

Essa

c o n t r a os í n d i o s , os e n c a r r e g a d o s

ocupação

e essa

defesa

do

território

o c o r r e r a m , p o d e - s e dizer, na m e d i d a m e s m a em que a p o p u l a ç ã o e s c r a v a f o i e n t r a n h a d a na c a p i t a n i a . Entre

os

anos

de

1720

e

1772,

teriam

entrado

na

capitania,

p r o c e d e n t e s do n o r t e e sul da c o l ô n i a , um t o t a l de 15.380 e s c r a v o s , 2 2 s e n d o que, destes, 70% entraram nos trinta primeiros anos, coincidindo com descobertas auríferas e

a i n s t a l a ç ã o do a p a r a t o p o l í t i c o - b u r o c r á t i c o .

das a t i v i d a d e s d e s e n v o l v i d a s n a s m i n a s , os n e g r o s f o r a m e m p r e g a d o s

as

Além nos

s e t o r e s a g r í c o l a e de c o n s t r u ç ã o . As f u g a s de e s c r a v o s de M a t o G r o s s o , f a v o r e c i d a s p e l a p r o x i m i d a d e c o m as t e r r a s e s p a n h o l a s , l e v a v a m a q u e , por v e z e s , p o r t u g u e s e s e e s p a n h ó i s promovessem

a mútua devolução

de í n d i o s

e escravos

africanos. 2 " 1 N e s s e

s e n t i d o , a f i r m e - s e , m a i s u m a vez, f a t o r e s c o m o d i s t â n c i a , p e r i g o s , f u g a s de e s c r a v o s e d i f i c u l d a d e s em a t r a i r c a s a i s p a r a a c a p i t a n i a i n c e n t i v a r a m a q u e os

governadores

implementassem

uma

política

de

incorporação

das

populações indígenas. A política populacional, portuguesa

i n s e r i d a no â m b i t o da p o l í t i c a

colonial

de g a r a n t i a de f r o n t e i r a , c o n s i s t i a em f u n d a ç õ e s de a l d e i a s

incorporação incorporação,

de

índios

realizada

fugitivos

das

missões

jesuítas

espanholas.

e

Essa

na g a r a n t i a da e f e t i v a ç ã o do p o v o a m e n t o nas f a i x a s

de f r o n t e i r a , d e u - s e , p r i o r i t a r i a m e n t e , a t r a v é s da d i v e r s i f i c a ç ã o das a t i v i d a d e s econômicas

e m e d i a n t e os c a s a m e n t o s e / o u u n i õ e s d a q u e l e s c o m

homens

b r a n c o s e m e s t i ç o s ou com n e g r o s e s c r a v o s .

22

ASSIS, Edvaldo de. Contribuição para o estudo do negro em Mato Grosso. Cuiabá : PROED/UFMT, 1988. p. 40. 23

VOLPATO, Luiza Rios Ricci. A conquista da terra no universo da pobreza - formação da fronteira oeste do Brasil: 1719-1819. São Paulo : Hucitec, 1987. p. 73.

29

Em

outras

palavras,

a

incorporação

das

populações

nativas

i n t e r e s s a v a ao E s t a d o p o r t u g u ê s na m e d i d a em q u e p e r m i t i a a s s e g u r a r a p o s s e das f r o n t e i r a s e p r e e n c h e r os c h a m a d o s p r e e n c h i m e n t o d e s s e s vazios

vazios

demográficos

territoriais.

O

i m p l i c a v a , por sua vez, o a u m e n t o da p o p u l a ç ã o ,

o b t i d o a t r a v é s do i n c e n t i v o aos c a s a m e n t o s i n t e r é t n i c o s . Os f i l h o s de n a t i v o s com b r a n c o s e c o m n e g r o s , os caborés

ou m u l a t o s , ou s e j a , os m e s t i ç o s , e r a m

considerados elementos aptos e com melhores condições para o trabalho e e n f r e n t a m e n t o de d o e n ç a s t r o p i c a i s . Uma

outra

vertente

dessa

política

residia

na

incorporação

dos

índios f u g i t i v o s . E s t a s i g n i f i c a v a , por p a r t e da C o r o a p o r t u g u e s a , e s v a z i a r a p o p u l a ç ã o n a t i v a a l d e a d a na f r o n t e i r a e s p a n h o l a , a s s i m c o m o

aproveitar

nas

a l d e i a s o que t i n h a m a p r e n d i d o c o m os v i z i n h o s e s p a n h ó i s . Com a f u n d a ç ã o de a l d e i a s d u r a n t e a s e g u n d a m e t a d e do

século

X V I I I , a m e t r ó p o l e v i s a v a a t i n g i r p r i o r i t a r i a m e n t e os o b j e t i v o s de p r o t e g e r as t e r r a s c o n q u i s t a d a s e em d i s p u t a , c o m a e f e t i v a ç ã o do p o v o a m e n t o , c o m o t r a n s f o r m a r as a l d e i a s em

pontos

de abastecimento

assim

de v í v e r e s p a r a a

p o p u l a ç ã o dos f o r t e s e v i l a s . 2 4 A i n c o r p o r a ç ã o da p o p u l a ç ã o n a t i v a se f e z a i n d a em r e l a ç ã o à c o m p o s i ç ã o das m i l í c i a s . P o r c a r t a i n s t r u t i v a de a g o s t o de 1771, o c a p i t ã o - g e n e r a l Luís de A l b u q u e r q u e r e c e b i a i n s t r u ç õ e s de os índios

Bororós Interessa

nativa

em

Mato

em um corpo destacar Grosso,

de milícia

à maneira

que a política como

em

toda

dos Sipais

de i n c o r p o r a ç ã o a

colônia,

organizar

da

índia.

da

população

ocorreu

de

forma

p e r m a n e n t e , c o m a a n u ê n c i a da I g r e j a C a t ó l i c a , d i s t r i b u i ç ã o dos s a c r a m e n t o s do m a t r i m ô n i o e do b a t i s m o , s e j a em r e l a ç ã o aos a l d e a m e n t o s .

24

Dentro desses propósitos é que foram criadas as aldeias de Lamego e Loemil, no vale do Guaporé, com os índios Moré e Mequén em 1762 e 1769, respectivamente. O aldeamento de Chapada dos Guimarães, fundado no distrito de Cuiabá, e dos arraiais de Amarante e Santo Antônio, do rio das Mortes, foi realizado com os índios Araés. 25

MELGAÇO, Barão de. op. cit., p. 270.

30

N e s s e s e n t i d o , a i n c o r p o r a ç ã o das p o p u l a ç õ e s i n d í g e n a s , s o m a d a à introdução

de

escravos

como

suporte

para

as

atividades

econômicas

e s s e n c i a i s , e à p r e s e n ç a do e l e m e n t o b r a n c o , p e r m i t i u que a m e s t i ç a g e m f o s s e a c a r a c t e r í s t i c a m a r c a n t e da p o p u l a ç ã o m a t o - g r o s s e n s e no c o n t e x t o de sua f o r m a ç ã o . A p r e s e n ç a p o u c o e x p r e s s i v a de m u l h e r e s b r a n c a s , tanto do r e i n o q u a n t o de o u t r a s r e g i õ e s da c o l ô n i a , foi m u l h e r e s n e g r a s e i n d í g e n a s no p r o c e s s o de mato-grossense.

Homens

brancos

geraram

gestação filhos

provenientes

substituída

por

da p o p u l a ç ã o m e s t i ç a

com

negras

(escravas

e

f o r r a s ) e í n d i a s . E s s a f u s ã o i n t e r é t n i c a e x p l i c a r i a a c o m p o s i ç ã o da p o p u l a ç ã o mato-grossense

no

século

XVIII,

caracterizada

pela

mestiçagem

e

pela

p r e s e n ç a n u m é r i c a p o u c o e x p r e s s i v a do e l e m e n t o b r a n c o , t a n t o da p o p u l a ç ã o masculina

como

da

feminina.

A

esse

respeito,

observemos

o

quadro

apresentado a seguir.

Q U A D R O N° 1 M A P A P O P U L A C I O N A L DE M A T O G R O S S O - 1771 Homens

Mulheres

Total

%

Brancos

1230

1003

2233

18,36

índios e mestiços

1177

1160

2337

19,22

Pardos e pretos forros

0520

0496

1016

08,35

Pardos e pretos cativos

5277

1296

6573

54,07

Total

8204

3959

12159

100,00

P o p u l a ç ã o

FONTE:

SILVA, Jovam Vile a da. Mistura de cores: política de povoamento p o p u l a ç ã o na capitania de Mato Grosso, s é c u l o XVIII. Cuiabá : Editora d a U F M T , 1995, p. 21.

Em 1771, e n q u a n t o os b r a n c o s s o m a v a m 1 8 , 3 6 % , índios e m e s t i ç o s , pardos e pretos forros, assim como pardos e pretos cativos, 8 1 , 6 4 % no c o n j u n t o da p o p u l a ç ã o da c a p i t a n i a de M a t o Grosso.

representavam

3 1

O m a p a p o p u l a c i o n a l r e f e r e n t e ao ano de 1771 é i l u s t r a t i v o da f o r t e p r e s e n ç a de m e s t i ç o s na p o p u l a ç ã o de M a t o G r o s s o e p e r m i t e t a m b é m que se perceba similitude

com c o n t i n g e n t e s de o u t r a s r e g i õ e s m i n e r a d o r a s . 2 6

A relação entre a atividade mineradora e a dinâmica

populacional

t o r n a - s e m a i s e s t r e i t a a p a r t i r da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X V I I I , q u a n d o as d e s c o b e r t a s a u r í f e r a s na c a p i t a n i a j á n ã o c o n s e g u i a m e q u i p a r a r - s e , em t e r m o s de p r o d u ç ã o , com as l a v r a s de o u t r a s r e g i õ e s m i n e r a d o r a s .

Enquanto

em

G o i á s , por e x e m p l o , as m é d i a s a n u a i s e x t r a í d a s em q u i l o s de ouro e r a m de 159.400, em M a t o G r o s s o n ã o a t i n g i a m a m e t a d e d e s s a p r o d u ç ã o , ou s e j a , u m a m é d i a de 6 0 . 0 0 0 q u i l o s , e n t r e os a n o s de 1721 a 1799. 2 7 E m M a t o G r o s s o , a a t i v i d a d e m i n e r a d o r a r e p r o d u z i u os m o l d e s de e x p l o r a ç ã o i m p r e s s o s no r e s t a n t e do B r a s i l c o l o n i a l . A e x p l o r a ç ã o do ouro de a l u v i ã o , a t r a v é s de t é c n i c a s r u d i m e n t a r e s e de p r o c e s s o s r o t i n e i r o s , i m p e d i u o trabalho

de

abandono

aproveitamento

das

lavras

e

o

das

rochas

matrizes.

deslocamento

da

Conseqüentemente,

população

o

provocavam

o

agudizaram-se

e

e s v a z i a m e n t o de v i l a s a q u i e a c r i a ç ã o de o u t r a s a c o l á . As

dificuldades

do

viver

na

fronteira

oeste

f i z e r a m - s e s e n t i r em t o d o s os s e g m e n t o s da p o p u l a ç ã o . O o u r o , c o m o ú n i c o p r o d u t o de e x p o r t a ç ã o , h a v i a p e r m i t i d o , até e n t ã o , a d i n a m i z a ç ã o do c o m é r c i o i n t e r n o e a i m p o r t a ç ã o de bens. A v i d a dos h a b i t a n t e s t o r n o u - s e a i n d a m a i s d i f í c i l d i a n t e da q u e d a do p o d e r de c o m p r a e da a l t a n o s p r e ç o s dos p r o d u t o s i m p o r t a d o s e a c o n s e q ü e n t e c a r ê n c i a de a l i m e n t o s . A s o l u ç ã o c o n s i s t i u na d i v e r s i f i c a ç ã o das a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s :

a g r i c u l t u r a , c r i a ç ã o de gado e

e x t r a t i v i s m o . A v a l o r i z a ç ã o d e s s a s a t i v i d a d e s e n c o n t r a v a - s e em c o n s o n â n c i a

26

Na Bahia, por exemplo, em 1775, os brancos somavam 36%, os mulatos e negros livres e, por sua vez, os negros e mulatos escravos, 63,8%. Em Minas Gerais, em 1776, mestiços e negros igualmente perfaziam mais da metade da população, ou seja, 77,09% enquanto os brancos, apenas 12%. (SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII. 2. ed. Rio de laneiro : Graal, 1986. p. 141). 27

BERTRAN, Paulo. Uma introdução à história econômica do Centro-Oeste do Brasil. Brasília : CODEPLAN/UCG, 1988. p. 31.

32

c o m a t e n d ê n c i a a s s i n a l a d a no B r a s i l , e m f i n s do s é c u l o XVIII. N e m m e s m o as m e d i d a s t o m a d a s com a c h e g a d a da c o r t e p o r t u g u e s a foram

suficientes

encontravam-se

para

soerguer

a proibição

a

mineração.

da c i r c u l a ç ã o

Dentre

do o u r o e m

b i l h e t e s s u b s t i t u t i v o s dos n u m e r á r i o s c o m o p a g a m e n t o c o n s e q ü e n t e p e r m u t a por b e n s

e serviços

essas

medidas,

pó, a c r i a ç ã o

de

aos m i n e r a d o r e s e a

e a criação

de c o m p a n h i a s

de

m i n e r a ç ã o e c a s a s de f u n d i ç ã o . I n c l u s i v e , c o m a c r i a ç ã o em M a t o G r o s s o , da C o m p a n h i a de M i n e r a ç ã o de C u i a b á ,

o b j e t i v a v a - s e u m a m a i o r e x p l o r a ç ã o do

ouro e a p e r f e i ç o a m e n t o dos m é t o d o s de e x p l o r a ç ã o . M a t o G r o s s o e G o i á s c o m p o r t a v a m s í t i o s d i a m a n t í f e r o s na r e g i ã o do Alto P a r a g u a i ,

Diamantino e nos rios Claro e Pilões, respectivamente. A

d e s c o b e r t a de d i a m a n t e s

em

1746 no a r r a i a l de N o s s a

( A r r a i a l V e l h o ) h a v i a p r o v o c a d o t a n t o o despejo

Senhora

do

Parto

do p o v o c o m o a a l o c a ç ã o de

um d e s t a c a m e n t o m i l i t a r para i m p e d i r a m i n e r a ç ã o c l a n d e s t i n a . E m r e l a ç ã o aos t e r r e n o s d i a m a n t í f e r o s , m e d i d a s f o r a m t o m a d a s no s e n t i d o de a b o l i r o m o n o p ó l i o r e a l , a b r i n d o à p o p u l a ç ã o a f r a n q u i a de a c e s s o e de t r a b a l h o . 2 9 Essas medidas não

g a r a n t i r a m a l e n t o à m i n e r a ç ã o ; e n t r e t a n t o , as t e n t a t i v a s e

a j u s t e s dos p r o p r i e t á r i o s capital

acumulado

das l a v r a s e de e s c r a v o s , no r e m a n e j a m e n t o

para a a g r i c u l t u r a ,

no c a s o a l a v o u r a

de a ç ú c a r

do e a

p e c u á r i a , a p r e s e n t a r a m um r e l a t i v o d e s e n v o l v i m e n t o . A a g r e g a ç ã o de n o v a s t e r r a s f a z i a - s e n e c e s s á r i a , na m e d i d a em que p e r m i t i a a m p l i a r a p r o d u ç ã o agropastoril. A facilidade

c o m q u e as t e r r a s e r a m o c u p a d a s no f i n a l do

s é c u l o XVIII e p r i m e i r a m e t a d e do s é c u l o X I X p o s s i b i l i t o u a f o r m a ç ã o de g r a n d e s l a t i f ú n d i o s em M a t o G r o s s o . 3 0

28

Essa Companhia foi criada por Carta-Régia de 16 de janeiro de 1817.

29

A Lei de 25 de outubro de 1832 veio abolir o referido monopólio.

30

As ocupações das terras mato-grossenses, ocorridas sob forma pacífica ou não, foram salvaguardadas pela Lei n° 601, de 1850, que reconheceu os direitos dos que exibissem escritos particulares de compra e venda. (CORREA FILHO, Virgílio. Fazendas de gado no pantanal mato-grossense. Rio de Janeiro : Ministério da Agricultura, 1955. p. 22).

33

N a r e a l i d a d e , a l a v o u r a de c a n a - d e - a ç ú c a r d e s e n v o l v e u - s e em M a t o Grosso, j á nas d u a s p r i m e i r a s d é c a d a s do s é c u l o X V I I I , na r e g i ã o de p l a n a l t o ou r e g i ã o de S e r r a A c i m a , z o n a da C h a p a d a d o s G u i m a r ã e s . N e s s a

região,

l e v a n t a r a m - s e os p r i m e i r o s e n g e n h o s m o v i d o s à t r a ç ã o a n i m a l e à á g u a . E s s e s engenhos dedicavam-se à fabricação

do a ç ú c a r e s c u r o , d e n o m i n a d o potó,

da

a g u a r d e n t e e da r a p a d u r a . A b a s t e c i a m a p o p u l a ç ã o local, e, em e s p e c i a l , a população mineradora. E m um c o n t e x t o em q u e a d e f e s a da f r o n t e i r a e a e x p l o r a ç ã o do ouro eram p r i o r i t á r i o s para a m e t r ó p o l e , a p r o d u ç ã o de a ç ú c a r o c u p a v a , p o i s , a f u n ç ã o de m i n i m i z a r as c a r ê n c i a s q u e s o f r i a

a p o p u l a ç ã o local em r e l a ç ã o

aos g ê n e r o s a l i m e n t í c i o s . O a ç ú c a r e a a g u a r d e n t e os mineiros

que, pela

ocupados

em

alimentos

fartos

população

dificuldade

minerar,

tinham

que,

nesses

dois

e sacarose?x

em glicose

local

de importar

apesar

das

serviam

alimentos derivados

de remédio

de outras da

regiões

da

e

cana-de-açúcar,

Tanto eram importantes

intervenções

para

metrópole

para a

proibindo

a

l a v o u r a de c a n a - d e - a ç ú c a r e o r d e n a n d o q u e os e n g e n h o s f o s s e m d e s t r u í d o s , a p r o d u ç ã o foi m a n t i d a . Na d é c a d a de 30 do s é c u l o XVIII já engenhos

de açúcar

se desenvolvendo, dezesseis negros

na zona pois

engenhocas

cerca

cuiabana

— e a indústria

açucareira

de 1750,

já funcionavam

no distrito

de aguardente

de cana,

onde

havia

cinco continuou

de

se empregavam

Cuiabá três

mil

Guiné.32

de

Contudo,

o açúcar

e derivados

produzidos

nos

engenhos

mato-

g r o s s e n s e s , d i f e r e n t e m e n t e do q u e o c o r r i a no n o r d e s t e e c e n t r o - s u l , não e r a m d e s t i n a d o s à e x p o r t a ç ã o , em r a z ã o t a n t o da c o n c o r r ê n c i a das á r e a s p r o d u t o r a s c o m o das p r e s s õ e s i m p o s t a s p e l a m e t r ó p o l e , no s e n t i d o de e v i t a r a e x p a n s ã o da

atividade

e,

ainda,

pela

baixa

produtividade

dos

engenhos

mato-

g r o s s e n s e s , r e s u l t a n t e da u t i l i z a ç ã o de t é c n i c a s r u d i m e n t a r e s . 3 3 S o m e m - s e a

31

SIQUEIRA, Elizabeth Madureira et alii. O processo histórico de Mato Grosso. Cuiabá : UFMT, 1990. p. 33. 32 33

BRUNO, Ernani Silva. op. cit., p. 39. VOLPATO, LuizaRios Ricci, op. cit., p. 85-8.

34

esses

fatores

os

obstáculos

relativos

aos

fretes

de

mercadorias,

pois

o

t r a n s p o r t e era f e i t o p r i n c i p a l m e n t e p e l o c a m i n h o t e r r e s t r e de G o i á s a São Paulo. Essas dificuldades

f o r a m a m e n i z a d a s , em p a r t e , com o g r a d a t i v o

d e s l o c a m e n t o da l a v o u r a c a n a v i e i r a da r e g i ã o de p l a n a l t o p a r a as m a r g e n s do rio C u i a b á . As m e l h o r e s c o n d i ç õ e s e n c o n t r a d a s

na B a i x a d a C u i a b a n a ,

em

r e l a ç ã o ao solo e ao e s c o a m e n t o dos p r o d u t o s , p e r m i t i r a m a p r o l i f e r a ç ã o de e n g e n h o s n e s s a região, no d e c o r r e r da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XVIII e p r i m e i r a m e t a d e do XIX. R e s s a l t e - s e , p o r é m , da n a v e g a ç ã o

fluvial

q u e s o m e n t e com a u t i l i z a ç ã o

p e l a b a c i a do P r a t a , a b e r t a no ano de 1856, é que os

custos i r i a m b a i x a r , i n c e n t i v a n d o - s e , a s s i m , as e x p o r t a ç õ e s

mato-grossenses

p a r a os m e r c a d o s p l a t i n o s e p a r a o u t r a s p r o v í n c i a s , c o m o a do Rio de J a n e i r o . De o u t r o lado, em r e l a ç ã o à p e c u á r i a ,

p o d e - s e dizer que,

tanto

q u a n t o a l a v o u r a c a n a v i e i r a , d e s e n v o l v e u - s e j á na p r i m e i r a m e t a d e do s é c u l o X V I I I , c o m o a t i v i d a d e s u b s i d i á r i a à m i n e r a ç ã o , a l i m e n t a n d o a p o p u l a ç ã o das minas

de

Cuiabá

e

do

vale

do

Guaporé.

Os

terrenos

propícios

ao

d e s e n v o l v i m e n t o das f a z e n d a s de gado f o r a m os do p a n t a n a l , 3 4 s i t u a d o s em sua m a i o r p a r t e no e x t r e m o sul de M a t o G r o s s o . N e s s a r e g i ã o , c a r a c t e r i z a d a p e l a a b u n d â n c i a do solo e v a s t i d ã o dos c a m p o s , a e x p a n s ã o da p e c u á r i a em l a t i f ú n d i o s s o m e n t e foi p o s s i b i l i t a d a a p ó s a f u n d a ç ã o do F o r t e de C o i m b r a e m e d i a n t e o a c o r d o de paz f i r m a d o com os g u a i c u r u s , í n d i o s c a n o e i r o s q u e h a b i t a v a m as m a r g e n s do rio P a r a g u a i . 3 5 As r e g i õ e s p a n t a n e i r a s , p r ó x i m a s às v i l a s de R i o A c i m a e Vila M a r i a ( a t u a l C á c e r e s ) ,

Poconé,

também dedicaram-se à produção

p a s t o r i l . E s s a a t i v i d a d e , em c o n t r a s t e c o m a l a v o u r a c a n a v i e i r a ,

34

R o s á r i o do

prestou-se

O termo pantanal indica a baixada que as águas dos tributários do Paraguai amantam periodicamente com o seu nativo fertilizante. (CORRÊA FILHO, Virgílio. Fazendas de gado no pantanal matogrossense. Rio de Janeiro : Ministério da Agricultura, 1955. página introdutória). 35

VOLPATO, Luiza Rios Ricci, op. cit., p. 89.

35

p e l a u t i l i z a ç ã o da m ã o - d e - o b r a l i v r e , i n d í g e n a e p e l a e x i g ê n c i a de m a i o r e s e x t e n s õ e s de t e r r a s a d q u i r i d a s :

Em contraste com as sesmarias da região serrana da Chapada, consideradas de lavoura, para o abastecimento de Cuiabá e arredores, que não costumavam ultrapassar uma légua quadrada e comumente abrangiam apenas área compreendida entre 1000 e 3000 hectares, pela estimativa moderna, a vastidão do Pantanal, com grande parte submersa durante os meses de cheias, exigia correspondente zona de terreno inacessível às alagações, em que se refugiasse o gado egresso das baixadas afogadas,36 A fazenda Jacobina, situada

nas p r o x i m i d a d e s

de V i l a

Maria, a

s e s s e n t a l é g u a s de C u i a b á , e p e r t e n c e n t e ao t e n e n t e - c o r o n e l

João

Leite,

das

natural

de

Braga,

Portugal,

foi

considerada

p r o p r i e d a d e s c r i a d o r a s de g a d o . S o b r e ela

uma

contudo,

tenente-coronel

as ferazes dizia-me

asselvajara

pastagens que

da Jacobina

avaliava

maiores

a s s i m se e x p r e s s o u um

v i a j a n t e e u r o p e u na s e g u n d a d é c a d a do s é c u l o X I X : Rebanhos povoam,

Pereira

em

incalculáveis

e das demais

60.000

as

ilustre

suas

fazendas. rezes

e

O que

delas.37

a maior parle

N ã o b a s t a s s e o g a d o , o p r o p r i e t á r i o da r e f e r i d a f a z e n d a a s s e g u r a v a seu

prestígio

na

diversidade

das

atividades

econômicas

desenvolvendo

l a v o u r a c a n a v i e i r a e p r o d u ç ã o de a l g o d ã o . E s s a era u m a s i t u a ç ã o c o m u m dos grandes

proprietários,

que

tinham

na

diversificação

das

atividades

uma

p o s s í v e l a l t e r n a t i v a p a r a a c r i s e e c o n ô m i c a a d v i n d a da m i n e r a ç ã o . E l a p o n t u a , portanto,

a imbricação

de p a p é i s

reservados

aos

destacamentos

militares

e n q u a n t o m a n t e n e d o r e s da s e g u r a n ç a nas f r o n t e i r a s e a g e n t e s f i x a d o r e s do povoamento.

Essas

funções

cristalizam

o

duplo

sentido

da

itinerância

p r e s e n t e no c o t i d i a n o d e s s e s m i l i t a r e s e p r o p r i e t á r i o s de t e r r a s . Ainda, paralelamente à agricultura e à pecuária, desenvolveram-se, na r e g i ã o , o u t r a s a t i v i d a d e s l i g a d a s à s u b s i s t ê n c i a e ao a u t o c o n s u m o , c o m o ,

36 37

CORRÊA FILHO, Virgílio op. cit., p. 19-20.

FLORENCE, Hércules. Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas pelas províncias brasileiras de S3o Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará (1825-1829). São Paulo : Museu de Arte de São Paulo, 1977. p. 26.

36

por e x e m p l o , m i l h o , m a n d i o c a , f e i j ã o , b a t a t a , b a n a n a e a p e s c a . A l é m d e s s a s , a s s i n a l a v a - s e , a i n d a , a a t i v i d a d e m a n u f a t u r e i r a , 3 8 q u e c o n s i s t i a no c u r t u m e de couros de boi, v e a d o s e o n ç a s ; e f i a ç ã o , t e c e l a g e m e f a b r i c a ç ã o de p a n o de a l g o d ã o g r o s s o , u t i l i z a d o n ã o só na c o n f e c ç ã o de v e s t i m e n t a gente p o b r e , c o m o t a m b é m na

pelos escravos e

do f a r d a m e n t o dos m i l i t a r e s de b a i x a p a t e n t e .

Uma í n f i m a p a r c e l a dessa c o n f e c ç ã o de p a n o de a l g o d ã o era e x p o r t a d a p a r a o Pará.

A c u l t u r a a l g o d o e i r a f o i o b s e r v a d a por c o m a n d a n t e s de

expedições

e x p l o r a d o r a s e por v i a j a n t e s do f i n a l do s é c u l o X V I I I e p r i m e i r a m e t a d e do século

XIX,

como

produto

verificado

nas

roças

e

fazendas

e

muito

f a m i l i a r i z a d o p e l o s í n d i o s na c o n f e c ç ã o de r e d e s e p a n o s . Também posteriormente,

muito

pelos

familiarizada

colonizadores

pelas

europeus,

populações

indígenas

destacava-se

a

poaia

e, ou

ipeca, 3 9 c u j a e x p l o r a ç ã o , de c a r á t e r s a z o n a l , d i t a v a o r i t m o e a i n t e n s i d a d e da itinerância cerradas

de p a r t e

da b a c i a

da p o p u l a ç ã o

do rio P a r a g u a i

nela

envolvida.

à b a c i a , do

Encontrada

Guaporé,

essa

nas

matas

planta

foi

explorada desde o século XVIII, tornando-se muito valorizada pelo mercado europeu. A e x t r a ç ã o da i p e c a , por e x i g i r um d e s l o c a m e n t o c o n s t a n t e

dos

t r a b a l h a d o r e s d e n t r o das m a t a s à p r o c u r a dos a r b u s t o s , c a r a c t e r i z o u - s e p e l a u t i l i z a ç ã o da m ã o - d e - o b r a l i v r e e a s s a l a r i a d a , a s s i m c o m o da i n d í g e n a . 4 0 Os poaeiros

e r a m c o n t r a t a d o s por s a f r a s , q u e c o i n c i d i a m com os p e r í o d o s de

c h u v a s , d u r a n t e os m e s e s de o u t u b r o a m a i o . F i c a v a m c e r c a de seis m e s e s na m a t a f e c h a d a . Os o u t r o s m e s e s r e s t a n t e s v i v i a m nos p o v o a d o s m a i s p r ó x i m o s , d e s e m p r e g a d o s ou s u b e m p r e g a d o s , à e s p e r a da p r ó x i m a s a f r a . 4 1 V i l a

Bela,

38

O desenvolvimento dessas atividades, no Brasil, só foi possível graças à assinatura do Alvará de 1° de abril de 1808, pelo príncipe-regente D. João VI, em substituição ao Alvará de 5 de janeiro de 1785, baixado no governo de D. Maria I. 39

A poaia é uma planta tipicamente brasileira, cujo nome científico é Cephaelis ipecacuanha; rica em emetina, produto utilizado no tratamento de bronquite, disenterias e coqueluches e, por essa razão, muito procurado pela indústria farmacêutica. 40

ALEIXO, Lúcia Helena Gaeta. Mato Grosso: trabalho escravo e trabalho livre (1850-1888). Brasília : Ministério da Fazenda, 1984. p. 66. 41

SIQUEIRA, Elizabeth Madureira. op. cit., p. 60.

37

C á c e r e s , B a r r a do B u g r e s e C u i a b á f o r a m as l o c a l i d a d e s que mais u s u f r u í r a m o m o v i m e n t o c o m e r c i a l p r o v o c a d o p e l a e x p o r t a ç ã o da p o a i a , j á na p r i m e i r a m e t a d e do s é c u l o XIX. A d i v e r s i f i c a ç ã o d a s a t i v i d a d e s , no e n t a n t o , n ã o c o n s e g u i u sanar a c r i s e e c o n ô m i c a l a t e n t e no M a t o G r o s s o e o b a i x o c r e s c i m e n t o d e m o g r á f i c o e x i s t e n t e . O q u a d r o a s e g u i r é um d e m o n s t r a t i v o .

Q U A D R O N° 2 POPULAÇÃO DE MATO GROSSO: 1771-1819 1771

1783

15.765

FONTE:

22.972

1791

1800

22.637 ou 23.077

27.690

1815 27.947

1817 29.801

1818

1819

29.653

37.396

C O R R Ê A , V a l m i r B a t i s t a . M a t o G r o s s o : 1 8 1 7 - 1 8 4 0 e o papel da v i o l ê n c i a no p r o c e s s o de f o r m a ç ã o e d e s e n v o l v i m e n t o da p r o v í n c i a . S ã o P a u l o , 1 9 7 6 . D i s s e r t a ç ã o ( M e s t r a d o ) - F a c u l d a d e de F i l o s o f i a , Letras e C i ê n c i a s Humanas da U n i v e r s i d a d e de S ã o P a u l o . p. 4 5 .

A s i t u a ç ã o p e r s i s t e n t e de c r i s e e c o n ô m i c a e r a c o m u m nas r e g i õ e s do C e n t r o - O e s t e , o n d e o n ã o - s u r g i m e n t o de o u t r a a t i v i d a d e v a n t a j o s a c o n t r i b u i u para. que M a t o Grosso e G o i á s n ã o r e c e b e s s e m i m i g r a n t e s e u r o p e u s , q u e , a p a r t i r de

1808, c o m e ç a r a m

a chegar

ao B r a s i l .

Essa

afirmação

encontra

r e s p a l d o nos d a d o s d e m o g r á f i c o s r e f e r e n t e s ao a n o de 1819, o n d e as d u a s capitanias

ocupavam

contingentes

os

dois

populacionais.

últimos

Segundo

lugares estimativa

em do

relação

aos

conselheiro

demais Antônio

R o d r i g u e s V e l o s o de O l i v e i r a , em 1819, c o m b a s e no ano de 1815, M i n a s G e r a i s p o s s u í a 6 3 1 . 8 8 5 h a b i t a n t e s , R i o de J a n e i r o , 5 1 0 . 0 0 0 e B a h i a , 4 7 7 . 9 1 2 i n d i v í d u o s , 4 2 ao p a s s o q u e as p o p u l a ç õ e s de M a t o G r o s s o e G o i á s p e r f a z i a m , no r e f e r i d o a n o , um t o t a l de

42

3 7 . 3 9 6 e 6 3 . 1 6 8 , r e s p e c t i v a m e n t e , o c u p a n d o , no

SELVA, Joaquim Norberto de Souza e. Investigações sobre os recenseamentos da população geral do império. São Paulo : IPE-USP, 1986. p. 152.

38

c ó m p u t o da p o p u l a ç ã o do r e i n o , um p e r c e n t u a l de a p e n a s 1,03 % e 1,75 %. A p o p u l a ç ã o da c o l ô n i a , na é p o c a , t o t a l i z a v a 3 . 5 9 6 . 1 3 2 h a b i t a n t e s . 4 3

Com relação a Goiás, seu elevado levas Em

índice

humanas,

de natalidade

por

excelência

contraposição,

estagnação regiões,

Mato

econômica, acabando

a população e, em parte, de mineiros

G r o s s o , por

As d i f i c u l d a d e s

e ainda

a entrada

baianos um

graças de

ao

pequenas

maranhenses.44

e

quadro

de

de contingentes

relativa de

outras

vegetativo,45

um crescimento

econômicas

em parte,

com a contribuição

apresentar

não estimulava

por apresentar

cresceu,

existentes

impediam,

igualmente,

r e m u n e r a ç ã o em dia dos f u n c i o n á r i o s , civis e m i l i t a r e s , c o n t r i b u i n d o

a

para

u m a s i t u a ç ã o de i n t r a n q ü i l i d a d e

e i n d i s c i p l i n a m i l i t a r , que v i g o r o u até a

regência.46

contribuíram

Mais

do

que

isso,

para

revelar

a situação

de

a b a n d o n o das r e g i õ e s de f r o n t e i r a e de p e n ú r i a e m q u e vivia a p o p u l a ç ã o de M a t o G r o s s o . A e l a s s o m a - s e a i n s t a b i l i d a d e p o l í t i c a e s o c i a l que c o m p u n h a o cenário mato-grossense circunstâncias

locais,

nas d é c a d a s não

deixou

de 20 e 30, e que, em que p e s e de

ser

influenciada

pela

guerra

às da

i n d e p e n d ê n c i a , r e o r g a n i z a ç ã o do E s t a d o b r a s i l e i r o e i n s t a l a ç ã o da r e g ê n c i a . Os d o i s m o m e n t o s m a r c a n t e s em t e r m o s de i n t r a n q ü i l i d a d e p o l í t i c a o c o r r e m , p r i m e i r o , em 1821, c o m a d e p o s i ç ã o do c a p i t ã o - g e n e r a l F r a n c i s c o de P a u l a M a g e s s i T a v a r e s de C a r v a l h o , e n t ã o g o v e r n a d o r , e sua s u b s t i t u i ç ã o por u m a j u n t a g o v e r n a t i v a , da c i d a d e de C u i a b á . E s s e f a t o t a n t o d e m o n s t r a o

43

O referido conselheiro estimou, ainda, a população indígena em 800.000, totalizando em 4.396.132 a população da colônia. 44

MORAES, Maria Augusta de Sant'Anna. Contribuição para o estudo político e oligárquico da história de Goiás. São Paulo, 1972. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. p. 20. 45

BORGES, Fernando Tadeu de Miranda. Do extrativismo à pecuária: algumas observações sobre a história econômica de Mato Grosso (1870 a 1930). Cuiabá : Genus, 1991. p. 50. 46

Valmir Batista Corrêa traz à tona as várias rebeliões militares ocorridas em Mato Grosso, entre os anos de 1821-1839, com maior incidência nas regiões de fronteira (Forte de Coimbra, Forte de Príncipe da Beira, Miranda, Albuquerque e Casal Vasco). Essas rebeliões visavam à deposição dos comandantes e dos brasileiros adotivos que possuíam empregos públicos, assim como o recebimento dos soldos atrasados. (CORRÊA, Valmir Batista, op. cit., p. 56-121).

39

c a m i n h o s e g u i d o em o u t r a s r e g i õ e s , c o m o a c e n t u a

dissidências

existentes

e n t r e s as c a m a d a s d o m i n a n t e s de C u i a b á ( s e n h o r e s de e n g e n h o e g r a n d e s comerciantes) e o poder político sediado em Vila Bela, a capital. O segundo, o c o r r i d o em 1834 e d e n o m i n a d o Rusga

ou

Rebelião

Cuiabana,

i n i c i a - s e em

C u i a b á e e s t e n d e - s e p a r a o u t r a s p a r t e s da p r o v í n c i a , c o m o , por

exemplo,

D i a m a n t i n o e M i r a n d a . C o m p a r t i c i p a ç ã o de l í d e r e s n a t i v i s t a s e a p o i o das camadas menos privilegiadas

(soldados e artesãos), objetivava a expulsão

dos c o m e r c i a n t e s p o r t u g u e s e s , os

bicudos.

Estes

monopolizavam, desde o

s é c u l o X V I I I , o c o m é r c i o de i m p o r t a ç ã o , o b t e n d o l u c r o s c o m o a t r a v e s s a d o r e s , m e d i a n t e a e s p e c u l a ç ã o dos g ê n e r o s de p r i m e i r a n e c e s s i d a d e . N a m e d i d a em que o d e s e n v o l v i m e n t o lavoura canavieira e á pecuária permitiu o proprietários

de

engenho

e

de

gado,

o

das a t i v i d a d e s

surgimento poder

de

ligadas à

e a a f i r m a ç ã o dos mando

dos

grandes

c o m e r c i a n t e s p o r t u g u e s e s p a s s o u a ser r e l a t i v i z a d o . A p r o e m i n ê n c i a dos s e n h o r e s de e n g e n h o e p e c u a r i s t a s viria com a a b e r t u r a da n a v e g a ç ã o

fluvial

p e l a b a c i a do P r a t a , na s e g u n d a m e t a d e

do

s é c u l o XIX, o q u e c o l o c a v a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o na rota do c o m é r c i o internacional. Não fica fora de propósito adiantar que a face mais visível da aludida oligarquia urbano-rural passasse a ser a dos proprietários de terras, que ganhavam um 'status ' mais alto em relação às outras categorias sociais. Tal tendência se acentuaria à medida em que se expandiam os núcleos açucareiros que proliferavam na Província no decorrer do século XIX.47 D e s s a e l i t e , s a i r i a m os h o m e n s q u e i r i a m c o m p o r o a p a r a t o do p o d e r provincial, comando

como

Presidência,

das F o r ç a s A r m a d a s

juntas

da

e governo

Fazenda

Pública

eclesiástico.

e

da

No tocante

m i l i t a r , t a n t o o o f i c i a l a t o das f o r ç a s de s e g u n d a l i n h a q u a n t o da Nacional

Justiça, à

área

Guarda

f o r a m c o m p o s t o s por m e m b r o s d e s s a e l i t e local.

47

LENHARO, AJcir. Crise e mudança na frente oeste de colonização: o comércio de Mato Grosso no contexto da mineração. Cuiabá : PROEDI/UFMT, 1982. p. 63.

40

O

desdobramento

das

atividades

econômicas,

tendo

à

frente

m i n e r a d o r e s , c o m e r c i a n t e s e l a v r a d o r e s da b a i x a d a c u i a b a n a , p e r m i t i u q u e , gradativamente,

ocorresse

expansão

do

mercado

local

e

que

Cuiabá

d e s p o n t a s s e c o m o o p r i n c i p a l n ú c l e o r e g i o n a l . A p r o e m i n ê n c i a de C u i a b á f o i garantida,

inclusive,

por

sediar

órgãos

do

aparato

administrativo

e

e c l e s i á s t i c o , j á nas d é c a d a s de 20 e 30 do s é c u l o XIX. E n t r e os anos de 1819 e 1 8 2 1 , p o r i n i c i a t i v a do e n t ã o g o v e r n a d o r da província

do

Mato

Grosso,

capitão-general

Francisco

de

Paula

Magessi

T a v a r e s de C a r v a l h o , f o r a m t r a n s f e r i d o s de V i l a B e l a p a r a C u i a b á a J u n t a da F a z e n d a , o D e s e m b a r g o do P a ç o e a C a s a de F u n d i ç ã o do ouro. Em 1828, C u i a b á p o s s u í a a m a i o r d e n s i d a d e d e m o g r á f i c a e m r e l a ç ã o aos d e m a i s n ú c l e o s p o p u l a c i o n a i s , a s s i m c o m o r e u n i a r e q u i s i t o s de liderança

econômica

e militar.

Em

1833,

passou

a sediar

maior

o Bispado

da

p r o v í n c i a de M a t o Grosso, c r i a d o no a n o de 1826, a t r a v é s do b i s p o D o m J o s é A n t ô n i o dos R e i s . Q u a n d o , e m

1835, p o r Lei p r o v i n c i a l n° 19, de 28 de

a g o s t o , C u i a b á foi d e c l a r a d a c a p i t a l da p r o v í n c i a , as c o n d i ç õ e s j á

estavam

d a d a s no s e n t i d o de a c i d a d e a s s u m i r o f i c i a l m e n t e a l i d e r a n ç a e c o n ô m i c a e p o l í t i c a no M a t o Grosso:

No início do século XIX, a implantação do: Armazém Real, Olaria Real, Quartel, Trem das armas, Trem naval, Fábrica de pólvora, Legião de milícia, Bispado, Casa de fundição, Santa Casa de Misericórdia, Casa Pio de São João dos Lázaros e por fim, a transferência da capital, consolidam a sua posição definitiva de mais importante núcleo urbano de Mato Grosso.4* A p e s a r das e x p e c t a t i v a s

e m t o r n o da n o v a c a p i t a l , C u i a b á , tal q u a l

o u t r a s l o c a l i d a d e s , e x p r e s s a v a t o d a s as d i f i c u l d a d e s que a p r o v í n c i a de M a t o Grosso

enfrentava.

Dentre

elas,

a

carência

de

recursos

públicos

e

a

c o n s e q ü e n t e d e p e n d ê n c i a , q u a s e q u e t o t a l , de v e r b a s do g o v e r n o c e n t r a l , e a i n e x i s t ê n c i a de uma via de c o m u n i c a ç ã o p e r m a n e n t e e s e g u r a c o m a c o r t e .

48

BRANDÃO, Jesus da Silva. História da navegação em Mato Grosso. Cuiabá : Livro matogrossense, 1991. p. 3.

41

Os g o v e r n a n t e s de M a t o G r o s s o a l m e j a v a m b u s c a r a l t e r n a t i v a s à navegação

monçoeira

permitiam

chegar

e aos

caminhos

ao c e n t r o - s u l ,

como

terrestres única

que,

através

de

Goiás,

f o r m a de b a r a t e a m e n t o

dos

c u s t o s do t r a n s p o r t e das m e r c a d o r i a s e de r o m p e r o i s o l a m e n t o com o r e s t a n t e do i m p é r i o . N o l e q u e de s o l u ç õ e s , a b a c i a do P r a t a p a s s o u a ser á r e a de p r o f u n d o i n t e r e s s e dos g o v e r n o s i m p e r i a l e p r o v i n c i a l pois era v i s t a única

via de acesso

livre n a v e g a ç ã o

para

fluvial

extensas

áreas

do Brasil

central.49

como

No e n t a n t o , a

pelo rio P a r a g u a i e n c o n t r a v a d i f i c u l d a d e s na m e d i d a

em que os g o v e r n a n t e s p a r a g u a i o s i m p e d i a m a n a v e g a ç ã o e s t r a n g e i r a d e n t r o de seu t e r r i t ó r i o . O p r i m e i r o p a s s o f o i a p e r m i s s ã o do p r e s i d e n t e

Carlos

A n t o n i o L o p e z à n a v e g a ç ã o de b a r c o s b r a s i l e i r o s até A s s u n ç ã o , v i a I t a p u a , na f r o n t e i r a sul. P o r c o n t a d i s s o , no f i n a l d o s a n o s 40 e s p e c i a l m e n t e em 1847, M a t o G r o s s o e P a r a g u a i j á p r o m o v i a m um t ê n u e i n t e r c â m b i o c o m e r c i a l . engenhos,

produzindo

mercado

de fronteira

importava

o fumo,

o açúcar,

a rapadura

— Bolívia

o algodão,

e a aguardente,

e Paraguai.

sal e

contrapartida,

o

deles

se

boiadas.50

Esse comércio, ainda que incipiente, ao e n v i o de t r o p a s b r a s i l e i r a s

Em

abasteciam

Os

para

ocupação

desenvolveu-se paralelamente da f r o n t e i r a m e r i d i o n a l

da

p r o v í n c i a de M a t o Grosso. P o r e x e m p l o , ao c h e g a r a n o t í c i a da p r e t e n s ã o de M a n u e l R o s a s de i n v a d i r o P a r a g u a i ,

o p r e s i d e n t e da p r o v í n c i a

de

Mato

G r o s s o ( g e s t ã o de 1 8 4 9 - 5 1 ) , J o ã o J o s é da C o s t a P í m e n t e l ,

mandou reforçar a guarnição da fronteira meridional da Província, e marchar o capitão J. J. de Carvalho, comandante da mesma fronteira, nomeado pelo Governo Imperial e acompanhado de carpinteiros, ferreiros, etc., com o conveniente provimento para reparar e por em bom estado os pontos militares de Coimbra, Miranda, etc.51

49

MATOS, Odilon Nogueira de. Vias de comunicação. In: BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio, (org.) História geral da civilização brasileira; o Brasil monárquico: declínio e queda do Império. São Paulo : DIFEL, 1971. v. 4, T. II, p. 44. 50 31

ALEIXO, Lúcia Helena Gaeta. op. cit., p. 33. MELGAÇO, Barão de. op. cit., p. 375.

42

Se ao g o v e r n o a r g e n t i n o i n t e r e s s a v a r e c u p e r a r o v i c e - r e i n a d o P r a t a m e d i a n t e a a n e x a ç ã o do P a r a g u a i , ao i m p é r i o b r a s i l e i r o

do

interessava

o c u p a r a m a r g e m d i r e i t a do rio A p a . E n f i m , t r a t a v a - s e ainda de c o l o c a r f i m ou de r e s o l v e r a q u e s t ã o de l i m i t e s , s o b r e t e r r a s d i s p u t a d a s p e l o

império

brasileiro e pelas repúblicas vizinhas, tais como Paraguai e Argentina. A p r e o c u p a ç ã o com a f r o n t e i r a m e r i d i o n a l da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o levou a que o g o v e r n o i m p e r i a l

concentrasse

nela em m e a d o s

da

d é c a d a de 50, f o r ç a s de t e r r a e n a v a l . 5 2 T a n t o a s s i m que, e n t r e os a n o s de 1855 e 1856, o e n t ã o p r e s i d e n t e de p r o v í n c i a , A u g u s t o Leverger, 5 3 por o r d e m i m p e r i a l , c h e g o u a p e r m a n e c e r no F o r t e de C o i m b r a com a f i n a l i d a d e de o b s e r v a r a s i t u a ç ã o da f r o n t e i r a do B a i x o P a r a g u a i . No a g u a r d o de o r d e n s do g o v e r n o i m p e r i a l p a r a f a z e r f r e n t e aos p a r a g u a i o s , dizia o r e f e r i d o p r e s i d e n t e : Há quase disposto

um ano que estou a marchar

neste

de um dia para

Forte

com um punhado

outro para

de militares,

este ou aquele

sempre

ponto.*4

O T r a t a d o de A m i z a d e , N a v e g a ç ã o e C o m é r c i o , f i r m a d o e n t r e o i m p é r i o b r a s i l e i r o e a r e p ú b l i c a do P a r a g u a i , v e i o c o n t e m p o r i z a r a s o l u ç ã o da indisposição

e x i s t e n t e e n t r e a m b o s e m c o n s e q ü ê n c i a da q u e s t ã o de l i m i t e s . O

r e f e r i d o t r a t a d o 5 5 p o s s i b i l i t o u o l i v r e t r â n s i t o das e m b a r c a ç õ e s b r a s i l e i r a s em águas

do rio P a r a g u a i ,

bem

como

a presença

de n a v i o s

estrangeiros

no

c i r c u i t o fluvial P a r a n á , P a r a g u a i e C u i a b á . A c r i a ç ã o da C o m p a n h i a de N a v e g a ç ã o do Alto P a r a g u a i , em 1858, f o i um p a s s o d e c i s i v o à i n t e g r a ç ã o

da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o com

o

r e s t a n t e do i m p é r i o e com as r e p ú b l i c a s v i z i n h a s . C o m ela se e s t a b e l e c e u no

52

Como exemplo, podem-se citar, da corte para Mato Grosso, a vinda do segundo Batalhão de Artilharia a pé e a remessa de dinheiro para equipar a fronteira. Também foram criadas mais duas unidades militares: o 19° e o 21° Batalhão de Caçadores em Cáceres e em Cuiabá, respectivamente. Some-se ainda a criação da Estação Naval da província com vapores de guerra e um estabelecimento naval em Dourados. 53

Augusto Leverger receberia anos depois, do governo imperial, o título de Barão de Melgaço devido à sua participação na organização da defesa da capital durante a Guerra do Paraguai. 54 55

MELGAÇO, Barão de. op. cit., p. 385.

O Tratado de Amizade, Navegação e Comércio foi assinado em 06 de abril de 1856 e vigorou até 1864, com a eclosão da Guerra do Paraguai.

43

ano s e g u i n t e u m a l i n h a r e g u l a r e n t r e C u i a b á , C o r u m b á e M o n t e v i d é u . 5 6 A s s i m , os portos de C u i a b á e C o r u m b á p a s s a r a m a r e c e b e r e m b a r c a ç õ e s e s t r a n g e i r a s , que c o n d u z i a m t a n t o p a s s a g e i r o s q u a n t o m e r c a d o r i a s . 5 7 O porto de Corumbá, pela maior profundidade de suas águas, recebia embarcações maiores a vapor e a vela, nacionais e estrangeiras:

escumas, sumocas, palhabotes,

goletas, hiates, brigues, galés e vapores

procedentes, a maioria, dos portos da Prata assim como do Rio de Janeiro.58 Os r e f l e x o s i m e d i a t o s f o r a m a i n s t a l a ç ã o , em 1861, da a l f â n d e g a do p o r t o de C o r u m b á e, no ano s e g u i n t e , a e l e v a ç ã o de C o r u m b á à c a t e g o r i a de vila. 3 9

Nos a n o s que e n t r e m e a r a m a a b e r t u r a da n a v e g a ç ã o e o i n í c i o da

G u e r r a do P a r a g u a i , a p o p u l a ç ã o da c a p i t a l , e da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o c o m o um t o d o , a p r e s e n t o u e x p r e s s i v o c r e s c i m e n t o . N e s s e a s p e c t o , o q u a d r o abaixo é ilustrativo.

Q U A D R O N° 3 POPULAÇÃO DE CUIABÁ E DA PROVÍNCIA DE M A T O GROSSO NOS A N O S Q U E A N T E C E D E R A M À G U E R R A D O P A R A G U A I : 1849, 1855, 1862 Ano

Cuiabá

Mato Grosso

1849

21.947

47.813

1855

32.128

53.000

1862

37.538

64.000

F O N T E : A L E I X O , L ú c i a H e l e n a Gaeta. M a t o G r o s s o : trabalho e s c r a v o e trabalho livre ( 1 8 5 0 - 1 8 8 8 ) . B r a s í l i a : M i n i s t é r i o da F a z e n d a . D e p a r t a m e n t o de A d m i n i s t r a ç ã o . D i v i s ã o de D o c u m e n t a ç ã o . 1 9 8 4 . p. 53.

56

A Companhia, composta por acionistas brasileiros, possuía os seguintes paquetes: Marquês de Olinda, Visconde de Ipanema, Conselheiro Paranhos e Cuiabá. 57

O porto de Cuiabá localizava-se no bairro do Porto, por sua vez integrado à paróquia de São Gonçalo de Pedro II. 38 59

BRANDÃO, Jesus da Silva. op. cit., p. 51.

Em decorrência dessa situação, Corumbá pôde, no período posterior à Guerra do Paraguai, assumir a posição de pólo catalisador do desenvolvimento de toda a região meridional. (Conf. CORREA, Lúcia Salsa. Corumbá: um núcleo comercial na fronteira de Mato Grosso - 1870-1920. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. p. 39).

44

Embora a

a b e r t u r a da n a v e g a ç ã o do rio P a r a g u a i não p r o v o c a s s e

p r o f u n d a s m u d a n ç a s , c a p a z e s de a l t e r a r as b a s e s em que e s t a v a m e s t r u t u r a d a s a

economia

e

a

sociedade

mato-grossense,

em

alguns

aspectos

certas

i n f l u ê n c i a s se f i z e r a m sentir. As v i a g e n s e n t r e C u i a b á e o R i o de J a n e i r o , por exemplo, passaram

a não d e m o r a r

m a i s que 30 dias. A l g u m a s

atividades

e c o n ô m i c a s , c o m o a p r o d u ç ã o de a ç ú c a r e a c r i a ç ã o de g a d o , que até e n t ã o haviam

cumprido

a

função

de

abastecer

o

mercado

interno



áreas

mineradoras e urbanas — foram incentivadas com vistas à exportação. Cabe d e s t a c a r ( a i n d a ) , que a a b e r t u r a da n a v e g a ç ã o do rio P a r a g u a i , em 1856, foi a grande

responsável

pelo

incentivo

experimentado

pela

exportação

da

p r o d u ç ã o a ç u c a r e i r a em M a t o G r o s s o . 6 0 A

poaia,

por

exemplo,

atividade

econômica

essencialmente

e x t r a t i v i s t a , foi, n e s s e c u r t o p e r í o d o , g r a n d e m e n t e e x p o r t a d a p a r a o m e r c a d o e u r o p e u . A l é m do a ç ú c a r e da p o a i a , o c o u r o foi o u t r o p r o d u t o de d e s t a q u e no p e r í o d o . A e x p o r t a ç ã o d e s s e s p o u c o s g ê n e r o s n ã o g a r a n t i u , c o n t u d o , q u e em tão c u r t o e s p a ç o de t e m p o o c o r r e s s e u m a d i n a m i z a ç ã o da e c o n o m i a

mato-

g r o s s e n s e , nem d e i x o u de a c e n t u a r a n a t u r e z a i t i n e r a n t e i m p o s t a à p o p u l a ç ã o e n v o l v i d a em t a i s a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s . N o p e r í o d o que m e d i o u

a abertura

da n a v e g a ç ã o e o i n í c i o

G u e r r a do P a r a g u a i , o m e r c a d o de i m p o r t a ç ã o e e x p o r t a ç ã o f a v o r e c e u p a r c e l a da p o p u l a ç ã o m a t o - g r o s s e n s e , q u a l s e j a a e l i t e l o c a l ,

da

apenas

representada

p e l o s p r o p r i e t á r i o s de t e r r a s . S o m e - s e a e s s e s o s e t o r m e r c a n t i l , r e s p o n s á v e l d i r e t o p e l o t r a n s p o r t e fluvial das m e r c a d o r i a s . Os a l t o s

60

ALEIXO, Lúcia Helena Gaeta. op. cit., p. 55.

fretes cobrados pela

Companhia

de

Navegação61

e

pelos

mascates

fluviais,62

instalados

p r i n c i p a l m e n t e em C o r u m b á , e n c a r e c i a m os g ê n e r o s de p r i m e i r a n e c e s s i d a d e , t o r n a n d o - o s i n a c e s s í v e i s à m a i o r p a r t e da p o p u l a ç ã o . Do m e s m o m o d o , os p r o d u t o s e x p o r t a d o s , e s s e n c i a l m e n t e a g r í c o l a s e

extrativistas,

não

conseguiram

drenar

maiores

rendas

para

os

cofres

p ú b l i c o s da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o . E s t e s m a n t i v e r a m - s e d e f i c i t á r i o s em todo

esse

período,

impedindo

comumente

o

pagamento

em

dia

do

f u n c i o n a l i s m o p ú b l i c o , dos m i l i t a r e s e da c o n s t r u ç ã o de o b r a s p ú b l i c a s , n u m a d e m o n s t r a ç ã o de d e p e n d ê n c i a

da remessa

de dinheiro

do Tesouro

para

esta

província.63 A c r e s c e n t e - s e a tais d i f i c u l d a d e s , a p a r t i r de 1850, a i n c i d ê n c i a da e p i z o o t i a ou a

peste

mato-grossense

de

das

cadeiras,

cavalos

e

que a m e a ç o u inviabilizar a produção

muarés,

comprometendo

ainda

d e s e n v o l v i m e n t o d e s s a a t i v i d a d e e c o n ô m i c a e i m p e d i n d o que os usufruíssem

os

benefícios

auferidos

pela

abertura

da

navegação

mais

o

criadores no

rio

P a r a g u a i . N a v e r d a d e , a a b e r t u r a à n a v e g a ç ã o t o r n o u mais e v i d e n t e para as autoridades

administrativas,

imprensa

local

e

viajantes

europeus

em

e x p e d i ç õ e s c i e n t í f i c a s p e l a r e g i ã o , a s i t u a ç ã o de p r e c a r i e d a d e e c o n ô m i c a em que se e n c o n t r a v a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o .

61

... não nos parece desarrazoado dizer-se que grande parte dos males mercantis da província têm sido devidos à Companhia de Navegação do Alto Paraguai tão protegida pelo governo imperial com intenção de que ela também estendesse essa proteção sobre o comércio; porém tão avarenta para com aqueles por quem enche os cofres e capitaliza juros ainda não conquistados, talvez por nenhuma das associações brasileiras ou estrangeiras estabelecidas no império. As viagens intermediárias, quase têm sido um burla — bem podem ser as mensais, que não longe, em forma do contrato, devem começar — pois os 4 primeiros anos estão completos ou pouco devem estar. A IMPRENSA DE CUIABÁ. 16 fev. 1862, p. 1. 62

Os mascates fluviais eram elementos inteiramente ligados às atividades mercantis de retalho ambulante e que foram atraídos para a província de Mato Grosso, a partir de 1856, em decorrência das oportunidades de negócios lucrativos. Eles, em geral, eram de nacionalidade estrangeira. (CORREA, Lúcia Salsa, op. cit, p. 41). 63

A IMPRENSA DE CUIABÁ. 11 fev. 1864, p. 1.

46

B a r t o l o m é Bossi, 6 4 em v i a g e m a M a t o G r o s s o em 1862,

flagrava

a

e x u b e r â n c i a da n a t u r e z a em c o n t r a s t e c o m o a t r a s o das a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s e a indolência riqueza

da p o p u l a ç ã o , d i s p e r s a

de este punto

sus productos

naturales,

agricultura trabajo

(Vila

está

Maria),

que

no es la propensión Para

colonizadora

o que

e u r o p é i a s : Poblaciones que requiere

Mato

los demás pueblos

de su vida;

viajante,

a e

que trabajen,

del

la provincia,

bosques la

consiste

e en sus

industria

está

La

minas. por

en



La

nacer;

el

habitantes.éJ

promover

Grosso,

en toda

en sus

de sus

referido viesse

como

están

en el limbo

na e n o r m e e x t e n s ã o t e r r i t o r i a l :

provincia

estimular

exigia

a

la fecunda

política

de

familias

imigração

que produzcan

para forjar

uma

y consuman, cadena

eso es lo

del comercio

com

orbe...66

Aos o l h o s de B o s s i , p o i s , um o u t r o f a t o r d e v e r i a c o n t r i b u i r p a r a o d e s e n v o l v i m e n t o e c o n ô m i c o da p r o v í n c i a , q u a l s e j a a c o l o n i z a ç ã o . A p o l í t i c a c o l o n i z a d o r a p o d e r i a t a n t o ser r e a l i z a d a por p a r t e do g o v e r n o como

por

empresas

particulares,

auxiliadas

pelo

governo

provincial,

imperial.67

A

i m i g r a ç ã o e s t r a n g e i r a t r a r i a g a n h o s p a r a a p r o v í n c i a em v á r i o s p o n t o s , c o m o , por e x e m p l o , o c u p a ç ã o dos

vazios

demográficos,

a u m e n t o do c o n s u m o e da

p r o d u ç ã o , p r o f u s ã o dos h á b i t o s e v a l o r e s m o r a i s d a s s o c i e d a d e s

européias,

consideradas como mais evoluídas econômica e culturalmente. Na concepção do v i a j a n t e , t a n t o a a p a t i a da p o p u l a ç ã o l o c a l , q u e se contenta el

pescado,

como

a

falta

de

braços,

tornavam

o

con la carne

comércio

local

y

sem

vitalidade.

64

Viajante italiano encarregado pelo governo imperial de estudar e propor a melhor forma de instalação da colonização estrangeira em Mato Grosso. Chegou a Cuiabá investido do cargo de diretor da Sociedade de Mineração de Mato Grosso. 65

BOSSI, Bartolomé. Viaje pictoresca por los ríos Paraná, Paraguay, San Lourenzo, Cuiabá con la descripción de la provincia de Mato Grosso. Paris : Librería Parisiense Dupray de la Mahérie, 1863. p. 134. 66 61

Ibid., p. 149.

Segundo a imprensa de Cuiabá, o núcleo colonial do Taquari, próximo à confluência do rio do mesmo nome com o Coxim, apresentava-se como um dos lugares na província com sinais de grande prosperidade, inclusive para colonização. Em 1864, o referido núcleo continha apenas 120 pessoas.

47

As a u t o r i d a d e s l o c a i s p r o c u r a v a m , a t r a v é s da n a v e g a ç ã o p e l o rio P a r a g u a i , r e d u z i r a d i s t â n c i a física

ou g e o g r á f i c a em r e l a ç ã o às p r o v í n c i a s do

c e n t r o - s u l e p a í s e s e u r o p e u s , v i s a n d o a s s i m a uma a p r o x i m a ç ã o c u l t u r a l . Se a p o p u l a ç ã o livre da p r o v í n c i a era t i d a c o m o i n d o l e n t e e i n c u l t a ,

tornava-se

n e c e s s á r i o m u d a r seus h á b i t o s e t o r n á - l a m e n o s r e f r a t á r i a ao t r a b a l h o e à idéia

de

modernização

e

de

civilização.

Os

lavradores

deveriam

ser

q u e s t i o n a d o s no s e n t i d o do que

já fizeram para deixar o prejudicial sistema de rotina herdado pelos seus avoengos... Se para suprir a força braçal hão procurado proverem-se de máquinas e instrumentos agrários... Se a Província dispunha de uma população em maior escala para o consumo... e por fim o que podiam fazer para que o progresso chegasse até à lavoura...68 A r e f e r i d a f a l t a de b r a ç o s na l a v o u r a m a t o - g r o s s e n s e dizia r e s p e i t o , e s p e c i f i c a m e n t e , à m ã o - d e - o b r a l i v r e e a s s a l a r i a d a . C o m o e s g o t a m e n t o das lavras a u r í f e r a s , os p r o p r i e t á r i o s de e s c r a v o s j á h a v i a m i n i c i a d o um p r o c e s s o de a l o c a ç ã o e/ou t r a n s f e r ê n c i a de e s c r a v o s p a r a a l a v o u r a da c a n a - d e - a ç ú c a r , v i s a n d o ao a p r o v e i t a m e n t o do c a p i t a l i n v e s t i d o . 6 9 A p a r t i r da Lei de 1850, que a b o l i u o t r á f i c o de e s c r a v o s , e no s e n t i d o de e v i t a r a e v a s ã o da m ã o - d e - o b r a e s c r a v a , f o i c r i a d a em 1857 vendido

para

qualquer

Por

sua

principalmente

uma taxa

os

absorvidos

cada

escravo

que

fosse

província.70

outra vez,

de 30% sobre

homens em

livres,

atividades

como

pastoris

já e

assinalado,

eram

extrativistas.

Estas

c a r a c t e r i z a v a m - s e p e l o n o m a d i s m o e p e l a n ã o - e x i g ê n c i a do m e s m o n í v e l da fiscalização imposta

aos e s c r a v o s .

O tráfico interprovincial

de

escravos,

d e c o r r e n t e da r e f e r i d a Lei, a p e s a r de p r o c e s s a r - s e em l a r g a e s c a l a nas r e g i õ e s onde

a lavoura

encontrou

cafeeira desenvolveu-se

maiores

68

dificuldades

nas

como

regiões

produção menos

para

prósperas

exportação, do

país,

A IMPRENSA DE CUIABÁ. 14 dez. 1862, p. 1 e 2.

69

Também em atividades urbanas muitos escravos passaram a ser empregados como pedreiros, ferreiros, carpinteiros, tropeiros, por apresentarem um determinado nível de profissionalização. 70

ALEIXO , Lúcia Helena Gaeta. op. cit., p. 48.

48

especialmente Goiás

nas províncias

e Mato

Grosso

envelhecimento

do norte,

...

mas também

onde

o tráfico

para

alterar

e da morte

nas províncias

combinou-se

com

a quantidade

do

oeste,

os efeitos

do

e a 'qualidade'

dos

71

escravos.

Após

1850,

tanto

quanto

em

outras

províncias,

os

escravos

a t i n g i r a m p r e ç o s bem m a i s e l e v a d o s , t o r n a n d o - s e p r a t i c a m e n t e i n v i á v e l sua a q u i s i ç ã o , daí a p r e m ê n c i a em p r o c u r a r a t r a i r a i m i g r a ç ã o e s t r a n g e i r a p a r a M a t o Grosso. N e s s e c o n t e x t o é que a p r o p o s t a de uma p o l í t i c a c o l o n i z a d o r a , com

a

vinda

respaldo

de

mão-de-obra

igualmente

em

européia,

outras

encontrava

províncias,

tendo

sentido. à

Encontrava

frente

as

camadas

dominantes locais. Outra questão vista pelas autoridades locais como importante para o d e s e n v o l v i m e n t o da p r o v í n c i a e, e s p e c i f i c a m e n t e , da a g r i c u l t u r a , c o n s t i t u í a se na n e c e s s i d a d e de c o n t r o l a r e / o u i m p e d i r os a t a q u e s e f e t u a d o s p e l o s p o v o s indígenas

sobre

constantes, abandono

a

população

rural.

tornavam

insegura

a vida

das r o ç a s ,

causando

sérios

Tais

ataques,

em

das

pessoas,

provocando

prejuízos

razão

às p l a n t a ç õ e s .

de

serem

pânico O

e

próprio

c o m é r c i o e f e t u a d o p e l o s t r o p e i r o s no t r a n s p o r t e das m e r c a d o r i a s , e n t r e São P a u l o , R i o de J a n e i r o e M a t o G r o s s o , a c a b a v a s o f r e n d o p r e j u í z o s na m e d i d a em que os a t a q u e s o c o r r i a m ao l o n g o dos c a m i n h o s t e r r e s t r e s . Os m a l o t e s de c o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e a p r o v í n c i a e o u t r a s r e g i õ e s por v e z e s a c a b a v a m n ã o c h e g a n d o ao d e s t i n o d e s e j a d o . R e c r u t a r h o m e n s p a r a sair na c a p t u r a

aos

índios c o n s t i t u i u - s e em uma a l t e r n a t i v a e n c o n t r a d a d e s d e o p e r í o d o c o l o n i a l . N e s s a s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XIX, a c a p t u r a aos í n d i o s p o r p a r t e

de

c i d a d ã o s e de m i l i t a r e s a p r e s e n t a v a - s e c o m o u m a p o s s i b i l i d a d e de t r a z ê - l o s à c o n v i v ê n c i a c o m o h o m e m b r a n c o e de civilizá-los.

E m tal e m p r e e n d i m e n t o , o

g o v e r n o p r o v i n c i a l não d e i x o u de c o n t a r c o m a p r e s e n ç a de Nessa

empresa

71

verdadeiramente

grande

de arrancar

do centro

missionários,

das matas

para

CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1978. p. 73.

49

a civilização nômade,

centenas

além

de brasileiros

de prejudiciais

chamando-os

da idolatria

A

idéia

de

perdidos,

e de espalhar

para

o culto

civilizar

os

inúteis entre

a nós e a si, na

eles

a doutrina

vida

do

bem,

verdadeiro.72

do povos

indígenas

vinha

carregada

do

p r o p ó s i t o de t o r n á - l o s a p t o s ao t r a b a l h o , e n f i m , d i s c i p l i n á - l o s . Tal p r o p ó s i t o ia ao e n c o n t r o do que se p r o p u n h a em r e l a ç ã o aos h o m e n s b r a n c o s

livres,

n u m a t e n t a t i v a de a p r o x i m á - l o s e a d e q u á - l o s aos p a d r õ e s c u l t u r a i s e u r o p e u s . As c i d a d e s d e v e r i a m ser d o t a d a s de u m a i n f r a - e s t r u t u r a u r b a n a de s a n e a m e n t o para o b r i g a r e, ao m e s m o t e m p o , o f e r e c e r m e i o s de levar a p o p u l a ç ã o

a

a c e i t a r os n o v o s h á b i t o s v i s t o s c o m o s i n ô n i m o de p r o g r e s s o e de c i v i l i z a ç ã o . 7 j N e s s e s e n t i d o , as a u t o r i d a d e s d e m o n s t r a v a m p r e o c u p a ç ã o c o m a n e c e s s i d a d e de i m p l e m e n t a r a c o n s t r u ç ã o

de o b r a s p ú b l i c a s . E n t r e e l a s , os c e m i t é r i o s

p ú b l i c o s , pois os enterramentos nações

cultas.

civilização Quererá

A

idéia

e porque perder

não

os foros

requisito

de h i g i e n e

alimentos

de má qualidade

as forças

de consumo

para

fechado

A falta

comungará

públicos

nos

esta

cemitérios

Está

em currais,

ao

a saúde,

com o bárbaro sem beber

se

esta

faziam alcance

e por

e péssimo

em

todas

as

é a

idéia

da

mesma

idéia?

prementes

como

de

todos

que

isso se deveria costume

e nem pastar,

os

envidar

de ter o

e o meio

de

gado sanar

público.75 água,

outro

problema

sério

p o p u l a ç ã o , d e v e r i a ser r e s o l v i d a c o m a c o n s t r u ç ã o

72

proscritos

população

igualmente

pública:

deteriorão

acabar

de

estão

civilidade?74

e saúde

este mal é o matadouro

igrejas

enterramentos

de

Os m a t a d o u r o s

todas

dos

nas

com

que

se

debatia

de a ç u d e s : nessa

a

capital,

A IMPRENSA DE CUIABÁ. 22 set. 1864, p. 2.

73

Volpato discorre sobre as transformações urbanas ocorridas na província de Mato Grosso, e especialmente em Cuiabá, na década de 1850 a 1860, como promotoras da circulação de idéias e hábitos gerados fora dali e fruto do intercâmbio do pensamento próprio da economia do mercado e capazes de promover alterações nas cidades. (VOLPATO, Luiza Rios Ricci. Cativos do sertão - vida cotidiana e escravidão em Cuiabá em 1850-1888. São Paulo : Ed. Marco ZeroAJFMT, 1993. p. 55). 74

A IMPRENSA DE CUIABÁ. 18 fev. 1864, p. 2.

125

Ibid., p. 19-20.

50

ainda

há poucos

chafarizes,

sofre

a população

grande

este mal, é a criação

de

cujas falta

origens

desse

de agora

elemento

são pouco

e o único

meio

abundantes, de

remediar

açudes16

E n t r e t a n t o , o i n í c i o da G u e r r a do P a r a g u a i , em n o v e m b r o de 1864, r e t i r o u de t a i s p r o j e t o s a c o n o t a ç ã o de p r e c e d ê n c i a na s o l u ç ã o do c o n j u n t o de p r o b l e m a s que a f e t a v a m a p r o v í n c i a . E m tal c o n t e x t o , a q u e s t ã o da d e f e s a das f r o n t e i r a s r e c r u d e s c e d i a n t e das n o v a s c o n t i n g ê n c i a s q u e se o b j e t i v a m a t r a v é s do a t a q u e b é l i c o

e da o c u p a ç ã o

de á r e a s da p r o v í n c i a

de M a t o

Grosso.

A c e n t u a - s e , p o r t a n t o , o c a r á t e r i t i n e r a n t e de c o n t i n g e n t e s da p o p u l a ç ã o que têm m e s c l a d o sua p r e s e n ç a na i n t e r m i t ê n c i a das a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s e nos c o m p r o m i s s o s de c u n h o m i l i t a r .

76

Ibid., p. 2.

1.2 OS H O M E N S D O REI

As

primeiras

autoridades para a

descobertas

ouro

resultaram

na

nomeação

de

r e g i ã o m i n e r a d o r a de M a t o G r o s s o , p e r s o n i f i c a d a s n o s

guardas-mores. Pessoas desenvolvimento

de

das

c o n s i d e r a d a s de confiança, tarefas

demandadas

pelo

com h a b i l i d a d e s p a r a o processo

inicial

de

p o v o a m e n t o , f o r a m eles os a g e n t e s p r e c u r s o r e s da a u t o r i d a d e real. N ã o se t r a t a v a , a i n d a , da m o n t a g e m , p r o p r i a m e n t e dita, de um a p a r a t o a d m i n i s t r a t i v o c a p a z de f a z e r f r e n t e a uma e f e t i v a p o l í t i c a de p o v o a m e n t o , a b a s t e c i m e n t o e militarização. E m r e f e r ê n c i a aos p r i m e i r o s

administradores,

Joaquim

da

Costa

S i q u e i r a a f i r m a q u e , até 1723, t e r i a h a v i d o d u a s a u t o r i d a d e s n a s m i n a s de C u i a b á , a m b a s n o m e a d a s p e l o g o v e r n a d o r da c a p i t a n i a de São P a u l o , g e n e r a l R o d r i g o C é s a r de M e n e z e s . U m a d e l a s , P a s c o a l M o r e i r a C a b r a l ,

administrou na forma do assignado que lhe fizeram; repartia as lavras, accomodava as contendas que por ellas havia, fazia pagar dívidas, julgava as contendas e demandas que se moviam sem que houvesse forma alguma de processo, com tanta prudência, accordo e agrado das partes que todos lhe ficavam obrigados, tanto os vencedores como os vencidos.7 Essa referência permite

que percebamos

uma possível

interação

e n t r e os p r o p ó s i t o s das a u t o r i d a d e s m e t r o p o l i t a n a s e os h o m e n s que

eram

n o m e a d o s p a r a a d m i n i s t r a r em n o m e da C o r o a , a p o n t o de o c r o n i s t a a f i r m a r que ... até este tempo Paschoal

Moreira

11

não houve

Cabral...

mais justiça

paulista

dos bons,

nestas homem

minas

que o

guarda-mor

chão, sem letras,

pouco

SIQUEIRA, Joaquim da Costa. Crônicas de Cuiabá. Revista do Instituto Histórico de São Paulo, IV. São Paulo, 1894. p. 26.

52

polido,

de agudo

de minerar

pelo

entendimento...

esperto

ter já exercitado

Ressalte-se

na milícia

e no

exercício

Gerais.78

em Minas

que M o r e i r a

dos sertões

Cabral

recebia

também

ordens

para

a

a r r e c a d a ç ã o dos q u i n t o s do o u r o , d o s d í z i m o s dos f r u t o s e dos d i r e i t o s s o b r e as f a z e n d a s e e s c r a v a t u r a que v i e s s e m do p o v o a d o , ... que elegesse

doze

colateraes,

em cada

com

um escrivão

bairro

com o guarda-mor fosse

para

um senado

bem commum

com

o título

o r d e n a n d o , p a r a esse f i m ,

de deputados,

e um meirinho,

para

determinarem

que

assistissem

e todos juntos nos casos

formassem

ocorrentes

o que

79

E s s e s h o m e n s p a s s a r a m a e x e r c e r seus c a r g o s com e x e c u t a n d o a j u s t i ç a e e n c a m i n h a n d o o t r a b a l h o no aumento

zelo

e

cuidado,

das minas.

Eram

p a r a t a n t o a g r a c i a d o s pelos s e r v i ç o s p r e s t a d o s . R o d r i g o C é s a r de M e n e z e s , em c a r t a e n d e r e ç a d a ao c a p i t ã o - m o r M o r e i r a C a b r a l , em 1724, r e a f i r m a v a sua c o n f i a n ç a a e s s e c a p i t ã o ao d i z e r : não descuidei bons

serviços

e merecimento

de Vossamercê

assim

espero

que Vossamercê

obre de sorte

eu tenha

que Eram

agradecer-lhe. aqueles

de por

para

por

que me faça

na Real elles

Presença

os

ser attendido,

e

merecedor

de mais e

Rí)

homens

considerados

fiéis

vassalos

da

Coroa

p o r t u g u e s a e r e s p e i t a d o s p e l o s r e l e v a n t e s s e r v i ç o s p r e s t a d o s . As h o n r a s e r a m a e l e s a t r i b u í d a s a t r a v é s de c a r t a s de a g r a d e c i m e n t o f i r m a d a s p e l o p r ó p r i o p u n h o real ... aos paulistas sertões

a descobrimento Contudo,

para

pelo

de minas a

zelo

com que se empregaram

de

prata...

Coroa

portuguesa,

o

a penetrar

povoamento

tinha

os

uma

c o n o t a ç ã o m a i s e s p e c í f i c a . T r a t a v a - s e de a t r a i r p e s s o a s de o u t r a s r e g i õ e s , de p r e f e r ê n c i a c a s a i s , de m a n e i r a q u e f o s s e m a s s e n t a d a s nas l i n h a s de f r o n t e i r a .

78

Ibid., p. 25.

79

Ibid., p. 27.

80

Ibid., p. 29.

53

P o r o u t r o l a d o , i m p e r a t i v o se f a z i a q u e urna p a r c e l a da p o p u l a ç ã o m a s c u l i n a se

fizesse

disponível

mobilização.

Para

sempre

que

tal

que

as

política

se

circunstâncias efetivasse,

o

exigissem

governo

uma

português

v i a b i l i z o u a e s t r u t u r a ç ã o de um g o v e r n o a nível local e n c a b e ç a d o por um governador. D o t a d o de g r a n d e s a t r i b u i ç õ e s , r e v e l a d o r a s do p o d e r que lhe era r e p a s s a d o , R o l i m de M o u r a era um d a q u e l e s n o t á r i o s de i n t e i r a c o n f i a n ç a da C o r o a . Suas p r ó p r i a s p a l a v r a s r e v e l a v a m o n í v e l de sua f i d e l i d a d e :

... o meu fim e o meu intento neste lugar não são outros sua magestade e o bem commum dos povos que o dito que de nenhum modo me pôde servir de obséquio acção haja de desagradar ao mesmo Senhor e motivar-lhes ruina.8' Contava cabedais

de

a Coroa

ouro

e

também

escravos

com

que,

homens

em

geral,

mais do que o serviço de Senhor me encarregou, e nenhuma irregular e que a vossasmercês alguma

possuidores em

troca

de

de

grandes

cartas

de

a g r a d e c i m e n t o , c o l o c a v a m seus e s c r a v o s à d i s p o s i ç ã o do g o v e r n o local p a r a a defesa

da

linha

divisora

entre

Portugal

e

Espanha.

Além

das

cartas,

g e r a l m e n t e r e c e b i a m ouro e p a g a m e n t o p r o p o r c i o n a l ao p r e ç o dos e s c r a v o s m o r t o s no c o n f r o n t o com os e s p a n h ó i s e í n d i o s . O c a r á t e r da p r e s t a ç ã o d e s s e t i p o de s e r v i ç o à C o r o a

implicava

despender recursos próprios, como Luís Rodrigues Villares (capitão-mor) que, a l é m do ... muito

cabedal muito

que despendeu

colônias,

gastou

nas expedições

interesse

mais que o virem para

para para

o grêmio

a conservação a redução

da

Igreja.

N a s e x p e d i ç õ e s , os e n c a r r e g a d o s de recebiam

patentes

c o m o as de

81

Ibid., p. 112.

82

Ibid., p. 57.

mestre

das

dos gentíos

importantes sem

outro

82

conquistar o gentío bárbaro

de c a m p o ,

sargento-mor,

capitão,

54

c o r o n e l , f u r r i e l , a l f e r e s ; p o r é m a r c a v a m c o m os c u s t o s d e l a s — u m a s a dez m o e d a s , o u t r a s a oito, c o n f o r m e a d i g n i d a d e do c a r g o que na p a t e n t e

se

declarava.83 A g u e r r a ao í n d i o era f e i t a c o n f o r m e o r d e n a v a a C o r o a , p o r é m à c u s t a do p o v o , sem q u a l q u e r t i p o de ô n u s à R e a l F a z e n d a . C u s t e a v a m

a

g u e r r a , o b v i a m e n t e , os h o m e n s b r a n c o s c o m b e n s , que p o d i a m f a z e r uso de suas fazendas

p a r a p r e p a r a r c a n o a s c o m a r m a s , c o m p r a r m a n t i m e n t o s , etc.

Isso não s i g n i f i c a d i z e r q u e n o r m a l m e n t e h a v i a c o l a b o r a ç ã o

por

p a r t e dos s ú d i t o s . Havia c a s o s e s i t u a ç õ e s em que o s o c o r r o era f a l h o , daí as autoridades

locais

convocarem

o

povo

para

t r a n s f o r m a d o s c i r c u n s t a n c i a l m e n t e em soldados.

lutar.

Paisanos

eram

R e c e b e n d o ou não m u n i ç õ e s ,

t a n t o os livres c o m o os e s c r a v o s f a z i a m f r e n t e aos i n i m i g o s . L u t a v a m uns por r e c o m p e n s a s r é g i a s , o u t r o s p e l o c u m p r i m e n t o de o r d e n s e o u t r o s p e l a d e f e s a do e s p a ç o em que v i v i a m com s u a s f a m í l i a s . U n i a a t o d o s o m e d o de cair nas g a r r a s dos ditos i n i m i g o s . E m s i t u a ç õ e s p r e m e n t e s , o p r ó p r i o g o v e r n a d o r , além de s o l i c i t a r o número

de s o l d a d o s ,

elaborava

listas

apontando

nomes

de o f i c i a i s

mais

c a p a z e s p a r a p a r t i c i p a r da e m p r e s a . E m o u t r a s p a l a v r a s , r e c r u t a v a m - s e

os

h o m e n s em i d a d e a d u l t a p a r a a d e f e s a da c a p i t a n i a . O a p a r a t o a d m i n i s t r a t i v o , m o n t a d o ao l o n g o do s é c u l o X V I I I , v i s a v a r e s p o n d e r às o f e n s i v a s dos e s p a n h ó i s e dos i n d í g e n a s e j u s t i f i c a v a - s e p e l a necessidade

de

controle

dos

veios

auríferos.

Colado

a

essa

montagem,

e s t r u t u r a v a - s e o g o v e r n o e c l e s i á s t i c o . M e s c l a v a m - s e as o b r i g a ç õ e s e d e v e r e s e n t r e os f u n c i o n á r i o s da F a z e n d a , da J u s t i ç a e d o s a s s u n t o s r e l i g i o s o s . As atribuições

entre

tais

funcionários

se,

teoricamente,

estavam

definidas,

t r a n s m u t a v a m e e n r e d a v a m - s e d i a n t e da c o m p l e x i d a d e do n o v o , do e m e r g e n t e ,

83

Ibid., p. 77.

55

do perigo, das a m b i ç õ e s p e s s o a i s , e n f i m , das i m p o s i ç õ e s do p r ó p r i o c o n t e x t o geográfico e social. Assim,

a

interferência

da

Coroa

em

todas

essas

esferas

se

o b j e t i v a v a de a c o r d o com o n í v e l de f i s c a l i z a ç ã o i m p o s t o sobre os c o l o n o s e sobre o p r ó p r i o d e s e m p e n h o e o b e d i ê n c i a d e s s e s c o l o n o s . I n t e r f e r i a a t r a v é s de seus s ú d i t o s , q u a n d o da f u n d a ç ã o de f o r t e s , c o m o o de C o i m b r a em 1775, do P r í n c i p e da B e i r a em 1776, e C a s a l V a s c o , e de p r e s í d i o s c o m o o de M i r a n d a em 1797. E l a se f a z i a p r e s e n t e q u a n d o da p a r t i l h a das d a t a s de m i n e r a ç ã o e c o b r a n ç a do q u i n t o do o u r o , q u a n d o da n o m e a ç ã o dos o u v i d o r e s g e r a i s e de outros

oficiais

da

Câmara

Municipal

para

o

exercício

das

tarefas

a d m i n i s t r a t i v a s e j u d i c i a i s ; a i n d a q u a n d o do m a n d a d o de p r i s ã o dos s o l d a d o s f u g i t i v o s das b a n d e i r a s na c a ç a a o s í n d i o s e na c r i a ç ã o de r e g i m e n t o s

de

milícias. I n i c i a l m e n t e , o r e f e r i d o a p a r a t o era c o m p o s t o por p e s s o a s i n d i c a d a s p e l a Coroa. T a i s r e p r e s e n t a n t e s e x e r c i a m f u n ç õ e s r e l a t i v a s à a d m i n i s t r a ç ã o , j u s t i ç a e f a z e n d a , bem c o m o às de c a r á t e r m i l i t a r , p r e e n c h e n d o , p o r t a n t o ,

os

p o s t o s de m a i o r i m p o r t â n c i a na c a p i t a n i a . Aos r e p r e s e n t a n t e s dos g r u p o s do p o d e r l o c a l , c o m o os p r o p r i e t á r i o s das lavras a u r í f e r a s , de t e r r a s e de c o m é r c i o - os c a b i a m r e c o m p e n s a s , na m e d i d a autoridades

locais.

representantes

da

As Coroa

de cabedais



em q u e e r a m c h a m a d o s e a u x i l i a v a m

recompensas como

homens

aos

eram da

terra,

endereçadas através

de

tanto

aos

cartas

a g r a d e c i m e n t o , c a r t a s de p a t e n t e e l a v r a s de t e r r a . S e r i a m as prebendas

as

de que,

no dizer de U r i c o e c h e a , p o s s i b i l i t a v a m u m a i n t e r a ç ã o e n t r e os o b j e t i v o s da C o r o a e os dos g r u p o s locais. 8 4

84

URICOECHEA, Fernando. O minotauro imperial. Rio de Janeiro : DIFEL, 1978. p. 33-4.

56

Essas relações apontavam uma relativa e contraditória relações

estavam

o elemento

u m a d e p e n d ê n c i a e, ao m e s m o

autonomia

tempo,

de a m b a s as partes. Na b a s e

c o n f i a n ç a e as r e c o m p e n s a s

esperadas

das pelo

s e r v i ç o p r e s t a d o . De um l a d o , u m p o d e r m e t r o p o l i t a n o que, ao não a r c a r c o m os c u s t o s de u m a r e g i ã o em p r o c e s s o de o c u p a ç ã o e p o v o a m e n t o , a p o i a v a - s e no p o d e r dos h o m e n s da t e r r a , f a z e n d o c o m q u e estes e m p r e g a s s e m p r ó p r i o s r e c u r s o s p a r a c u s t e a r as d e s p e s a s q u e d e v e r i a m ser a t r i b u i ç ã o Junta

da F a z e n d a .

De

outro,

homens

que,

ao

prestar

serviços

à

seus da

Coroa,

c o n s t r u í r a m um o u t r o p o d e r p a r a l e l o à q u e l e da m e t r ó p o l e , b e m m e n o r , m a s i n f l a d o de p o s s i b i l i d a d e s . N a s p r i m e i r a s d é c a d a s do s é c u l o X I X e, e s p e c i f i c a m e n t e , a p a r t i r da I n d e p e n d ê n c i a , j á era p o s s í v e l i d e n t i f i c a r a p r e s e n ç a de ó r g ã o s que f o r m a r i a m o a p a r a t o do p o d e r na r e g i ã o , s e g u i n d o os m o l d e s de outras p r o v í n c i a s do i m p é r i o : P r e s i d ê n c i a , j u n t a s da F a z e n d a P ú b l i c a e da J u s t i ç a , c o m a n d o das Forças Armadas e governo eclesiástico. E p o s s í v e l a f i r m a r q u e , e n q u a n t o na c a p i t a l , C u i a b á , e s t r u t u r a v a m se os p o d e r e s p o l í t i c o , m i l i t a r e e c l e s i á s t i c o , s u b o r d i n a d o s à c o r t e do R i o de J a n e i r o , em o u t r a s l o c a l i d a d e s da p r o v í n c i a i m p l e m e n t a v a - s e com d e s t a q u e o a p a r a t o m i l i t a r . C o m tais c a r a c t e r í s t i c a s , p o d e m ser m e n c i o n a d o s t a n t o V i l a M a r i a , h o j e C á c e r e s , f u n d a d a em 1778, c o m o a Povoação

de

Albuquerque,

C o r u m b á , e o F o r t e de C o i m b r a , p e l a sua i m p o r t â n c i a m i l i t a r na d e f e s a da p r o v í n c i a . F u n d a d o s às m a r g e n s do rio P a r a g u a i , s e d i a v a m os q u a r t é i s dos c o m a n d o s de f r o n t e i r a e r e s p o n d e r a m p e l a s e g u r a n ç a do sul de M a t o G r o s s o , n ã o s o m e n t e no f i n a l do s é c u l o X V I I I , c o m o t a m b é m ao l o n g o de t o d o o seguinte. Torna-se,

portanto,

de

fundamental

importância

fazer

alguns

d e s t a q u e s s o b r e u m a das á r e a s q u e c o m p u n h a m o a p a r e l h o a d m i n i s t r a t i v o — a área militar.

57

N ã o m a i s i m p o r t a n t e q u e as d e m a i s i n s t â n c i a s de p o d e r , c o u b e aos m i l i t a r e s u m a s i g n i f i c a t i v a p a r c e l a h i s t ó r i c a de c o n t r i b u i ç ã o no p r o c e s s o de o c u p a ç ã o , e s t a b e l e c i m e n t o d o s p o v o a d o s e e s t r u t u r a ç ã o do E s t a d o em t e r r a s b r a s i l e i r a s , e s p e c i f i c a m e n t e em r e g i õ e s l i m í t r o f e s c o m o M a t o Grosso e R i o Grande

do

Sul,

durante

os

séculos

XVIII

e XIX.

Aos

militares

foram

a t r i b u í d a s r e s p o n s a b i l i d a d e s t a n t o na g a r a n t i a da d e f e s a da f r o n t e i r a de n o r t e a

sul,

quanto

na

manutenção

da

ordem

interna.

No

entanto,

segundo

MATTOSO, com seu peso numérico, com as hierarquias sociais que acentuava e revelava, com as solidariedades que suscitava ou recusava, o Exército pesava de maneira original nas estruturas de um Estado que sempre manifestara, diante dos militares, sentimentos ambíguos, mesclados de admiração e confiança, receio e ciúmes,85 E s s a s impressões então

foi

cidadãos

criada

uma

eleitores

regencial

e

até

f o r a m a c e n t u a d a s no p e r í o d o r e g e n c i a l ,

Guarda

Nacional,

e participantes à

Guerra

do

ou

da v i d a

Paraguai,

milícia

política aos

cidadã,

formada

nacional.

militares

quando

No

foram

de

período

atribuídas

r e s p o n s a b i l i d a d e s de d e f e s a das f r o n t e i r a s e de a t a q u e ao i n i m i g o

externo,

pois a tradição brasileira do século XIX, baseava-se na idéia de que as milícias eram a melhor corporação de defesa interna e o exército era o mais adequado ao ataque e à defesa externa. Era generalizada a convicção de que o fortalecimento das tropas regulares representava um perigo para as liberdades civis, ao contrário da Guarda Nacional formada de cidadãos soldados armados para a Qer preservação da liberdade. A incumbida

crença da

na

eficácia

manutenção

da

da

Guarda

tranqüilidade

Nacional pública87

c o m o força e

o

local

desinteresse

8j

MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Bahia, século XIX: uma província no império. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1992. p. 224. 86

CASTRO, Jeanne Berrance de. A Guarda Nacional. In: BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio, (org.) História geral da civilização brasileira; o Brasil monárquico: declínio e queda do império. São Paulo : DIFEL, 1971. v. 4, T. II, p. 292. 87

CASTRO, ibid., p. 293.

58

generalizado

dos p a r l a m e n t a r e s

brasileiros

para

com

as f o r ç a s

regulares,

c o n t r i b u í r a m para que o E x é r c i t o m a n t i v e s s e até os a n o s 70 u m a e s t r u t u r a militar

deficitária.

Essa

estrutura,

pode-se

dizer,

caracterizava-se

pela

a u s ê n c i a de p r e p a r o t é c n i c o - m i l i t a r d a s t r o p a s do E x é r c i t o , a s s i m c o m o p e l a f a l t a de um p l a n e j a m e n t o g e r a l q u e l e v a s s e em c o n t a as r e a i s

condições

brasileiras. Nesse

aspecto,

e,

ao

longo

do

tempo,

segundo

BARROSO,

os

OO

r e g i m e n t o s do E x é r c i t o p a s s a r a m p o r v á r i a s m u d a n ç a s difícil precisar cavalaria, maneira foram,

sua t r a j e t ó r i a

não se pode as reformas às

vezes,

infantaria

no

mais saber

alteraram

fuzileiros

Brasil,

à exceção

a história

quadros,

de nenhum

números

e vice-versa;

, tornando-se bastante Io

do

outro

e atribuições.

a artilharia

viu-se

regimento corpo, Os

de de

tal

caçadores

mudada

em

cavalaria!89

e esta em

N o q u a d r o de c o m p o s i ç ã o das F o r ç a s A r m a d a s , o i m p é r i o b r a s i l e i r o apresentou,

entre

os

anos

de

1839

a

1870,

uma

distribuição

c o n s t a v a m : a f o r ç a de I a l i n h a , as f o r ç a s a u x i l i a r e s e a G u a r d a destacada.90

em

que

Nacional

A f o r ç a de I a l i n h a , d i s t r i b u í d a p e l a s p r o v í n c i a s b r a s i l e i r a s , era

c o m p o s t a por r e g i m e n t o s — c o m p a n h i a s de a r t i l h a r i a , i n f a n t a r i a , c a v a l a r i a e

88

Segundo o autor, no Primeiro Reinado, pelo decreto de I o de dezembro de 1824, ocorreu uma primeira tentativa de organicidade do Exército, quando as forças brasileiras de tena foram organizadas como Exército de I a e 2a linha, pondo fim às formações irregulares e fragmentárias da época do Brasil colônia e reino. O decreto de maio de 1831 conservou o estado-maior general, os estados-maiores de I a e 2a classes, os engenheiros, os oficiais burocráticos, 16 batalhões de caçadores, cada qual dividido em oito companhias, 5 corpos de artilharia de posição e um de artilharia a cavalo. Com esse decreto, muitas unidades foram dissolvidas, a exemplo dos granadeiros e fuzileiros, dando-se prioridade aos caçadores. Em 1834, uma tentativa por parte da regência acabou por reduzir os efetivos do Exército, a exemplo dos batalhões de caçadores, que foram reduzidos de 16 para 8. Observe-se que, em 1839, por decreto de 2 de fevereiro, o Exército brasileiro foi mais uma vez reorganizado, dessa vez aumentando para 12 o número de batalhões de caçadores, porém com diminuição para a cavalaria. Em 1842, pelo decreto de 25 de abril, o Exército foi novamente reorganizado, em razão da necessidade de aumentar as guarnições de São Paulo e Rio. Em 1846, destacou-se a criação de um regimento de cavalaria ligeiro no Rio Grande do Sul com o n° 4, e que em 1852 foi transformado em 5o. (BARROSO, Gustavo. História Militar do Brasil. São Paulo : Nacional, 1935. p. 51-57). 89

BARROSO, ibid., p. 54-55.

90

CASTRO, op. cit., p. 294.

59

de c a ç a d o r e s . 9 1 Por sua vez, a G u a r d a N a c i o n a l , i g u a l m e n t e d i s t r i b u i d a nas d i v e r s a s p r o v i n c i a s , agiu c o m o f o r ç a a u x i l i a r do E x é r c i t o , em s i t u a ç õ e s de guerra. E m M a t o G r o s s o , os p r i m e i r o s c o r p o s c r i a d o s f o r a m a C o m p a n h i a de D r a g õ e s ( 1 7 5 1 ) , e o C o r p o de P e d e s t r e s ( 1 7 5 5 ) , os q u a i s d e s e m p e n h a r a m t a r e f a s na e s c o l t a das m o n ç õ e s , n a s d i l i g ê n c i a s dos rios, s e r v i r a m de p i l o t o s e remeiros

e ao

ordinariamente

mesmo

tempo

podem

atiradores...91

bons

servir

bem

na

ação,

por

que

são

E m 1808, foi c r i a d a uma c o m p a n h i a de

v o l u n t á r i o s , d e n o m i n a d a C o m p a n h i a F r a n c a de L e a i s C u i a b a n o s ,

composta

i n i c i a l m e n t e por um o f i c i a l e d e s t i n a d a p r i n c i p a l m e n t e ao s e r v i ç o de r e m a r as canoas. Tanto a Companhia Companhia seguinte,

de Leais 1809,

regimento

a

de D r a g õ e s

Cuiabanos

Companhia

de m i l í c i a s ,

eram de

contendo

c o m o o C o r p o de P e d e s t r e s

forças

Leais

militares

Cuiabanos

uma companhia

pagas.

foi



no

organizada

de g r a n a d e i r o s ,

e a ano como

uma

c a ç a d o r e s , oito de f u z i l e i r o s e d u a s c o m p a n h i a s de c a v a l a r i a . A i n d a

de

nesse

m e s m o ano, f o r a m c r i a d a s d u a s r e p a r t i ç õ e s ou d i s t r i t o s m i l i t a r e s , s e n d o que ao I o d i s t r i t o p e r t e n c i a m os d e s t a c a m e n t o s de Vila B e l a — C a s a l v a s c o , F o r t e do P r í n c i p e , J a u r u Miranda,

e Vila Maria

Coimbra

e, ao 2 o , os d e s t a c a m e n t o s

e Alburquerque.

Novamente

m o d i f i c o u - s e , em

o r g a n i z a ç ã o do C o r p o de O r d e n a n ç a s de C u i a b á , que ficou companhias, Acima, homens

a saber:

l de Cocais, pardos

e

1 de Vila Bela, l de Rio Acima

1 de

Henriques

1 de São Pedro e Diamantino,

9i

Em

1815,

de

Cuiabá, 1809,

composto

D'El

Rei,

de

foi

criado

um

oito

1 de

1 de Rio Abaixo,

a

Serra 1 de

corpo

de

a r t i l h e i r o s e m a r i n h e i r o s , p a r a o s e r v i ç o de b a r c a s c a n o e i r a s , t o r n a n d o - s e a 6 a B r i g a d a de A r t i l h a r i a da L e g i ã o de M i l í c i a s de C u i a b á . 9 4 As m e d i d a s t o m a d a s

91

Os batalhões de caçadores foram originados dos corpos de pedestres e ligeiros, forças irregulares que sobreviveram até 1840 e na época eram conhecidos como caçadores de montanha. 92

MELGAÇO, Barão de. ibid., p. 247.

93

Ibid., p. 311.

94

A Legião de Milícias de Cuiabá foi organizada no ano de 1813, por portaria de 10 de abril. (MELGAÇO, Barão de. op. cit., p. 314.)

60

a partir de 1831 p e l a s r e g ê n c i a s , c o m o a r e d u ç ã o dos e f e t i v o s do E x é r c i t o , a e x t i n ç ã o total das m i l í c i a s e a c r i a ç ã o da G u a r d a N a c i o n a l , f o r a m o b s e r v a d a s i g u a l m e n t e na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o . E m C u i a b á , f o r a m o r g a n i z a d a s d u a s c o m p a n h i a s de G u a r d a N a c i o n a l , com o r d e n s j á em 1832 de o c u p a r o l u g a r da t r o p a de linha no q u a r t e l l o c a l i z a d o no b a i r r o do P o r t o . Nos p r i m e i r o s m e s e s do ano de 1835, i n i c i o u - s e a o r g a n i z a ç ã o do a r s e n a l de g u e r r a . E m 1840, a G u a r d a N a c i o n a l da p r o v í n c i a f o i o r g a n i z a d a em l e g i ã o , c o m p o s t a de d o i s batalhões

de

infantaria

e uma

companhia

de

cavalaria,

em

Cuiabá:

um

b a t a l h ã o de i n f a n t a r i a , em D i a m a n t i n o , P o c o n é e V i l a Bela. Ao que c o n s t a , em 1843 f o r a m c r i a d o s os c o r p o s f i x o s , r e s u l t a n t e s da u n i f i c a ç ã o das t r o p a s de linha — c o m p a n h i a

de c a ç a d o r e s , a r t i l h a r i a , c a v a l a r i a , a r t í f i c e s . 9 5 Em

1851, com a r e f o r m a geral d o s c o r p o s f i x o s , a c a v a l a r i a foi a u m e n t a d a , p o r é m s u p r i m i u - s e um dos b a t a l h õ e s de c a ç a d o r e s de M a t o G r o s s o , c o n t i n u a n d o a artilharia e pedestres. A

correspondência

comandantes

de c o r p o s ,

entre

distritos

os

presidentes

e destacamentos

da

província

dos m i l i t a r e s

e

de

os

Mato

Grosso, assim c o m o os j o r n a i s , t r a z e m à t o n a a s p e c t o s da r e l a ç ã o e n t r e o g o v e r n o p r o v i n c i a l e o h o m e m c o m u m , a s s i m c o m o a s p e c t o s dos m i l i t a r e s enquanto

categoria.

Permitem,

ainda,

que

se

perceba

como

estavam

e s t r u t u r a d a s as f o r ç a s m i l i t a r e s na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o . A a t u a ç ã o dos m i l i t a r e s em r e l a ç ã o às t a r e f a s o b r i g a t ó r i a s a s e r e m d e s e n v o l v i d a s , às c o n d i ç õ e s de v i d a a p ó s o i n g r e s s o nas c o m p a n h i a s , salários,

às

vislumbra

represálias

outros

sofridas,

aspectos

do

assim

nível

de

como

aos

interferência

estímulos da

esfera

aos

recebidos, do

poder

p ú b l i c o sobre a do p o d e r p r i v a d o .

95

Ressalte-se que unicamente Amazonas, Pará e Mato Grosso tiveram artilharia fixa. Os artilheiros amazonenses tomaram parte, no tempo da Guerra do Paraguai, na expedição de Mato Grosso. Finda a campanha, a província não teve mais corpos fixos. (BARROSO, ibid., p. 62).

6 1

No i n í c i o da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X I X , o g o v e r n o p r o v i n c i a l p r e o c u p a v a - s e a i n d a no s e n t i d o de r e s g u a r d a r as f r o n t e i r a s de M a t o Grosso. Essas

preocupações,

Presidência

e os

reveladas

comandantes

através militares

dos

ofícios

brasileiros,

trocados diziam

entre

respeito

a aos

l i m i t e s com os p a í s e s v i z i n h o s : P a r a g u a i e B o l í v i a . O r d e n s p r e s i d e n c i a i s e r a m r e p a s s a d a s no s e n t i d o de c o n t r o l a r a e n t r a d a de p a r a g u a i o s e

bolivianos,

a s s i m c o m o a s a í d a de m i l i t a r e s e p a i s a n o s m a t o - g r o s s e n s e s p a r a os p a í s e s r e f e r i d o s . O c o n t r o l e d e v e r i a ser f e i t o m e d i a n t e a e x i g ê n c i a de a p r e s e n t a ç ã o de p a s s a p o r t e em t e r r a s m a t o - g r o s s e n s e s por p a r t e dos e s t r a n g e i r o s , sob r i s c o de cair em p r i s ã o . P r e o c u p a ç ã o t a m b é m e x i s t i a no s e n t i d o de que os m i l i t a r e s m a t o - g r o s s e n s e s n ã o e n t r a s s e m em a t r i t o c o m p a r a g u a i o s e b o l i v i a n o s

por

p e n e t r a r e m em n o s s a s t e r r a s . O g o v e r n o p r o v i n c i a l o u v i a as r e c l a m a ç õ e s de m i s s i o n á r i o s e s t r a n g e i r o s c o n t r a a t a q u e s de m i l i t a r e s m a t o - g r o s s e n s e s e f a z i a r e p r e s á l i a s aos seus c o n t e r r â n e o s . Os p r e s i d e n t e s de p r o v í n c i a

envidaram

e s f o r ç o s , d u r a n t e t o d a a d é c a d a de 1850 e p r i m e i r o s a n o s da d é c a d a s e g u i n t e , no s e n t i d o de e s t r u t u r a r as f r o n t e i r a s ao sul e ao n o r t e de M a t o G r o s s o . O o f í c i o a seguir e x e m p l i f i c a a r e f e r i d a a f i r m a ç ã o : Desde que está a seo cargo o comando desse Districto, V.M. terá tido mais de uma occasião de sentir a falta que temos de uma soffrivel carta topographica, ou pelo menos de um reconhecimento militar da nossa fronteira meridional. Não lhe incumbo semelhante trabalho, sabendo que V.M. não tem à sua disposição o tempo e os meios necessários para fazê-lo. Recomendo-lhe porém que, colhendo informações dos militares e paizanos conhecedores das localidades, organize e me remetía a tabella, cujo modelo lhe envio das distancias por terra, entre os pontos mencionados na mesma. Se V.M. puder figurar mais ou menos aproximadamente, a posição dos principaes pontos militares em relação aos rios de Miranda, Apa, dos Dourados, de S.Maria e Brilhante, e bem assim um resumido e tosco itinerario de um a outro com designação das agoas, matas e montes pelos quais se transita, será isto de muita utilidade. Remetter-me-há V.M, com a possível brevidade, essas informações ainda parcialmente e sem aguardar que estejão completos. O que tudo espero de seo intelligente zelo e actividade. Deos guarde a V.M. Augusto Leverger. Senr. Tenente Coronel Commandante do Districto militar de Miranda,96

96

APEMT. Ofício do presidente da província, Augusto Leverger ao comandante do Distrito Militar de Miranda. Cuiabá, 1863. Livro n° 190. Anos de 1860 a 1863. p. 193.

62

Nesse sentido, fortes, quartéis, estradas e colonias eram construidos após p r é v i o s

planejamentos

e com

plantas

testadas

e reelaboradas

c o m a n d a n t e s dos d i s t r i t o s m i l i t a r e s de M a t o G r o s s o s e g u n d o

pelos

determinações

do p r e s i d e n t e de p r o v í n c i a : Tendo V.M. sido nomeado para commandar interinamente a Colonia Militar dos Dourados, inclusa remetto-lhe huma copia authentica das Instrucções dadas para a fundação da mesma, a fim de que por ellas se reja no que lhe disser respeito. He desnecessário dizer-lhe a grande importancia desta Colonia, e o quanto se empenha o Governo Imperial em leva-la a execução, por que espero que Vm. empregará todos os esforços e a sua experiências do sertão para funda-la e fazeia prosperar. Assim, os Officiaes como as praças da Colonia ficão addidas ao Corpo de Cavallaria, e por elle se tirarão os respectivos vencimentos. Para as primeiras despesas do Estabelecimento mando adiantar a Vm. pela Thesouraria de Fazenda a quantia de seiscentos mil reis, de cujo emprego prestará contas — Deos guarde a Vm. — Antonio Pedro de Alencastro -- o . Alferes João Chrysostomo Moreira.97

A c o n s t r u ç ã o e p o s t e r i o r m a n u t e n ç ã o de tais o b r a s p e l o s m i l i t a r e s mato-grossenses

significavam

para

o

governo

imperial

e

provincial

a

a f i r m a ç ã o do p o d e r da a u t o r i d a d e do E s t a d o m o n á r q u i c o p e r a n t e as r e p ú b l i c a s v i z i n h a s . C o n s t r u í a m - s e , j u n t a m e n t e c o m os f o r t e s , p o v o a ç õ e s e e s t r a d a s , as b a s e s de s u s t e n t a ç ã o do E s t a d o em u m a r e g i ã o de f r o n t e i r a . Sob c a d a p e ç a v i n d a da c o r t e c o m o que se a l i c e r ç a v a a a u t o r i d a d e do E s t a d o p e r a n t e a d i s p e r s a p o p u l a ç ã o da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o e c o m o que t a m b é m

se

e s t r e i t a v a m as r e l a ç õ e s e n t r e os p r e s i d e n t e s de p r o v í n c i a e os c o m a n d a n t e s dos

distritos

militares.

provincial'podem

A afirmação

e poder

da

autoridade

do

governo

ser a v a l i a d o s a t r a v é s do p r ó p r i o a c a t a m e n t o de s u a s o r d e n s

por p a r t e das a u t o r i d a d e s m i l i t a r e s .

Ao q u e c o n s t a , e s t a n d o os m i l i t a r e s em

s e r v i ç o , p r ó x i m o s ou d i s t a n t e s , a l é g u a s da c a p i t a l da p r o v í n c i a de

Mato

Grosso, a comunicação geralmente não ocorria com intensidade e rapidez.

97

APEMT. Ofício do presidente da província ao alferes João Chrysostomo Moreira, comandante interino da Colônia Militar de Dourados. Cuiabá, 1860. Livro n° 190. Anos 1860 a 1863. p. 2.

63

O t o m da r e l a ç ã o e s t a b e l e c i d a e n t r e os p r e s i d e n t e s de p r o v í n c i a e os comandantes

dos

corpos,

distritos

e

demais

autoridades

militares,

c a r a c t e r i z a v a - s e , ao que p a r e c e , de um l a d o , por u m a r í g i d a f i s c a l i z a ç ã o e, de o u t r o , por u m a s u b s e r v i ê n c i a em que os m i l i t a r e s , t a n t o do alto c o m o do baixo

escalão,

estavam

adstritos.

Ordens

eram

emanadas

para

todos

os

r e c a n t o s da p r o v í n c i a e p a r a v á r i a s i n s t â n c i a s , n u m a d e m o n s t r a ç ã o do n í v e l de i n t e r f e r ê n c i a da e s f e r a do p o d e r p ú b l i c o . E s s a i n t e r f e r ê n c i a , p o d e - s e d i z e r , se fazia

intensa

e

constante,

atingindo

toda

a

população

que

direta

ou

i n d i r e t a m e n t e e s t i v e s s e l i g a d a a uma a t i v i d a d e p r o d u t i v a , q u a l q u e r q u e f o s s e , s u j e i t a às c i r c u n s t â n c i a s ou c o n t i n g ê n c i a s das c o n v o c a ç õ e s e r e c r u t a m e n t o s para serviços militares. A p r e s e n ç a do E s t a d o era s u b s t a n c i a d a nos p r ó p r i o s i n t e r e s s e s e p r e o c u p a ç õ e s da P r e s i d ê n c i a da p r o v í n c i a c o m r e l a ç ã o às v á r i a s

instâncias

civis, militares e religiosas. C o m r e l a ç ã o às f o r ç a s m i l i t a r e s , e s p e c i f i c a m e n t e , o c o n t r o l e

do

g o v e r n o p r o v i n c i a l se f a z i a p r e s e n t e a t r a v é s da e m i s s ã o de o r d e n s r e f e r e n t e s ao

controle

armamentos,

de

despesas

uniformes,

com

os

membros

medicamentos



das

assim

companhias como

na



soldos,

exigência

de

i n f o r m a ç õ e s p r e c i s a s e c o n f i á v e i s por p a r t e dos m i l i t a r e s sobre o c o m é r c i o dos d i s t r i t o s m i l i t a r e s c o m p a í s e s v i z i n h o s . T a m b é m não se

d e s c u i d a v a de

b u s c a r i n f o r m a ç õ e s c o n d i z e n t e s com o c u m p r i m e n t o de suas o r d e n s por p a r t e d a q u e l e s que e r a m c o n t r a t a d o s p a r a e x e c u t a r t a r e f a s t a i s c o m o c o n s t r u ç ã o de e s t r a d a s e p o n t e s , l i m p e z a de r i o s , s e r v i ç o s de c a r p i n t a r i a etc. Ao p r ó p r i o p r e s i d e n t e da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , por ser t a m b é m o comandante

das

Armas,

cabia

a definição

das

regras

do p r o c e s s o

a r r e g i m e n t a ç ã o r e l a t i v o t a n t o ao r e c r u t a m e n t o q u a n t o ao e n g a j a m e n t o

de dos

h o m e n s que d e v e r i a m c o m p o r os c o r p o s m i l i t a r e s , e/ou o E x é r c i t o de L i n h a , assim como a Guarda Nacional.

64

Na s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X I X , e n c o n t r a v a m - s e na p r o v í n c i a as s e g u i n t e s f o r ç a s : c a v a l a r i a , a r t i l h a r i a , C o m p a n h i a de P e d e s t r e s e B a t a l h ã o de Caçadores. Além dessas companhias, havia também

a Polícia Militar e a

G u a r d a N a c i o n a l , a m b a s c r i a d a s na d é c a d a de 30. As

regras,

consubstanciadas

em

determinações

e

ordens,

r e p a s s a d a s p e l o s p r e s i d e n t e s aos c o m a n d a n t e s m i l i t a r e s , que a c a b a v a m e x e c u t á - l a s e d i v u l g á - l a s j u n t o à p o p u l a ç ã o das f r e g u e s i a s . E s t a s

eram por

deveriam

f o r n e c e r a n u a l m e n t e um n ú m e r o d e t e r m i n a d o de r e c r u t a s , s e n d o v a r i á v e l de f r e g u e s i a para f r e g u e s i a a c o t a i m p o s t a :

Fique V.M. na intelligência de que essa freguezia deve dar no corrente anno financeiro quinze recrutas ou voluntários e não nove como por engano lhe disse no officio reservado que lhe dirigi em data de hoje. Deos guarde a V.M. Palácio do Governo deJj/íato Grosso em Cuiabá, 21 de agosto de 1854. Augusto Leverger. Sr. Ten . Cor . Com . do Corpo de Cavallaria e do Districto h f r . de Vila Maria.98 Ao que i n d i c a m as f o n t e s , q u a n d o da d e t e r m i n a ç ã o da r e f e r i d a c o t a , o g o v e r n o p r o v i n c i a l p r o c u r a v a levar em c o n s i d e r a ç ã o o n ú m e r o de h a b i t a n t e s por

freguesia

e a

necessidade

d e s f a l c a d o s de m i l i t a r e s .

de

reposição

dos

corpos

de

linha

C o m o n e m s e m p r e o n ú m e r o de v o l u n t á r i o s

mais era

suficiente, adotava-se o recrutamento. P o d e - s e dizer q u e o r e c r u t a m e n t o de h o m e n s n e s s a s e g u n d a m e t a d e do

século

XIX

diferenciava-se

em

alguns

aspectos

daquele

do

anterior,

r e v e l a n d o as p r ó p r i a s m u d a n ç a s p e l a s q u a i s p a s s a v a m o E s t a d o e a. s o c i e d a d e . S e m que o r e c r u t a m e n t o d e i x a s s e de ser a l g o i m p o s t o aos m o r a d o r e s

das

f r e g u e s i a s , p a s s a v a - s e a d a r o u t r o t r a t a m e n t o ao p r o c e s s o de a r r e g i m e n t a ç ã o . E p o s s í v e l a f i r m a r que em é p o c a s de m a i o r c a l m a r i a na p r o v í n c i a , o g o v e r n o não

determinava

98

o recrutamento

daqueles

que

estivessem

desenvolvendo

APEMT. Ofício do presidente de província, Augusto Leverger, ao tenente-coronel comandante do Corpo de Cavalaria e do Distrito de Vila Maria. Cuiabá, 1854. Livro n° 128. Anos de 1852 a 1855. p. 127.

65

a t i v i d a d e s p r o d u t i v a s , assim c o m o se p a s s a v a a t o m a r a l g u m a s c a u t e l a s no sentido

de

a t r i t o s com

estudar

as

possibilidades

a população

das

freguesias.

e n g a j a d a no p r o c e s s o

Procurava-se

produtivo.

Nesse

evitar sentido,

r e c o m e n d a ç õ e s e r a m r e p a s s a d a s aos c o m a n d a n t e s : He preciso no dito recrutamento haver toda a possível descrição e prudencia, afim de não causar maior prejuízo às pessoas em cujo serviço se acharem empregados ou recrutados e sobre tudo evitar que haja injustiças relativas tirando-a huns maior número de camaradas de que a outros em proporção dos que tiverem sobre este ponto descanço na rectidão de VM. Talvez sejão precisas informações prévias sobre a época e lugares em que mais convenientemente se possa fazer o recrutamento e por isso dirijo-lhe em reservado este officio para que tenha o tempo de dar as providências e fazer os exames que julgar necessários afim de se não malograrem as diligencias que VM. mandará fazer por aquelles dos seus subordinados que lhe parecem mais aptos para semelhante serviço." T a m b é m p a s s a v a - s e a i m p o r c o m m a i o r r i g o r aos r e c r u t á v e i s u m a r e l a t i v a s e l e ç ã o - d e v e r i a m p a s s a r por um e x a m e de s a ú d e , c o n s i d e r a d o um dos r e q u i s i t o s b á s i c o s p a r a c o m p o r os c o r p o s m i l i t a r e s :

Tenho ordenado que os dezoitos recrutas que deve fornecer o districto de Mato Grosso sejão remettidos à disposição de VM., que desde logo os fará inspeccionar de saúde, e lhes mandará assentar praça, salvo áquelles que allegarem motivo legal de escusa sobre que tenha de deliberar esta Presidência.100 Outro aspecto

considerado

relevante

no p r o c e s s o

de s e l e ç ã o

do

recrutamento dizia respeito à idoneidade. Por exemplo, todo indivíduo que t i v e s s e r e c e b i d o a d i a n t a m e n t o , do t o d o ou em p a r t e , s e g u n d o a l g u m c o n t r a t o e s c r i t o , s o m e n t e p o d e r i a a s s e n t a r p r a ç a se s a l d a s s e j u n t o a seu e m p r e g a d o r a dívida

contraída.

O

atestado

de

idoneidade

constituía-se,

pelo

que

d e m o n s t r a m as c o r r e s p o n d ê n c i a s , n u m r e q u i s i t o t ã o i m p o r t a n t e q u a n t o o de s a ú d e para i n g r e s s a r nos c o r p o s m i l i t a r e s .

99

APEMT. Ofício do presidente da província, Augusto Leverger, ao tenente-coronel comandante do Corpo de Cavalaria e do Distrito de Vila Maria. Cuiabá, 1854. Livro n° 128. Anos de 1852 a 1855. p. 128. 125

Ibid., p. 19-20.

66

O u t r a f o r m a de a u m e n t a r o c o n t i n g e n t e m i l i t a r na p r o v í n c i a se f a z i a através

da

contratação

Através

da l e i t u r a

de

voluntários

da d o c u m e n t a ç ã o

e

do

engajamento

pode-se

perceber

dos

ex-praças.

que o p e r í o d o

de

v i g ê n c i a dos c o n t r a t o s com os v o l u n t á r i o s em um m e s m o c o r p o , por e x e m p l o o B a t a l h ã o de C a ç a d o r e s , era f i x o , p o r é m v a r i a v a na d u r a ç ã o do c o n t r a t o . Ou s e j a , em p r a z o de 30 dias, d e c o r r i d o s de 9 de a g o s t o a 9 de s e t e m b r o , d o i s voluntários

eram

contratados

com

tempos

diferenciados:

um,

o

paisano

M a n o e l A l v e s P e r e i r a , para s e r v i r c o m o v o l u n t á r i o p e l o t e m p o de dois a n o s , e o o u t r o , J o ã o N e p o m u c e n o , por s u a vez, por s e i s anos. Um m e s m o D e c r e t o r e g u l a v a e s s a s c o n t r a t a ç õ e s — o de n° 1.089, de 14 de d e z e m b r o de 1852. C o m o t é r m i n o do p e r í o d o em q u e os p r a ç a s e r a m o b r i g a d o s a s e r v i r nos c o r p o s m i l i t a r e s , i n i c i a v a - s e um n o v o p r o c e s s o de a r r e g i m e n t a ç ã o , engajamento.

C o n s i s t i a no

cumprimento

do

tempo

retorno em

que

o do

d o s p r a ç a s às f u n ç õ e s m i l i t a r e s a p ó s o haviam

servido

como

recrutas

e/ou

voluntários. N ã o f a l t a v a m , p o r t a n t o , e s t í m u l o s p a r a q u e os e x - p r a ç a s v o l t a s s e m à vida

militar.

Aos

egressos

eram

ofertados,

por

parte

dos

comandantes,

p r ê m i o s em d a t a s de t e r r a s ou e m d i n h e i r o . T a i s o f e r t a s , d e t e r m i n a d a s p e l a P r e s i d ê n c i a da p r o v í n c i a , e r a m r e g u l a d a s por d e c r e t o s - l e i s . O de n° 648, de agosto

de

1852,

estabelecia

sobre

os

contratos

e

as

condições

do

e n g a j a m e n t o , e o de n° 1.089, de 14 de d e z e m b r o do m e s m o ano, a l é m de a s s e n t a r p r a ç a s aos v o l u n t á r i o s , d i z i a r e s p e i t o à t i t u l a ç ã o dos e n g a j a d o s . Os ofícios abaixo

mencionados

permitem

que

se p e r c e b a m

maiores

detalhes

sobre os e n g a j a m e n t o s :

Em resposta ao seo officio de 31 de dezembro ultimo, communicando-me que, havendo completado, a 21 do dito mez, o tempo do seo contracto o Io sargento dessa colonia militar João Manoel Henriques, V.M. o reengajará para servir por mais dous annos, tenho a dizer-lhe que approvo o seo procedimento. Incluso

67

encontrará o rerspectivo título, que entregará ao reengajado, depois que elle o assignor.101 A p ó s a t i t u l a ç ã o , na c o n d i ç ã o de s e r e m a g r a c i a d o s com p r ê m i o s , as opções,

em

manifestado data

geral,

recaíam

a menor

de terras

no

pretensão

dinheiro,

à vantagem

por

não

terem

os

de terras.102

da data

engajados N ã o que a

não f o s s e i m p o r t a n t e e a l m e j a d a p e l o s m i l i t a r e s , t a n t o a s s i m

que m u i t o s e r a m p r o p r i e t á r i o s de t e r r a s . P o r é m , p a r a d e t e r m i n a d o s e l e m e n t o s da p o p u l a ç ã o m a t o - g r o s s e n s e , no c a s o os h o m e n s l i v r e s e p o b r e s , o p r ê m i o em d i n h e i r o a p o n t a v a para a p o s s i b i l i d a d e da s o l u ç ã o de p r o b l e m a s por e x e m p l o o p a g a m e n t o de d í v i d a s .

imediatos,

O trabalho com a terra exigia

um

c a b e d a l que e s s e s h o m e n s n ã o p o s s u í a m . T a i s t í t u l o s e p r ê m i o s , se, de um lado,

estimulavam

o retorno

dos

homens

ao s e r v i ç o

militar,

por

outro,

a c e n t u a v a m os p r o b l e m a s f i n a n c e i r o s da p r o v í n c i a s de M a t o G r o s s o , p o i s ... a despeza

com os prêmios

provavelmente rubrica digne

chegará

é tão somente ordenar

de engajamento a mais; de quatro

o conveniente

já excedeo

entretanto contos

que

de réis.

de trinta

contos

a consignação Rogo

por

tanto

de réis e para a V.Ex"

essa se

aumento...103

À t e s o u r a r i a da F a z e n d a c a b i a o p a g a m e n t o dos s o l d o s aos m i l i t a r e s dos c o r p o s de linha. R e g r a g e r a l , a r e f e r i d a t e s o u r a r i a n ã o c o n s e g u i a m a n t e r em dia o p a g a m e n t o dos m i l i t a r e s , a t r a s a d o em m e s e s e/ou até em anos. U m a das j u s t i f i c a t i v a s para o a t r a s o era a de que a c o r t e do R i o de

Janeiro

d e m o r a v a p a r a r e p a s s a r a r e c e i t a n e c e s s á r i a e a p r o v í n c i a , por sua vez, não t i n h a c o m o a r c a r com as d e s p e s a s da á r e a m i l i t a r .

101

APEMT. Ofício do vice-presidente da província, Herculano Ferreira Penna, ao alferes comandante da Colônia Militar de Miranda. Cuiabá, 1862. Livro n° 190. Anos de 1860 a 1863. p. 113. 102

APEMT. Ofício do senador Manoel Felizardo de Souza e Mello, ministro e secretário de Estado dos Negócios de Guerra ao presidente da província de Mato Grosso, Augusto Leverger. Cuiabá, 1853. Livro n° 125. Anos 1852 - 1853. p. 133. 103

APEMT. Oficio do presidente da província, Augusto Leverger, ao senador Manoel Felizardo de Souza e Mello, ministro e secretário de Estado dos Negócios de Guerra. Cuiabá, 3 de setembro de 1853. Livro n° 125. Anos de 1852 - 1853. p. 136.

68

Destaque-se masculina

em

econômica

aos

idade cofres

que o r e c r u t a m e n t o adulta da

não

e o engajamento

acarretava

província,

como

apenas

da

população

problemas

despesas

com

de

ordem

pagamentos

e

d e s f a l q u e d o s h o m e n s nas a t i v i d a d e s a g r í c o l a s . Os p r o b l e m a s iam a l é m e p a r a d e n t r o dos l a r e s , a t i n g i n d o o e s p a ç o f a m i l i a r d e s s e s h o m e n s . M ã e s , e s p o s a s e filhos, diretamente atingidos pela ausência desses homens, eram levados a a s s u m i r f u n ç õ e s e t a r e f a s nos lares e n o s e s p a ç o s p ú b l i c o s , c o m o t a v e r n a s , i g r e j a s e no c a m p o . A l é m da

inspecção

de saúde

e do a t e s t a d o de i d o n e i d a d e , o E s t a d o

p a s s a v a a i n t e r e s s a r - s e t a m b é m por a s p e c t o s de c a r á t e r

demográfico

dos

m i l i t a r e s , q u e r f o s s e m r e c r u t a d o s , v o l u n t á r i o s ou e n g a j a d o s :

Palácio da Presidencia de Mato Grosso em Cuiabá, 24 de janeiro de 1862. Illm0 Sr. Fico certo pelo officio de V.S. de 4 do corrente de lhe terem sido remettidos pelo encarregado do recrutamento em Mato Grosso três voluntários, dos quaes só dous tiverão praça no Batalhão do seo commando, por lhe ter sido o terceiro julgado incapaz para o serviço. Nesta data recommendo ao dito encarregado do recrutamento que faça inspeccionar os voluntários de recrutar antes de enviá-los para essa Villa, bem como que com elles remetía sempre a respectiva filiação com declaração de idade. Deos guarde a VS. Antonio Pedro de Alencastro. Senr. Tenente Coronel Commandante do Batalhão de Caçadores.104 Recrutados,

engajados

ou

mesmo

voluntários,

todos

estavam

s u j e i t o s b a s i c a m e n t e aos m e s m o s r e g u l a m e n t o s e l e i s , a s s i m c o m o às m e s m a s d i f i c u l d a d e s . S u a s a t i t u d e s p o d i a m t a n t o ser a p l a u d i d a s q u a n t o s e v e r a m e n t e criticadas pelas autoridades superiores. Geralmente, contento

uma

suas

atitudes

determinada

missão,

eram ou

aprovadas então

pela

quando conduta

cumpriam

a

considerada

e x e m p l a r . N e s s e s c a s o s , o r e c o n h e c i m e n t o p o d i a vir m e d i a n t e as f o r m a s de

104

APEMT. Ofício do presidente da provincia, Antônio Pedro de Alencastro, ao tenente-coronel commandante do Batalhão de Caçadores de Vila Maria. Cuiabá, 1862. Livro n° 190. Anos de 1860 a 1863. p. 109.

69

g r a t i f i c a ç ã o , p r o m o ç ã o e m e s m o c o m o r e s p o s t a s p o s i t i v a s aos r e q u e r i m e n t o s feitos anteriormente. C o n t u d o , a p ó s o p r o c e s s o de s e l e ç ã o , os m i l i t a r e s q u e i n g r e s s a v a m nos c o r p o s de l i n h a e r a m d e s t a c a d o s p a r a s e r v i r em l o c a l i d a d e s n e m s e m p r e p r ó x i m a s às de suas m o r a d i a s . Em outro ofício, o mesmo presidente acima referido recomendava ao e n c a r r e g a d o de r e c r u t a m e n t o e m M a t o G r o s s o q u e , a n t e s de r e m e t e r p a r a V i l a M a r i a os v o l u n t á r i o s ou r e c r u t a d o s , ... mande que não soffrão longa

os que não são aptos

para

ali inspeccional-os,

o serviço

para

o encommodo

de

uma

viagem... C e r c a de 5 0 0 K m de c h ã o , m a t o s , rios, a n i m a i s s e l v a g e n s ,

i n d í g e n a s a i n d a não c o n t a t a d a s , localidade — Mato

Grosso,

separavam

atual

os m o r a d o r e s

município

de C á c e r e s .

marcados

faziam

geralmente

pelas

h o m e n s a s e r v i ç o do E s t a d o .

adversidades

de u m a e o u t r a

de Vila B e l a

T r i n d a d e , e Vila M a r i a , a t u a l m u n i c í p i o

parte

da

Caminhos da

nações

vida

Santíssima longos

e

daqueles

1.3 SOB O E S T I G M A D A D E F E S A D A S F R O N T E I R A S : DA

CASERNA

AOS C A M P O S D E B A T A L H A

A c a p t u r a , p e l o s p a r a g u a i o s , do n a v i o Marquês

de Olinda,

a 11 de

n o v e m b r o de 1864, o q u a l l e v a v a a b o r d o o n o v o p r e s i d e n t e da p r o v í n c i a de M a t n G r o s s o , c o r o n e l F r e d e r i c o C a r n e i r o de C a m p o s , foi o e s t o p i m que s e r v i u de p r e t e x t o p a r a o i n í c i o da G u e r r a da T r í p l i c e A l i a n ç a , c o n t r a o P a r a g u a i . O argumento

de

que

se

serviu

o

governo

paraguaio

para

desencadear

a

r e p r e s á l i a , c o l o c a n d o f o r ç a s m i l i t a r e s c o n t r a o i m p é r i o , f o i a r e c u s a do B r a s i l em se a b s t e r de i n g e r i r nas q u e s t õ e s i n t e r n a s da B a n d a O r i e n t a l do U r u g u a i . A t o m a d a do F o r t e de C o i m b r a , em d e z e m b r o de 1864, e, no ano s e g u i n t e , das v i l a s de C o r u m b á , D o u r a d o s e C o l ô n i a M i l i t a r de

Miranda,

escancarou tanto para o império como para a província, a fragilidade militar da f r o n t e i r a m e r i d i o n a l m a t o - g r o s s e n s e . D e m o n s t r o u i g u a l m e n t e u m a s i t u a ç ã o t e n s a e de d e s e n t e n d i m e n t o e d e s e n c o n t r o s e n t r e a c o r t e e o g o v e r n o l o c a l , p r o v o c a d a , de um l a d o , p e l a e s c a s s e z de i n f o r m a ç õ e s e n t r e a m b o s : sabem

que

a última

presidência depois

de Mato

correspondência Grosso,

em 1864,

dessa foi a de 13 de abril

era teatro

da guerra

e da invasão

oficial

governo

central

foi a de 20 de julho,

e que a

do corrente, paraguaia,

do

oito meses, saída

quando

na Corte

em

a

Todos com

a

primeira Província janeiro....m

e, de o u t r o , p e l a a u s ê n c i a q u a s e t o t a l de v e r b a s p r o v e n i e n t e s do c e n t r o p a r a a província:

É fato que a Província de Mato Grosso existia sem força, sem dinheiro, devendo para cima de setecentos contos, e sem moeda na circulação que pudesse ocorrer pelo empréstimo às suas necessidades, quando o Sr. Tamandaré comunicou à

105

O BOLETIM DE NOTÍCIAS. Cuiabá, 07jun. 1865, p. 1

71

Presidência em outubro, as intenções do Paraguai; e que a Presidência sem ordem da Corte, sem notícias do Governo, fez descer a pequena força para as fronteiras, sob as ordens do Comandante das Armas. Por uma inversão, em vez de ter a Presidência conhecimento das notas do Paraguai e de suas intenções invasoras sobre a Província pelo Governo Central, acompanhada de instruções, forças e dinheiro, foi ela que em data de 17 de outubro de 1864 comunicou no Ministério esse negócio, despachando para isso o Alferes Manoel Estevão de Andrade Vasconcelos a 18 do mesmo mês.106 A p r e m e n t e s i t u a ç ã o e c o n ô m i c a da f r o n t e i r a m a t o - g r o s s e n s e ser

percebida

através

das

críticas

endereçadas

ao

governo

pode

imperial

por

i g n o r a r o e s t a d o de p e n ú r i a da p r o v í n c i a :

Que razões tinha o Governo Imperial para conservar nossas fronteiras no estado indefeso? Não sabia que Lopez preparava-se para a guerra, construía fortificações em Assunção, fortalecia o Humaitá, comprava vapores e municionemos bélicos, que formava tropas e as disciplinava? Que motivos para cortar os recursos pecuniários à Província, sem fundos na Tesouraria para as mais insignificantes despesas decretadas por lei? (...) Mato Grosso teme hoje mais o cortejo, da fome ventura que o próprio inimigo. Se forças vierem de Minas e S. Paulo e não trouxerem o que comer nós e elas havemos de perecer, porque o Governo deixou de ocupar militar e convenientemente as nossas fronteiras, e a Presidência; para guardar a Província tirou-nos os homens da lavoura, e com isto meteu-nos a guerra na barriga que é a pior guerra conhecida.107 O t e x t o a c i m a r e v e l a c o m o a G u e r r a do P a r a g u a i t o r n o u m a i s d i f í c i l a vida dos h a b i t a n t e s da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , p a t e n t e a n d o as c o n d i ç õ e s latentes.

A ocorrência

da f a l t a de

gêneros

de p r i m e i r a

necessidade,

tão

c o m u m d u r a n t e t o d o o p e r í o d o c o l o n i a l , era a c e n t u a d a c o m a nova s i t u a ç ã o provocada pelo conflito bélico. C o m o b l o q u e i o à n a v e g a ç ã o do r i o P a r a g u a i , i m p o s t o por F r a n c i s c o Solano

Lopez,

interrompeu-se

o

fluxo

comercial

fluvial

que permitia

o

a b a s t e c i m e n t o da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o c o m u m a c e r t a r e g u l a r i d a d e . As

106 107

Ibid., p. 2. Ibid., p. 1 e 2.

72

rotas dos rios T i b a g i e T i e t ê até M i r a n d a e o c a m i n h o t e r r e s t r e via P i q u i r i Paranaíba foram igualmente interceptados. O bloqueio à utilização ñuvial

do rio P a r a g u a i , c o m o c a n a l de

e x p o r t a ç ã o do a ç ú c a r , c o u r o e p o a i a p a r a a c o r t e e m e r c a d o p l a t i n o , r e s u l t o u em c o m p r o m e t i m e n t o do s e t o r a g r o p a s t o r i l . S o m e - s e a isso o f a t o de que da lavoura

e da p e c u á r i a

foi g r a d a t i v a m e n t e

subtraída

a f o r ç a de

trabalho

m a s c u l i n a p a r a e n g r o s s a r as f i l e i r a s do E x é r c i t o . 1 0 8 E m d e c o r r ê n c i a

desses

f a t o r e s , a r e t r a ç ã o da p r o d u ç ã o e a e s c a s s e z de a l i m e n t o s p a s s a r a m a ser uma c o n s t a n t e na r e g i ã o . Interceptada encontradas

pelos

a navegação

habitantes

do rio P a r a g u a i ,

para

minimizar

os

uma

das

efeitos

alternativas

da

crise

de

a b a s t e c i m e n t o foi a r e t o m a d a dos c a m i n h o s t e r r e s t r e s do p e r í o d o c o l o n i a l , em t r o p a s de mulas. 1 0 9

O

comércio

da terra,

c o m o e r a d e n o m i n a d o esse tipo de

(

transporte, implicava longas

viagens e exigia dos tropeiros

conhecimento

dos p e r i g o s o s c a m i n h o s , p r e p a r o f í s i c o e p e r s e v e r a n ç a p a r a a t i n g i r o d e s t i n o p r o p o s t o . Os r i s c o s de p e r d a dos a n i m a i s e das fazendas faziam

parte

desse

comércio

da

terra

acabavam

n e g o c i a n t e s , que p a g a v a m os f r e t e s e o n e r a v a m Eram repassados

aos p r e ç o s

das m e r c a d o r i a s

( m e r c a d o r i a s ) que por

recair

sobre

os

a p o p u l a ç ã o c o m o um todo. os p r e j u í z o s s o f r i d o s

pelos

n e g o c i a n t e s ao f i n a l da t r a n s a ç ã o , q u e a b a r c a v a d e s d e a c o m p r a e c u s t o s da tropa e

d e s p e s a s c o m os c a m a r a d a s , até os r i s c o s de f o g o e i n u n d a ç õ e s em

v i a g e m , que a c a b a v a m perda

dos

burros.

por a f e t a r os a n i m a i s ,

Nesse

aspecto,

as

viagens

causando

emagrecimento

terrestres

acabaram

e

por

i n f l u e n c i a r na c o n s i d e r á v e l alta dos p r e ç o s d o s p r o d u t o s i m p o r t a d o s d u r a n t e o p e r í o d o de g u e r r a . A p r o p ó s i t o , em

1869 e r a m r e g i s t r a d o s em C u i a b á

os

108

Para somar forças ao Exército e à Guarda Nacional, foi criado na provincia de Mato Grosso, em 07 de janeiro de 1865, o Corpo de Voluntários da Pátria. 109

Segundo Mendonça, o povoado de Uberaba, em Minas Gerais, era o ponto de convergência para os tropeiros que seguiam para o Rio de Janeiro ou para São Paulo. De Uberaba, as tropas seguiam por Catalão, Santa Cruz, Bonfim, Goiás e, por fim, Cuiabá. (MENDONÇA, Rubens de. Nos bastidores da história mato-grossense. Cuiabá : UFMT, 1983. p. 89).

73

s e g u i n t e s p r e ç o s dos a l i m e n t o s : f a r i n h a , a r r o z e f e i j ã o a 32S000 a a r r o b a ; c a f é e t o u c i n h o , 25S000 a a r r o b a . N o p e r í o d o a n t e r i o r à g u e r r a , e s s e s produtos

eram

vendidos

a

6S000,

r e s p e c t i v a m e n t e . 1 1 0 O sal, p o r alqueire,

que antes

mil réis, em julho

da invasão

10S000,

8$000,

16$000

sua v e z , a t i n g i a

preços

exorbitantes

paraguaia

de 1865 chegou

mesmos

era vendido

a custar

em Corumbá

80 mil réis em

e

13S000 -

seu

a 4 ou 5

Cuiabá.111

N a c o n j u n t u r a de g u e r r a , um f a t o r e x t r a c o n t r i b u i u p a r a a u m e n t a r a crise

de

alimentos

ocorrida,

especificamente,

na

capital.

A

enchente

p r o v o c a d a p e l o rio C u i a b á n o s d i a s 02 e 3 de f e v e r e i r o de 1865

causou

i n u n d a ç ã o do b a i r r o do P o r t o , s u b m e r g i n d o e a r r a s a n d o as r o ç a s e p l a n t a ç õ e s ribeirinhas:

Esta calamidade, após a da pirataria paraguaia, que já nos afligia, prejuízos particulares são calculados em mais de 4 mil contos, foi a mais porque tem passado a Província de Mato Grosso. Ardendo internamente fome devoradora é o aspecto da nossa capital sitiada pelos paraguaios, também em fome e oprimida por uma horrorosa inundação.112

e cujos horrível em uma ardendo

O a q u a r t e l a m e n t o dos b a t a l h õ e s da G u a r d a N a c i o n a l em C u i a b á (os de n ú m e r o s 1, 2, 3 e 4), em P o c o n é (o de n ú m e r o 5) e em V i l a M a r i a (o de n ú m e r o 6), j á no i n í c i o de 1865, v e i o a c e n t u a r a d e m a n d a do c o n s u m o de gêneros

alimentícios

na

província.

Tal

aquartelamento,

ocorrido

por

d e t e r m i n a ç ã o do p r e s i d e n t e da p r o v í n c i a , se, de um l a d o , a p r e s e n t a v a - s e c o m o f u n d a m e n t a l p a r a c o n t e r um r e c e a d o a v a n ç o dos p a r a g u a i o s s o b r e a c a p i t a l , por outro, i m p e d i a que um c o n t i n g e n t e e x p r e s s i v o de h o m e n s d e s e n v o l v e s s e atividades

econômicas

produtivas,

particularmente

a lavoura.

A partir

da

c o n f i r m a ç ã o da o c u p a ç ã o de C o x i m por f o r ç a s p a r a g u a i a s , em m a i o de 1865,

110

BRANDÃO, Jesus da Silva. op. cit., p. 73.

111

VOLPATO, Luiza Rios Ricci, op. cit., p. 68.

112

O BOLETIM DE NOTÍCIAS. Cuiabá, jan. 1865, p. 2.

74

a c e n t u o u - s e o e s t a d o de a l e r t a das a u t o r i d a d e s e da p o p u l a ç ã o no s e n t i d o de a c a u t e l a r - s e e e v i t a r que m a r c h a s s e m s o b r e C u i a b á . C o n s e q ü e n t e m e n t e , o a d e n s a m e n t o de s o l d a d o s em C u i a b á i m p l i c o u a a m p l i a ç ã o das u n i d a d e s m i l i t a r e s e x i s t e n t e s e, p a r a t a n t o , m u i t o s p r é d i o s particulares, inclusive residências, foram ocupados com consentimento

dos

proprietários, conforme exemplo a seguir:

O Tenente Coronel João de S. Osório, comandante do 3o Batalhão de Guardas Nacionais, por si e por todos os oficiais inferiores e Guardas, agradece ao Ilm° Sr. Capitão Antonio de Cerqueira Caldas a maneira patriótica, distinta e desinteressada com que lhes acaba de oferecer a sua grande casa situada no Largo do Arsenal de Guerra para servir de aquartelamento do mesmo Corpo durante as emergências atuais, tornando-se assim, o Sr. Capitão Cerqueira"11, por tal patriotismo, tanto mais credor por esta oferta de estima e reconhecimento do 3 o Batalhão. Cuiabá, 10 de janeiro de 1865. João de Souza Osório.114 A

movimentação

de

tropas,

cujo

efetivo

foi

engrossado

por

b a t a l h õ e s de s o l d a d o s v i n d o s de v á r i o s p o n t o s do país, põe em r e l e v o

o

c a r á t e r de i t i n e r â n c i a do c o n t i n g e n t e p o p u l a c i o n a l s u j e i t o à p o l í t i c a de d e f e s a da

fronteira

oeste.

Estratégias

de

barrar

os

soldados

paraguaios

foram

i m e d i a t a m e n t e c o l o c a d a s em p r á t i c a . A m a r c h a de s o l d a d o s p a r a f o r a da c a p i t a l v i s a n d o cortar perigoso

o passo

do

inimigo

no lugar

que

se julgasse

mais

c o n s t i t u i u - s e em u m a d e l a s :

Do dia 23 para 24 do corrente marcharam para fora desta Capital duas brigadas compostas dos Batalhões de Guardas Nacionais destacados números 1, 2, 3, 4, 8 e do Batalhão de Artilharia número 2 dos Corpos de Artilharia e Cavalaria da Província. A marcha do 2o Batalhão sob o comando do Sr. Tenente Coronel José Ildefonso de Figueiredo foi sobremaneira tocante e acompanhada por muitos e distintos cidadãos e grande número de povo. Em frente da casa do Comandante, o Sr. Silva Prado Júnior fez uma proclamação que foi correspondida com o mais decidido entusiasmo. Desfilou o Batalhão pela rua Augusta, fez alto em frente ao Palácio da Presidência, donde recebidas as ordens e feitas as evoluções, seguiu

113

O capitão Antônio de Cerqueira Caldas, Barão de Diamantino, era filho de grande proprietário de engenho na região de Serra Acima. 114

O BOLETIM DE NOTÍCIAS. Cuiabá, 28 maio 1865, p. 4.

75

pela rua Formosa e entrou pela da Sé a receber a benção de S. Exa Rma que avisado o esperava da janela do Paço Episcopal.115 Na

tentativa

de

encontrar

solução

para

a crise

de

gêneros

de

a b a s t e c i m e n t o e a u s ê n c i a r e g u l a r de p r o d u t o s i m p o r t a d o s , t a n t o o g o v e r n o p r o v i n c i a l q u a n t o os p r o d u t o r e s das f r e g u e s i a s r u r a i s p r ó x i m a s a C u i a b á , a exemplo

da

freguesia

da

Chapada

dos

Guimarães,

tomaram

algumas

p r o v i d ê n c i a s . O g o v e r n o p r o v i n c i a l p a s s o u a p r o i b i r a b u s o s dos p r e ç o s por p a r t e dos c o m e r c i a n t e s , a s s i m c o m o a i n c e n t i v a r a i m p o r t a ç ã o de v í v e r e s das p r o v í n c i a s de G o i á s , M i n a s G e r a i s e São P a u l o . No segundo de

60,

a produção

conseqüência

agrícola

da atuação

uma vez que o governo

e pastoril

das tropas goiano

Os p r o d u t o r e s

de

brasileiras

se empenhava

Goiás

lustro

foi

rurais mato-grossenses,

década

estimulada

em território em sustentá-los

da

em

mato-grossense, víveres.116

em

por sua vez,

procuravam

a t e n d e r às s o l i c i t a ç õ e s da d e m a n d a , o f e r t a n d o g ê n e r o s a g r í c o l a s ao g o v e r n o p r o v i n c i a l p a r a que f o s s e m r e p a s s a d o s aos m i l i t a r e s :

O Sr. Joaquim José de Sampaio ofereceu à Presidência a quantia de 500S000 réis em gêneros de sua lavoura para adjutório das despesas do Estado, obrigando-se a manda-los entregar no acampamento das forças. A Exma Sra D. Maria da Conceição ofereceu 50 bois de sua fazenda para auxílio das forças e o Sr. Capitão Estevão Alves, 50 alqueires de feijão.11 Em

contraposição,

qualificação,

o trabalho

em

armamentos,

embarcações,

para a população atividades carpintaria,

livre

urbanas,

tais

marcenaria

115

Ibid., p. 4.

116

MORAES, Maria Augusta de Sant'Anna. op. cit., p. 24.

117

O BOLETIM DE NOTÍCIAS. Cuiabá, 28 maio 1865, p. 4.

e pobre

e

como

com

alguma

produção

costura,

de

tornou-se

76

a l t e r n a t i v a de v i d a no p e r í o d o da g u e r r a . 1 1 8 P o d e - s e t o m a r c o m o e x e m p l o u m a p a r c e l a da p o p u l a ç ã o f e m i n i n a com h a b i l i d a d e s p a r a a c o s t u r a :

O Arsenal de Guerra, necessitando contratar o feitio de mil bonés para os diferentes corpos estacionados nesta Província, convida as pessoas que dele se queiram encarregar, a apresentarem suas propostas em carta fechada, com declaração do menor preço até o dia 14 do mês de maio. Cuiabá, 29 de abril de 1865. Manoel F. de Moraes — Escriturário interino.119 A l é m da g u e r r a , da e n c h e n t e e da f a l t a de a l i m e n t o s ,

a e p i d e m i a de

v a r í o l a a c a b o u i n t e r f e r i n d o e c a u s a n d o g r a n d e s t r a n s t o r n o s à p r o v í n c i a de Mato

Grosso.

condições

do

Iniciada

ao

sul

conflito bélico,

da

província,

essa

epidemia

possivelmente espalhou-se

oriunda

entre

as

das

forças

m i l i t a r e s p a r a g u a i a s l o c a l i z a d a s em C o r u m b á e a p o p u l a ç ã o local. Ao r e t o m a r C o r u m b á em 1867, os s o l d a d o s da e x p e d i ç ã o b r a s i l e i r a f o r a m c o n t a m i n a d o s e, no

retorno

às

suas

localidades,

foram

espalhando

a

doença

por

onde

p a s s a v a m . 1 2 0 N e s s e a s p e c t o , a v a r í o l a a t i n g i u a c a p i t a l e, t a n t o q u a n t o

a

g u e r r a , tirou a v i d a de um g r a n d e n ú m e r o de c i v i s e m i l i t a r e s , a t i n g i n d o t o d o s 1 1 os

segmentos

sociais.

Escolas

e

residências

foram

transformadas

p r o v i s o r i a m e n t e em h o s p i t a i s p a r a dar a b r i g o aos e n f e r m o s .

118

Volpato explica de maneira muito interessante como a população de Cuiabá e cidades vizinhas vivenciou o estado de guerra. Em Cuiabá, por exemplo, o Arsenal de Guerra foi transformado em uma grande oficina e em mercado de trabalho para os homens livres pobres dotados de alguma qualificação profissional, e os pequenos bares e tabernas ampliaram as possibilidades de ganho de seus proprietários. Os escravos viam no alistamento formas de ludibriar seus proprietários para alçar a liberdade. A prostituição passou a constituir-se em uma das fontes de trabalho para as mulheres livres pobres. (VOLPATO, Luiza Rios Ricci, op. cit, p. 56-81). 119

O BOLETIM DE NOTÍCIAS. Cuiabá, 9 maio 1865, p. 2.

120

A retomada de Corumbá foi concretizada a 13 de julho de 1867, por forças comandadas pelo tenente-coronel Antônio Maria Coelho. Somente, porém, a 3 de abril de 1868 é que os paraguaios retiraram-se definitivamente, pois, por temor à epidemia, as próprias forças brasileiras abandonaram a vila, oportunizando uma nova ocupação por parte dos paraguaios. 121

Não há com exatidão o número das vítimas da varíola na província de Mato Grosso, porém cronistas e historiadores não deixam de afirmar que foram milhares. (Sobre a questão, ver MOUTINHO, Joaquim Ferreira. Notícias sobre a província de Matto Grosso. São Paulo : Typ. Henrique Schroeder, 1869).

77

Poucos

dias

antes

da

retomada

de

Corumbá,

foi

criado

um

a c a m p a m e n t o m i l i t a r na m a r g e m e s q u e r d a do rio Cuiabá. 1 2 2 A f u n d a ç ã o do r e f e r i d o a c a m p a m e n t o e f e t i v o u - s e c o m o p r o p ó s i t o de a p r i s i o n a r todos paraguaios

que fossem

encontrados

em Cuiabá

e cercanias.123

os

D i s t a n t e s do

p a l c o da luta a r m a d a , e por c o n t a das a d v e r s i d a d e s i m p o s t a s p e l o c o t i d i a n o , s o l d a d o s p a r a g u a i o s a p r i s i o n a d o s , em c o n j u n t o com a p o p u l a ç ã o r i b e i r i n h a e v a q u e i r o s , p a s s a r a m a e n s e j a r r e l a ç õ e s de s o l i d a r i e d a d e e de t r a b a l h o . E s s a s r e l a ç õ e s f o r a m f a v o r e c i d a s p e l o f a t o de o a c a m p a m e n t o ter sido c r i a d o em p o n t o de e n t r o n c a m e n t o de u m a das e s t r a d a s por o n d e se r e a l i z a v a o de terra,

e s t r a d a a q u e l a d e n o m i n a d a estrada

boiadeira.114

comércio

S o m e - s e a isso o

t r a t o dos p a r a g u a i o s com o gado b o v i n o :

Dada a perícia do paraguaio no corte e secagem da carne, no fabrico do arreame e no curtume de couros, e sendo este um ponto de negócios de gado, desde cedo se iniciou a matança de bois no povoado em miniatura. Com a ajuda desses presos que, entrosados com os boiadeiros manteavam e secavam a carne, diariamente passaram a vendê-la em Cuiabá, por intermédio de brasileiros que conduziam as mantas para a Capital em bruacas de couro cru, ali mesmo fabricadas e postas sobre o dorso dos burros e de bois até a margem do Cuiabá 1 9S para então, após a travessia colocá-las no comércio do porto. P o d e - s e d i z e r que a a t i v i d a d e e c o n ô m i c a d e s e n v o l v i d a por m i l i t a r e s p a r a g u a i o s c o m a p o p u l a ç ã o r i b e i r i n h a de C u i a b á p e r m i t i u um p e q u e n o s u r t o c o m e r c i a l , ao t e m p o em que v e i o a m e n i z a r a c a r e s t i a de a l i m e n t o s c o m b a s e na c a r n e de m u a r d u r a n t e os três ú l t i m o s a n o s de g u e r r a . T a n t o

tornou-se

i m p o r t a n t e e s s a a t i v i d a d e que, ao f i n d a r a g u e r r a , em 1870, o a c a m p a m e n t o havia dado lugar

ao p o v o a m e n t o de V á r z e a G r a n d e , f o r m a d o p e l o s p r e s o s

122 O acampamento militar foi criado a 15 de maio de 1867 por ordens do então presidente da província, Dr. José Vieira Couto Magalhães, à beira da várzea do rio Cuiabá, dando origem ao povoamento de Várzea Grande. Após a guerra, o referido povoamento foi transformado em 3 o Distrito de Cuiabá e, finalmente no ano de 1948, em município. 123

MONTEIRO,Ubaldo. Várzea-Grande: passado e presente confrontos, 1867-1987. Cuiabá : Policromos, [199-]. p. 19. 124 125

Ibid., p. 19. Ibid., p. 19-20.

78

p a r a g u a i o s que n ã o r e g r e s s a r a m ao p a í s de o r i g e m , assim c o m o por v a q u e i r o s e soldados brasileiros.126 Não trabalho

somente

e solidariedade

soldados provenientes

os

soldados

com

paraguaios

a população

de o u t r a s p r o v í n c i a s

estabeleceram

local,

mas

laços

de

principalmente

os

do i m p é r i o em

passagem

por

Cuiabá. A d i f í c i l s i t u a ç ã o de g u e r r a v e i o f a v o r e c e r o e s t r e i t a m e n t o de tais laços. O m e d o de um a t a q u e i m p r e v i s t a , os d a n o s c a u s a d o s p e l a v a r í o l a , a e n c h e n t e , a f a l t a de g ê n e r o s de p r i m e i r a n e c e s s i d a d e e a f a l t a de c o m u n i c a ç ã o c o m o r e s t a n t e do i m p é r i o , c o n s t i t u í r a m - s e em e s p é c i e s de

ímãs

no s e n t i d o

de uma a p r o x i m a ç ã o ( c o r d i a l ) e n t r e os h a b i t a n t e s da c a p i t a l e p o p u l a ç õ e s c i r c u n v i z i n h a s . A c a r t a de d e s p e d i d a de um m i l i t a r r e t i r a n d o - s e da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o e, e s p e c i f i c a m e n t e , de C u i a b á , em d i r e ç ã o à á r e a do c o n f l i t o , permite

que

se

tenha

uma

noção

da

extensão

da

relações

afetivas

estabelecidas com a população local:

O Capitão Pedro Nunes Baptista Ferreira Tamarindo, seguindo com o Batalhão 19 de Infantaria para a República do Paraguai, deixaria de cumprir um sagrado dever se não agradecesse aos seos amigos não só desta cidade como da de Poconé, onde ultimamente esteve destacado, tanta prova exuberante de amizade com que o distinguiram desde que com a força de operação no Apa aqui chegou em 1867. Retirando-se da Província de Mato Grosso lhe é grato confessar o dever do militar o poderá de tão hospitaleiros quão sympáticos amigos, de quem com profunda saudade, onde quer que o destino o conduza se recordará eternamente de quanto lhes é devedor.

126

Também na região sul de Mato Grosso, os paraguaios fizeram-se presentes no período posterior à Guerra do Paraguai, contando-se dentre eles, exímios vaqueiros cujos serviços passaram a ser empregados por fazendeiros do Pantanal.

79

Recebam pois esses caros amigos o adeos de despedida.127 Cuiabá, 9 de agosto de 1869.128

A p a r t i r de e n t ã o , e n o s p r i m e i r o s m e s e s de 1870, o d e s f e c h o da G u e r r a do P a r a g u a i , f a v o r á v e l a o s a l i a d o s , j á era p o s s í v e l de ser v i s l u m b r a d o . P a s s a v a - s e à f a s e o p e r a c i o n a l da p e r s e g u i ç ã o e b u s c a de i n f o r m a ç õ e s s o b r e o c o m a n d a n t e - c h e f e do P a r a g u a i , d e f i n i t i v a m e n t e d e r r o t a d o no a c a m p a m e n t o de C e r r o Corá, em I o de m a r ç o d a q u e l e a n o . O f i n a l da g u e r r a t r o u x e p a r a o B r a s i l a d e f i n i t i v a d e m a r c a ç ã o das á r e a s em l i t í g i o e, p a r a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , a p o s s i b i l i d a d e de r e t o r n a r às t r a n s a ç õ e s c o m e r c i a i s até e n t ã o interrompidas,

assim

como voltar

a manter

intercâmbio

cultural

com

as

p r o v í n c i a s do c e n t r o - s u l .

127

Ao que tudo indica, o referido capitão somou-se aos 21 mil combatentes aliados (19 mil brasileiros, 900 argentinos e mil orientais) que tomaram à época a capital paraguaia, Peribebuí, e participaram do sangrento encontro que no dia 16 de agosto de 1859, encerrou a Campanha das Cordilheiras, denominada, Batalha de Campo Grande. (SOUSA JÚNIOR, Antonio de. Guerra do Paraguai In; BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio, (org.) História geral da civilização brasileira; o Brasil monárquico: declínio e queda do império, (org.) Sérgio Buarque de Holanda. São Paulo : Difel, 1971. v. 4, T. II. p. 313). 128

O BOLETIM DE NOTÍCIAS. Cuiabá, 22 ago. 1869, p. 3.

1.4 DE V O L T A A O C O M E Ç O

A

eclosão

do

confronto

bélico

com

o

Paraguai

representa,

i n e g a v e l m e n t e , um m a r c o c r o n o l ó g i c o m u i t o i m p o r t a n t e na h i s t o r i a do M a t o Grosso. E n t r e os s a l d o s do c o n f l i t o e s t ã o a s o l u ç ã o da t r a d i c i o n a l q u e s t ã o da f r o n t e i r a oeste e a e m e r g ê n c i a de a n t i g o s p r o b l e m a s que d e m a n d a v a m s o l u ç õ e s a d e q u a d a s à nova c o n j u n t u r a do ú l t i m o q u a r t e l do s é c u l o .

por

Restava

b u s c a r s o l u ç õ e s q u e d e s s e m c o n t a de r o m p e r o i s o l a m e n t o da r e g i ã o C e n t r o O e s t e e de r u m a r a e c o n o m i a em d i r e ç ã o ao d e s e n v o l v i m e n t o do c a p i t a l i s m o . E n t r e os d e s a f i o s e s t a v a o da i m p l e m e n t a ç ã o de uma p o l í t i c a

demográfica

e f i c a z e v i g o r o s a . Se, até e n t ã o , a p r e o c u p a ç ã o f o r a f i n c a r os m o u r õ e s da f r o n t e i r a , a p a r t i r daí e n t ã o a q u e s t ã o s e r i a r o m p e r tais l i m i t e s em t e r m o s de c o n q u i s t a e a f i r m a ç ã o no m e r c a d o n a c i o n a l e i n t e r n a c i o n a l . P o r c o n s e g u i n t e , a t e n d ê n c i a n a t u r a l seria a s u p e r a ç ã o dos l i m i t e s , que t i n h a m l e v a d o a m a r c a da i t i n e r â n c i a , q u e r em t e r m o s de a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s , q u e r em t e r m o s da c o n s t â n c i a dos d e s l o c a m e n t o s das t r o p a s de I a e 2 a linhas. A r e t o m a d a da n a v e g a ç ã o p e l o rio P a r a g u a i , em d e c o r r ê n c i a término

da

guerra,

foi

de

extrema

importância,

pois

possibilitou

do o

r e s s u r g i m e n t o do c o m é r c i o e, p o r c o n s e g u i n t e , a a t i v a ç ã o do m e r c a d o local. R e f l e x o s p o s i t i v o s f i z e r a m - s e s e n t i r s o b r e o c o m é r c i o de i m p o r t a ç ã o ,

que

p a s s o u a ser i n c e n t i v a d o p e l o p r ó p r i o g o v e r n o i m p e r i a l . A p a r t i r de 1869, por e x e m p l o , foi c o n c e d i d a i s e n ç ã o de i m p o s t o s à p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , c o m o p r o p ó s i t o de m i n i m i z a r o ô n u s r e s u l t a n t e da s i t u a ç ã o de g u e r r a .

129

Sucessivos decretos foram baixados na década de 70, a exemplo do n° 4.388, de 15 de julho de 1869, que concedia completa isenção dos direitos de consumo às mercadorias pela província de Mato Grosso, assim como os de exportação de gêneros de produção nacional. (BRANDÃO, Jesus da Silva. Cuiabá: desenvolvimento urbano e socioeconómico - 1825-1945 Cuiabá : Livro mato-grossense, 1991. p. 99).

81

Os v í n c u l o s e s t a b e l e c i d o s c o m a b a c i a do P r a t a - v í n c u l o n a t u r a l de sua m a l h a f l u v i a l e v í n c u l o e c o n ô m i c o ao c o m é r c i o p l a t i n o — p o s s i b i l i t a r a m que

Mato

Grosso

se

integrasse

ao

mercado

mundial

através

do

d e s e n v o l v i m e n t o de a t i v i d a d e s t r a d i c i o n a i s , c o m o a p e c u á r i a e o e x t r a t i v i s m o . Essa l i g a ç ã o , p o r é m , não d e i x o u de e v i d e n c i a r u m a m e s m a c a r a c t e r í s t i c a j á presente

em

períodos

anteriores,

qual

seja

a

dependência

de

centros

i m p o r t a d o r e s de m a t é r i a s - p r i m a s m a t o - g r o s s e n s e s : Esses vínculos permitiram a Mato Grosso integrar-se a um mercado mundial altamente especializado, mesmo sendo uma região marginal para os moldes desse mundo global e, além disso, uma região pouco povoada, desenvolvendo atividades tradicionais como a pecuária extensiva e primitiva ou atividades extrativas de subsistência, economias de menor importância se comparadas ao setor cafeeiro no Brasil, ou aos setores cerealista e pecuarista, na Argentina, na 130 mesma época. O d e s e n v o l v i m e n t o da p e c u á r i a , a p r o d u ç ã o da c a n a - d e - a ç ú c a r e produtos

extrativistas,

tais

como

mate,

borracha

e poaia,

permitiram

a r t i c u l a ç ã o com o m e r c a d o e x t e r n o . A p r o d u ç ã o a ç u c a r e i r a , p o r

a

exemplo,

d e t e v e um a u m e n t o s i g n i f i c a t i v o , c h e g a n d o a ser e x p o r t a d a p a r a as á r e a s de f r o n t e i r a . No prazo

de

duplicar

de açúcar

a produção

7.043 unidades,

10 anos,

de

em 1882 esse total

das

a 1882,

Mato

— se em 1873 a produção ascende

N a s d é c a d a s de 70 e 80, desenvolvimento

1873

atividades

a 17.101

Grosso

de rapaduras 131 unidades.

conseguiu era de

f o r a m a l i c e r ç a d a s as c o n d i ç õ e s p a r a o

econômicas

existentes

em

Mato

Grosso,

v i a b i l i z a n d o , de f o r m a g e n é r i c a , t r a n s f o r m a ç õ e s nos m e c a n i s m o s de p r o d u ç ã o em a l g u n s s e t o r e s , c o m o a c a n a - d e - a ç ú c a r e a p e c u á r i a . N a r e g i ã o do R i o A c i m a , o n d e se l o c a l i z a v a a c a p i t a l , a a t i v i d a d e canavieira foi marcada pela m o d e r n i z a ç ã o dos engenhos, a c o m p a n h a n d o

o

130

CORREA, Lúcia Salsa. A inserção do sul de Mato Grosso ao mercado mundial (18701914), 1993. p. 1. Mimeogr. 131

ALEIXO & CASTRO. Memória histórica da indústria de Mato Grosso. Cuiabá : FIEMT/IEL/UFMT, 1987. p. 68.

82

processo

ocorrido

em o u t r a s á r e a s

produtoras,

como

o Nordeste,

Rio

de

J a n e i r o e São P a u l o . N o s e n g e n h o s l o c a l i z a d o s às m a r g e n s do rio C u i a b á , a m a r c a m a i s e v i d e n t e f o i a t r a n s f o r m a ç ã o de v á r i o s d e l e s em

usinas,

com

u t i l i z a ç ã o de m á q u i n a s a v a p o r , a e x e m p l o da U s i n a da C o n c e i ç ã o , f u n d a d a em 1880: ... a partir dessa época, assinalada pela importação da aparelhagem que iria inaugurar, no engenho da Conceição, o ciclo das usinas movidas por máquinas a vapor, multiplicaram-se os estabelecimentos transformadores da cana-de-açúcar, que pontilharam o rio Cuiabá de centros de admirável atividade industrial. Especialmente na quadra das safras, entre maio e outubro, quando se aviva a população ribeirinha, na faina de abastecer, com os produtores de suas lavouras, 132 as moendas insaciáveis. A Joaquim

Usina

José

engenho,133

da

Paes

Anos

Conceição

de B a r r o s ,

depois,

em

foi

de 1895,

fundada

tradicional seu

filho,

pelo família

comendador de

Antonio

coronel

senhores Paes

de

de

Barros,

f u n d a r i a , t a m b é m na m a r g e m do rio C u i a b á , a U s i n a de I t a i c i , a qual p a s s a r i a a ser c o n s i d e r a d a a m a i s m o d e r n a , c o m p r o d u ç ã o i n c l u s i v e de á l c o o l , a l é m do a ç ú c a r e da a g u a r d e n t e : Por essa época enxameia o rio Cuiabá de embarcações, que vão levar às usinas os artigos de importação e buscar o açúcar fabricado, para oferecer aos consumidores distantes. Chatas, a reboque de lanchas, ou tocadas por zingueiros, barcos acondicionados à mascateação com os ribeirinhos, batelões, a remos, de reduzida capacidade, para cargas menores, e até canoas, tudo contribui para o transporte de sacas de açúcar e garrafões ou pipas de álcool ou aguardente. Como também dos produtos da lavoura ribeirinha, que procuram o mercado consumidor franqueado pelas usinas. Principalmente para o corte dos seus canaviais, que as abastecem de matéria-prima, conforme alguns dos convênios adotados.134

132

CORRÊA FILHO, Virgílio, op. cit., p. 37.

133

De propriedade de Maria Marques Fontes e Cesário Corrêa da Costa, pertenciam às Usinas de Aricá e Flexas, fundadas também na segunda metade do século XIX. 134

CORRÊA FILHO, op. cit, p. 39.

83

Em c o n t r a s t e com os t r a d i c i o n a i s s e n h o r e s de e n g e n h o , q u e t i n h a m c o m o b a s e de s u s t e n t a ç ã o a m ã o - d e - o b r a e s c r a v a , os u s i n e i r o s e m p r e g a r a m o trabalho

assalariado para

o desenvolvimento

das t a r e f a s r e q u e r i d a s

pelas

u s i n a s , e x e r c e n d o sobre os a s s a l a r i a d o s t o d o seu p o d e r de m a n d o : 1 3 5 A instalação das usinas implicou a instauração de uma nova ordem que buscava, através de transformações econômicas e tecnológicas, dotar a região de potencial responsável pela supremacia da indústria açucareira sobre as demais atividades econômicas. Esta nova ordem fortalecem o poder dos coronéis quanto aos outros segmentos sociais'136 Contudo,

ao

tempo

açucareira, o setor pecuarista somente

erradicada

no

em

expansão

da

produção

debatia-se com o saneamento

da

epizootia,

início

que

do

ocorria

século

a

seguinte.

Porém,

graças

aos

i n v e s t i m e n t o s de c a p i t a i s e s t r a n g e i r o s r e a l i z a d o s em M a t o G r o s s o , i n c l u s i v e c o m i n s t a l a ç ã o de e m p r e s a s e s t r a n g e i r a s , s o m a d o s à l i b e r a ç ã o da f o r ç a - d e trabalho

e g r e s s a do c o n f l i t o b é l i c o ,

décadas

de

80

e 90,

a pecuária

a pecuária pôde desenvolver-se.

mato-grossense

apresentou

Nas

importância

s i g n i f i c a t i v a na e x p o r t a ç ã o do c h a r q u e , c a l d o e e x t r a t o de c a r n e , p r o d u z i d o s por

estabelecimentos

industriais

de

capital

estrangeiro.137 Esses

produtos

e r a m e x p o r t a d o s a t r a v é s do p o r t o de C o r u m b á : Vale lembrar, também, que em fins do século passado e nas primeiras décadas do século XX efetuaram-se investimentos estrangeiros nesta área de produção. Surgem capitais platinos e europeus aplicados em terras para criação de gado e instalação de charqueadas, cujos produtos eram exportados por Corumbá com 138 destino, sobretudo, ao mercado argentino.

135

ALEIXO, em sua tese de doutorado, Vozes no silêncio - subordinação, resistência e trabalho, em Mato Grosso - 1888 - 1930. São Paulo 1991. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, expõe como as usinas surgiram, à época, como as principais forças formadoras e disciplinadoras da mão-de-obra dispersa pela região. 136

ALEIXO, Lúcia Helena Gaeta. ibid., p. 109-10.

137

O Saladeiro de Descalvados, por exemplo, localizado no município de São Luís de Cáceres (antiga Vila Maria) até a data de 28 de maio de 1859 pertenceu ao argentino Rafael Del Sar, sendo adquirido por capital belga e, por fim, pela Brasil Land & Cattle Parking Cia, ligada ao Sindicato Faquhr. 138

CORRÊA, Lúcia Salsa. op. cit. p. 76.

84

A atividade econômica mercantil caracterizada pelo comércio

de

i m p o r t a ç ã o e e x p o r t a ç ã o f o i v i v e n c i a d a a t i v a m e n t e por C o r u m b á , q u e , em d e c o r r ê n c i a da r e a b e r t u r a da n a v e g a ç ã o v a n t a j o s a de d i s t r i b u i ç ã o

de m e r c a d o r i a s

fluvial

platina, assumiu a função

para o abastecimento

de

outras

regiões mato-grossenses. Como resultado dessa atividade, a região meridional c a r a c t e r i z o u - s e p e l a atuação constituindo-se

nessa

grossense.139

decisiva

ocasião

de elemento

num

novo

estrangeiro

componente

da

no

comércio,

economia

mato-

A i s e n ç ã o de i m p o s t o s v e i o f a c i l i t a r a i m p o r t a ç ã o dos p r o d u t o s

para a p r o v í n c i a c o m o um t o d o . A nova s i t u a ç ã o p e r m i t i u , i n c l u s i v e ,

que

houvesse

sal,

rebaixamento

dos

preços

de

alguns

produtos,

como

o

b e n e f i c i a n d o g r a n d e m e n t e a p e c u á r i a e p e r m i t i n d o a l e n t o às c h a r q u e a d a s . 1 4 0 Em

Cuiabá,

pode-se

perceber

como

as

novas

facilidades

de

t r a n s p o r t e e de p r ê m i o s p o s s i b i l i t a r a m a i n s t a l a ç ã o de c a s a s i m p o r t a d o r a s , 1 4 1 m e d i a n t e o i n c e n t i v o ao i n t e r e s s e da p o p u l a ç ã o local por t e c i d o s de s e d a , cetim, cores,

lã com botões

listras

de seda,

de cores para

linho bordadas

rendas

vestidos,

de crochet

e crivo,

vellundinho

de

s o u t a c h é s g r e g a s e c a m i s a s c o m p e i t o de

142

C o m o e x e m p l o t í p i c o de a r t i c u l a ç ã o c o m o m e r c a d o e x t e r n o , p o d e se citar a C o m p a n h i a M a t t e — L a r a n j e i r a , c u j o d e s e n v o l v i m e n t o i g u a l m e n t e das n o v a s c o n d i ç õ e s e n c o n t r a d a s

139

decorreu

nas três ú l t i m a s d é c a d a s

do

CORRÊA, Lúcia Salsa, ibid., p. 71.

140

Segundo BRANDÃO, havia barcos exclusivamente utilizados no seu transporte a granel como o patacho argentino Felix Buxareo do armador Jaime Cibils Buxareo. Montagut & Hermanos estabelecidos em Corumbá importavam em 1874 cerca de 2.290 "fanegas" de sal, o equivalente a 313.730 litros. Nopalhabote argentino Mauser, rebocado pelo vapor Estevão Risso, foram transportados de uma só feita 1000 sacos de 50 kg de sal marinho do Uruguai e 10.000 sacos de 36 kg, grosso comum da Espanha, num total de 436.500 quilos. (BRANDÃO, Jesus da Silva. Cuiabá: desenvolvimento urbano e socioeconómico - 1825-1945. Cuiabá : Livro mato-grossense, 1991. p. 101). 141

Algumas dessas casas pertenciam aos seguintes proprietários: Firmo de Matos & Cia., Carlos Antonio Muniz, Miguel Braga & Fonseca, Veiga & Santana, Pinho & Osório. 142

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 28 out. 1875, p. 4.

85

s é c u l o XIX. 1 4 3 A p r o d u ç ã o e e x p o r t a ç ã o da e r v a - m a t e , p r o d u t o e s s e n c i a l m e n t e e x t r a t i v i s t a e e n c o n t r a d o l a r g a m e n t e na r e g i ã o dos rios I g u a t e m i e A m a m b a í , na r e g i ã o sul de M a t o G r o s s o , f o r a m g a r a n t i d a s pelo m e r c a d o a r g e n t i n o . O argentino

Francisco

Mendes

monopolizou

durante

todo

o

período

a

i m p o r t a ç ã o do p r o d u t o a s s i m c o m o e f e t u o u a t r a n s f o r m a ç ã o da erva b r u t a em p r o d u t o i n d u s t r i a l i z a d o . A e x p l o r a ç ã o da b o r r a c h a e sua e x p o r t a ç ã o , por sua vez, a t r a v é s da b a c i a do P r a t a e rio A m a z o n a s , i n c e n t i v a r a m a c o n s t i t u i ç ã o de c a s a s de i m p o r t a ç ã o e e x p o r t a ç ã o na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , j á a p a r t i r de 1870. T a i s c a s a s t a m b é m p r o p r i e t á r i a s de s e r i n g a i s , e x e r c e r a m o m o n o p ó l i o do c o m é r c i o e f u n c i o n a r a m c o m o a g e n t e s i n t e r m e d i á r i o s de b a n c o s n a c i o n a i s 144 e estrangeiros. A e x p o r t a ç ã o do l á t e x m a t o - g r o s s e n s e e f e t i v o u - s e no f i n a l do s é c u l o X I X e nas p r i m e i r a s d é c a d a s do s é c u l o X X , p a r a São P a u l o , A m a z o n a s , P a r á e mercado platino (Argentina e Uruguai), assim como para o mercado europeu (França e Inglaterra/ O i n c r e m e n t o das e x p o r t a ç õ e s m a t o - g r o s s e n s e s nas ú l t i m a s d é c a d a s do s é c u l o X I X c a r a c t e r i z o u - s e por fluxos e r e f l u x o s a d v i n d o s da c o n c o r r ê n c i a do m e r c a d o e x t e r n o e o s c i l a ç õ e s da d e m a n d a e de p r e ç o s , c o m o , por e x e m p l o , o c a s o da b o r r a c h a : o crescimento

da

exportação

da borracha

teve

curta

143

A Companhia Matte — Laranjeira foi composta no ano de 1890 por um grupo de empresários locais, tendo à frente Tomás Laranjeira. A companhia foi criada com o beneplácito do então governador do Estado, Antonio Maria Coelho, e em razão do apoio financeiro do Banco do Rio e Mato Grosso. Desde 1882, porém, o governo provincial já havia concedido arrendamento das terras devolutas com ervais a Tomás Laranjeira. 144

Destacaram-se nesse ramo de exportação os seguintes proprietários: Almeida & C.; Orlando, Irmãos & C.; Lucas Borges & C.; Alex Addor; Frederico Josetti; Ferreira & Gonçalves; Hemenegildo Correia Galvão; Joaquim Ferro; Ponce, Azevedo & C.; Caetano Dias da Silva; Pedro Vianna; Gregória Jortti; Dr. Joaquim P. Francisco Mendes; José Estevão & C.; Antônio Dias Pedroso; Henrique Vieira de Queirós; Antônio Leite da Silva Prado; Emiliano Paes da Costa e Aparicio da Silva Rondon. (cf. BORGES, Fernando Tadeu de Miranda. Do extrativismo à pecuária: algumas observações sobre a história econômica de Mato Grosso (1870-1930). Cuiabá : GENUS, 1991. p. 79).

86

duração,

explicada

com um preço

pelo

surgimento

mais baixo

oferecido

do produto

no Oriente,

a partir

de

1910,

Grosso.145

por Mato

As b a s e s em que e s t a v a a s s e n t a d a a e c o n o m i a m a t o - g r o s s e n s e f i n a l do s é c u l o XIX r e l a c i o n a v a m - s e c o m as o s c i l a ç õ e s dos m e r c a d o s

no que

a b s o r v i a m seus p r o d u t o s e p e l a i g u a l d e p e n d ê n c i a da i m p o r t a ç ã o de g ê n e r o s de p r i m e i r a n e c e s s i d a d e . 1 4 6 O m o m e n t o v i v i d o p e l a e c o n o m i a m a t o - g r o s s e n s e a c o m p a n h a v a os contornos

assumidos

internacional, contexto

ou

pelr-

seja,

de

que se p o d e m

economia uma

entender

nacional

economia

em

relação

ao

capitalismo

agrário-exportadora.

os p r ó p r i o s

contornos

É

nesse

demográficos

da

p r o v í n c i a do M a t o G r o s s o , d e s f a v o r e c i d a e m r e l a ç ã o às d e m a i s p r o v í n c i a s do império,

conforme

se

pode

perceber

pelos

dados

apresentados

por

MARCÍLIO. A é p o c a do r e c e n s e a m e n t o de 1872, a p o p u l a ç ã o de M a t o G r o s s o c o n t a v a a p e n a s 6 0 . 4 1 7 h a b i t a n t e s . R i o de J a n e i r o , São P a u l o ,

Pernambuco,

B a h i a e M i n a s Gerais a p r e s e n t a v a m r e s p e c t i v a m e n t e c o n t i n g e n t e s b e m m a i s e x p r e s s i v o s , tais c o m o : 8 1 9 . 6 0 4 , 8 3 7 . 3 5 4 , 8 4 1 . 5 3 9 ,

1.379.616 e 2.102.689

h a b i t a n t e s . N e s s a m e s m a é p o c a , 4 . 8 9 3 . 9 4 4 p e s s o a s v i v i a m na r e g i ã o L e s t e ; 3 . 0 9 3 . 9 0 1 na r e g i ã o N o r d e s t e ; 1 . 5 7 0 . 8 4 0

na r e g i ã o Sul; 3 3 2 . 8 4 7 na r e g i ã o '

N o r t e , e na r e g i ã o C e n t r o - O e s t e , c o m p o s t a por M a t o G r o s s o e G o i á s , 2 2 0 . 8 1 2 habitantes.

Em

uma

população

brasileira

de

10.112.061

milhões

de

h a b i t a n t e s , em 1872, a r e g i ã o C e n t r o O e s t e o c u p a v a o m e n o r p e r c e n t u a l , 2 . 2 %

145 146

BORGES, Fernando Tadeu de Miranda, ibid., p. 79.

A exploração da poaia que, no início da segunda metade do século em estudo, constituiu-se em um dos poucos produtos de exportação da província, apresentou-se, no final do século XIX e início do XX, como um produto sem expressão na pauta das exportações, em razão da instabilidade dos preços no mercado internacional. A coleta do produto manteve-se, no entanto, nos arredores dos municípios de Vila Maria e Diamantino.

87

em r e l a ç ã o aos 3 . 3 %

da r e g i ã o N o r t e , 3 0 . 6 % da r e g i ã o N o r d e s t e , 4 8 . 4 % da

r e g i ã o Leste e 15.5% da r e g i ã o Sul. 1 4 7 Os d a d o s a c i m a r e f e r i d o s r e v e l a m u m a d e s v a n t a g e m da p r o v í n c i a de Mato

Grosso

em

relação

às

demais

e,

especificamente,

em

relação

p r o v í n c i a s onde a e c o n o m i a c a f e e i r a e s t a v a e m e x p a n s ã o , t a i s c o m o P a u l o , Rio de J a n e i r o e M i n a s G e r a i s . N e s s e a s p e c t o , a população deve

uma parte

de imigrantes

significativa europeus,

da mão-de-obra

de seu crescimento

motivada

como

solução

às São

brasileira

no passado

à entrada

alternativa

para

maciça

o

problema

cafeeira.148

na economia

Com a r e a b e r t u r a da n a v e g a ç ã o do rio P a r a g u a i , a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o e, e s p e c i f i c a m e n t e , C o r u m b á , C á c e r e s e C u i a b á , p a s s a r a m a r e c e b e r , em e s c a l a m o d e r a d a , se c o m p a r a d a às p r o v í n c i a s do c e n t r o - s u l , platinos

e europeus.

O final

do c o n f l i t o

bélico

não

implicou

imigrantes imediatas

m u d a n ç a s no c o t i d i a n o da p o p u l a ç ã o m a t o - g r o s s e n s e . A r e o r g a n i z a ç ã o u r b a n a e e c o n ô m i c a das v i l a s l o c a l i z a d a s ao sul da p r o v í n c i a , a e x e m p l o de C o r u m b á e

Dourados,

diretamente

atingidas,

exigiu

um

tempo

mais

longo

de

r e c u p e r a ç ã o . De m o d o g e r a l , e s s a r e a b i l i t a ç ã o o c o r r e u de f o r m a l e n t a , m e s m o para aquelas

localidades,

como

Cuiabá,

onde

o confronto bélico

e f e t i v o u c o n c r e t a m e n t e . A p e r d a de c o n t i n g e n t e s p o p u l a c i o n a i s ,

não

se

provocada

p e l a g u e r r a e p e l a v a r í o l a , h a v i a r e d u z i d o s i g n i f i c a t i v a m e n t e o n ú m e r o de h a b i t a n t e s da p r o v í n c i a , c o m o um todo. 1 4 9 E s s a a f i r m a t i v a l e v a em c o n t a a q u e d a de c e r c a de 12.000 h a b i t a n t e s no p e r í o d o . Ou s e j a , de 6 4 . 0 0 0 em 1862, a p o p u l a ç ã o da p r o v í n c i a foi r e d u z i d a p a r a 5 2 . 0 0 0 no ano de 1869.

147

MARCÍLIO, Maria Luiza. op. cit., p. 18.

148

GONÇALVES, Mirna Ayres Issa. A população brasileira de 1872 a 1970: crescimento e composição por idade e sexo. In: Crescimento populacional (histórico e atual) e componentes do crescimento (fecundidade e migrações). Cadernos CEBRAP, n 0 16. São Paulo : CEBRAP, 1973. p. 30. 149

Para termos uma noção das perdas de homens no império brasileiro e, por conseguinte, em Mato Grosso, como decorrência exclusivamente da Guerra do Paraguai, faz-se oportuno lembrar que o Brasil fora obrigado a mobilizar cerca de 200 mil homens, levando aos campos de batalha 139 mil, e sofrerá mais de 30 mil baixas, entre mortos e feridos. (SOUSA JÚNIOR, Antônio de. op. cit., p. 314).

88

O c r e s c i m e n t o d e m o g r á f i c o a p a r t i r dos a n o s 70 foi d e c o r r e n t e t a n t o do

crescimento

vegetativo

como

das

migrações

internas,

procedentes

de

o u t r a s p r o v i n c i a s b r a s i l e i r a s . S o m e - s e a e s s e s dois f a t o r e s , em m e n o r e s c a l a , a e n t r a d a de m i g r a n t e s dos p a í s e s p l a t i n o s , p a r t i c u l a r m e n t e do P a r a g u a i . O quadro

a seguir

demonstra

o movimento

de recuperação

da

p o p u l a ç ã o , p o u c o s a n o s a p ó s o f i m da g u e r r a e na d é c a d a s e g u i n t e .

Q U A D R O N° 4 P O P U L A Ç Ã O DE C U I A B Á E P R O V Í N C I A DE M A T O GROSSO: 1869-1890

FONTE:

ANO

CUIABÁ

MATO GROSSO

1869 (1) 1872 1879 1890

30.117 35.987 37.020 27.093150

52.000 60.417 65.321 92.827

( 1 ) A L E I X O , L ú c i a H e l e n a Gaeta. M a t o G r o s s o : t r a b a l h o e s c r a v o e t r a b a l h o livre ( 1 8 5 0 - 1 8 8 8 ) . Brasília: Ministério da F a z e n d a . D e p a r t a m e n t o de A d m i n i s t r a ç ã o . D i v i s ã o de D o c u m e n t a ç ã o . 1 9 8 4 , p. 53. B U E N O , F r a n c i s c o A n t o n i o Pimenta. M e m ó r i a j u s t i f i c a t i v a dos t r a b a l h o s de que foi e n c a r r e g a d a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o s e g u n d o as i n s t r u ç õ e s d o M i n i s t é r i o d a A g r i c u l t u r a , de 2 7 d e m a r ç o d e 1 8 7 9 . R i o de Janeiro: N a c i o n a l , 1 8 8 0 , p. 75. I . B . G . E . R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l . 1 8 7 2 . R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l . 1890.

O b s e r v a - s e um a u m e n t o e x p r e s s i v o da p o p u l a ç ã o da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , em inverso

para

significativo.

a

1890, em r e l a ç ã o às d é c a d a s a n t e r i o r e s , com capital,

A explicação

Cuiabá,

cuja

p a r a tal

população

decréscimo

apresenta

pode

fenômeno decréscimo

ser e n c o n t r a d a

nas

p e r d a s t e r r i t o r i a i s o c o r r i d a s na d é c a d a de 80, em r a z ã o do d e s m e m b r a m e n t o

150

Estão incluídos os contingentes das freguesias das paróquias Senhor Bom Jesus de Cuiabá, Sant'Anna do Sacramento e São Gonçalo de Pedro II, porém não os de Santo Antônio do Rio Abaixo, em razão de seu desmembramento, em 1890.

89

de

alguns

distritos

(freguesias),

refletindo-se

sobre

a

composição

da

p o p u l a ç ã o do m u n i c í p i o de C u i a b á . 1 3 1 N ã o d i s p o m o s de d a d o s d e m o g r á f i c o s a r e s p e i t o do

crescimento

v e g e t a t i v o r e f e r e n t e à p r o v í n c i a de M a t o Grosso. N o e n t a n t o , os n ú m e r o s de i m i g r a n t e s , 81 e 958, a p r e s e n t a d o s n o s r e c e n s e a m e n t o s de 1872 e de 1890, respectivamente, migração

platina

permitem e

que

européia

percebamos em

direção

a à

pouca

expressividade

província

em

questão.

da O

c r e s c i m e n t o o c o r r i d o entre os d o i s r e c e n s e a m e n t o s p o d e ser a t r i b u í d o à v i n d a de i m i g r a n t e s de o u t r a s p r o v í n c i a s e ao c r e s c i m e n t o v e g e t a t i v o . P e l o c e n s o de 1890,

foram

indicação Corumbá

registrados

sobre

Mato

sua p r o c e d ê n c i a .

e Cáceres,

indagações.

em

252

e 258,

Mesmo considerando

Grosso Desses,

apenas

958

163 e s t a v a m

respectivamente.

estrangeiros, em C u i a b á

Ficam,

as d i f i c u l d a d e s i n e r e n t e s

aqui, ao

sem e em

algumas

pós-guerra,

t e r i a m e n t r a d o na p r o v í n c i a t ã o p o u c o s i m i g r a n t e s ? N ã o seria p o s s í v e l que tais

estrangeiros

tivessem

escapado

da

contabilização

r e c e n s e a d o r e s e/ou por a t i t u d e de sonegação

por

falha

dos

de i n f o r m a ç ã o por p a r t e dos

próprios imigrantes? A i m i g r a ç ã o de c o n t i n g e n t e s d o s p a í s e s v i z i n h o s era vista por p a r t e dos a d m i n i s t r a d o r e s

como pouco

contributiva

para

o desenvolvimento

da

p r o v í n c i a . Os p a r a g u a i o s e a p o p u l a ç ã o l a t i n a em g e r a l e r a m t o m a d o s Como p o r t a d o r e s de

má índole,

c o n f o r m e se p o d e p e r c e b e r a t r a v é s dos r e l a t ó r i o s

dos p r e s i d e n t e s da p r o v í n c i a , no f i n a l do a n o s 70 e na d é c a d a s e g u i n t e . A m a n i f e s t a ç ã o do p r e s i d e n t e J o ã o J o s é P e d r o s a , em 1879, é um e x e m p l o disso.

151

Exemplo disso são: Nossa Senhora do Livramento (ex-São José dos Cocais), que desde 1835 era distrito do município de Cuiabá, elevado à categoria de município por Lei provincial de 21-05-1883. Esse desmembramento implicou, por parte de Nossa Senhora do Livramento, a incorporação das freguesias de Nossa Senhora das Brotas (atual Acorizal) e de Nossa Senhora da Guia, auferidas do município de Cuiabá. Ainda, Santo Antônio do Rio Abaixo (hoje Santo Antônio do Leverger), desmembrado de Cuiabá e elevado à categoria de município em julho de 1890, com instalação em 1900. Ressalte-se que em 1899 o distrito de Brotas voltou a ser incorporado ao município de Cuiabá. (I.B.G.E. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXV).

90

O que não me parece fora de dúvida é que não há muita segurança individual no interior da Província devido isto não só à impunidade com que contão os criminosos, pela facilidade da evasão, como principalmente, à má índole, geradora do crime, de uma parte da população adventicia, de ordinário já foragida de outras Províncias e das repúblicas vizinhas. Desgraçadamente, a imigração que enquanto procura esta Província tão remota, tão extensa e, pôr isso, ainda pouco policiada, não pode-se recomendar muito pelos costumes e respeito às leis. Ella traz consigo uma porção da espuma social, das populações vizinhas, acossada pela polícia ou pela animadversão dos conterrâneos, e desde que não encontre autoridades fortes, vigilantes e enérgicas para reprimirem-lhe aos máos instinctos que a domina, comprehendeis que o crime há de ter incentivos para desenvolver-se facilmente.152 A i m i g r a ç ã o a l m e j a d a p e l o s p r e s i d e n t e s da p r o v í n c i a era a e u r o p é i a , p o r é m esta era d i r i g i d a em g r a n d e e s c a l a p a r a as r e g i õ e s m a i s d e s e n v o l v i d a s do i m p é r i o e com m a i o r e s r e c u r s o s e c o n ô m i c o s p a r a a g e n c i a r a v i n d a

de

estrangeiros. Entretanto, Mato Grosso passou a contar com a presença

de

latinos,

ainda

autoridades

que

em

pequena

paraguaias,

que

escala,

e

procuravam

contrariamente mostrar

as

à posição

das

inconveniências

de

h o m e n s e m u l h e r e s e m i g r a r e m p a r a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o : c l i m a q u e n t e , extrema

insalubridade,

incomunicación encuentra

com

estado

el resto

de del

incultura

imperio

de

sus

y el atraso

campos, material

absoluta en que

se

...1SS P a r a os l a t i n o s ,

especificamente paraguaios,

a vinda para

Mato

G r o s s o pode ter r e p r e s e n t a d o u m a f o r m a de l i v r a r - s e das c o n s e q ü ê n c i a s de v i v e r em um país d i z i m a d o p e l a g u e r r a , ao t e m p o e m q u e a p r o x i m i d a d e g e o g r á f i c a e a p r ó p r i a e x i s t ê n c i a de c o n t e r r â n e o s r a d i c a d o s na

província,

c o n s t i t u í r a m - s e p a r a eles em p o n t o s de a t r a ç ã o . S e n d o ou n ã o b e n q u i s t o s , os l a t i n o s — h o m e n s e m u l h e r e s — f i z e r a m - s e p r e s e n t e s em M a t o G r o s s o .

152

MATO GROSSO. Presidente da provincia (1878-1879: Pedrosa). Relatório com que o presidente da província de Mato Grosso, João José Pedrosa, abriu a 2a sessão da 22a legislatura da respectiva Assembléia, no dia 1° de outubro de 1879. 153

LA REFORMA. Asunción, febrero 24 de 1876.

91

A l é m do a c a m p a m e n t o m i l i t a r de V á r z e a G r a n d e , c r i a d o d u r a n t e a guerra, o n d e os p a r a g u a i o s c o n c e n t r a r a m - s e e e s t a b e l e c e r a m r e l a ç õ e s c o m a população

ribeirinha,

tal

fato

também

ocorreu

em

Cuiabá.

Estiveram

p r e s e n t e s nas p a r ó q u i a s de São G o n ç a l o de P e d r o II e do S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , c a s a n d o - s e e r e g i s t r a n d o s e u s f i l h o s em a n o s i m e d i a t o s ao t é r m i n o do c o n f l i t o e na d é c a d a s e g u i n t e . P a r t i c u l a r m e n t e na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s , c a s a m e n t o s e b a t i z a d o s de h o m e n s , m u l h e r e s e c r i a n ç a s p a r a g u a i o s

foram

r e g i s t r a d o s . M i l i t a r e s b r a s i l e i r o s e p a r a g u a i a s e s t a b e l e c e r a m l a ç o s na f o r m a de s a c r a m e n t o r e l i g i o s o e/ou m e d i a n t e u n i õ e s c o n s e n s u a i s . A documentação paroquial fornece i n f o r m a ç õ e s sobre esses homens e mulheres, documentação

que fixaram moradia revela,

ainda,

em C u i a b á

a predominância

no p e r í o d o

pós-guerra.

das m i g r a ç õ e s

internas

Tal em

d i r e ç ã o a C u i a b á , p r o c e d e n t e s de o u t r a s p r o v í n c i a s b r a s i l e i r a s , em r e l a ç ã o à estrangeira.

P e r m i t e que v e n h a m à t o n a f r a g m e n t o s da v i d a dos m i l i t a r e s

b r a s i l e i r o s a d v i n d o s de o u t r a s p r o v í n c i a s , q u e a c a b a r a m por f i x a r m o r a d i a e por c o n s t i t u i r f a m í l i a em C u i a b á .

PARTE II

PARÓQUIA SENHOR BOM JESUS DE CUIABÁ: A CIRCUNSCRIÇÃO DO OBJETO

O passado nunca está morto. Sequer é passado. William Faulkner

II.l O TEMA DA ILEGITIMIDADE E OS REGISTROS PAROQUIAIS

A p r o p o s t a de e s t u d o d o s p a d r õ e s da i l e g i t i m i d a d e na

paróquia

S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á g a n h a n o v o s c o n t o r n o s e d e s d o b r a m e n t o s

a

p a r t i r do m o m e n t o em que o l e q u e das p o s s i b i l i d a d e s de a n á l i s e p a s s a a c o m p o r t a r p r e o c u p a ç õ e s v o l t a d a s à i n s e r ç ã o dos i l e g í t i m o s nas f o r m a s

de

organização familiar. O e m b a s a m e n t o de f o n t e s p a r a a e f e t i v a ç ã o d e s t e e s t u d o são os livros

de

registros

de

batizados

encontrados

no

arquivo

da

Cúria

M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á . A u t i l i z a ç ã o de tal a c e r v o , i n é d i t o p a r a a h i s t ó r i a da p a r ó q u i a em q u e s t ã o , s u g e r e um t r a b a l h o de c r í t i c a das f o n t e s em r e l a ç ã o ao e s t a d o e c o n t e ú d o dos r e f e r i d o s r e g i s t r o s . C o n t u d o , à t a r e f a de l o c a l i z a r o t e m a da ilegitimidade

no c a m p o da p r o d u ç ã o h i s t o r i o g r á f i c a é dado c a r á t e r de

p r e c e d ê n c i a no d e s e n v o l v i m e n t o do c a p í t u l o . C o m tal p r o p ó s i t o ,

esforços serão envidados

no s e n t i d o

de

que

p o s s a m o s p e r c e b e r o t r a t a m e n t o d a d o p e l o s e s t u d i o s o s à q u e s t ã o , a t r a v é s do percurso,

ainda

que

parcial,

da

historiografia

estrangeira

e

nacional

pertinente à temática. V á r i o s estudos 1 5 4 i n s e r e m a i l e g i t i m i d a d e no q u a d r o das transformações pelas quais passaram

as s o c i e d a d e s

do O c i d e n t e

T r a n s f o r m a ç õ e s e s s a s que l e v a r a m

tanto à Revolução

processo

sociedades,

de

134

secularização

dessas

Industrial

culminando

em

grandes europeu. como

ao

mudanças

A exemplo de SHORTER, Edward. Naissance de la famille moderne: XVIIIe - XXe siècle. Paris : Seuil, 1977. STONE, Lawrence. Familia, sexo y matrimonio en Inglaterra (1500-1800). México : Fondo de Cultura Económica, 1990; FLANDRIN, Jean Louis. Familias: parentesco, casa e sexualidade na sociedade antiga. Lisboa : Estampa, 1992.

94

g r a d a t i v a s nas n o r m a s m o r a i s , a s s i m c o m o em v i o l a ç ã o nas n o r m a s de h o n r a das c o m u n i d a d e s . A v i o l a ç ã o das n o r m a s de h o n r a , no e n t e n d i m e n t o de

STONE, é

e x e m p l i f i c a d a com o f e n ô m e n o do a u m e n t o dos f i l h o s b a s t a r d o s na s o c i e d a d e i n g l e s a do s é c u l o

XVIII.

Segundo

ele,

o aumento

de c r i a n ç a s

bastardas

r e p r e s e n t a a d e s i n t e g r a ç ã o s o c i a l e o c o l a p s o de t o d a s as n o r m a s de h o n r a , e o c o r r e b a s i c a m e n t e e n t r e os g r u p o s s o c i a i s d e m a s i a d a m e n t e p o b r e s . E s t e s , na m e d i d a em que não e s t a v a m s u b m e t i d o s às m e s m a s r e p r e s s õ e s que

recaíam

s o b r e as c l a s s e s p r o p r i e t á r i a s de t e r r a , d i s t a n c i a v a m - s e das i d é i a s de d e f e s a do p a t r i a r c a l i s m o , da l e a l d a d e ao E s t a d o a u t o r i t á r i o e da e x t r e m a

inibição

sexual. E n t r e suas p r e o c u p a ç õ e s , p r o p õ e - s e a d i a g n o s t i c a r a i l e g i t i m i d a d e a t r a v é s de um q u a d r o t i p o l ó g i c o s e g u n d o as c i r c u n s t â n c i a s da c o n c e p ç ã o : a) o p r i m e i r o diz r e s p e i t o ao a b a n d o n o da m ã e e da c r i a n ç a por p a r t e do s e d u t o r , a p e s a r das p r o m e s s a s de c a s a m e n t o ; b) o s e g u n d o diz r e s p e i t o t a m b é m à s e d u ç ã o , a g o r a , p o r é m , por a l g u é m de n í v e l s o c i a l m a i s e l e v a d o e c o m a u t o r i d a d e s o b r e a m o ç a , g e r a l m e n t e o ( s e u ) s e n h o r da c a s a ou p e s s o a s a ele l i g a d a s . A g r a v i d e z p o d e r i a c u l m i n a r c o m a d i s p e n s a da m o ç a por p a r t e do s e n h o r ou em c a s a m e n t o com o u t r o h o m e m que n ã o o pai de seu f u t u r o f i l h o ; c)

finalmente,

como

componente

desse

quadro,

encontra-se

a q u e l e i d e n t i f i c a d o c o m o c o m p o r t a m e n t o s e x u a l p r o m í s c u o da m u l h e r . E s s a s c i r c u n s t â n c i a s , d e v i d a m e n t e c o n t e x t u a l i z a d a s ( I n g l a t e r r a dos s é c u l o s X V I ao X V I I I ) , r e v e l a r i a m p a r a S T O N E , a l é m das t r a n s f o r m a ç õ e s s o c i a i s e m o r a i s , s i t u a ç õ e s b e m e s p e c í f i c a s dos g r u p o s m a i s

pauperizados.

Ou s e j a , p a r a e s s a c l a s s e , r e f e r i d a p e l o a u t o r c o m o a c l a s s e dos t r a b a l h a d o r e s r u r a i s sem t e r r a e dos t r a b a l h a d o r e s u r b a n o s sem p r o p r i e d a d e , ou a i n d a , os v a g a i s , os s e m - l u g a r , os m a r g i n a l i z a d o s , a v i r g i n d a d e n ã o era i m p o r t a n t e . A

95

previsão,

a

prudência

e

a

planificação

eram

elementos

desvestidos

de

i m p o r t â n c i a para o seu s o m b r i o f u t u r o e c o n ô m i c o . Seria essa a c l a s s e que t e n d i a a ter f i l h o s i l e g í t i m o s , c o n s i d e r a d o s os ú n i c o s b e n s , as ú n i c a s p o s s e s p a r a os pais. A

perspectiva de

de

análise

aproximação

como

BRETTELL

p o d e ser t o m a d a

de

STONE

distanciamento como

em

contém

relação

referência.

a

tanto

pontos

outros

Ela procura

de

estudos.

explicar

as

r a z õ e s p e l a s q u a i s P o r t u g a l , t a n t o no c o n t e x t o da E u r o p a m e d i t e r r â n e a , c o m o no da E u r o p a

católica,

comportava

taxas

de

ilegitimidade

anormalmente

e l e v a d a s até a p r i m e i r a m e t a d e do s é c u l o XIX. Com tal o b j e t i v o , a a u t o r a p e r c o r r e os s e g u i n t e s níveis de

análise:

a) o c o n t e x t o s o c i o e c o n ó m i c o da i l e g i t i m i d a d e ; b) o c o m p o r t a m e n t o p r o m í s c u o da m u l h e r , c u j a mulheres

sem

d e s i g n a ç ã o é de

vergonha.',

c) a subsociedade

com propensão

para

a bastardía,

e

d) o s i g n i f i c a d o da b a s t a r d í a . Nos n í v e i s de a n á l i s e p r o p o s t o s p o r identificar, categorias propensão

pelo

menos,

dois

comportamento para

a

pontos

promíscuo

STONE e BRETELL, podemos

de

aproximação,

da

mulher

e

quais

sejam

subsociedade

as com

bastardía.

B R E T T E L L i d e n t i f i c a e s s a subsociedade

no e s c a l ã o m a i s b a i x o da

h i e r a r q u i a s o c i o e c o n ó m i c a p o r t u g u e s a , e ela c o m p o r t a c r i a d a s , j o r n a l e i r a s e f i l h a s de c a s e i r o s . I d e n t i f i c a , a i n d a , l a ç o s de p a r e n t e s c o e n t r e e s s a s m u l h e r e s . De modo mais amplo, relaciona

155

os o u t r o s d o i s n í v e i s p r o p o s t o s — o c o n t e x t o

BRETTELL, Caroline B. Homens que partem, mulheres que esperam: conseqüências da emigração numa freguesia minhota. Lisboa : Dom Quixote, 1991.

96

s o c i o e c o n ó m i c o e o s i g n i f i c a d o da b a s t a r d í a — t a n t o à e m i g r a ç ã o m a s c u l i n a c o l a d a à e s t r u t u r a f u n d i á r i a da r e g i ã o , q u a n t o ao p a p e l da I g r e j a C a t ó l i c a local. No que diz r e s p e i t o à m a c i ç a e m i g r a ç ã o m a s c u l i n a o c o r r i d a a p a r t i r do s é c u l o X V I I I , t e r i a ela a c e n t u a d o o p a p e l das m u l h e r e s c o m o f o n t e de a u x í l i o , t a n t o na a g r i c u l t u r a c o m o em o u t r a s a t i v i d a d e s , p o s s i b i l i t a n d o , de um l a d o , a a u t o - s u f i c i ê n c i a e c o n ô m i c a d e s s a s m u l h e r e s e, de o u t r o , um

certo

r e l a x a m e n t o dos c o s t u m e s e da m o r a l . A s s i m , a f a l t a de b r a ç o s dos f i l h o s e g e n r o s na l a v o u r a era s u p r i d a p e l a s f i l h a s s o l t e i r a s e n o r a s . As f i l h a s q u e p e r m a n e c i a m na t e r r a p a s s a v a m a ser c o n s i d e r a d a s , p e l o s pais, não s o m e n t e c o m o a p o i o m o r a l , m a s , p r i n c i p a l m e n t e , c o m o f o n t e de a u x í l i o e c o n ô m i c o . D e r i v a r i a daí a p o s s í v e l a c e i t a ç ã o , p e l o s p a i s , da q u e b r a dos v a l o r e s m o r a i s por p a r t e das f i l h a s . E s t a s , u m a vez g r á v i d a s , a s s u m i a m o n a s c i m e n t o e c r i a ç ã o do f i l h o , i n d e p e n d e n t e m e n t e de c o m p r o m i s s o m a t r i m o n i a l com o pai da c r i a n ç a . C o m o nem s e m p r e o r e t o r n o do n a m o r a d o ou n o i v o e m i g r a n t e era um d a d o c e r t o , p a r a a q u e l a s m u l h e r e s o dar à luz a d q u i r i a c o n o t a ç ã o segurança.

de

A l é m de c o n s t i t u i r u m a f a m í l i a , s i g n i f i c a v a , p o i s , a p o s s i b i l i d a d e

de seus f i l h o s s e r e m a c e i t o s p e l o s a v ó s e p e l a c o m u n i d a d e . I n f e r e - s e q u e , na z o n a r u r a l m i n h o t a , os f i l h o s de e r a m a c e i t o s e c o n s i d e r a d o s não como como

mão-de-obra

portuguesas, trabalhadoras,

neste

em caso

potencial específico,

uma boca a mais para para

trabalhar

na

constituíam-se

q u e , m e s m o enraizadas

e veladas

em

pais

incógnitos

alimentar,

lavoura.

mas,

As

mulheres

mães pobres,

por c ó d i g o s é t i c o s

mais

conservadores, também concebiam filhos ilegítimos. S H O R T E R , ao a n a l i s a r as m u d a n ç a s de c o m p o r t a m e n t o e de v a l o r e s no seio das f a m í l i a s e u r o p é i a s

dos s é c u l o s

XVIII e XIX, ressalta

como

r e s p o n s á v e l por e s s a s m u d a n ç a s a s u b s t i t u i ç ã o da e c o n o m i a t r a d i c i o n a l m o r a l para

a economia

moderna

de m e r c a d o .

Esta,

no seu e n t e n d i m e n t o ,

teria

97

afetado

mais

diretamente

as

classes

inferiores

da

sociedade,

sendo

as

p r i m e i r a s a r e a l i z a r uma r e v o l u ç ã o s e x u a l . Segundo a concepção econômico,

inerente

às

de S H O R T E R ,

relações

na b a s e do

capitalistas

de

individualismo

mercado,

d e s e n v o l v i d o , t a n t o em h o m e n s q u a n t o em m u l h e r e s ,

teriam

se

o prazer pessoal e o

d e s e j o de l i b e r d a d e . Um i n d i c a d o r p a r a tal s i t u a ç ã o s e r i a a c o n s t a t a ç ã o de um g r a n d e n ú m e r o de n a s c i m e n t o s de c r i a n ç a s i l e g í t i m a s na F r a n ç a e I n g l a t e r r a , no

período

citado.

Tal

fenômeno

estaria

intimamente

relacionado

a

um

c o m p o r t a m e n t o sexual d i f e r e n c i a d o e n t r e os j o v e n s , p r i n c i p a l m e n t e e n t r e as mulheres.

Os

passariam

a

sexualidade

encontros ser

entre

administrados

recreativa,

casais, pelos

antes

geridos

pela

jovens

desejosos

próprios

comunidade, de

uma

menos prudente e mais prazerosa.

T a n t o S H O R T E R q u a n t o S T O N E r e l a c i o n a m a l i b e r d a d e de e s c o l h a de

parceiros

entre

os

despossuídos

à

liberação

do

domínio

paterno,

implicando menos compromisso com a família e a comunidade, bem como o r o m p i m e n t o com as n o r m a s t r a d i c i o n a i s . E m d e c o r r ê n c i a d e s s e s e de o u t r o s fatores, explicar-se-ia

a ilegitimidade.

S T O N E , por sua vez, a p o n t a a e x i s t ê n c i a de u m a m a i o r por

parte

dos

despossuídos

na e s c o l h a

do(a)

companheiro(a).

liberdade A

pouca

i n f l u ê n c i a p a t e r n a sobre os f i l h o s era e x e r c i d a na m e d i d a em que p a r t e d e l e s d e i x a v a a p r ó p r i a casa, f o r m a n d o u m a p o p u l a ç ã o

flutuante

de a d o l e s c e n t e s

livres do d o m í n i o p a t e r n o . N o e n t e n d i m e n t o de F L A N D R I N , 1 5 6 n ã o se p o d e p e n s a r o f e n ô m e n o da i l e g i t i m i d a d e

sem que e s t e s e j a e v o c a d o

ao s i s t e m a c r i s t ã o , p o i s ,

na

p r á t i c a , o r e f e r i d o s i s t e m a n ã o era i n t e g r a l m e n t e a p l i c a d o . O seu i r r e a l i s m o e a sua d u r e z a e r a m m i n i m i z a d o s p e l a c o n c u b i n a g e m dos r i c o s , p e l o c e l i b a t o

156

FLANDRIN, Jean-Louis, op. cit., p. 193.

98

prolongado

ou

definitivo

dos

pobres

e pela

vida

sexual

dissoluta

dos

celibatários. S e g u n d o esse a u t o r , t a n t o na I d a d e M é d i a c o m o no s é c u l o X V I I I , a concubinagem

podia

estar presente

em

todos

os n í v e i s

sociais,

entre

os

m i s e r á v e i s , r i c o s e c e l i b a t á r i o s . E n t r e os p r i m e i r o s , p o r q u e n ã o t i n h a m c o m o arcar c o m as d e s p e s a s do c a s a m e n t o , e e n t r e os r i c o s , p e l a q u e s t ã o m o r a l . Estes

últimos,

geralmente,

davam

ouvido

aos

moralistas

defensores

do

p r e s s u p o s t o de que os h o m e n s d e v e r i a m c r i a r e e d u c a r seus b a s t a r d o s tão b e m c o m o os f i l h o s l e g í t i m o s . A c o n c u b i n a g e m ,

n e s s e c a s o , c o n s t i t u í a - s e em u m a

f o r m a de p o l i g a m i a . FLANDRIN

enfatiza

que

a

concubinagem

estava

adaptada

às

e s t r u t u r a s n ã o - i g u a l i t á r i a s da s o c i e d a d e e p e r m i t i a aos b a s t a r d o s s o b r e v i v e r . A

queda

da

concubinagem,

porcentagem entre

os

de

nascimentos

séculos

XVI

e

ilegítimos,

meados

do

como XVIII,

produto nos

de

campos

f r a n c e s e s , é e x p l i c a d a , em p a r t e , c o m o r e s u l t a d o da a t u a ç ã o da I g r e j a . O f a t o de a I g r e j a ter p a s s a d o a i m p o r aos s e d u t o r e s o c a s a m e n t o com as m o ç a s seduzidas, bem

c o m o a d o t a d o a p r á t i c a da e x c o m u n h ã o , t e r i a l e v a d o m u i t o s

j o v e n s sem p o s s e s a o p t a r p e l o c e l i b a t o e, ou, p e l o c a s a m e n t o t a r d i o . Sem q u e r e r a p r e c i a r o u t r o s m é r i t o s , a t e n t a m o s p a r a a a f i r m a ç ã o de F L A N D R I N , 1 5 7 de que t a n t o o a u m e n t o de n a s c i m e n t o s i l e g í t i m o s q u a n t o o a b a n d o n o de c r i a n ç a s ( m a i s ou m e n o s na s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X V I I I ) p o d i a m ter o u t r a s c a u s a s que n ã o a f a l t a de r e l i g i ã o e a i m o r a l i d a d e , c o m o , por e x e m p l o , a e x p l o s ã o d e m o g r á f i c a , a p r o l e t a r i z a ç ã o e o e m p o b r e c i m e n t o dos a s s a l a r i a d o s . E, por f i m , de que e s s e c o n j u n t o de m u d a n ç a s r e v e l a r i a n a d a m a i s do q u e u m a transformação costumes.

157

Ibid., p. 225.

dos

costumes

e, ou,

a cristianização

dos

99

1 SÄ

RODRIGUES generis.

Ao

estudar

a v a l i a a i l e g i t i m i d a d e em P o r t u g a l por uma ó t i c a sui a emigração

portuguesa

para

o Brasil,

através

dos

p a s s a p o r t e s o b t i d o s j u n t o ao g o v e r n o civil de V i a n a do C a s t e l o , no p e r í o d o de 1835 a 1860, c o n s t a t a a p r e s e n ç a de um g r u p o e s p e c í f i c o de

emigrantes:

expostos, filhos ilegítimos e órfãos. Esse grupo é classificado pelo como

aqueles

situados

num

quadro

familiar

precário,

ou

seja,

autor todo

e m i g r a n t e c u j o n ú c l e o f a m i l i a r se r e s s e n t e de u m d o s g e n i t o r e s . C o n f o r m e c o n s t a t a d o p e l o a u t o r , é e m C a m i n h a , V i a n a do C a s t e l a e V a l e n ç a , ao n o r t e de P o r t u g a l , que se e n c o n t r a m m a i s e m i g r a n t e s sem pais. T r a t a - s e de l o c a l i d a d e s com p o r t o de m a r ou p r a ç a m i l i t a r . D e s s e s e m i g r a n t e s em d i r e ç ã o ao B r a s i l , os ó r f ã o s a t i n g i r a m a m a i o r e x p r e s s ã o n u m é r i c a , s e n d o que a i d a d e

do

grupo,

como

um t o d o ,

se

situava

abaixo

dos

21

anos,

p o s i c i o n a n d o - s e a m é d i a e t á r i a nos 15 a n o s . N o p r i m e i r o caso, os ó r f ã o s de pai, d i a n t e das n o v a s n ú p c i a s da m ã e , e r a m f o r ç a d o s a p a r t i r , s u p o s t a m e n t e com a h e r a n ç a r e c e b i d a . R O D R I G U E S diz t r a t a r - s e de j o v e n s que recebido

instrução,

pois

todos

sabiam

1er,

escrever

e

haviam

contar,

enfim,

preparados e habilitados. Se, de um lado, o a u t o r c a r a c t e r i z a os r e p r e s e n t a n t e s como

depauperados

familiarmente,

por

outro,

ressalta

desse grupo

que t i v e r a m

bons

a p o i o s de f a m i l i a r e s que lhes p e r m i t i r a m i n i c i a r u m a t r a j e t ó r i a p r o f i s s i o n a l em c o n d i ç õ e s de o b t e r e m ê x i t o em t e r r a s b r a s i l e i r a s . R O D R I G U E S nos c h a m a a a t e n ç ã o no s e n t i d o de não r e l a c i o n a r m o s n e c e s s a r i a m e n t e , e q u a s e de f o r m a a u t o m á t i c a , o g r u p o de ó r f ã o s , e x p o s t o s e i l e g í t i m o s c o m a q u e l a p a r c e l a da p o p u l a ç ã o s i t u a d a no m a i s b a i x o e s c a l ã o da h i e r a r q u i a s o c i a l e, por c o n s e g u i n t e , p o t e n c i a l m e n t e t e n d e n t e a ter ilegítimos.

158

Esse

grupo

de

emigrantes

se

distanciaria

de

tal

filhos

propensão,

RODRIGUES, Henrique Fernandes. Emigração de expostos, órfãos e filhos ilegítimos no século XIX com destino ao Brasil. In: Congresso de Demografía Histórica. (3. : 1993 : Braga). Mimeo. Comunicação.

100

segundo

o

financeiras

autor,

por

ter

usufruído

boas

condições

sociofamiliares

e

e m sua t e r r a de o r i g e m . Em

âmbito

de

Brasil,

os

estudos

sobre

ilegitimidade,

mesmo

s u s t e n t a n d o - s e em r e g i s t r o s p a r o q u i a i s c o m o f o n t e s p r i n c i p a i s , não d i s p e n s a m a d o c u m e n t a ç ã o n ã o - s e r i a l . A t e n t e - s e p a r a o f a t o de q u e p r a t i c a m e n t e t o d o s aqueles

que

lançaram

mão

do

uso

dos

registros

analisando o objeto — ilegitimidade — num

t a m b é m , para o c a r á t e r r e g i o n a l

medida

são r e a l i z a d o s ,

que

o

fizeram

p e r í o d o s i t u a d o e n t r e 30 e 100

anos. A t e n t e - s e , em

paroquiais

principalmente

dos t r a b a l h o s .

no m e i o

Estes,

acadêmico,

p e r m i t i n d o q u e se v i s l u m b r e em n o s s o p a s s a d o a t r a j e t ó r i a de u m a p a r c e l a da p o p u l a ç ã o , e n t ã o esquecida Constituem-se,

esses

à

vêm ampla

e sem direito à cidadania.

trabalhos,

em

propostas

metodológicas

c o n c e r n e n t e s à s o c i e d a d e c o l o n i a l e i m p e r i a l , o que i m p l i c a dizer q u e m u i t o s d e l e s a c a b a m p o r p r o p o r u m a h i s t ó r i a da p o p u l a ç ã o b r a s i l e i r a 1 3 9 a p a r t i r de t e m á t i c a s c o m o f a m í l i a , c r i a n ç a , c o n c u b i n a t o , b a s t a r d í a , etc. NIZZA

DA

SILVA, 1 6 0 ao i n d i c a r

fontes existentes

nos

arquivos

b r a s i l e i r o s , i m p o r t a n t e s para o e s t u d o t a n t o do s i s t e m a de n o r m a s j u r í d i c a s em r e l a ç ã o ao c a s a m e n t o , q u a n t o do s i s t e m a de n o r m a s e c o m p o r t a m e n t o s sociais, contribui

para o entendimento

do f e n ô m e n o

da i l e g i t i m i d a d e

no

B r a s i l c o l o n i a l . A a u t o r a t r a b a l h a c o m v á r i o s a s p e c t o s da vida c o n j u g a i , tais c o m o s e x u a l i d a d e , p r o c r i a ç ã o , r a p t o por s e d u ç ã o ou v i o l ê n c i a ,

concubinato,

o b s t á c u l o s ao c a s a m e n t o , etc. As a n á l i s e s das f o n t e s a p o n t a d a s p o s s i b i l i t a m a c o m p r e e n s ã o do o u t r o lado do s i s t e m a de c a s a m e n t o de a c o r d o com as leis da I g r e j a e do E s t a d o , concubinato

ou

revelando mancebía.

o casamento Dentre

as

pela

lei

fontes,

da

natureza

destacam-se:



o As

159

NADALIN, Sérgio Odilon. A demografía numa perspectiva histórica. Belo Horizonte : ABEP, 1994. p. 4. 160

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo : Ed. Universidade de São Paulo, 1984.

10 1

CONSTITUIÇÕES

Primeiras

inventários e testamentos, freguesias,

relatos

de

do

Arcebispado

correspondência

visitas

pastorais,

da

Bahia,

recenseamentos,

e n t r e b i s p o s e os p á r o c o s

róis

de

desobriga,

das

processos

de

concubinato eclesiástico. O u t r o e x e m p l o que m e r e c e d e s t a q u e é M A T T O S O , 1 6 1 q u e , t a m b é m utilizando-se

de

variadas

fontes,

como

os

registros

paroquiais,

r e c e n s e a m e n t o s , t e s t a m e n t o s e i n v e n t á r i o s , c a r t a s de a l f o r r i a s e o u t r a s m a i s , analisa

a população

de

Salvador

no

século

XIX.

Em

quatro

dos

cinco

c a p í t u l o s de sua o b r a , a f a m í l i a é o o b j e t o de e s t u d o , s e n d o a n a l i s a d a em v á r i o s a s p e c t o s , c o m d e s d o b r a m e n t o s a c e r c a da f a m í l i a de l i v r e s , escravos, estratégias

matrimoniais,

filiação (filhos legítimos,

libertos,

legitimados,

naturais, e adotivos). C o n s t a t a - s e d u p l a p r e o c u p a ç ã o de M A T T O S O na o b r a em a p r e ç o . Por

um

lado,

busca

dar

conta

da

dinâmica

demográfica

da

família,

ao

r e l a c i o n a r , por e x e m p l o , a p r o p o r ç ã o d o s n a s c i m e n t o s i l e g í t i m o s em r e l a ç ã o ao total

de n a s c i m e n t o s

dentre

sobressai uma preocupação

a população

em r e c o r r e r

livre

e escrava.

Por

outro,

a métodos interdisciplinares

para

d i a g n o s t i c a r p a d r õ e s , m e c a n i s m o s e c o m p o r t a m e n t o s e n t r e os m e m b r o s

da

família. Como ilustração, e x e m p l i f i c a m o s aqui a relação que a autora faz e n t r e r a p t o s e e s t u p r o s em u m a das p a r o q u i a s de S a l v a d o r , n u m a t e n t a t i v a de c a p t a r m o d e l o s de c o m p o r t a m e n t o de h o m e n s e m u l h e r e s , o r i g i n a d o s ou n ã o de f a m í l i a s l e g a l m e n t e c o n s t i t u í d a s . MARCÍLIO, população

brasileira,

por

sua

concluiu

vez, que

após

sistemáticas

os n í v e i s

análises

de b a s t a r d í a

e de

sobre

a

uniões

c o n s e n s u a i s e s t á v e i s , no seio da p o p u l a ç ã o l i v r e , f o r a m s e m p r e e l e v a d o s no

161

MATTOSO, Kátia de Queirós. Família e sociedade na Bahia do século XIX. São Paulo :

Corrupio, 1988. 162

MARCÍLIO, Maria Luiza. A cidade de São Paulo: povoamento e população, 1750-1850. São Paulo : Pioneira, 1973. . Caiçara: terra e população - estudo de demografía histórica e da história social de Ubatuba. São Paulo : Paulinas, 1986.

102

Brasil c o l o n i a l , p o d e n d o c h e g a r à p r o p o r ç ã o de q u a s e 7 0 % de n a s c i m e n t o s ilegítimos. dimensões

Segundo de

suas

essa

autora,

conseqüências,

o

fenômeno

tem

da

importância

ilegitimidade, considerável

pelas para

a

h i s t ó r i a social e p a r a a h i s t ó r i a do p o v o a m e n t o do B r a s i l . E a p r o l i f e r a ç ã o de f i l h o s i l e g í t i m o s , n e s s e país em v i a s de p o v o a m e n t o , é i n c o n t e s t á v e l . As h i p ó t e s e s l e v a n t a d a s por M A R C Í L I O a r e s p e i t o d e s s e f e n ô m e n o para São P a u l o ( 1 7 5 0 - 1 8 5 0 ) r e f e r e m - s e às d i f i c u l d a d e s da r e a l i z a ç ã o

dos

c a s a m e n t o s , s e j a e m r a z ã o da e x i g ê n c i a de v á r i o s p a p é i s a s e r e m a p r e s e n t a d o s p e l o s n o i v o s , s e j a p e l a s t a x a s c o b r a d a s p e l a I g r e j a . S o m e - s e a isso uma c e r t a t e n d ê n c i a e n t r e h o m e n s e m u l h e r e s a u m a vida fácil.

A autora lembra, ainda,

a d e s p r o p o r ç ã o e n t r e o n ú m e r o de h o m e n s e m u l h e r e s , ou s e j a , as m u l h e r e s e r a m mais n u m e r o s a s q u e os h o m e n s , f a t o r que p r o p o r c i o n a v a a m a n c e b í a . A p r e s e n ç a dos i l e g í t i m o s p o d e ser e n t e n d i d a , a i n d a , c o m o um dos c o m p o n e n t e s da s o c i e d a d e e s c r a v i s t a , o n d e as e s c r a v a s c o m u m e n t e c o n c e b i a m f i l h o s de seus s e n h o r e s . A f i r m a L 0 N D 0 Ñ 0 1 6 3 q u e , no B r a s i l c o l o n i a l , o c a s a m e n t o i m p o s t o e r e c o n h e c i d o p e l a I g r e j a foi o m a t r i m ô n i o c a t ó l i c o c o n f o r m e d e t e r m i n a d o pelo

Concilio

de

Trento,

de

1563,

devendo

sobrepor-se

aos

costumes

m a t r i m o n i a i s i n d í g e n a s e aos d i v e r s o s r e l a c i o n a m e n t o s d o s p o r t u g u e s e s com as m u l h e r e s n a t i v a s . P o r é m , a p e n a s a p a r t i r do i n í c i o do s é c u l o XVIII, c o m a e l a b o r a ç ã o das C O N S T I T U I Ç Õ E S P r i m e i r a s do A r c e b i s p a d o da B a h i a , é que a I g r e j a c o l o n i a l p a s s o u a r e c e b e r u m a o r i e n t a ç ã o de c o n j u n t o , p l a s m a d a em um corpo

doutrinai

e

normativo,

visando-se

com

isso

à

implantação

os

escândalos

da

catolicidade. Implantar

a catolicidade

implicaria

corrigir

e

a

n e g a ç ã o da m o r a l c a t ó l i c a , e x i s t e n t e s nos t r ó p i c o s e p r o p i c i a d o s por v á r i o s

163

LONDOÑO, Fernando Torres. El concubinato y la Iglesia en el Brasil colonial. Estudos CEDHAL, São Paulo, n° 2, 1988.

103

fatores: imensidão

do

território,

isolamento

dos

povoados,

vastidão

das

d i o c e s e s , c o n d e s c e n d ê n c i a e c u m p l i c i d a d e do c l e r o e, por f i m , a p r e c a r i e d a d e de vida da p o p u l a ç ã o . D e n t r e os e s c â n d a l o s c o n s i d e r a d o s p e l a s a u t o r i d a d e s , e n c o n t r a v a - s e o c o n c u b i n a t o , c o m o d e c o r r ê n c i a da d i f i c u l d a d e dos l a i c o s b r a s i l e i r o s

em

guardar a castidade. O concubinato aparece, nas CONSTITUIÇÕES Primeiras do A r c e b i s p a d o

da B a h i a ,

do ano

de

1707,

c o m o um

dos

crimes

c o m b a t i d o por m e i o da e s t r u t u r a e c l e s i á s t i c a : p á r o c o s , v i s i t a d o r e s ,

a

ser

juizes

eclesiásticos e bispos. Objetivava-se, portanto, implantar o modelo católico de c o n s t i t u i ç ã o

da f a m í l i a ,

como

espaço

de

controle

da I g r e j a

sobre

a

população. Segundo condenar

homens

LONDOÑO, e

mulheres

as

visitas

que

viviam

diocesanas com

outras

culminavam pessoas

por

como

se

e s t i v e s s e m c a s a d o s . A e v i d ê n c i a d e s s a s r e l a ç õ e s era a e x i s t ê n c i a dos f i l h o s t i d o s pelo casal d u r a n t e a u n i ã o , sem a r e a l i z a ç ã o do m a t r i m ô n i o . E s s e s f i l h o s eram considerados pela Igreja Católica como ilegítimos. Ao i n v e s t i g a r a t r a j e t ó r i a da m u l h e r b r a s i l e i r a d e s d e o i n í c i o da c o l o n i z a ç ã o até o p e r í o d o q u e p r e c e d e u à i n d e p e n d ê n c i a , P R I O R E 1 6 4 f a z uso, a l é m de o u t r o s d o c u m e n t o s , dos p r o c e s s o s e c l e s i á s t i c o s . E s s e e x a m e p e r m i t i u à

historiadora

registrar

a ação

da

Igreja

na

pregação

de

um

ideal

de

p r o c r i a ç ã o : a q u e l e e x c l u s i v o do c a s a m e n t o . O moralismo eclesiástico

perseguia, segundo a autora,

infrações

r e l a t i v a s ao uso da s e x u a l i d a d e . P o r sua v e z , as m ã e s s o l t e i r a s a p r o p r i a v a m - s e c o m m u i t a h a b i l i d a d e d a s leis da I g r e j a

p a r a r e s o l v e r os p r o b l e m a s a d v i n d o s

da g r a v i d e z i n d e s e j a d a a t r a v é s de queixas honra perdida,

164

etc.

às autoridades:

fuga

de

noivo,

I n d e p e n d e n t e m e n t e da c l a s s e s o c i a l a que p e r t e n c e s s e m ,

PRIORE, Mary Del. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidade e mentalidades no Brasil colônia. Rio de Janeiro : José Olympio, 1993.

104

essas

mulheres,

quando

seduzidas

e

grávidas,

almejavam

estabilidade

e

A Igreja, segundo a autora, protegia essas mulheres, incitando-as

a

proteção.

r e d i m i r e m - s e p e l o e x e r c í c i o do papel de m ã e em t o r n o do f i l h o E s s e s f i l h o s de m ã e s s o l t e i r a s e r a m t i d o s c o m o naturais f i l h o s de pais

ilegítimo.

e reconhecidos como

incógnitos.

Poucas opções apresentavam-se

para essas mulheres

quando

viam suas súplicas serem atendidas: abandono, infanticidio, criar

não

sozinhas

seus f i l h o s . P o r o u t r o l a d o , a f i r m a P R I O R E q u e a c o n s t a t a ç ã o de c i r c u l a ç ã o de c r i a n ç a s e n t r e v i z i n h a s e c o m a d r e s r e v e l a r i a u m a r e d e de

solidariedade

e s t a b e l e c i d a e n t r e as m ã e s s o l t e i r a s e a c o m u n i d a d e . E s o b r e e s s a s m u l h e r e s a I g r e j a t e r i a e n c o n t r a d o um e s p a ç o p r ó p r i o p a r a n o r m a t i z a r a p o p u l a ç ã o da sociedade colonial. V i s a v a - s e v a l o r i z a r o c a s a m e n t o e com isso c o n v e r t e r a p o p u l a ç ã o feminina

a

um

colonizador

e

modelo

de

comportamento

que

fosse

útil

ao

projeto

civilizador.165

T a m b é m S O U Z A 1 6 6 c h a m a a a t e n ç ã o p a r a a e x i s t ê n c i a de f a m í l i a s à margem

do

vínculo

do

matrimônio,

consideradas

ilegais

p r e o c u p a ç ã o d a s a u t o r i d a d e s m i n e i r a s do s é c u l o X V I I I . aparelhos

repressivos

nunca

deixaram

enquadrar a população desclassificada das

soluções

encontradas

casamentos mistos. mestiços

l6í 166

ser

ponto

T a n t o a s s i m q u e os

acionados

no

sentido

nos m o l d e s do s i s t e m a c o l o n i a l .

impor

e,

ao

mesmo

de

tempo,

aceitar,

de Uma os

M e s m o a s s i m , a f i r m a a a u t o r a , um v a s t o c o n t i n g e n t e de

originados

socialmente

foi

de

e

de

desclassificados

uniões em

ilícitas Minas.

Ibid., p. 66. SOUZA, Laura de Mello e. op. cit., p. 143-44.

aumentava A

família

o da

número gente

dos livre

105

pobre e s t r u t u r o u - s e i n d e p e n d e n t e m e n t e dos l a ç o s m a t r i m o n i a i s . R e s s a l t a , ainda, SOUZA, que esse c o n t i n g e n t e f o i , no s é c u l o XVIII, predominantemente

de

origem

negra

e

mestiça,

bastarda

e

oriunda

de

domicílios d i r i g i d o s por m u l h e r e s s o z i n h a s . Para VAINFAS, 1 6 7 no B r a s i l os s e g m e n t o s p o b r e s d e i x a v a m de se casar, não por t e r e m e s c o l h i d o q u a l q u e r f o r m a de u n i ã o o p o s t a ao s a c r a m e n t o c a t ó l i c o e pelos o b s t á c u l o s f i n a n c e i r o s e, ou, b u r o c r á t i c o s , e sim, por v i v e r e m num mundo instável e p r e c á r i o o n d e a i t i n e r â n c i a f a z i a p a r t e de suas vidas. DIAS, 1 6 8 j á a t e n t a v a , em seus e s t u d o s em m e a d o s da d é c a d a de 80, para a p r e s e n ç a de m u l h e r e s sós com m a r i d o s a u s e n t e s , na p o p u l a ç ã o

da

cidade de São P a u l o no século XIX. S e g u n d o a a u t o r a , os s é c u l o s XVII e XVIII, f o r t e m e n t e m a r c a d o s

pelo processo

de p o v o a m e n t o

de a r r a i a s

de

m i n e r a ç ã o em M i n a s Gerais, G o i á s e M a t o Grosso, a c e n t u a r a m a p r e s e n ç a f e m i n i n a na vida u r b a n a em d e c o r r ê n c i a dos c o s t u m e s i t i n e r a n t e s dos h o m e n s m i n e r a d o r e s , c o m e r c i a n t e s e t r o p e i r o s em d i r e ç ã o às ditas r e g i õ e s . E n f a t i z a DIAS que o

f e n ô m e n o de m u l h e r e s s o l t e i r a s ,

c h e f e s de f a m í l i a ,

parece

p e c u l i a r à u r b a n i z a ç ã o como um t o d o no B r a s i l c o l ô n i a , m a n t e n d o - s e vivo em São Paulo nas p r i m e i r a s d é c a d a s de s é c u l o XIX. E vai a l é m , ao p r o c u r a r a p r e s e n t a r mais e x p l i c a ç õ e s para tal f e n ô m e n o : Torna-se impossível fixar causalidades precisas num processo amplo e abarcante de todo um meio social complexo em mudança. Basicamente, prendia-se ao sistema de dominação social das classes dominantes e à perpetuação dos privilégios adquiridos, de que a estrutura familiar era um instrumento estratégico. Estipulava papéis sociais difíceis de serem mantidos por homens ou mulheres de classes desfavorecidas, embora alguns de seus valores permeassem por toda a sociedade como traços machistas dos papéis sociais masculinos. Entretanto, normas e valores ideológicos relativos ao casamento e à organização

167

VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro : Campus, 1989. 168

DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Cotidiano e poder em São Paulo no século XIX São Paulo : Brasiliense, 1984.

106

da família nos meios senhoriais não se estendiam aos meios mais pobres de homens livres sem propriedades a transmitir. Moças pobres sem dotes permaneciam solteiras ou tendiam a constituir uniões consensuais sucessivas.169 I n d i s c u t í v e l é a a f i r m a ç ã o de q u e , ao t r a t a r dessa tende-se

a

avançar

para

os

múltiplos

fatores

problemática,

desencadeadores

de

tal

f e n ô m e n o . E ao f a z ê - l o d e f r o n t a m o - n o s c o m u m a r e d e i n t r i n c a d a de n o v o s e l e m e n t o s que a c a b a m por r e v e l a r q u ã o v a s t o é o u n i v e r s o s o c i o c u l t u r a l do q u a l os f i l h o s i l e g í t i m o s f a z i a m p a r t e . D i s s o c i á - l o s da e s t r u t u r a da s o c i e d a d e colonial

e imperial

performance

brasileira,

do

processo

de

formação

do

Estado,

da

da p o p u l a ç ã o , b r a n c a , n e g r a e í n d i a , da i n f l u ê n c i a e d o m í n i o da

I g r e j a C a t ó l i c a , a s s i m c o m o da a t u a ç ã o do c l e r o l o c a l e, por f i m , da f a m í l i a l e g a l m e n t e c o n s t i t u í d a e das u n i õ e s c o n s e n s u a i s e s t á v e i s , é não dar à q u e s t ã o o seu d e v i d o lugar no p r o c e s s o h i s t ó r i c o . No d i z e r de T H O M P S O N , 1 7 0 nem submissão sempre

sem senhores

encarnada

em

rurais

pessoas

e

não podemos

e camponeses, contextos

ter amor

sem

amantes,

e a relação precisa estar

sociais.

Ressalte-se

que

não

e s t a m o s q u e r e n d o dar aos i l e g í t i m o s u m a c o n o t a ç ã o de c l a s s e s o c i a l , m a s de u m a c a t e g o r i a s o c i a l e, s o b r e t u d o , de u m a c o n d i ç ã o s o c i a l . U m a condição um estado,

o de ter n a s c i d o f o r a do m a t r i m ô n i o ; e n f i m , b a s t a r d o . E s s a c o n d i ç ã o na s o c i e d a d e b r a s i l e i r a dos s é c u l o s p a s s a d o s era

ampla diferença

ou

e, principalmente

considerando

na casta,

ou seja,

Enquanto

nos

a cultura

uma condição países

da

social

Europa

colonial,

mais

denotava

definida

pela

ocidental,

a

alguma 171 mestiçagem.

existência

ilegítimos podia revelar transformações estruturais profundas, geradas

dos por

m u d a n ç a s no m o d o de p r o d u ç ã o t r a d i c i o n a l p a r a o m o d e r n o , nos c o s t u m e s ,

169

Ibid., p. 20.

no THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa: a árvore da liberdade, v. 1. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1987. p. 10. 171

NADALIN, Sérgio Odilon, op. cit., p. 23.

107

v a l o r e s e c o m p o r t a m e n t o da p o p u l a ç ã o , no B r a s i l seria r e s u l t a n t e do p r ó p r i o m o v i m e n t o de um m e i o s o c i a l em v i a s de

assentamento,

s e j a ao nível das fazer-sex72

i n s t i t u i ç õ e s , s e j a ao nível das c l a s s e s s o c i a i s , num p r o c e s s o de historicamente. As

explicações

para

o fenômeno

da

ilegitimidade

na

paróquia

S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á p o d e r ã o ser f e i t a s na m e d i d a em que as f o n t e s forem

fornecendo

apresentação

pistas

acerca

e os r e g i s t r o s

do e s t a d o

decifrados.

e conteúdo

Resta-nos

dos r e g i s t r o s

fazer

uma

de b a t i z a d o s

da

r e f e r i d a p a r ó q u i a no p e r í o d o de 1853 a 1890. P r i m e i r a m e n t e , cabe c h a m a r a a t e n ç ã o p a r a a a u s ê n c i a dos l i v r o s de batizados

da p a r ó q u i a

Lamentavelmente,

em

estudo,

referentes

n ã o há c o m o r e c u p e r a r

aos

anos de

1850

e s s e s r e g i s t r o s e dos

a

1853.

registros,

c e r t a m e n t e , a p e s q u i s a r e s s e n t i r - s e - á da f a l t a dos d a d o s . A a u s ê n c i a d e s s e s três anos, p o r é m , n ã o será tão g r a v e a p o n t o de não p e r c e b e r m o s a e v o l u ç ã o da p o p u l a ç ã o b a t i z a d a r e l a t i v a aos p a d r õ e s de f i l i a ç ã o . As e x p l i c a ç õ e s

para

a ausência

de

livros,

assim

como para

as

p o u c a s p e ç a s d o c u m e n t a i s r e f e r e n t e s ao s é c u l o X V I I I , t a n t o p a r a a p a r ó q u i a da Sé c o m o p a r a as d e m a i s p a r ó q u i a s da d i o c e s e de M a t o G r o s s o , em que p e s e às e s p e c i f i c i d a d e s l o c a i s , não d i f e r e m de e x p l i c a ç õ e s d a d a s por e s t u d i o s o s e h i s t o r i a d o r e s de o u t r a s r e g i õ e s b r a s i l e i r a s , e até m e s m o de o u t r o s p a í s e s , a e x e m p l o de P o r t u g a l , 1 7 3 para os s é c u l o s p a s s a d o s . Há um c o n s e n s o de q u e a perda

da d o c u m e n t a ç ã o

conservação

e da

eclesiástica

incúria

com

que

deve-se essa

às

condições

documentação

deficientes

foi tratada

de

pelas

autoridades laicas e eclesiásticas.

172

TO MAKE, ou o "fazer-se", é proposto por E. Thompson para ressaltar o movimento do "autofazer-se" das classes sociais ao longo da história, num processo ativo, que se deve tanto à ação humana como aos condicionantes. 173

MENDONÇA, Manuela. Inventário colectivo dos registros paroquiais. Lisboa : Secretaria de Estado e Cultura, 1993. v. 1. Texto introdutório de MENDONÇA, Manuela.

108

Ressalte-se que, em

Portugal,

o Sínodo

de

Lisboa,

considerado como o m o m e n t o da o f i c i a l i z a ç ã o dos r e g i s t r o s em

de

1536,

Livro

é

próprio

de batismo. Apenas com o C o n c i l i o de T r e n t o ( 1 5 4 5 - 1 5 6 3 ) é que se t o r n o u realidade o e s t a b e l e c i m e n t o da e x i g ê n c i a da

norma

obrigatório

de registrar

Livro

casamentos.

O e s t a b e l e c i m e n t o de igual o b r i g a t o r i e d a d e para os r e g i s t r o s de

nas

Igrejas,

em

oficial

e de

próprio,

os

cumprimento baptismos

e

óbito viria apenas em 1614, por d e t e r m i n a ç ã o do Papa P a u l o V. Para o Brasil e demais possessões p o r t u g u e s a s ,

pelo m e n o s t e o r i c a m e n t e ,

essas

normas

foram estendidas, porém f o r m a l i z a d a s a p e n a s no i n í c i o do s é c u l o XVIII com as C O N S T I T U I Ç Õ E S P r i m e i r a s do A r c e b i s p a d o da B a h i a ( 1 7 0 7 ) , em vigor até o final do século XIX. A e f e t i v a ç ã o dos a s s e n t o s de r e g i s t r o s v i t a i s p o d e r i a variar não apenas de d i o c e s e para d i o c e s e c o m o de p a r ó q u i a para p a r ó q u i a , c o n s i d e r a n d o a o r g a n i z a ç ã o da I g r e j a em â m b i t o local. C o m o o ato de b a t i z a r e de lavrar os a s s e n t o s era uma das f u n ç õ e s dos p á r o c o s , é p o s s í v e l d i z e r que a e f i c á c i a da o b r i g a t o r i e d a d e de b a t i z a r as c r i a n ç a s r e s u l t a v a m a i s do e s f o r ç o deles do que dos p r ó p r i o s pais. O padre [ n e s s e s c a s o s ] era m u i t a s v e z e s o b r i g a d o a se quilômetros

para

celebrar

batismos,

retornando,

após

certo

tempo,

t r a n s c r e v ê - l o s nos livros a p r o p r i a d o s , na sede da p a r ó q u i a , o que e v e n t u a l m e n t e levar à p e r d a de a l g u n s r e g i s t r o s ou de a l g u m a r e s u l t a n d o daí a e x i s t ê n c i a de sub-registros

ou

deslocar para

poderia

informação,

subenumeraçoes.174

Nos livros de r e g i s t r o da p a r ó q u i a em e s t u d o são e n c o n t r a d o s v á r i o s locais e cupelas onde ocorriam os batismos:

- C a p e l a do P a l á c i o E p i s c o p a l ; - I g r e j a N o s s a S e n h o r a da Boa M o r t e ; - C a p e l a de N o s s a S e n h o r a da M i s e r i c ó r d i a ; - C a p e l a do Bom D e s p a c h o ;

174

NADAL1N, Sérgio Odilon, op. cit., p. 37.

109

- C a p e l a de N o s s a S e n h o r a dos P a s s o s ; - C a p e l a São J o ã o dos L á z a r o s ; - C a p e l a do C o x i p ó do O u r o ; - O r a t ó r i o do P a l á c i o P r e s i d e n c i a l ; - No Engenho

de Itacolomi

;

- No lugar

denominado

- No lugar

denominado

- No lugar

denominado

Flexas;

- No lugar

denominado

Médico;

- No lugar

denominado

- Em desobriga

no

Bicudo; Urumbamba;

Itacolomy;

Aricá.

E m t a i s l o c a i s , e em o c a s i õ e s c o m o a da desobriga,115 párocos efetivar o sacramento

do b a t i s m o

s e n t i d o de q u e a c r i a n ç a d e v e r i a ser sua saúde

e sobrevida

à primeira

levada

e mais difícil

e lembrar à pia fase

c a b i a aos

sua i m p o r t â n c i a

batismal

para

no

assegurar

sobrevivência.176

de

N a s atas dos r e g i s t r o s a r r o l a d o s p a r a e s t a p e s q u i s a f o i

possível

o b s e r v a r f a l h a s e a u s ê n c i a de d a d o s , c o m o m o s t r a r e m o s , d a n d o a i m p r e s s ã o , m e s m o , de q u e

estávamos

lavravam

as a t a s

seguiram

um

diante

de b a t i s m o .

mesmo

padrão

de p á r o c o s o m i s s o s e c o n f u s o s q u a n d o

Omissos de

ata

ou n ã o ,

para

fundamentalmente,

registrar

os

filhos

todos

legítimos,

e x p o s t o s , l e g i t i m a d o s , n a t u r a i s e i n d í g e n a s , c o n f i r m a n d o nessa p a r ó q u i a as p r e s c r i ç õ e s das CONSTITUIÇÕES Em, praticamente,

Primeiras...

t o d o s os l i v r o s s ã o e n c o n t r a d o s , na f o l h a de

r o s t o , os t e r m o s de a b e r t u r a das a t a s , c o m i n d i c a t i v o dos n o m e s do v i g á r i o geral e do c u r a da p a r ó q u i a da Sé, r e s p o n s á v e i s p e l o l a n ç a m e n t o dos a s s e n t o s

175

Época do cumprimento dos preceitos quaresmais pelos católicos comungantes, quando, então, os párocos listavam o número de habitantes das freguesias. Essas listas eram enviadas pelos bispos à Mesa de Consciência e Ordem. (SILVA, Norberto de Souza e. op. cit., p. 1.) 176

MARCÍLIO, Maria Luiza. Caiçara: terra e população. Estudo de demografía histórica e da história social de Ubatuba. São Paulo : Paulinas, 1986, p. 202.

110

de b a t i s m o . N o s t e r m o s de a b e r t u r a , a e x e m p l o do Livro n° 4, r e f e r e n t e aos a n o s de 1853 a 1857, e s c r e v i a o p r o v i s o r v i g á r i o geral do B i s p a d o , J o a q u i m T e i x e i r a C o e l h o , que o r e f e r i d o l i v r o t i n h a c o m o f i n a l i d a d e o lançamento assentos

dos baptisamentos

das pessoas

livres

dos

da f r e g u e s i a do S e n h o r B o m

J e s u s de C u i a b á . No e n t a n t o , v e r i f i c o u - s e n ã o ter h a v i d o nas a t a s s e p a r a ç ã o da p o p u l a ç ã o livre e e s c r a v a , a s s i m c o m o da p o p u l a ç ã o i n d í g e n a . U m a ú n i c a e x c e ç ã o r e f e r e - s e ao Livro n° 12, q u e a p r e s e n t a u m a s i n g u l a r i d a d e : Há

de

servir

este livro para

na

forma

da lei de 28 de setembro

rubricado abertura Pereira

com

os assentos

a minha

de 1871

rubrica

em que eu assigno. Mendes.

de ingênuos

Provedor

que

Vigário

[vai para

diz

Cuiabá

livres

escravas

isso enumerado

e por

= Mendes

4 de dezembro Geral

de mulheres

- leva

no fim

de 1879,

do Bispado].

mim

termo

Cônego

Esse livro

de

Manoel apresenta

a p e n a s 14 f o l h a s u t i l i z a d a s , sem que f o s s e d a d o um t e r m o de e n c e r r a m e n t o . N ã o há, para t o d o s os r e g i s t r o s , u m a o r d e m c r o n o l ó g i c a . E m a l g u n s l i v r o s , e n c o n t r a m - s e a v i s o s dos p á r o c o s a r e s p e i t o d o s a s s e n t o s , c o m o :

Repetição.

E m o u t r o s , o c o r r e a l t e r a ç ã o na s e q ü ê n c i a dos a s s e n t o s , a e x e m p l o do Livro n° 15 ( 1 8 8 3 a 1890) onde o c ô n e g o , J o a q u i m de S o u s a C a l d a s , ao a s s e n t a r os b a t i z a d o s do ano de 1885, do n ú m e r o 581 v o l t o u p a r a o 521,

prosseguindo

c o m esta ú l t i m a n u m e r a ç ã o . Nos L i v r o s n° s 5, 6 e 7, r e f e r e n t e s aos a n o s de 1860, 1863 e 1866, r e s p e c t i v a m e n t e , n o t a - s e a a u s ê n c i a de i n f o r m a ç õ e s a r e s p e i t o da i d a d e e data de n a s c i m e n t o das c r i a n ç a s ( d i a , m ê s e a n o ) . R e s s a l t e - s e a c o n s t a t a ç ã o de que nos L i v r o s n ° s

4 e 5 os p á r o c o s r e g i s t r a v a m a i d a d e dos b a t i z a n d o s

sem

indicar

do

pais

não

a d a t a e x a t a do n a s c i m e n t o da c r i a n ç a e/ou que o p á r o c o

não

a data

guardavam

nascimento.

Isso

poderia

significar

que

os

c o n s i d e r a v a i m p o r t a n t e o r e g i s t r o da r e f e r i d a d a t a , a p e n a s a n o t a n d o a i d a d e . Há

livros,

ainda,

em

que

os

assentos

da

data

de

nascimento

o c o r r i a m c o m i n d i c a t i v o s e m p r e p a r a um m e s m o ano. P o r e x e m p l o , t o d a s as c r i a n ç a s n a s c i d a s e n t r e os a n o s de 1861 e 1862 f o r a m r e g i s t r a d a s s e m o dia e o m ê s de n a s c i m e n t o . Tal f a t o p o d e r i a r e v e l a r u m a a t i t u d e dos p á r o c o s em

111

nivelar

o ano de n a s c i m e n t o das c r i a n ç a s na h i p ó t e s e de os pais não s a b e r e m

com e x a t i d ã o f o r n e c e r e s s a i n f o r m a ç ã o ? Q u a n d o c o m p a r a d a s as atas dos a s s e n t o s de b a t i s m o , são v e r i f i c a d a s a l g u m a s v a r i a ç õ e s nas i n f o r m a ç õ e s . T a i s v a r i a ç õ e s , s u p o m o s , p o d e m

estar

r e l a c i o n a d a s t a n t o com as c a r a c t e r í s t i c a s d o s p a i s c o m o das p r ó p r i a s c r i a n ç a s e, até m e s m o , c o m a d i s p o s i ç ã o dos p á r o c o s e m e l e n c a r as i n f o r m a ç õ e s . O p a d r ã o e n c o n t r a d o nas atas r e f e r e n t e s a f i l h o s l e g í t i m o s a p r e s e n t a os s e g u i n t e s d a d o s b á s i c o s : d a t a e iocal do e v e n t o , sexo e n o m e , d a t a do n a s c i m e n t o ( d i a , mês e a n o ) ou i d a d e , n o m e s d o s p a i s e dos p a d r i n h o s e, e s p o r a d i c a m e n t e , os n o m e s dos avós p a t e r n o s e m a t e r n o s . A p r o f i s s ã o dos pais

e padrinhos

é apresentada,

porém

não

como

regra.

Aparecem,

por

e x e m p l o , na i n d i c a ç ã o de t í t u l o s , c a r g o s e f u n ç õ e s : se b a r ã o , se p r e s i d e n t e de p r o v í n c i a , m i l i t a r , d o u t o r ou p á r o c o s . Para

determinadas

mães

e madrinhas

dos filhos legítimos,

d i s t i n ç ã o se f a z i a : a a n t e c i p a ç ã o , ao p r e ñ ó m e da p e s s o a , do a t r i b u t o Supõe-se

que

empregada

essa

às

designação

mulheres

revelava

pertencentes

à

um

status

elite

local.

social Em

e somente outras

uma Dona. era

palavras,

m u l h e r e s que d e s c e n d i a m de f a m í l i a s c u j o s h o m e n s ( m a r i d o s ou p a i s ) h a v i a m se d e s t a c a d o na s o c i e d a d e m a t o - g r o s s e n s e e c u i a b a n a , p e l a c a r r e i r a p o l í t i c a , a d m i n i s t r a t i v a e/ou m i l i t a r . O

exemplo

que

segue

revela

a

designação

de

Dona

à

Anna

M u r t i n h o , c a s a d a com o Dr. C a r l o s J o s é de S o u s a N o b r e , f i l h a do m é d i c o e m a j o r Dr.

José

Antônio

Murtinho

e irmã

de

Joaquim

Duarte

Murtinho,

m i n i s t r o da I n d ú s t r i a , V i a ç ã o e O b r a s P ú b l i c a s , e m 1897, e da F a z e n d a , e m 1898: No dia vinte e nove de novembro de 1873, na matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá o Cura João Leocádio da Rocha, baptizou solennemente a Roza, nascida aos dezessete de agosto de 1873, filha legítima do Dr. Carlos José de Souza Nobre e de D. Anna Murtinho de Souza Nobre; foram padrinhos Nossa senhora do Carmo e o Dr. Manoel Aragão Gesteira.

1 12

O vigário Cura João Leocádio da Rocha.177 A i n d a no m e s m o livro, um o u t r o e x e m p l o de que a d e s i g n a ç ã o de Dona r e v e l a v a d i s t i n ç ã o s o c i a l na s o c i e d a d e c u i a b a n a :

No dia oito de dezembro de 1873, na Capella, com licença do Reverendo Vigário Geral, o Padre Benedicto d'Araújo Filgueira, baptizou à Alberto, nascido aos cinco de março do corrente ano; filho legítimo do Dr. Augusto Novis e D. Maria da Gloria Leite Novis; foram padrinhos: por Intercessora Nossa Senhora da Conceição e o Barão de Cotegipe, representado na pessoa de Pedro José da Costa Leite, por procuração. O Cura Coadjutor Francisco Bueno de Sampaio.178 O b s e r v a m o s que as f a m í l i a s M u r t i n h o e N o v i s c h e g a r a m a M a t o G r o s s o , p r o c e d e n t e s da p r o v í n c i a da B a h i a , no i n í c i o da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XIX, i n s t a l a n d o - s e , c o n s t i t u i n d o f a m í l i a e p r o j e t a n d o - s e a p a r t i r de e n t ã o no c e n á r i o p o l í t i c o e s o c i a l da c a p i t a l e da p r o v í n c i a . A n o t a m o s a i n d a e x e m p l o s de m u l h e r e s c a s a d a s c o m m i l i t a r e s , r a z ã o da a t r i b u i ç ã o

a elas

da

designação

de

Dona,

tal

como

D.

Antonia

M.

P o r t o c a r r e r o , e s p o s a do a l f e r e s A m é r i c o de A l b u q u e r q u e P o r t o c a r r e r o , p a i s de A l c i n a , n a s c i d a aos d e z e n o v e de m a r ç o de 1883, r e g i s t r a d a no L i v r o n° 13, e c u j o s p a d r i n h o s f o r a m o t e n e n t e A f o n s o P i n t o de O l i v e i r a e D. C o n s t a n ç a A. N o v i s . E a i n d a , D. M a r i a J a c i n t a D u a r t e S o u t o , c a s a d a com o c a p i t ã o - t e n e n t e A n t ô n i o Luís da Silva S o u t o , p a i s de A d a l g i s a , n a s c i d a aos d e z e n o v e

de

m a r ç o de 1873 e c u j o r e g i s t r o de b a t i s m o f o i a s s e n t a d o no L i v r o n° 9. Seus p a d r i n h o s , o p r o t o n o t á r i o E r n e s t o C a m i l o B a r r e t o e D. M a r i a B r a s i l i n a P i r e s Barreto. I n t e r e s s a r e s s a l t a r q u e , na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , os r e g i s t r o s de b a t i s m o s de c r i a n ç a s l e g í t i m a s n ã o se r e f e r i a m a p e n a s a f i l h o s de a u t o r i d a d e s c i v i s e m i l i t a r e s ou de d o u t o r e s , m a s t a m b é m a f i l h o s e a f i l h a d o s

177 178

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 9. 1873. Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 9.

1 13

de e s c r a v o s e de h o m e n s e m u l h e r e s l i v r e s sem d i s t i n ç ã o social. N a s atas são t a m b é m r e g i s t r a d o s como f i l h o s l e g í t i m o s a q u e l e s c o m : m ã e e s c r a v a e pai s u p o s t a m e n t e l i v r e , por não ter s i d o r e g i s t r a d a sua c o n d i ç ã o . E a i n d a : pai e s c r a v o e m ã e livre, tal c o m o n e s t e o e x e m p l o : Leopoldina, filha

legítima

Maria

da

escravo

livre;

escrava

do mesmo

assentado

no Livro

existência padrão

Venceslao,

Conceição,

Leopoldina, registro,

de

forão

de f i l h o s l e g í t i m o s

de

compadrio

posto

de Manoel padrinhos

Costa

e Arruda.

número

Francisco

escravo,

sociedade

meses,

e Arruda,

e de

Borges

Pereira

e

Ao t e m p o em que o r e f e r i d o

4, do a n o

c o m pai na

da Costa

de sete

de

1855, a p o n t a

aponta

cuíabana:

também

filhos

para

a

para

um

legítimos

de

e s c r a v o s , c o m p a d r i n h o s e m a d r i n h a s e s c r a v o s , ou a p e n a s o p a d r i n h o e s c r a v o , ou a i n d a , no c a s o e x e m p l i f i c a d o , c o m a p e n a s a m a d r i n h a e s c r a v a . Ou e n t ã o , r e g i s t r o s de f i l h o s l e g í t i m o s c o m pai e s c r a v o e m ã e sem q u a l q u e r i d e n t i f i c a ç ã o sobre sua c o n d i ç ã o : se l i v r e , f o r r a ou e s c r a v a : Aos vinte dias do mês de julho de mil oitocentos e sessenta e seis na Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, o Cura José Jacinto da Costa e Silva baptizou solennemente a João, nascido aos vinte dias de junho do anno de N. S. J. Ch. de mil oitocentos e sessenta e seis. Filho legítimo de Antonio (escravo) e Augusta Corrêa do Espírito Santo. Foram seus padrinhos o Snr. Leopoldino Gonçalves da Silva e Francisca Alves de Abreu. E para constar lavrou-se este assento, assignado de meu punho. O Vigário Cura João Leocádio da Rocha.179 E s s a s c o n s t a t a ç õ e s a p o n t a m p a r a a p o s s i b i l i d a d e da e x i s t ê n c i a de f a m í l i a s l e g a l m e n t e c o n s t i t u í d a s por h o m e n s e s c r a v o s e m u l h e r e s l i v r e s e f o r r a s , na p a r ó q u i a em e s t u d o . P e r m i t e m , t a m b é m , q u e se v i s l u m b r e a t r a v é s dos

apadrinhamentos

as

formas

de

convivência

e

de

solidariedade

d e s e n v o l v i d a s , t a n t o pelos p r o p r i e t á r i o s c o m o p e l o s e s c r a v o s e f o r r o s , no p e r í o d o em q u e a e s c r a v i d ã o p a s s a v a a ser q u e s t i o n a d a m a i s i n c i s i v a m e n t e , a nível n a c i o n a l e i n t e r n a c i o n a l .

179

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 7.

114

A t e n t a m o s a i n d a p a r a o u t r o p a d r ã o de ata, c o n t i d o nos r e g i s t r o s de batizados, referente a filhos legítimos — o dos homens e mulheres livres e pobres.

A

característica

desse

outro

padrão

reside

na

ausência

da

i d e n t i f i c a ç ã o dos pais q u a n t o a t í t u l o s , c a r g o s e f u n ç õ e s a d m i n i s t r a t i v a s ou militares, como ilustra o e x e m p l o abaixo: Aos oito dias do mez de setembro de mil oitocentos e sessenta e tres na Matriz Senhor Bom Jesus de Cuiabá, baptizou solennemente a Manoel nascido aos dias de do anno N. S. J. Ch. de mil oitocentos e sessenta e tres. Filho legítimo de Joaquim de Souza e Martha Gomes. Foram seus padrinhos o Snr. Luiz Gonzaga e Brígida (escrava). E para constar, lavrou-se este assento assignado de meu punho. 180 0 Vigário Cura João Leocádio da Rocha. P o d e m o s i n f e r i r que a a u s ê n c i a de a t r i b u i ç ã o de d i s t i n ç ã o s o c i a l aos h o m e n s pelos t í t u l o s e, às m u l h e r e s , p e l a d e s i g n a ç ã o de Dona,

por p a r t e dos

párocos, refletia a própria realidade social mato-grossense — uma sociedade e s c r a v i s t a t a n g e n c i a d a p e l o s s e n h o r e s , os homens

de bem,

que e x e r c i a m a

d o m i n a ç ã o d i r e t a sobre os e s c r a v o s e s o b r e as c a m a d a s p o p u l a r e s , e n t e n d i d a s e s t a s aqui c o m o c o m p o s t a s p e l o s h o m e n s e m u l h e r e s l i v r e s e p o b r e s , sem um n o m e de f a m í l i a c o m p r e s t í g i o s o c i a l , sem c a r g o s , s e m p o s s e s , m a s que se c a s a v a m na I g r e j a C a t ó l i c a , g e r a v a m f i l h o s l e g í t i m o s e e r a m r e g i s t r a d o s p e l o s párocos como tais, conforme o modelo referenciado acima. O padrão

das

atas

referentes

a

filhos

naturais

apresenta

uma

v a r i a ç ã o m a r c a n t e em r e l a ç ã o à dos f i l h o s l e g í t i m o s : não c o n s t a o n o m e do pai,

ficando

em

branco

informações a respeito

o

espaço

reservado

para

das m ã e s são m a i s p r o l i x a s ,

essa

informação.

As

indicando, além

dos

n o m e s , a o r i g e m e c o n d i ç ã o é t n i c a das m ã e s e, i n c l u s i v e , a c o n d i ç ã o s o c i a l das c r i a n ç a s . S o m e n t e p a r a l e m b r a r : as c r i a n ç a s são r e g i s t r a d a s c o m o natural. de

filho(a)

A r e s p e i t o dos n o m e s das m ã e s , c o n s t a t a - s e a a u s ê n c i a da d e s i g n a ç ã o

Dona:

180

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 6.

1 15

Aos três dias do mez de maio de mil oitocentos e sessenta e nove na Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, o Padre José Joaquim dos Santos Ferreira baptizou solennemente a Manoel, nascido aos de março do anno de N. S. J. Ch. de mil oitocentos e sessenta e nove. Filho natural de Romana Nery. Foram seus padrinhos o Snr. Padre José Joaquim dos Santos Ferreira e Graciana (escrava). E para constar, lavrou-se este assento, assignado de meu punho. O Vigário Cura João Leocádio da Rocha.181 C o m o q u e se c o n t r a p o n d o ao Dona, filhos

naturais

sobrenomes,

levava,

junto

a e x e m p l o de Úrsula

aos

a g r a n d e m a i o r i a das m ã e s de

respectivos

de Tal, Maria

de

prenomes,

determinados

Jesus'.

No dia dois de agosto de mil oitocentos e setenta e quatro, no Engenho das Casas do Capitão José Leite Pereira Gomes, o Reverendo Benedicto d'Araújo Filgueira em desobriga, com licença de sua Exca. R.ma, baptizei à Anna, com quatro meses de idade; filha natural de Marcelina Maria de Jesus; foram padrinhos: o Padre Benedicto d'Araújo Filgueira e Antonia Rodrigues de Arruda. E para constar faço este assento em que me assigno. O coadjutor da Sé Simão Moreira da Rocha.'82 Sobre

a

origem

das

mães,

constam

apenas,

eventualmente,

a

p a r ó q u i a e país de p r o c e d ê n c i a . Q u a n t o à c o n d i ç ã o s o c i a l , há i n f o r m a ç õ e s sobre se as m ã e s e r a m e s c r a v a s , f o r r a s e/ou l i b e r t a s . E m d i v e r s a s a t a s , as mães

escravas

eram

apresentadas

com

p r o p r i e t á r i o s . Em o u t r a s , se e r a m escravas

o

nome

de

de herança.

seus

E há a i n d a r e g i s t r o s

de m ã e s de f i l h o s n a t u r a i s c u j o s p r o p r i e t á r i o s e r a m c l é r i g o s . t a m b é m , nas a t a s , e s c r a v a s c o m f i l h o s n a t u r a i s batizados ventre

livre

181 182

nascessem.

respectivos

forros

Encontramos como

se de

IO 5

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 7. 1869. Livro de registro de batizados da paróquia Senhor bom Jesus de Cuiabá, n° 9. 1874.

183

Os proprietários das mães declaravam ter recebido determinada quantia pelo preço da liberdade da criança, ou, então, que o faziam por livre e espontânea vontade e/ou ainda pelo amor de Déos. A liberdade de determinadas crianças, registradas a partir de então como filhos(as) naturais e forras, ao longo da década de 1850, vinha coincidir com a abolição do tráfico negreiro para o Brasil e com a fase em que os preços dos escravos atingiam índices elevados no mercado nacional. Conforme os registros, as quantias pagas pela liberdade de tais crianças variavam entre cem a trezentos mil réis.

116

E m a l g u m a s r a r a s a t a s , o e s t a d o de s a ú d e era a n o t a d o com r e v e l a ç ã o da d o e n ç a — Lazarenta

do Hospital

de

Caridade.

A c r i a n ç a , a l é m de ser d e n o m i n a d a c o m o forra

quando

batizada

como

ingênuo

livre.

identificada ainda como

se

filho(a) de

natural

ventre

e identificada

livre

nascesse,

era

Q u a n t o aos p a d r i n h o s das c r i a n ç a s n a t u r a i s , há r e f e r ê n c i a s t a m b é m s o b r e a c o n d i ç ã o social — se e s c r a v o s ou se p r o p r i e t á r i o s das m ã e s , ou a i n d a se p o r t a v a m a l g u m t í t u l o ou c a r g o . Há a s s e n t o s em que os p a d r i n h o s identificados

como:

padrinho

e

madrinha

escravos;

apenas

a

são

madrinha

e s c r a v a , a c o m p a n h a d a do p a d r i n h o , p r o p r i e t á r i o da m ã e ; a p e n a s o p a d r i n h o e s c r a v o ; p a d r i n h o s c l é r i g o s ; p a d r i n h o s a u t o r i d a d e s — se civis e/ou m i l i t a r e s . A l e i t u r a das atas p e r m i t e que se l e v a n t e m , na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , três c a t e g o r i a s de filho

natural:

- o n a t u r a l e s c r a v o , f i l h o de m ã e

e s c r a v a e, c o m o

decorrência,

herdeiro dessa mesma condição social; - o n a t u r a l f o r r o , f i l h o de m ã e e s c r a v a , o qual, por o c a s i ã o b a t i s m o , g a n h a v a a l i b e r d a d e . A p e s a r do e s t a t u t o de

forro,

do

não d e i x a v a de

ser um f i l h o n a t u r a l ; - o n a t u r a l livre, f i l h o de m ã e de c o n d i ç ã o não i d e n t i f i c a d a mas q u e se s u p õ e f o s s e l i v r e , dado n ã o c o n s t a r n a s a t a s r e f e r ê n c i a a l g u m a q u e l e v e a pensar o contrário. F e i t a a a p r e s e n t a ç ã o s u m á r i a d o s p a d r õ e s dos r e g i s t r o s de b a t i s m o em q u e s t ã o , d e v e - s e e s c l a r e c e r a a p r o p r i a ç ã o q u e se f a z , n e s s a p e s q u i s a , de filho(a) natural como sendo filho(a) ilegítimo(a). Para introduzir melhor a questão

recorrer-se-á

legitimadas.

a

exemplos

de

assentos

pertinentes

à

crianças

117

Os

exemplos

que

seguem

demonstram

filhos

naturais

sendo

l e g i t i m a d o s após o c a s a m e n t o d o s p a i s na I g r e j a C a t ó l i c a , n u m a i n d i c a ç ã o de que os pais, a p ó s o n a s c i m e n t o dos d o i s f i l h o s t e r i a m r e s o l v i d o firmar

a união

em que até a q u e l e m o m e n t o h a v i a m v i v i d o . N o livro de r e g i s t r o de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , n° 5 ( 1 8 5 7 a 1861), ao l a d o dos a s s e n t o s de A n t ô n i o e de S e v e r o , a m b o s de 5 m e s e s , r e g i s t r a d o s c o m o

filhos

naturais

de Q u i n t i l i a n a P e r e i r a

dos G u i m a r ã e s , n a s d a t a s de 2 4 - 0 5 e 0 6 - 0 6 do a n o de 1858, h a v i a a n o t a ç õ e s f e i t a s p e l o C u r a J o s é J a c i n t o da C o s t a e Silva. N o a s s e n t o de A n t ô n i o , o dizer: Em virtude com Quintiliana fica

legitimado

do matrimônio Pereira

do matrimônio Pereira

foi celebrado

dos Guimarães,

o inocente

Antonio,

subseqüente

dos Guimarães

subseqüente

fica

de Manoel

em data

Corrêa

de 8 de fevereiro

de

Freitas de

e, por sua v e z , no de S e v e r o : Em

de Manoel legitimado

em data de 8 de fevereiro

Corrêa

de Freitas

o inocente

Severo,

de

1859, virtude

com

Quintiliana

e cujo

matrimônio

1859.

E s s e s e x e m p l o s d e m o n s t r a m que a c o n c e p ç ã o e o n a s c i m e n t o d e s s a s c r i a n ç a s h a v i a m o c o r r i d o a n t e s do s a c r a m e n t o do m a t r i m ô n i o dos pais. O f i l h o n a t u r a l , n e s s e c a s o , era c o n s i d e r a d o i l e g í t i m o aos o l h o s da I g r e j a , em r a z ã o da a u s ê n c i a de c a s a m e n t o dos p a i s . Os p á r o c o s p o d i a m até d e c l a r a r na ata de a s s e n t o do b a t i s m o os n o m e s dos p a i s da c r i a n ç a , p o r é m n ã o o f a z i a m , declarando

apenas

o

nome

da

mãe,

atentos

às

instruções

contidas

nas

C O N S T I T U I Ç Õ E S ... ...E quando o bautizado não por havido de legítimo matrimonio, também se declarará no mesmo assento do livro o nome de seus pays, se for cousa notoria, & sabida, & não houver escândalo; porem havendo escândalo em que se declarar o nome do pay, só se declarará o nome da mãy, se também não houver escândalo, nem perigo de o haver. E havendo algum engeytado, que se haja de bautizar, a que si não sayba pay, ou mãy, também se fará no assento a dita declaração, & do lugar, & dia, & por quem foi achado. E o parocho, ou quem tiver em seu poder o

118

dito livro, não o dará, nem tirará da Igreja, nem mostrará a pessoa alguma sem IOJ nossa licença... P e r c e b e m o s que, a p e s a r de as C O N S T I T U I Ç Õ E S não p r o i b i r e m c o m rigor a d e c l a r a ç ã o dos n o m e s dos p a i s d o s f i l h o s n ã o n a s c i d o s de matrimonio, das

legítimo

os p á r o c o s a d o t a v a m u m a p r á t i c a de a s s e n t a r a p e n a s os n o m e s

mães.

Tal

prática

visava

não

incentivar

a

união

livre

dos

casais,

c o n s i d e r a d a s p e l a I g r e j a C a t ó l i c a c o m o i l í c i t a s ou e s c a n d a l o s a s . P o r

outro

lado, o ato do p á r o c o ao r e g i s t r a r a p e n a s o n o m e da m ã e da c r i a n ç a p o d e ser um i n d i c a t i v o de q u e g r a n d e p a r c e l a da p o p u l a ç ã o f e m i n i n a n ã o e s c o n d i a o n a s c i m e n t o do f i l h o g e r a d o f o r a das n o r m a s p r e g a d a s p e l a I g r e j a C a t ó l i c a . Estamos

r e f e r i n d o - n o s aqui às m ã e s de f i l h o s n a t u r a i s , s i t u a d a s nas c a m a d a s

mais pobres. No c a s o de c r i a n ç a s e x p o s t a s , a l é m do n o m e do n a s c i t u r o e da d a t a do a s s e n t o , os d a d o s se r e s t r i n g e m e v e n t u a l m e n t e na i n d i c a ç ã o da i d a d e e o b s e r v a ç õ e s c o m o : filiação

desconhecida

ou pais

incógnitos.

A denominação

dos p a d r i n h o s a p a r e c e c o m o n o m e s de s a n t o s , p a d r e s e c a s a i s . Os l o c a i s o n d e eram

encontradas

as

crianças

são

também

esporadicamente

indicados.Os

e x p o s t o s p o d e m ser e n t e n d i d o s c o m o os f i l h o s r e j e i t a d o s e a b a n d o n a d o s p e l o s pais.

Não

cabe

Genericamente,

nesse

pode-se

momento atribuir

à

apontar razões

os

fatores

variadas:

de

abandono.

econômicas,

sociais,

m o r a i s e é t i c a s . N a s atas, em e s t u d o , não há r e f e r ê n c i a s e x p l í c i t a s s o b r e as causas

do

abandono,

mas

apenas

os

locais

onde

as

crianças

foram

encontradas: - na r e s i d ê n c i a dos f u t u r o s p a d r i n h o s ; - no p a l á c i o do Ex. R e v . S e n h o r B i s p o d i o c e s a n o ; - na c a s a de p e s s o a s que n ã o s e r i a m n e c e s s a r i a m e n t e os p a d r i n h o s ; - na c a s a de p á r o c o s .

184

CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro I, título XX, § 73, p. 33.

119

O p a d r ã o de a s s e n t o s dos f i l h o s l e g i t i m a d o s , c o m o j á d e m o n s t r a d o , apresenta

todos

os

dados

básicos

dos

registros

dos

filhos

legítimos,

d i f e r e n c i a n d o - s e por c o n s t a r nas a t a s a i d e n t i f i c a ç ã o da c r i a n ç a c o m o s e n d o filho de

legitimado

que

a

subsequente

e/ou,

criança dos pais.

ocorrer através

reconhecido.

estava

sendo

Nesses casos, o pároco fazia anotações legitimada

em

virtude

do

matrimônio

A l e g i t i m a ç ã o d o ( a ) f i l h o ( a ) , ao que c o n s t a ,

da e f e t i v a ç ã o do c a s a m e n t o

dos p a i s na I g r e j a

poderia Católica.

L e m b r a m o s q u e u m a o u t r a via s e r i a m e d i a n t e r e c o n h e c i m e n t o d o ( a ) f i l h o (a) p e l o pai, a t r a v é s de e s c r i t u r a p ú b l i c a ou p r i v a d a . 1 8 3 A l é m d e s s a s c r i a n ç a s , os r e g i s t r o s p a r o q u i a i s de b a t i s m o r e v e l a r a m a e x i s t ê n c i a de c r i a n ç a s i n d í g e n a s na p a r ó q u i a da Sé. N a i d e n t i f i c a ç ã o das c r i a n ç a s i n d í g e n a s , c o n s i d e r a r a m - s e a i n d i c a ç ã o do n o m e da m ã e e a n a ç ã o a q u e ela p e r t e n c i a . O p t o u - s e por n ã o a d o t a r p a r a e s s a s c r i a n ç a s os m e s m o s c r i t é r i o s de d e f i n i ç ã o s o c i a l a p l i c a d o s p a r a as c r i a n ç a s c o n s i d e r a d a s

como

f i l h o s ( a s ) l e g í t i m o s ( a s ) , i l e g í t i m o s ( a s ) , l e g i t i m a d o s ( a s ) e e x p o s t o s ( a s ) e, s i m , a p e n a s crianças

185

indígenas.

As escrituras são fontes igualmente importantes para mensurar o quantum de crianças legitimadas pelos pais. Para efeito desta pesquisa, porém, não foram buscadas.

II.2 O C O M P O N E N T E D E M O G R Á F I C O

Os e s t u d o s

sobre

as p o p u l a ç õ e s

do p a s s a d o ,

desenvolvidos

nas

ú l t i m a s d é c a d a s , f o r a m r e s u l t a d o , em g r a n d e p a r t e , da c o n f l u ê n c i a da h i s t o r i a c o m o u t r a s c i ê n c i a s , a s s i m c o m o da i n s e r ç ã o no m e i o a c a d ê m i c o de n o v o s o b j e t o s de e s t u d o . N a m e d i d a em que e s t e t ó p i c o de e s t u d o u t i l i z a - s e t a n t o de f o n t e s c e n s i t á r i a s q u a n t o de p r o c e d i m e n t o s

p r ó p r i o s da d e m o g r a f í a h i s t ó r i c a ,

no

t r a t a m e n t o dos d a d o s , j u s t i f i c a m - s e a l g u m a s p o n d e r a ç õ e s a c e r c a da h i s t ó r i a q u a n t i t a t i v a . A u t i l i z a ç ã o e x a u s t i v a dos m é t o d o s q u a n t i t a t i v o s fez com que g r u p o de Annales

o

se f i r m a s s e c o m o u m a e s c o l a de e x t r e m o r i g o r c i e n t í f i c o .

P r e t e n d i a uma H i s t ó r i a t o t a l , e s t r u t u r a d a em d i f e r e n t e s t e m p o s h i s t ó r i c o s , que p u d e s s e a b r a n g e r t o d o s os n í v e i s da v i d a h u m a n a — do n a s c i m e n t o à m o r t e , da vida m a t e r i a l à vida p o l í t i c a , p s i c o l ó g i c a , e n f i m , c u l t u r a l . Nesse

sentido,

a

escola

abrigava

perspectivas

novas,

p o s s i b i l i t a v a u m a n o v a p e r c e p ç ã o a c e r c a do t e m p o em H i s t ó r i a ,

pois

permitindo

q u e se p e n e t r a s s e n u m e s p a ç o até e n t ã o i n d e v a s s á v e l p a r a os h i s t o r i a d o r e s — o das m e n t a l i d a d e s ,

ou

da c o n s c i ê n c i a

do h o m e m

histórico.

Entretanto,

a l g u m a s c r í t i c a s lhe são d e v i d a s e s e u s l i m i t e s d e v e m ser p o n t u a d o s . Recentemente, História marcada

social por

posicionamentos

DE

e memória,

DECCA,

propósito

da

discussão

s a l i e n t o u a l g u m a s das c a r a c t e r í s t i c a s de

pressupostos apolíticos.

a

estatísticos, E

mais,

por

causalidades uma

Annales,

difusas

não-preocupação

m u d a n ç a , com o p r o c e s s o h i s t ó r i c o , c o m as c o n t r a d i ç õ e s

sobre

com

no i n t e r i o r

e a dos

s i s t e m a s , e p e l a m i n i m i z a ç ã o da f i g u r a do s u j e i t o h i s t ó r i c o . T r a t a - s e , a q u i , de contrapor a tendência atual

da c o n s t i t u i ç ã o das s u b j e t i v i d a d e s s o c i a i s e da

12 1

p r o d u ç ã o dos h o m e n s e m u l h e r e s c o m o s u j e i t o s h i s t ó r i c o s . 1 8 6

Aliando-se a

187

DOSSE10', Annales Ambos de

DE

DECCA

nunca

tiveram

ob s e r v a explícita

são c o n c o r d a n t e s

que

os

historiadores

ou implicitamente

ligados

um eixo

ao a f i r m a r q u e os e l e m e n t o s

à

claro.188

teórico

básicos

r e n o v a ç ã o de M A R C B L O C H e L U C I E N F E B V R E f o r a m

Revista

do

projeto

abandonadas

p e l o s a d e p t o s da N o v a H i s t ó r i a . E daí u m a s e v e r a c r í t i c a aos annalistes,

tanto

aos f u n d a d o r e s , c o m o aos h i s t o r i a d o r e s dos a n o s 80, s e j a p e l a r e c u s a

ao

p o l í t i c o na p r o d u ç ã o a c a d ê m i c a , s e j a p e l a u t i l i z a ç ã o de u m a e s t r a t é g i a de deslocamento. Na v e r d a d e ,

tanto DOSSE,

q u a n t o DE D E C C A

m e s m a d i r e ç ã o : a de que as m a i s v a r i a d a s

facetas

apontam

para

a

da N o v a H i s t ó r i a — s e j a

h i s t ó r i a das m e n t a l i d a d e s , dos s e n t i m e n t o s , da m o r t e , do m e d o , da c r i a n ç a , da família — devem

estar integradas

no e s t u d o

global

de u m a

c i v i l i z a ç ã o e não t r a n s f o r m a r - s e em o b j e t o d e s v i n c u l a d o socioeconómico.

Assim,

na

excessiva

preocupação

com

determinada

de seu o

contexto

cientificismo

p r o p i c i a d o p e l o l e v a n t a m e n t o dos d a d o s e p e l a o r g a n i z a ç ã o d e s s e s d a d o s em s é r i e s , p e r d e u - s e de vista a r e l a ç ã o do o b j e t o de e s t u d o c o m o

contexto

social. Para respeito

às

FURET,

o primeiro

f o n t e s . 1 8 9 Ou

seja,

se

problema na

da

definição

história do

quantitativa

objeto

de

estudo

diz o

h i s t o r i a d o r opta por f o n t e s q u e i m p l i q u e m a e l a b o r a ç ã o de l o n g a s s é r i e s de dados

homogêneos

e

compatíveis,

torna-se

ponto

primordial

encontrar

a r q u i v o s c l a s s i f i c a d o s que f o r n e ç a m t e s t e m u n h o s m u i t o m a i s s o b r e a d u r a ç ã o

186

DE DECCA, Edgar Salvatore. História social e memória: algumas considerações. (Versão preliminar), [S.L. : s.n.J, p. 8. 187

DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à Nova História. São Paulo. Ed. Universidade Estadual de Campinas, 1992. 188 189

Ibid., p. 10.

FURET, François. O quantitativo em história. In: LE GOFF, Jacques; Nora, Pierre. História: novos problemas. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1979. p. 49-63.

122

do q u e s o b r e o a c o n t e c i m e n t o . P o r t a n t o , o d o c u m e n t o e o d a d o d e i x a m de e x i s t i r por si p r ó p r i o s e g a n h a m s e n t i d o na r e l a ç ã o à série que os c o m p r e e n d e e os segue. Na c o n c e p ç ã o de F U R E T , a h i s t ó r i a s e r i a d a s o m e n t e p o d e o f e r e c e r p r o c e d i m e n t o s p r e c i s o s p a r a a m e n s u r a ç ã o das m u d a n ç a s na m e d i d a em q u e p o s s a d i s p o r de u n i d a d e s i d é n t i c a m e n t e c o n s t i t u í d a s e c o m p a r á v e i s e n t r e si e na m e d i d a , m e s m o , em que p o s s a r e c o n h e c e r n u m l o n g o p e r í o d o de t e m p o e p a r a c a d a u n i d a d e — t e m p o — os m e s m o s d a d o s , na m e s m a s u c e s s ã o l ó g i c a . Somente assim a história seriada

é capaz

de o f e r e c e r à H i s t ó r i a r i g o r e

eficácia. Por o u t r o periodização

podem

lado, a a u s ê n c i a mostrar

o

de d a d o s ,

lado

problemas

impotente

da

de d a t a s

história

e

seriada

de no

t r a t a m e n t o da r e a l i d a d e h i s t ó r i c a . E i s aí, p o r t a n t o , um dos l i m i t e s do m é t o d o quantitativo

ou,

no

dizer

de

BOIS,190

uma

cilada

h i s t o r i a d o r q u e p r o s s e g u e a f i r m a n d o q u e graças podem

ser beneficiados

penumbra

ou mesmo Um

procedimentos constituiu-se demógrafo

por uma violenta na escuridão

exemplo precisos na

técnica

na

de

luz, enquanto

história

mensuração

de

francês HENRY.191

das

reconstituição Tal

técnica

que

a fontes

mais total por falta

clássico

em

outros

mudanças

de

famílias permitir

o uns

permanecem

de fontes com

veio

cair

apropriadas,

seriada

de

pode

na

análogas. utilização longa

duração

proposta que

de

pelo

estudiosos,

e s s e n c i a l m e n t e d e m ó g r a f o s , d e s e n v o l v e s s e m p e s q u i s a s sobre as p o p u l a ç õ e s , p r i n c i p a l m e n t e da E u r o p a o c i d e n t a l . E s s a s p e s q u i s a s p e r m i t i r a m c h e g a r aos p a d r õ e s e s i s t e m a s d e m o g r á f i c o s e u r o p e u s c o m p r e c i s ã o e rigor c i e n t í f i c o s .

190

BOIS, Guy. Marxismo e História nova. In: LE GOFF, Jacques. História nova. São Paulo : Martins Fontes, 1990. p. 253. 191

FLEURY, M.; HENRY, L. Nouveau manuel de dépoullement et exploitation de l'état civil ancién. Paris : INED, 1979.

123

Sucintamente,

podemos

dizer

d e m o g r á f i c o s d e n o m i n a d o s Sistema

que

os

demográfico

mecanismos

europeu

e

padrões

do Antigo

Regime

f o r a m d e t e c t a d o s a t r a v é s das i n f o r m a ç õ e s c o n t i d a s nos r e g i s t r o s

paroquiais

( b a t i s m o s , c a s a m e n t o s e ó b i t o s ) s o b r e a l d e i a s , v i l a s e c i d a d e s da

Europa

o c i d e n t a l dos s é c u l o s XVI a X V I I I . Em dinâmica

que

das

Industrial,

pese

a todas

populações

pode-se

as

discussões

tradicionais

dizer

que,

no

no

e pesquisas

período

cerne

a respeito

anterior

à

da

Revolução

das q u e s t õ e s , e n c o n t r a v a m - s e

i n d a g a ç õ e s dos e s t u d i o s o s a r e s p e i t o de aspectos- ou v a r i á v e i s da p o p u l a ç ã o relativos à natalidade e mortalidade, assim como à nupcialidade. A a v a l i a ç ã o das d u a s p r i m e i r a s v a r i á v e i s , e as o b s e r v a ç õ e s s o b r e o uso do solo, t a n t o sobre o c u l t i v o subsistência, comunicação,

carestía

de

vida,

urbanização

e

como

sobre a colheita,

epidemias, formas

condições

de

governo,

condições

climáticas,

vias

de

possibilitaram

o

l e v a n t a m e n t o de c a r a c t e r í s t i c a s g e r a i s da p o p u l a ç ã o e u r o p é i a , c o m o regime

ocidental:

de

identificadas

a l t a s t a x a s de n a t a l i d a d e e de m o r t a l i d a d e ;

idade

t a r d i a ao c a s a r , com m é d i a de 25 a n o s p a r a a m u l h e r e 27 p a r a o h o m e m ; fecundidade ilegítima praticamente nula. S u p u n h a - s e que a f e c u n d i d a d e n ã o era c o n t r o l a d a n a s tradicionais, sociedades

cabendo tradicionais

à mortalidade haveria

um

um

papel

equilíbrio

determinante. natural

entre

sociedades Assim,

natalidade

nas e

m o r t a l i d a d e . A n u p c i a l i d a d e a c i m a d o s 25 a n o s l i m i t a v a a f e c u n d i d a d e e, ou, c r e s c i m e n t o da p o p u l a ç ã o c o m o um t o d o na m e d i d a em que a m u l h e r d e i x a v a de ter f i l h o s no p e r í o d o

de v i d a

mais

fértil. Igualmente,

a

mortalidade

limitava o crescimento demográfico. Q u a n t o à idade t a r d i a ao c a s a r , era c a r a c t e r í s t i c a c o m u m a t o d a s as c l a s s e s s o c i a i s , c o m e x c e ç ã o d o s h e r d e i r o s v a r õ e s , d a s f i l h a s de n o b r e s e da p e q u e n a b u r g u e s i a p r o p r i e t á r i a de t e r r a s .

Se p a r a os v a r õ e s

primogênitos

e s t a v a g a r a n t i d o o d i r e i t o à p r o p r i e d a d e , aos d e m a i s f i l h o s , n ã o . P a r a estes, o

124

casamento

tardio

era

condições

financeiras

considerado de

arcar

solução

com

as

obrigatória

até

responsabilidades

que

tivessem

exigidas

pelo

m a t r i m ô n i o . E era p r i n c i p a l m e n t e s o b r e a q u e l e s que se c a s a v a m t a r d i a m e n t e que os t e ó l o g o s e n f a t i z a v a m a n e c e s s i d a d e da a b s t i n ê n c i a e s u b l i m a ç ã o da vida s e x u a l . O s a c r a m e n t o do m a t r i m ô n i o , r e a l i z a d o s e g u n d o os m o l d e s da Igreja C a t ó l i c a , por m u i t o s s é c u l o s s i m b o l i z o u um ú n i c o

espaço

p o s s í v e l de

vida s e x u a l a t i v a de h o m e n s e m u l h e r e s em i d a d e a d u l t a , v o l t a d o i n t e i r a m e n t e para a p r o c r i a ç ã o . Daí u m a das e x p l i c a ç õ e s p a r a as b a i x a s t a x a s de f i l h o s i l e g í t i m o s e n c o n t r a d a s no O c i d e n t e e u r o p e u . R e s s a l t e - s e que, por m u i t o t e m p o , a d m i t i u - s e p e n s a r para a E u r o p a , como um t o d o , o s i s t e m a d e m o g r á f i c o a c i m a r e f e r i d o . Há que se a t e n t a r , p o r é m , p a r a e s t u d o s que l e v a n t a m a p o s s i b i l i d a d e de e x i s t ê n c i a de o u t r o s regimes

demográficos

ou,

pelo

menos,

de

variações

nos

sistemas

de

variação

demográficos. Para

ROWLAND,192

o

contraste

mais

evidente

d e m o g r á f i c a p o d e r i a ser e n c o n t r a d o e n t r e o n o r o e s t e e u r o p e u , com d e s t a q u e para a F r a n ç a , e a E u r o p a m e d i t e r r â n e a — E s p a n h a , P o r t u g a l e I t á l i a . Ao p r o p o r e s t u d o s s o b r e os s i s t e m a s d e m o g r á f i c o s da P e n í n s u l a I b é r i c a

numa

p e r s p e c t i v a r e g i o n a l , R O W L A N D p r e o c u p o u - s e c o m os r e g i m e s de c a s a m e n t o e a sua d i s t r i b u i ç ã o no e s p a ç o d u r a n t e as é p o c a s m o d e r n a e c o n t e m p o r â n e a . Segundo

e l e , no s é c u l o X V I , nas

casavam

em

idades

demasiado

localidades

precoces,

e u r o p e u s i d e n t i f i c a d o s com o regime

estudadas,

se c o m p a r a d a s

ocidental.

as m u l h e r e s com os

se

Estados

E p r o s s e g u e a f i r m a n d o que a

e l e v a ç ã o na i d a d e para o c a s a m e n t o das m u l h e r e s , d u r a n t e o s é c u l o X V I I I , antes de ser v i s t a c o m o i n d í c i o da d i f u s ã o do m o d e l o o c i d e n t a l , d e v e ser e n t e n d i d a c o n s i d e r a n d o - s e a d i s t r i b u i ç ã o r e g i o n a l das l o c a l i d a d e s e s t u d a d a s . Por e x e m p l o , nos s é c u l o s X V I e X V I I , n a s r e g i õ e s do c e n t r o , sul e leste

192

ROWLAND, Robert. Sistema de casamento na Península Ibérica: uma perspectiva regional. In: ENCONTRO HISPANO - PORTUGUÊS DE HISTÓRIA. (1983: Oeiras).

125

p o r t u g u ê s , a i d a d e para o c a s a m e n t o das m u l h e r e s s i t u a v a - s e por v o l t a de 2022 anos, e n q u a n t o

que na s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XVIII, nas

mesmas

r e g i õ e s , girava e n t r e 22 e 24 anos. O s i s t e m a d e m o g r á f i c o p o r t u g u ê s

dos

s é c u l o s XVIII e X I X s e r i a c a r a c t e r i z a d o por idade t a r d i a das m u l h e r e s p a r a o casamento

e t a x a s de c r i a n ç a s

ilegítimas

mais elevadas

que no

ocidente

e u r o p e u , s i t u a d a s e n t r e 6 e 12%. 1 9 3 Estudos

apontam 1 9 1 4

para

a

relação

existente

entre

emigração

m a s c u l i n a e c a s a m e n t o t a r d i o p a r a as m u l h e r e s , n u m a d e m o n s t r a ç ã o de que f e n ô m e n o s d e m o g r á f i c o s a t u a r i a m s o b r e a f o r m a ç ã o e e s t r u t u r a das f a m í l i a s localizadas

nas r e g i õ e s

ao n o r t e

de P o r t u g a l .

Trata-se

de uma

migração

e s p e c í f i c a — a m a s c u l i n a — e, em d i r e ç ã o ao B r a s i l , d e s d e o final do s é c u l o XVIII. BRETTELL

afirma

que

as

populações

rurais

do

noroeste

de

P o r t u g a l * t i n h a m j á c o m e ç a d o a m i g r a r p a r a o B r a s i l d u r a n t e o século XVIII e c o n t i n u a r a m a f a z ê - l o na s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X I X . T r a t a - s e de u m a r e g i ã o p o r t u g u e s a de m i n i f ú n d i o s , de e x p l o r a ç ã o a g r í c o l a f a m i l i a r de p e q u e n a e s c a l a , v o l t a d a p a r a a a u t o - s u b s i s t ê n c i a , c o m u m a p o p u l a ç ã o s u b d i v i d i d a em pequenos

e

médios

proprietários,

lavradores,

rendeiros,

caseiros

e

trabalhadores agrícolas. P a r a B R E T T E L L , as c a r a c t e r í s t i c a s d e m o g r á f i c a s citadas d e v e m ser entendidas considerando-se, i n i b i a as p e r s p e c t i v a s

a l é m do m o d e l o de e m i g r a ç ã o m a s c u l i n a

de c a s a m e n t o

das m o ç a s ,

a elevada proporção,

que na

p o p u l a ç ã o , de j o r n a l e i r o s sem t e r r a e l a v r a d o r e s — r e n d e i r o s —, c u j a vida sexual

não era

regulada

de

forma

severa

p e l o s pais. Ainda

segundo

i 93

BRETTELL, Caroline B. Homens que partem, mulheres que esperam: conseqüência da emigração numa freguesia minhota. Lisboa: D. Quixote, 1991, p. 199-214; RAMOS, Donald. From Minho to Minas: The Portuguese roots of the mineiro family. In: HAHR 73:4 nov. 1993, p. 645-62. 194 Ibid. * Província do Minho.

126

B R E T T E L L , o c o n t r o l e da n a t a l i d a d e n ã o p a r e c i a f a z e r p a r t e de um plano ação demográfico

de

do n o r o e s t e de P o r t u g a l .

R A M O S , 1 9 5 ao d e f e n d e r a h i p ó t e s e de q u e a n a t u r e z a e a e s t r u t u r a da f a m í l i a p o r t u g u e s a do norte e r a m Minas

Gerais

muito semelhantes

àquela

encontrada

em

d u r a n t e o s é c u l o X V I I I e i n í c i o do X I X , traça os e l e m e n t o s

d e m o g r á f i c o s d e f i n i d o r e s da c o n f i g u r a ç ã o s o c i a l do norte p o r t u g u ê s

como

m o d e l a d o s p e l a a u s ê n c i a de h o m e n s , p e l a i d a d e t a r d i a de c a s a m e n t o

para

m u l h e r e s , b a i x a s t a x a s de c a s a m e n t o na p o p u l a ç ã o em geral, e altas t a x a s de crianças ilegítimas e abandonadas. R A M O S percebe tais características como r e s u l t a d o do i m p a c t o d e m o g r á f i c o no p a í s c o m o um t o d o , e e s p e c i f i c a m e n t e no norte, c o m o d e c o r r ê n c i a das a l t a s t a x a s de h o m e n s que m i g r a v a m p a r a o B r a s i l . U m p o n t o em c o m u m

e n t r e o n o r t e de P o r t u g a l

e Minas

Gerais,

s e g u n d o R A M O S , r e s i d i r i a na p r o p o r ç ã o de f a m í l i a s n u c l e a r e s l i d e r a d a s por a d u l t o s c e l i b a t á r i o s , ou s e j a , por m u l h e r e s s o l t e i r a s . T a i s m u l h e r e s f o r m a v a m a b a s e f u n c i o n a l das r e s p e c t i v a s s o c i e d a d e s . Há que se p o n d e r a r

sobre

a existência

de p o s s í v e i s

e

variados

s i s t e m a s d e m o g r á f i c o s na E u r o p a e no B r a s i l , d a d a s as m u t i f a c e t a d a s f o r m a s de o r g a n i z a ç ã o e c o n ô m i c a suscitada

e c u l t u r a l . E s s a p o n d e r a ç ã o foi p r i m e i r a m e n t e

no B r a s i l por M A R C Í L I O , q u a n d o e l a b o r o u p r o p o s t a s de e s t u d o

para as p o p u l a ç õ e s do p a s s a d o b r a s i l e i r o . A t i p o l o g i a p r o p o s t a por M A R C I L I O 1 9 6 e por o u t r o s e s t u d i o s o s p a r a as

populações

economias

do

século

de s u b s i s t ê n c i a ,

XIX

refere-se

das e c o n o m i a s

a

sistemas

de plantation,

demográficos das

das

populações

e s c r a v a s e das á r e a s u r b a n a s .

195 196

RAMOS, Donald, op. cit., p. 645-62.

MARCÍLIO, Maria Luiza (org). População e sociedade: evolução das sociedades préindustriais. Petrópolis : Vozes, 1984; NADALIN, Sérgio Odilon. A demografía numa perspectiva histórica. São Paulo : ABEP, 1994.

127

Ao que c o n s t a , as a l t a s t a x a s de n a t a l i d a d e e r a m c o m u n s em t o d o s os s i s t e m a s , s e n d o n o t a d a m e n t e s u p e r a d a s pela m o r t a l i d a d e nos s i s t e m a s em que a p r e s e n ç a das p o p u l a ç õ e s e s c r a v a s era m a r c a n t e , a s s i m como nas á r e a s u r b a n a s . A i n c i d ê n c i a de s u r t o s e p i d ê m i c o s c o m o a v a r í o l a , f e b r e a m a r e l a ou c ó l e r a , era f r e q ü e n t e . De um l a d o , p e l a s p r ó p r i a s c o n d i ç õ e s de vida a que e s t a v a m s u j e i t o s os e s c r a v o s e, de o u t r o , p e l a f a c i l i d a d e com que as d o e n ç a s p e n e t r a v a m e se e s p a l h a v a m , p r i n c i p a l m e n t e nas c i d a d e s l i t o r â n e a s , d e v i d o à constante

mobilidade

da

população

brasileira.

Ressalte-se

que,

além

da

m o r t a l i d a d e e da f e c u n d i d a d e a l t a s , o u t r a s c a r a c t e r í s t i c a s d e m o g r á f i c a s f o r a m i d e n t i f i c a d a s p e l o s a u t o r e s , c o m e s p e c i f i c i d a d e s p r ó p r i a s p a r a cada s i s t e m a . Em p r i m e i r o l u g a r , as u n i õ e s c o n s e n s u a i s

livres estáveis

seriam

p r ó p r i a s das p o p u l a ç õ e s u r b a n a s , d e c o r r e n d o daí e l e v a d o s í n d i c e s de f i l h o s i l e g í t i m o s . T a m b é m nas c i d a d e s a m e s t i ç a g e m t e r i a sido m a i o r que nas á r e a s r u r a i s devido à f o r t e c o n c e n t r a ç ã o de e s c r a v o s . A i l e g i t i m i d a d e alta, e n t ã o , s e r i a uma d e c o r r ê n c i a da m e s t i ç a g e m e do r e g i m e e s c r a v i s t a . Por sua vez, n a s z o n a s r u r a i s , p a r a l e l a m e n t e

à família

coexistiam uniões consensuais transitórias, gerando significativa de n a t a l i d a d e

ilegítima.

Considera NADALIN

legítima proporção

que a a l t a n a t a l i d a d e

seria

c o n s e q ü ê n c i a de u m a f e c u n d i d a d e p r é - m a l t h u s i a n a e q u e , a p e s a r dos í n d i c e s de m o r t a l i d a d e ,

a população

apresentava

um c o n t í n u o

saldo n a t u r a l . 1 9 7 A

n a t a l i d a d e p o d e r i a e s t a r a r t i c u l a d a a u m a f o r m a de p o s s e da t e r r a , f a c i l i t a d o r a de u n i õ e s c o n j u g á i s e s t á v e i s ou e v e n t u a i s , daí a n a t a l i d a d e i l e g í t i m a . Os identidade

sistemas

demográficos

referidos

seriam

portadores

de

uma

p r ó p r i a , ou, a i n d a , s i s t e m a s t ã o e s p e c í f i c o s de e s p a ç o g e o g r á f i c o s

e s o c i a i s tão d i v e r s o s a p o n t o de s e r e m c o n s i d e r a d o s d i s t i n t o s entre si, a s s i m c o m o d i s t i n t o s dos p a d r õ e s e u r o p e u s .

197

NADALIN, Sérgio O. op. cit., p. 85-91.

128

No c a s o e s p e c í f i c o d e s t e e s t u d o , p r o c u r a r - s e - á uma dos p a d r õ e s d e m o g r á f i c o s da p a r ó q u i a da Sé por o u t r a s

aproximação

vias que não a de

r e c o n s t i t u i ç ã o de f a m í l i a s . P r o p o m o - n o s m a p e a r a p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a S e n h o r Bom J e s u s de C u i a b á a p a r t i r dos c e n s o s de 1872 e de 1890, b u s c a n d o nos d a d o s raça,

sexo,

estado

civil,

filiação,

nacionalidade

e

atividades

sobre

produtivas

s u b s í d i o s para p e r c e b e r suas c a r a c t e r í s t i c a s d e m o g r á f i c a s . Neste características

capítulo,

procuraremos,

demográficas existentes

portanto,

e relativas

identificar

a aspectos

as

de vida

p o p u l a ç ã o em e s t u d o no t o c a n t e ao s e x o , à r a ç a , e s t a d o civil,

da

atividades

p r o d u t i v a s , t a n t o dos h o m e n s livres c o m o dos e s c r a v o s . F a r e m o s e s f o r ç o p a r a entender

quais

comportamentos

demográficos

estavam

embutidos

na

c o n f i g u r a ç ã o s o c i a l d a q u e l a p o p u l a ç ã o . E s s a t r a j e t ó r i a p e r m i t i r á , a n o s s o ver, trazer

elementos

paróquia,

para

questões

que

possamos

pertinentes

aprofundar,

no

âmbito

à família e à ilegitimidade.

da

referida

Procuraremos

a t e n t a r para os m a t i z e s dos s i s t e m a s d e m o g r á f i c o s a n í v e l de E u r o p a e de B r a s i l p r e s e n t e s ou não na r e f e r i d a p o p u l a ç ã o . A u t i l i z a ç ã o dos r e c e n s e a m e n t o s g e r a i s do B r a s i l , do f i n a l do s é c u l o X I X , r e l a t i v o s à p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , a p e s a r das c r í t i c a s , j u s t i f i c a - s e p e l a p o s s i b i l i d a d e de c o n t r i b u i ç ã o p a r a o e s t u d o das p o p u l a ç õ e s pretéritas.

Ressalvas

foram

feitas

por

vários

estudiosos

a

respeito

da

c o n f i a b i l i d a d e dos n ú m e r o s a p r e s e n t a d o s p e l o s r e c e n s e a m e n t o s de 1872 e de 1890. M O R T A R A , 1 9 8 m e s m o c o n s t a t a n d o d e f i c i ê n c i a no censo de considerou

que,

dentro

dos

limites

dos

erros

normais

nesse

1872,

tipo

de

i n v e s t i g a ç ã o , e s s e c e n s o p o d e ser c o n s i d e r a d o c o n f i á v e l , r e s s a l t a n d o , p o r é m ,

198

Ano VII. p. 632.

MORTARA, Giorgio. Revista Brasileira de Geografia. IBGE. Rio de Janeiro, out.-dez. 1945.

129

que s o m e n t e com o de 1940 p ô s - s e f i m a u m l o n g o p e r í o d o de

dolorosa

i g n o r â n c i a do e s t a d o da p o p u l a ç ã o do B r a s i l . MATTOSO,199

por sua vez, c o n s i d e r a q u e o c e n s o de 1872 traz

m u i t o s r e s u l t a d o s p a r c i a i s que não c o n c o r d a m c o m os t o t a i s , somas

erradas.

consideramos 1872,

Observa,

porém,

merecedor

de crédito

e n q u a n t o que com o de

resultados

são quase

que

apesar

de

todas

e relativamente

1890

passa-se

unanimemente

essas

rigoroso

o contrário:

contestados.

evidenciando restrições o Censo

seus

de

métodos

e

T a m b é m a D i r e t o r i a Geral

de E s t a t í s t i c a (IBGE) 2 0 0 , em t r a b a l h o r e a l i z a d o na d é c a d a de 1950, a f i r m a v a que

o

censo

autoridades serviu

de

1872,

conquanto

que se têm ocupado

de base aos cálculos A nosso

problemas;

porém,

seja

das condições

ulteriores

ver,

ambos

na

medida

considerado

censos

em

que

pelas

de Mato

Grosso,

geográficas

à demografía

os

incompleto

da mesma

aparentemente se

torna

Província. não

necessário

apresentam efetuar

o

c r u z a m e n t o dos q u e s i t o s e n t r e a m b o s , as d i f e r e n ç a s são d e t e c t a d a s . E m sua e s s ê n c i a , os dois c e n s o s t r a z e m i n f o r m a ç õ e s s o b r e a p o p u l a ç ã o

recenseada,

r e f e r e n t e s a M a t o G r o s s o e p a r ó q u i a s , q u a n t o ao s e x o , f a i x a e t á r i a , e s t a d o civil, r a ç a , n a c i o n a l i d a d e , r e l i g i ã o e e s c o l a r i d a d e . O c e n s o de 1872 r e v e l a m a i o r d i v e r s i d a d e de d a d o s . P o d e - s e d i z e r , a p r e s e n t a - s e m a i s c o m p l e t o que o de 1890 por t r a z e r um v o l u m e m a i o r e m a i s d e t a l h a d o de i n f o r m a ç õ e s t a i s c o m o : - p o p u l a ç ã o r e c e n s e a d a ( p r e s e n t e ) c o n s i d e r a d a em r e l a ç ã o à i d a d e , sexo e r a ç a ; - população

em

relação

às

profissões

segundo

sexo,

e s t a d o c i v i l , n a t u r a l i d a d e , r e l i g i ã o . P o r sua v e z , o i t e m população

199 200

condição, divorciada

MATTOSO, Kátia M. de Queirós, op. cit., p. 87-88.

IBGE. Conselho Nacional de Estatística. Investigações sobre os recenseamentos da população geral do império. Documentos Censitários. Série B. N° 1, Rio de Janeiro : 1951. p. 216.

130

é i n c l u í d o a p e n a s no c e n s o de 1890, a s s i m c o m o filiação.

E s s e c e n s o , por sua

vez, não a p r e s e n t a i n f o r m a ç õ e s s o b r e p o p u l a ç ã o d i s t r i b u í d a por

atividades

p r o d u t i v a s , assim c o m o não a p r e s e n t a o q u e s i t o s o b r e a o r i g e m da p o p u l a ç ã o estrangeira. O c e n s o de 1872 t r a z a p o p u l a ç ã o d i s t r i b u í d a e n t r e b r a n c o s , p r e t o s (livres e escravos), enunciada

em

pardos

branca,

e caboclos.

negra,

mestiça

Já no de e

r e f e r e n t e s à p o p u l a ç ã o i n d í g e n a , s e j a em perceber

mais

uma limitação

respeito à população

dessas

cabocla

cabocla.

Sobre

recenseadores

essa

se consideravam

fontes. A única

designar

caboclo,

de

dados

1890, l e v a - n o s a

pista fornecida

diz

201

argüiu

a

MATTOSO

dessa forma

que o índio só existia

O termo

ausência

vem

q u e , a l i á s , não se t r a d u z em e q u i v a l ê n c i a à

questão

pretenderam

A

1872, s e j a em



indígena.

1890 a p o p u l a ç ã o

, não

o índio puro

em 1872 sob forma

nosso

ver,

sabemos

seria

de

mais

se

ou mestiço

os ou

caboclo.

do

que

a

antiga

pelos

dois

202

denominação

dada

recenseamentos, domesticação

ao

traz dos

indígena.

embutido

povos

todo

indígenas

Esse

termo,

um

processo

realizado

utilizado

ao

de

civilização

longo

dos

e

de

séculos,

c u l m i n a n d o no f i n a l do s é c u l o X I X c o m a sua s u b j u g a ç ã o p e l o h o m e m b r a n c o . O c a b o c l o seria n ã o s o m e n t e o assimilado,

mestiço

de branco

com índio,

mas t a m b é m o

f i l h o de pais i n d í g e n a s t r a z i d o s e / o u , a t r a í d o s de f o r m a p a c í f i c a ,

ou não, à c i v i l i z a ç ã o do h o m e m b r a n c o . U t i l i z a r e m o s n e s t e t r a b a l h o a p e n a s os t e r m o s e n ã o pardo. o processo

201 202

p. 302.

Isso p o r q u e mestiço permanente

de

mestiço

e/ou

mulato

se a p r o x i m a e, ao m e s m o t e m p o , r e p r e s e n t a

interação

do b r a n c o

com

o negro

e de

cuja

MATTOSO, Kátia M. de Queirós, op. cit., p. 97 Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 2. ed., Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1986.

13 1

confluência

física

e

cultural,

somada

à

presença

do

índio,

adveio

o

brasileiro. Um r á p i d o o l h a r s o b r e os c e n s o s de 1872 e de 1890 desde



a

identificação

de

algumas

características

permite-nos

demográficas

da

p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á : - p r e d o m i n â n c i a da p o p u l a ç ã o m e s t i ç a e n e g r a sobre a p o p u l a ç ã o cabocla e branca; - p r e s e n ç a m í n i m a de e s t r a n g e i r o s ; - p r e d o m i n â n c i a da p o p u l a ç ã o de s o l t e i r o s s o b r e a de c a s a d o s ; - e q u i l í b r i o e n t r e a p o p u l a ç ã o m a s c u l i n a e a f e m i n i n a no c e n s o de 1872, e n q u a n t o

q u e no de

1890 a p o p u l a ç ã o

feminina mostrava-se

mais

numerosa; - p r e s e n ç a ( e x p r e s s i v a ) de f i l h o s i l e g í t i m o s ; T e m o s a c o n s i d e r a r p r i m e i r a m e n t e q u e se t r a t a de u m a p o p u l a ç ã o m a r c a d a m e n t e h e t e r o g ê n e a , c o m p o s t a de h o m e n s e m u l h e r e s b r a n c o s , n e g r o s , indígenas e mestiços. No e s t u d o d e s s e s h o m e n s e m u l h e r e s , p r e d o m i n a n t e m e n t e de cor, devemos

levar

em

conta

as

especificidades

socioculturais

das

áreas

m i n e r a d o r a s , a s s i m c o m o os e l e m e n t o s que h i s t o r i c a m e n t e e n g e n d r a r a m

o

d e s e n v o l v i m e n t o das p o p u l a ç õ e s nas á r e a s a u r í f e r a s , c o m o o t r á f i c o n e g r e i r o , o fisco, o comércio espoliador, o contrabando

e a c o n d i ç ã o de f r o n t e i r a da

região. Contribuição significativa

para compreender

p o p u l a ç ã o de M a t o G r o s s o , d u r a n t e o s é c u l o X V I I I ,

a p e r f o r m a n c e da

r e s i d e no t r a b a l h o de

SILVA. S e g u n d o e l e , a p e s a r de a m ã o - d e - o b r a e s c r a v a ter sido f u n d a m e n t a l p a r a m o v i m e n t a r os n e g ó c i o s das l a v r a s , o n ú m e r o de e s c r a v o s da c a p i t a n i a

132

não foi m u i t o g r a n d e , t r a d u z i n d o - s e na falta para

as atividades

das minas

de escravos

negros

africanos

Cuiabá.203

de

A l t o s c u s t o s , f u g a s , e p i d e m i a s , m o r t e s p o r i n s a l u b r i d a d e , s e r i a m os f a t o r e s que l i m i t a v a m a p r e s e n ç a de e s c r a v o s a f r i c a n o s na c a p i t a n i a de M a t o Grosso.

Essa

constatação

S e g u n d o o a u t o r , em áreas ou com menor encontrar pardos

acesso

razões

vai

de

menos fortemente

ao tráfico

de masculinidade

e mais mulheres

e

encontro

ao

ligadas

atlântico

que

afirma

SCHWARTZ.

à economia

exportadora,

de escravos

menores,

menos

poderíamos

africanos,

esperar

mais crioulos

e

crianças.204

M a t o G r o s s o i n s e r e - s e na v e r t e n t e a p r e s e n t a d a por S C H W A R T Z , na m e d i d a em que é p o s s í v e l p e r c e b e r t a n t o p a r a o s é c u l o XVIII, q u a n t o p a r a XIX, p r e s e n ç a s i g n i f i c a t i v a de m e s t i ç o s ( p a r d o s , caboclos)

em r e l a ç ã o aos

negros africanos e brancos. A i n d a p a r a SILVA, a q u e s t ã o da m e s t i ç a g e m população

mato-grossense

desencadeada

pelo

esteve

gabinete

sempre

pombalino

ligada e

à

na c o m p o s i ç ã o

política

operacionalizada

da

populacional através

das

I n s t r u ç õ e s R é g i a s . Ou s e j a , a necessidade de braços escravos africanos nessas áreas acabou por determinar a uma parcela significativa da população a identificação de "africanos", para justificar a própria situação sócio-jurídica diante da lei de proteção aos nativos e de muitos daqueles que por essa lei fossem amparados, ou seja, pela cor de sua pele e não por sua nacionalidade203 D e s s a f o r m a , os f i l h o s dos a f r i c a n o s c o m n a t i v o s , os

caborés,

p r e e n c h i a m os v a z i o s de m ã o - d e - o b r a e s c r a v a , p r i n c i p a l m e n t e na p r o s p e c ç ã o

203

SILVA, Jovan Vilela da. op. cit., p. 237.

204

SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo : Companhia de Letras, 1988. p. 290. 205

SILVA, Jovan Vilela da. op. cit., p. 249.

133

das lavras.

P a r a VILELA,

os c a b o r é s

seriam

os m a i s

bem

preparados

e

a c l i m a t a d o s para d e s e n v o l v e r t o d o s os t i p o s de a t i v i d a d e s . As c a r a c t e r í s t i c a s d e m o g r á f i c a s da p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a

Senhor

B o m J e s u s de C u i a b á , e do m u n i c í p i o de C u i a b á c o m o u m t o d o , p r e s e n t e s nos c e n s o s de 1872 e de 1890, c o m o d e m o s t r a r e m o s a s e g u i r , s e r i a m r e f l e x o s , um lado, do p r ó p r i o p r o c e s s o de o c u p a ç ã o e e x p l o r a ç ã o

da r e g i ã o

de

mato-

g r o s s e n s e e, de o u t r o , da Lei de 1850, p r o i b i t i v a do t r á f i c o n e g r e i r o . P o d e - s e d i z e r t a m b é m que r e f l e t i a m a i n e f i c á c i a da p o l í t i c a e n s e j a d a p e l a e l i t e local para a t r a i r i m i g r a n t e s e u r o p e u s em d i r e ç ã o à p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o . C o m o p o n t o de r e f e r ê n c i a , l e m b r a m o s q u e em 1872 a p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a em e s t u d o p e r f a z i a um t o t a l de 1 1.053 p e s s o a s , s e n d o 1.139 e s c r a v o s e 9 . 6 5 9 livres. Dos livres, a p e n a s 3 . 8 6 3 e r a m b r a n c o s . M e s t i ç o s e n e g r o s somavam

a

maior

parte

do

contingente

da

população,

ou

seja,

6.979,

c o n f o r m e e v i d e n c i a d o no q u a d r o 5.

Q U A D R O N° 5 P O P U L A Ç Ã O DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á , S E G U N D O A R A Ç A - 1872 Condição Livres

Sexo

Brancos

Mestiços

Pretos

Caboclos

Total

Masc.

2.174

2.171

918

162

5.425

Fem.

1.689

1.920

576

49

4.234

3.863

4.091

1.494

211

9.659

Subtotal Escravos

Subtotal TOTAL

Masc.

- -

303

442

- -

745

Fem.

- -

223

426



649

- -

526

868

- -

1.139

4.617

2.362

3.863

211

11.053

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do Brasil de 1872. Mato Grosso.

Ao a n a l i s a r m o s os d a d o s r e f e r e n t e s à p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , p e r c e b e m o s que a p o p u l a ç ã o m e s t i ç a e r a n u m e r i c a m e n t e

superior.

134

N u m a p o p u l a ç ã o de 1 1.053 h a b i t a n t e s , d e n t r e l i v r e s e e s c r a v o s , os m e s t i ç o s o c u p a v a m um p e r c e n t u a l de 4 1 , 7 7 e os b r a n c o s v i n h a m e m s e g u n d o lugar com 34,95. Se s o m a d o s os s u b t o t a i s de m e s t i ç o s e n e g r o s l i v r e s e e s c r a v o , s do sexo f e m i n i n o e do m a s c u l i n o c o m o s u b t o t a l d o s c a b o c l o s v e r i f i c a m o s a predominância pessoas

das

pessoas

de

cor.

Teremos

assim,

um

total

de

7.190

de cor p a r a 3 . 8 6 3 b r a n c o s l i v r e s . E s s a e v i d ê n c i a p o d e r i a ser a m e s m a p a r a o m u n i c í p i o de C u i a b á

c o m o um t o d o ? É p o s s í v e l a f i r m a r q u e s i m , p o i s em

outra paróquia vizinha, a

de São G o n ç a l o de P e d r o II, a p r o p o r ç ã o de b r a n c o s e r a m e n o r a i n d a . S e n ã o v e j a m o s : 1.176 m e s t i ç o s ( l i v r e s e e s c r a v o s ) , 1.664 n e g r o s ( l i v r e s e e s c r a v o s ) , 1.444 c a b o c l o s e a p e n a s 875 b r a n c o s , c o n f o r m e r e v e l a o q u a d r o a s e g u i r .

Q U A D R O N° 6 P O P U L A Ç Ã O DA P A R Ó Q U I A DE SÃO G O N Ç A L O D E P E D R O II, S E G U N D O A R A Ç A - 1872 Condição

Sexo

Brancos

Mestiços

Pretos

Caboclos

Total

Livres

Masc.

506

503

895

671

2.275

Fem.

369

579

573

773

2.294

875

1.082

1.468

1.444

4.869

Subtotal Escravos

Masc.



44

93

- -

137

Fem.

- -

50

103

- -

153



94

196

1.444

290

1.176

1.664

1.444

5.159

Subtotal TOTAL

875

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do Brasil de 1872. Mato Grosso.

Percebe-se, pois, que também nessa paróquia a população branca era

significativamente

inferior

à

de

cor.

Ou

seja,

num

total

de

5.159

habitantes, apenas 16,96% eram brancos e 83,04% eram negros, caboclos e mestiços.

Se

vislumbramos

somados com

os

maior

totais nitidez

das uma

pessoas das

de

ambas

as

paróquias,

características

da

população

135

c u i a b a n a — a p r e d o m i n â n c i a de p e s s o a s de cor.

E s s a c o n s t a t a ç ã o r e v e l a que

a grande m a i o r i a da p o p u l a ç ã o m o r a d o r a nas d u a s p a r ó q u i a s c i t a d a s , q u a n d o não o r i g i n á r i a da Á f r i c a , era d e s c e n d e n t e de a f r i c a n o s e/ou, de í n d i o s e f r u t o da m i s c i g e n a ç ã o o c o r r i d a e n t r e os g r u p o s é t n i c o s . Assim,

constatamos

1 1.474

dentre

negros

e

mestiços

e

4.738

b r a n c o s m o r a d o r e s nas d u a s p a r ó q u i a s em a p r e ç o , t o t a l i z a n d o 16.212 p e s s o a s , sendo que os n e g r o s e m e s t i ç o s r e p r e s e n t a v a m 7 0 , 7 7 % , d e s s a p o p u l a ç ã o . No c e n s o de 1890, p e r c e b e m o s a m a n u t e n ç ã o do m e s m o perfil, seja, a p r e d o m i n â n c i a

da p o p u l a ç ã o

negra e mestiça

sobre a

b r a n c a na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . E n q u a n t o

ou

população

essa

5.483, a p o p u l a ç ã o n e g r a , m e s t i ç a e c a b o c l a p e r f a z i a 9 . 0 2 4 . D e n t r e

somava 14.507

p e s s o a s , a p o p u l a ç ã o n e g r a e m e s t i ç a d e t i n h a 6 2 . 2 % , d a d o s e s s e s r e f l e t i d o s no quadro seguinte.

Q U A D R O N° 7 P O P U L A Ç Ã O DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á , S E G U N D O O S E X O E R A Ç A - 1890 Paróquia Sexo Paróquia Fem. Senhor Bom Masc. Jesus de Cuiabá Total

Brancos 2.599 2.884

Pretos 1.183 1.343

Mestiços 2.785 3.058

Caboclos 296 359

Total 6.863 7.644

5.483

2.526

5.843

655

14.507

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o Geral do Brasil de 1890. Mato G r o s s o

A p e s a r da c o n s t a t a ç ã o da q u e d a r e l a t i v a nos p e r c e n t u a i s pela

população

mestiça

e

negra

em

relação

ao

total

da

ocupados

população

no

t r a n s c o r r e r de u m para o u t r o c e n s o , isso n ã o s i g n i f i c a a l t e r a ç ã o s e n s í v e l no p e r f i l da p o p u l a ç ã o c o m o um t o d o em r e l a ç ã o à cor. D e n o t a - s e q u e , t a m b é m em 1890, a p o p u l a ç ã o de cor era m a j o r i t á r i a .

136

Ao dar a t e n ç ã o

à queda

dos percentuais

da p o p u l a ç ã o

negra

e

m e s t i ç a em r e l a ç ã o à b r a n c a no t r a n s c o r r e r de a p r o x i m a d a m e n t e v i n t e a n o s , p o d e m o s a f i r m a r q u e , t a n t o d u r a n t e , q u a n t o no p e r í o d o p o s t e r i o r à G u e r r a do P a r a g u a i , levas de c o r r e n t e s m i g r a t ó r i a s

em d i r e ç ã o à p r o v í n c i a de

Mato

G r o s s o , e à c a p i t a l em p a r t i c u l a r , t e r i a m c o n t r i b u í d o p a r a dar i n í c i o a um longo e g r a d a t i v o p r o c e s s o de branqueamento

da p o p u l a ç ã o .

S o b r e e s s a q u e s t ã o , M A T T O S O nos c h a m a a a t e n ç ã o em

estudo

s o b r e a B a h i a no s é c u l o X I X , q u a n d o a f i r m a que em t o d a s as c a m a d a s s o c i a i s de S a l v a d o r e n c o n t r a v a m - s e e v i d e n t e s t r a ç o s de m i s c i g e n a ç ã o 2 0 6 . D u r a n t e t o d o o período colonial, a imigração fora essencialmente masculina, contribuindo p a r a d i f u n d i r a m i s c i g e n a ç ã o . S e g u n d o M A T T O S O , a p e s a r dos e s f o r ç o s de branqueamento,

o c o n t i n g e n t e b r a n c o p r o g r e d i u p o u c o em r e l a ç ã o ao dos

c a b o c l o s e, s o b r e t u d o , ao de n e g r o s e m u l a t o s l i v r e s , s e n d o a p o p u l a ç ã o da p r o v í n c i a da B a h i a m e s t i ç a , c o m p r e s e n ç a m i n o r i t á r i a do e l e m e n t o b r a n c o . Em M a t o G r o s s o , a i m p l e m e n t a ç ã o de u m a p o l í t i c a c o l o n i z a d o r a na importação

de

mão-de-obra

européia

foi

obstaculizada

pela

P a r a g u a i . C o m o t é r m i n o d e s s a g u e r r a , p a s s a a ser n o v a m e n t e

Guerra

do

incentivada,

sem p o r é m m a i o r e x p r e s s ã o . T a n t o a s s i m q u e em 1872 e 1890 os e s t r a n g e i r o s s o m a v a m a p e n a s 81 e 958, d e n t r e h o m e n s e m u l h e r e s , o c u p a n d o p e r c e n t u a i s de 0 , 5 % e 6 , 6 % , r e s p e c t i v a m e n t e . Ao i n d a g a r m o s s o b r e a n a c i o n a l i d a d e dos e s t r a n g e i r o s p r e s e n t e s à é p o c a d o s r e c e n s e a m e n t o s em p a u t a n a p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , e n c o n t r a m o s r e s p o s t a a p e n a s no c e n s o de 1872, p o i s o de 1890 não f o r n e c e essa informação. Dos 81 e s t r a n g e i r o s r e g i s t r a d o s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s , 52 e r a m o r i u n d o s da Á f r i c a , s e n d o 37 h o m e n s e 15 m u l h e r e s , s e g u n d o o c e n s o ,

206

MATTOSO, Kátia M. de Queirós, op. cit., p. 119.

137

t o d o s livres. A s e g u i r ,

da I t á l i a e P a r a g u a i ,

em n ú m e r o

de n o v e e

sete

p e s s o a s , r e s p e c t i v a m e n t e , t o d o s do sexo m a s c u l i n o . F r a n c e s e s , p o r t u g u e s e s e bolivianos tiveram presença insignificante. O quadro 8 explicita esses dados.

Q U A D R O N° 8 P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á . P O P U L A Ç Ã O CONSIDERADA EM RELAÇÃO À NACIONALIDADE ESTRANGEIRA E E S T A D O C I V I L - 1872 ORIGEM

ESTADO CIVIL* Solteiros Casados Viúvos Total

Africa** Bolívia França Itália Paraguai Portugal TOTAL

HOMENS 41 18 05 64 37 02 05 09 07 04 64

MULHERES 07 07 03 17 15 - -

02 - - - -

17

TOTAL 48 25 08 81 52 02 07 09 07 04 81

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do Brasil em 1872. Mato Grosso. (*) C a t ó l i c o s (**) Livres

Pelo

censo

de

1890,

foram

registrados

em

Mato

Grosso

958

e s t r a n g e i r o s . D e s t e s , 163 e s t a v a m em C u i a b á . E m C o r u m b á e C á c e r e s f o r a m registrados

252

e 258

estrangeiros,

respectivamente.

Os t r ê s

municípios

c i t a d o s , p o s s i v e l m e n t e por s e r e m p o r t u á r i o s , e r a m os que m a i s a t r a í a m os i m i g r a n t e s , v i n d o s p a r a M a t o G r o s s o p e l o rio P a r a g u a i . O u t r a e v i d ê n c i a q u e os d a d o s de a m b o s os c e n s o s a p o n t a m

diz

r e s p e i t o à e x p r e s s i v i d a d e de m u l h e r e s na p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a , q u a s e que em

equilíbrio

com

a população

m e s m a t e n d ê n c i a da p o p u l a ç ã o mestiças.

masculina.

Dessas

mulheres,

total, a predominância

cabia

seguindo

a

às n e g r a s e

138

A p e s a r de n ã o ser c o n s t a t a d a a p r e s e n ç a de m u l h e r e s p a r a g u a i a s no r e c e n s e a m e n t o de 1872, c o m o m o r a d o r a s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , e sim a p e n a s de h o m e n s p a r a g u a i o s , n e c e s s á r i o se f a z r e s s a l t a r a p r e s e n ç a de u m a p a r a g u a i a n u b e n t e na p a r ó q u i a . E m j u n h o de 1871, c a s a v a - s e F r a n c i s c a P a u l a , de 14 a n o s , p r o c e d e n t e da R e p ú b l i c a d o P a r a g u a i , c o m J o s é F e r r e i r a G o m e s , de 23 a n o s , s e n d o a m b o s

fregueses

da Paróquia

da

Sé,

c o n f o r m e L i v r o de a s s e n t o s de c a s a m e n t o s , n° 3, á p á g i n a 83. A s s i m s e n d o , conclui-se pela falha por parte dos r e c e n s e a d o r e s em não detectar a p r e s e n ç a de uma m u l h e r p a r a g u a i a na p a r ó q u i a da Sé. Ou e n t ã o e l a ( o u o c a s a l ) t e r i a se m u d a d o p a r a o u t r a p a r ó q u i a , ou a t é m e s m o p a r a o u t r a p r o v í n c i a , q u a n d o do r e c e n s e a m e n t o . E s t a ú l t i m a p o s s i b i l i d a d e , da m u d a n ç a , d e v e ser p o i s o L i v r o de a s s e n t o s

de c a s a m e n t o ,

n° 3, c o n t é m ,

eliminada,

a p a r t i r de

1873,

c a s a m e n t o s de 17 p a r a g u a i a s , t o t a l i z a n d o , p a r a o d e c ê n i o de 1871 a 1880, um n ú m e r o de 18 c a s a m e n t o s de p a r a g u a i o s . Isso s i g n i f i c a d i z e r q u e , a p ó s o t é r m i n o da G u e r r a do P a r a g u a i e a r e a b e r t u r a da n a v e g a ç ã o p e l a b a c i a do P r a t a , p a r a g u a i o s e, p r i n c i p a l m e n t e , as m u l h e r e s , e m p u r r a d o s p e l a c r i s e do p ó s - g u e r r a q u e a s s o l a v a o p a í s , m i g r a r a m p a r a o u t r o s p a í s e s , e, em r a z ã o da p r o x i m i d a d e g e o g r á f i c a , p a r a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o

em p a r t i c u l a r . 2 0 7 P o r o u t r o

lado, não podemos

partir

do

p r i n c í p i o de q u e t o d a s as p a r a g u a i a s q u e v i e r a m p a r a C u i a b á caSaram-se a p o n t o de s e r e m c o n t a b i l i z a d a s .

É bem possível

que muitas, m e s m o

r e s i d i d o p o r a n o s na p a r ó q u i a , n ã o t e n h a m d e i x a d o

tendo

m a r c a s nos livros

de

r e g i s t r o de c a s a m e n t o . P o r i s s o m e s m o , s o m e n t e p o d e m ser encontradas

em

outras

nos

situações

de

vida

em

que

deixaram

possíveis

marcas,

como

r e g i s t r o s de b a t i z a d o s d o s f i l h o s e n o s p r o c e s s o s de j u s t i f i c a ç ã o de e s t a d o

de

s o l t e i r o s , de c a s a d o s ou de v i u v e z . Se m i g r a r a m p a r a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o c o m s e u s f u t u r o s m a r i d o s , m i l i t a r e s a t i v o s , se s o l t e i r a s , se v i ú v a s e m

207

Na década de 80, foram assentados 10 casamentos de paraguaios, 2 homens e 8 mulheres. Dentre os 28 nubentes, casados no periodo de 1871 a 1890, 25 eram mulheres paraguaias, conforme anexos 10 e 11, referentes aos cônjuges da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

139

f u n ç ã o da g u e r r a , se t i v e r a m , ou n ã o , f i l h o s a n t e s de se c a s a r , são q u e s t õ e s que d e v e r ã o ser e s c l a r e c i d a s em o u t r o m o m e n t o d e s t e e s t u d o . F e i t a s a l g u m a s c o n s i d e r a ç õ e s , a i n d a q u e de f o r m a i n c i p i e n t e , s o b r e a

performance

demográfica

da

paróquia

em

estudo,

procuraremos

dar

continuidade a este estudo enfocando outras variáveis, tais como atividades p r o d u t i v a s , e s t a d o civil e f i l i a ç ã o . No t o c a n t e às a t i v i d a d e s p r o d u t i v a s , o c e n s o de 1872 a p r e s e n t a a p o p u l a ç ã o c o n s i d e r a d a em r e l a ç ã o às p r o f i s s õ e s , s u b d i v i d i d a em o f í c i o s , ou p r o f i s s õ e s , tais c o m o : p r o f i s s õ e s l i b e r a i s : j u r i s t a s ( j u i z e s , a d v o g a d o s , n o t á r i o s e

escrivães,

farmacêuticos, públicos,

procuradores, parteiras,

artistas,

oficiais

de

professores

homens

de

letras,

empregados

(manufatureiros

e

fabricantes; comerciantes, guarda-livros, caixeiros); profissões manuais

ou

mecânicas

(costureiras;

industriais

operários:

e

pescadores,

cirurgiões,

e

profissões

marítimos,

médicos,

capitalistas

proprietários;

militares,

e

justiça),

comerciais

cantoneiros,

calceteiros,

mineiros

e

c a v o u q u e i r o s ; e m m e t a i s , em m a d e i r a s , e m t e c i d o s , de e d i f i c a ç õ e s , e m c o u r o s e p e l e s , em t i n t u r a r í a , de v e s t u á r i o s , de c h a p é u s , de c a l ç a d o s ) ;

profissões

agrícolas (lavradores, criadores); pessoas assalariadas (criados, jornaleiros); s e r v i ç o d o m é s t i c o ; sem p r o f i s s ã o . A i n d a

é a p r e s e n t a d o o u t r o q u a d r o — o de

religiosos (seculares e regulares). D i a n t e da c o n s t a t a ç ã o de q u e v á r i a s o c u p a ç õ e s e s t a v a m e n q u a d r a d a s de f o r m a mal d e f i n i d a ou até c o n f u s a , d i f i c u l t a n d o s u a i n s e r ç ã o principais

de a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s ,

recorremos

ao m o d e l o

nos s e t o r e s utilizado

por

M A R C Í L I O 2 0 8 p a r a a c l a s s i f i c a ç ã o das p r o f i s s õ e s na c i d a d e de São P a u l o . M A R C Í L I O d e f i n i u c o m o o b j e t o de e s t u d o a p e n a s a

população

livre. N e s s e t r a b a l h o , o p t a m o s por a n a l i s a r a p o p u l a ç ã o l i v r e e e s c r a v a , por

208

MARCÍLIO, Maria Luiza. A cidade de São Paulo: povoamento e população, 1750-1850. São Paulo : Pioneira, 1974. p. 130-132.

140

sexo, e assim u t i l i z a r

informações

estivessem

considerando

alocados,

sobre

os s e t o r e s

porém

as

em

que os

possíveis

escravos

lacunas

não

p r e e n c h i d a s por p a r t e dos r e c e n s e a d o r e s q u a n d o os q u e s i t o s e r a m d i r i g i d o s à população

escrava.

Exemplo

disso

seria

a ausência

de

divisão

entre

os

e s c r a v o s q u a n t o ao e s t a d o civil de h o m e n s e m u l h e r e s — se s o l t e i r o s , c a s a d o s ou

viúvos,

sendo

que

para

a

população

escrava

tal

condição

não

foi

apresentada. Essa lacuna leva-nos a tecer algumas observações: — a de que, p a r a as a u t o r i d a d e s

encarregadas

do

levantamento

c e n s i t á r i o de 1872, não h a v i a i n t e r e s s e e m saber s o b r e a c o n d i ç ã o civil dos e s c r a v o s , mas, sim, a p e n a s c o n s t a t a r q u a n t o s d e l e s e s t a v a m d i s t r i b u í d o s nas variadas categorias profissionais; — a de que i n t e r e s s a v a , p o i s , às a u t o r i d a d e s , a p e n a s l e v a n t a r o quantum

da m ã o - d e - o b r a n e g r a e s c r a v a e x i s t e n t e e d i s p o n í v e l no

império,

p o s s i v e l m e n t e p a r a v e r i f i c a r em que m e d i d a as a l f o r r i a s e s t a v a m a c o n t e c e n d o nas d i v e r s a s p r o v í n c i a s . A t r a v é s do q u a d r o

9, é p o s s í v e l

verificar como

foi u t i l i z a d a

a

r e f e r i d a c l a s s i f i c a ç ã o p a r a a a n á l i s e da p o p u l a ç ã o e c o n o m i c a m e n t e a t i v a da p a r ó q u i a da Sé. Ao v i s l u m b r a r os d a d o s a s e g u i r , c o n s t a t a m o s que a m a i o r i a população,

livre

e escrava,

tinha

como

atividade

econômica

da

principal

a

a g r i c u l t u r a , i n s e r i n d o - s e nas a t i v i d a d e s p r i m á r i a s um t o t a l de 5 . 2 8 6 p e s s o a s , s e n d o 3.062 h o m e n s e 2 . 2 2 4 m u l h e r e s . E n t e n d e m o s a q u i por a g r i c u l t o r e s os proprietários

de

terras,

os

quais

em

geral

tinham

casas

m u n i c í p i o s p r ó x i m o s às s u a s p r o p r i e d a d e s , d e n o m i n a d a s Chama

a atenção

o fato

de

325

mulheres

serem

nas

sedes

c a s a s de m o r a d a .

agricultoras,

p r o p r i e t á r i a s de t e r r a s , d e m o n s t r a n d o q u e , a p e s a r de em p e q u e n o h a v i a m u l h e r e s s o l t e i r a s ( 1 3 8 ) , c a s a d a s ( 1 4 1 ) e v i ú v a s (46) q u e terras e possivelmente administravam-nas filhos e parentes.

sozinhas,

dos

no

caso

número, possuíam

ou em c o m p a n h i a

de

141

Q U A D R O N° 9 R E P A R T I Ç Ã O DA P O P U L A Ç Ã O L I V R E E E S C R A V A DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á , POR A T I V I D A D E S P R O D U T I V A S 1872 POP. ESCRAVA TOTAL ATIVIDADES POP. LIVRE Fem. Masc. Masc. Fem. I-Primárias Agricultores Lavradores Pescadores Criadores

Subtotal II-Secundárias Manuf. e fabricantes Costureiras Mineiros Marceneiros Ourives Pedreiros Seleiros Alfaiates Chapeleiros Sapateiros Pintores

Subtotal III-Terciárias Prof. liberais Médicos Cirurgiões Farmacêuticos Parteiras Igreja Clero secular Clero regular A d m i n i s t r a ç ã o civil P r o f . de l e t r a s Artistas Militares Marítimos Juristas e funcionários Comércio Comerciante, G u a r d a - l i v r o s e caixeiros Outros serviços Criados e jornaleiros Serviços domésticos

Subtotal Indeterminados Sem p r o f i s s ã o

447 1.917 332

3 25 1.650 -

-

355 1 1

-

249 -

772 4.171 343

-

-

-

-

-

2.696 Masc.

1.975 Fem.

366 Masc.

249 Fem.

5.286

-

-

-

-

369

-

-

-

-

-

-

-

-

149 25 44

-

51 -

-

420 -

-

-

5 4 8

1 54 29 52

-

-

-

-

-

25

-

4

-

29 -

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

243 Masc.

369 Fem.

21 Masc.

51 Fem.

684

4

4

-

-

-

-

-

-

-

7

-

-

-

-

7

-

-

7 7

-

3

-

-

-

3

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

-

640 186 18

11 8 -

12

-

-

-

-

-

80

-

-

-

-

-

-

640 198 18

198 -

62 1

297

10 1

1 00

1.119

1.597

384

11 3

100

2.194

889

1.506

245

249

TOTAL GERAL F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do Brasil de 1 8 7 2 . M a t o G r o s s o .

2.889

11053

142

Um

total

de a p e n a s

684

pessoas,

livres

e escravas,

homens

e

m u l h e r e s , e x e r c i a f u n ç õ e s em a t i v i d a d e s de t r a n s f o r m a ç ã o , i n d i c a n d o o b a i x o nível

de

desenvolvimento

do

setor

secundário

na

paróquia

da

Sé.

P o s s i v e l m e n t e esse fato o c o r r e s s e n ã o a p e n a s no m u n i c í p i o de C u i a b á , m a s também

em t o d a a p r o v í n c i a .

Ou s e j a , o n ú m e r o p o u c o

significativo

pessoas trabalhando como m a r c e n e i r o s (154), ourives (29), pedreiros a l f a i a t e s ( 2 9 ) , num total de 264 p e s s o a s , escravos,

torna

evidente

que

esse

setor

de

(52),

s e n d o 243 h o m e n s livres e 21 não era

o mais

atrativo

para

a

p o p u l a ç ã o m o r a d o r a . As c o s t u r e i r a s , l i v r e s e e s c r a v a s , e r a m e x p r e s s i v a s no c ó m p u t o do s e t o r s e c u n d á r i o , o c u p a n d o um p e r c e n t u a l de 61,4. O p r e s i d e n t e da p r o v í n c i a , B A R Ã O DE B A T O V Y , em r e l a t ó r i o do ano de 1884, a f i r m a v a que o A r s e n a l de G u e r r a o f e r e c i a trabalho

a muitos

a distribuição

para

famílias

de costuras

pobres Para

de fardamento

operários

os corpos

paisanos,

e com

dá o pão

a

muitas

manufatureiro,



havia

209

a

pouca

expressividade

atentado D'ALINCOURT

no i n í c i o

do

setor

do s é c u l o X I X , em

seu

levantamento

e s t a t í s t i c o s o b r e a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , q u a n d o c o n s t a t a v a que havia

uma



fábrica

desconhecimento

estabelecida.

Segundo

ele,

havia

um

não

inteiro

do uso d a s m á q u i n a s de f i a ç ã o , m e s m o as mais g r o s s e i r a s ,

daí a u t i l i z a ç ã o de t e a r e s p a r a a c o n f e c ç ã o de p a n o de a l g o d ã o g r o s s o p a r a a vestimenta

da

população

retiravam

desse

escrava

trabalho

o

seu

e

pobre.

Famílias

sustento.

e

mulheres

pobres

Observava

também

D'ALINCOURT

as p o u c a s o l a r i a s e x i s t e n t e s , as q u a i s s o m e n t e f a b r i c a v a m

telhas

rasos,

e

tijolos

com

a

finalidade

de

c o n s t r u í d a s e nenhuma

notícia

há na Província

pouco

louça:

as panelas,

da de fabricar

da Arte púcaros,

as

poucas

de vidrar,

casas

nem

tão

pratos

grossos,

MATO GROSSO, presidente da província (1884-1886: Barão de Batovy). presidente da província de Mato Grosso. Cuiabá : NDIHR, 1884. Microfilme.

Relatório do

209

potes,

ladrilhar

143

bacías,

etc. para

e depois

de secas

uso ordinário

são fabricados

ao sol, são

recozidas,210

pelas

mulheres

pobres

à

mão,

Q u a n t o ao s e t o r de a t i v i d a d e s t e r c i á r i a s , no t o c a n t e à área l i g a d a à s a ú d e e r a m 18 as p e s s o a s a t u a n t e s : 4 m é d i c o s , 7 f a r m a c ê u t i c o s e 7 p a r t e i r a s . A a u s ê n c i a de c i r u r g i õ e s p o d e r i a i n d i c a r que os m é d i c o s , m e s m o que

em

n ú m e r o p e q u e n o p a r a a t e n d e r t o d a a p o p u l a ç ã o p a r o q u i a n a da Sé, r e a l i z a v a m , além

das r o t i n e i r a s

consultas,

também

as c i r u r g i a s

e atendiam

todas

e s p é c i e s de d o e n ç a s , p o d e n d o - s e c a r a c t e r i z a r sua a t u a ç ã o c o m o de geral. renda,

as

clínica

As p a r t e i r a s p o s s i v e l m e n t e a t e n d i a m não s o m e n t e às m u l h e r e s de b a i x a em t r a b a l h o

de p a r t o ,

mas

também

as m u l h e r e s

segmentos sociais mais favorecidos, dada a escassa

pertencentes

presença

aos

de m é d i c o s

p a r a o a t e n d i m e n t o de t o d a a p a r ó q u i a . É p o s s í v e l a f i r m a r que essa s i t u a ç ã o e s t a r i a o c o r r e n d o na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o de m a n e i r a g e n e r a l i z a d a , pois se tal f a t o e x i s t i a na p a r ó q u i a m a i s a n t i g a e i n t e g r a n t e da c a p i t a l , o que d i z e r do r e s t a n t e da p r o v í n c i a , das p o v o a ç õ e s e m u n i c í p i o s m a i s d i s t a n t e s ? A p e s a r dos e s f o r ç o s e t e n t a t i v a s das a u t o r i d a d e s no s e n t i d o de a t r a i r m é d i c o s para M a t o G r o s s o e até m e s m o de f u n d a r u m a E s c o l a de A n a t o m i a e C i r u r g i a em 1808, em V i l a B e l a , p a r a r e s o l v e r o p r o b l e m a da f o r m a ç ã o de cirurgiões, continuou precário, durante todo o século XIX, o atendimento m é d i c o à p o p u l a ç ã o , c o m a g r a v a m e n t o do p r o b l e m a p e l a i n e x i s t ê n c i a de u m a i n f r a - e s t r u t u r a de s a n e a m e n t o b á s i c o na c i d a d e de C u i a b á . P a r a M O U T I N H O , as ruas da c i d a d e de C u i a b á são quase todas calçadas de pedra chrystal, que, quando lavadas pelas chuvas, tornão-se muito aceadas. Os habitantes, porém, cuidão pouco de sua limpeza e o fiscal da câmara, relaxando suas obrigações, consente que o córrego da Prainha e seus adjacentes sejão o lugar do despejo público, o que causa sobremaneira muito mal aos seus munícipes,211

210

D'ALINCOURT, Luiz. Resultados dos trabalhos e indagações estatísticas da província de Mato Grosso (1828-1829). Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, v. 8. p. 63. 211

MOUTINHO, Joaquim Ferreira, op. cit., p. 37.

144

Através

dos

relatórios

dos

p r e s i d e n t e s da p r o v í n c i a é p o s s í v e l

p e r c e b e r a p r e c a r i e d a d e da s a ú d e p ú b l i c a em C u i a b á na s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XIX. Q u a n t o ao setor de a d m i n i s t r a ç ã o c i v i l , c o m p o s t o por p r o f e s s o r e s de l e t r a s , a r t i s t a s , m i l i t a r e s , m a r í t i m o s , j u r i s t a s e f u n c i o n á r i o s , v e r i f i c a m o s que n e n h u m r e g i s t r o foi f e i t o s o b r e a e x i s t ê n c i a

de p r o f e s s o r e s e a r t i s t a s

na

p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . S e g u n d o M O U T I N H O , e n q u a n t o no e n s i n o p r i m á r i o as c a d e i r a s e r a m o c u p a d a s por p e s s o a s i d ô n e a s , ou s e j a , bem preparadas, varíola, elas,

no s e g u n d o grau f a z i a m - s e s e n t i r os e f e i t o s da que h a v i a p r o v o c a d o a m o r t e de

a

de

um

p o s s i v e l m e n t e os

professor

de

professores



c e n t e n a s de

grau.

de letras

Isso

nos

epidemia

pessoas leva

e, d e n t r e

a pensar

de M O U T I N H O ,

nem

todos

que

haviam sido atingidos pela nefasta

e p i d e m i a . O c e n s o a p r e s e n t a um n ú m e r o de 18 j u r i s t a s e m a g i s t r a d o s . entender

da

os

que

exerciam

devidamente habilitados e com curso superior.

Os filhos

tais

cargos

da terra

No eram

que se

d i r i g i a m a São P a u l o e ao R i o de J a n e i r o p a r a e s t u d a r v o l t a v a m d e p o i s de f o r m a d o s p a r a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , r e s u l t a n d o daí a o c u p a ç ã o d e s s e s c a r g o s por p e s s o a s , se não h a b i l i t a d a s , p e l o m e n o s d i p l o m a d a s . N ã o c a u s a e s t r a n h e z a o m o n t a n t e de

h o m e n s , em n ú m e r o de 838,

d e d i c a n d o - s e às a t i v i d a d e s m i l i t a r e s e m a r í t i m a s . N u m t o t a l de 2 . 1 9 4 p e s s o a s empregadas

no s e t o r de a t i v i d a d e s

terciárias,

os m i l i t a r e s

ocupavam

um

p e r c e n t u a l de 2 9 , 2 . E x p l i c a - s e tal f a t o no m o d o c o m o o c o r r e u a o c u p a ç ã o da r e g i ã o de M a t o G r o s s o , p o r p o r t u g u e s e s e b a n d e i r a n t e s p a u l i s t a s no i n í c i o do s é c u l o XVIII

quando

os

mesmos,

seguindo

o

modelo

imposto

pela

metrópole

p o r t u g u e s a , de e x p l o r a ç ã o das r i q u e z a s m i n e r a i s , e x p a n s ã o de f r o n t e i r a s e captura

de

mão-de-obra

indígena,

impôs,

principalmente

nas

regiões

m i n e r a d o r a s , e no c a s o , na c a p i t a n i a de M a t o G r o s s o , um s i s t e m a de g o v e r n o altamente

fiscalizador

e

coercitivo.

Para

que

tal

sistema

funcionasse,

n e c e s s á r i o se f a z i a m o n t a r na c a p i t a n i a um a p a r a t o a d m i n i s t r a t i v o e m i l i t a r

145

q u e i m p e d i s s e o a v a n ç o de e s p a n h ó i s à m a r g e m d i r e i t a do rio G u a p o r é . O u t r o f a t o r que l e v a v a as a u t o r i d a d e s

locais

a preocupar-se

e empenhar-se

a u m e n t a r o c o n t i n g e n t e de h o m e n s na o c u p a ç ã o de p o s t o s m i l i t a r e s r e s p e i t o ao t e m o r com r e l a ç ã o aos a v a n ç o s dos í n d i o s

em dizia

sobre povoados

e

c i d a d e s . E m p r a t i c a m e n t e t o d o s os r e l a t ó r i o s , e n c o n t r a m - s e r e f e r ê n c i a s às agressões

de

costumadas

índios,

e ao m o d o

correrlas

sobre

como

os povoados,

às m e d i d a s t o m a d a s p e l a s a u t o r i d a d e s

os

selvagens

repetiram

as

suas

m a t a n d o os m o r a d o r e s . Em que p e s e l o c a i s para a u m e n t a r o c o n t i n g e n t e

m i l i t a r na c a p i t a l e p r o v í n c i a , p e r c e b e m - s e em s u a s f a l a s as d i f i c u l d a d e s e n f r e n t a d a s p a r a c o n s e g u i r tal o b j e t i v o . A p e s a r de e n c o n t r a r - s e na c a p i t a l e na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , um e x p r e s s i v o n ú m e r o de m i l i t a r e s e m a r í t i m o s , não era o b a s t a n t e p a r a um c o n f r o n t o c o m as f o r ç a s e s t r a n g e i r a s e c o m os índios. Assim, em vista da deficiência de força tanto de polícia, como de linha, resultante quanto a esta do grande número de escusas por conclusão de tempo, incumbi ao Dr. chefe de polícia de organizar nesta capital e na Chapada, com toda a urgência, duas forças de cincoenta cidadãos cada uma para operarem em baixo e em cima da serra, afim de baterem as partidas e irem até as malocas dos coroados.212 O u t r o l a d o que e s s a r e f e r ê n c i a r e v e l a , a l é m da c a r ê n c i a de m i l í c i a s , é o r e c r u t a m e n t o de c i d a d ã o s , h o m e n s c o m u n s , os q u a i s , d e i x a n d o m u l h e r e s e f i l h o s , e m b r e n h a v a m - s e n a s m a t a s s e m g a r a n t i a de v o l t a c o m v i d a às suas casas. Os e m p r e g a d o s entre

livres

empregadas

e escravos, no

setor

em

serviços

somavam

terciário.

domésticos

1.119,

Homens

na p a r ó q u i a

representando e

mulheres,

51% tanto

em

estudo,

das

pessoas

livres

como

e s c r a v o s , aí t r a b a l h a v a m . R e s t a s a b e r o q u e se c o m p r e e n d i a na é p o c a por serviços

domésticos,

212

e se a a t i v i d a d e t i n h a a m e s m a f u n ç ã o de h o j e , q u a n d o

MATO GROSSO, vice-presidente da província (1881-1883: Galvão). Fala do vice-presidente da província de Mato Grosso, tenente-coronel José Leite Galvão, na abertura da 2a Sessão da 23a Assembléia Legislativa Provincial, em 3 de maio de 1881. Cuiabá : NDIHR, 1881. Microfilme.

146

se c o n s t i t u i em t r a b a l h o b a s i c a m e n t e d e s e n v o l v i d o por m u l h e r e s

de b a i x a

r e n d a . No e n t a n t o , na d a t a do c e n s o , os d a d o s m o s t r a m que 621 h o m e n s l i v r e s trabalhavam

como

domésticos.

Escravos

e

escravas

também trabalhavam

c o m o d o m é s t i c o s , em n ú m e r o de 101 e 100 r e s p e c t i v a m e n t e . Se c o m p a r a d o s os d a d o s e n t r e a m b o s , v e r i f i c a - s e q u e os e s c r a v o s e r a m em m e n o r n ú m e r o q u e os livres n e s s e setor de a t i v i d a d e . A c o n s t a t a ç ã o de q u e , à é p o c a do c e n s o , h o m e n s livres t r a b a l h a v a m em s e r v i ç o s d o m é s t i c o s e até s u p e r a v a m n u m e r i c a m e n t e as m u l h e r e s l i v r e s , l e v a - n o s a f a z e r a l g u m a s a v a l i a ç õ e s . De q u e , de um lado, à e x c e ç ã o

dos

a g r i c u l t o r e s , c o n s i d e r a d o s a q u i c o m o os g r a n d e s p r o p r i e t á r i o s de t e r r a s , e m sua m a i o r i a as p e s s o a s n ã o p o s s u í a m u m a a t i v i d a d e e c o n ô m i c a r i g o r o s a m e n t e d e f i n i d a no p r o c e s s o p r o d u t i v o . As a t i v i d a d e s iam se d a n d o num d e s e n r o l a r de n e c e s s i d a d e s e de i n t e r e s s e s m e d i a d o s p e l a s c o n t i n g ê n c i a s do c o t i d i a n o , m o l d a d o p e l o s i s t e m a e s c r a v i s t a . P e r c e b e m o s , p o r e x e m p l o , que d e t e r m i n a d a s e s c r a v a s t r a b a l h a v a m c o m o m a r c e n e i r a s , o u r i v e s , p e d r e i r a s , e que m u l h e r e s l i v r e s t r a b a l h a v a m c o m o l a v r a d o r a s , a g r i c u l t o r a s e no c o m é r c i o . A a u s ê n c i a de r i g o r no d e s e n v o l v i m e n t o das t a r e f a s e c o n ô m i c a s p o d e r í a m o s a v e n t a r p a r a a p o s s i b i l i d a d e , se não, da a u s ê n c i a de d e f i n i ç ã o de p a p é i s e n t r e h o m e n s e m u l h e r e s , p e l o m e n o s , p a r a u m a c e r t a m a l e a b i l i d a d e d e s s e s p a p é i s no t o c a n t e às a t i v i d a d e s p r o d u t i v a s . M a l e a b i l i d a d e e s t a , no s e n t i d o de que, a o c u p a ç ã o de d e t e r m i n a d o s e s p a ç o s , no

mundo

do trabalho,

por h o m e n s ou m u l h e r e s

p e r t e n c e n t e s aos s e g m e n t o s p o p u l a r e s , n ã o se d a v a p e l a p r e p a r a ç ã o ou por c a b e d a i s h e r d a d o s e sim por c o n t i n g ê n c i a s . E s s a a v a l i a ç ã o é r e f o r ç a d a ao t o m a r m o s o c o n t i n g e n t e de p e s s o a s consideradas

sem

profissão:

2.889

homens

e

mulheres,

dentre

livres

e

e s c r a v o s . F o r a m a s s i m d e f i n i d o s p o r q u e à é p o c a n ã o t r a b a l h a v a m ? Ao que nos parece,

o

atributo

sem

profissão

c o a d u n a v a m com as do a s p e c t o formal

conotava

as

atividades

que

não

se

e, por isso m e s m o , e r a m t i d a s c o m o

d e s p r e z í v e i s e sem i m p o r t â n c i a . D e n t r e as 1.506 m u l h e r e s livres c o n s i d e r a d a s sem profissão,

p o s s i v e l m e n t e e n c o n t r a v a m - s e a q u e l a s que, nos p r o c e s s o s de

147

divórcio

localizados

no A r q u i v o

e s c o n d i a m o f a t o de que viviam de lavar

roupa,214

da C ú r i a

do serviço

ou a i n d a que viviam

e l a s d i z i a m q u e não sabiam

1er nem

Metropolitana

próprio

de fabricar escrever.

de C u i a b á ,

do seo sexo213 louça

de barro

aluguéis,

relacionadas ao corte

a

ajustes

de cana-verde

como

2X5

viviam Todas

E m r e l a ç ã o aos 889 h o m e n s

l i v r e s , há i n d í c i o s , nos p r o c e s s o s de d i v ó r c i o , de q u e p o d i a m atividades

que

não

camarada,

ao

desenvolver

recebimento

de

216

O q u a d r o 10 m o s t r a a d i s t r i b u i ç ã o da p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a da Sé s e g u n d o as a t i v i d a d e s p r i m á r i a s , s e c u n d á r i a s e t e r c i á r i a s .

213

Eram mulheres a exemplo de Maria de Sousa do Espírito Santo, 50 anos, solteira, moradora na rua do Mundéo; Ana Alves da Cunha, 38 anos, solteira, moradora na rua da Boa Vista (Caridade) e Augusta Rosa, 42 anos, viúva. Coincidentemente, eram naturais da província de Mato Grosso e moradoras na paróquia Senhor Bom Jesus. Constavam como depoentes, em 1864, no processo de divórcio movido por Gertrudes Maria Ferreira contra Marcelino dos Santos. 214

Citamos aqui Francisca Duarte Guimarães, moradora na rua da Boa Vista (ou rua da Caridade), 70 anos presumíveis, viúva, natural da província de Mato Grosso, que vive de lavar roupa. 215

Bárbara Maria de Jesus, 50 anos, solteira, natural da província de Mato Grosso, moradora no lugar denominado São Gonçalo Velho, vive de fabricar louça de barro-, Maria Rodrigues do Espírito Santo, 60 anos, natural da província de Mato Grosso, solteira, moradora em São Gonçalo Velho, vive de fabricar louça de barro e fiar algodão. 216

Tais atividades eram desenvolvidas respectivamente por Antônio João de Siqueira, 32 anos, morador no Mundéo; Cipriano, que era o encarregado de receber os aluguéis de D. Gerthrudes Maria Ferreira e Cândido Antônio, morador na rua da Boa Vista, 40 anos, solteiro, natural da província de Mato Grosso. Todos os três constaram como testemunhas, em 1864, no processo de divórcio acionado por Gertrudes, acima referida.

148

Q U A D R O N° 10 R E P A R T I Ç Ã O DA P O P U L A Ç Ã O A T I V A ( L I V R E E E S C R A V A ) P O R S E T O R E S DE P R O D U Ç Ã O * - P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S D E C U I A B Á - 1872

Atividades

NUMEROS ABSOLUTOS E PERCENTUAIS % Total Masc. % Fem.

%

Produtivas 5.286

64,7

3.062

60,8

2.224

71,1

684

8,4

264

5,2

420

13,4

Terciárias

2.194

26,9

1.710

34,0

484

15,5

TOTAL

8.164

100,0

5.036

100,0

3.128

100,0

Primárias Secundárias

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1 8 7 2 . M a t o G r o s s o .

* Não estão compreendidas as pessoas Em

relação

ao e s t a d o

civil,

sem

profissão.

os c e n s o s

de

1872 e

1890

trazem

i n f o r m a ç õ e s a r e s p e i t o da p o p u l a ç ã o s o l t e i r a , c a s a d a e v i ú v a , em r e l a ç ã o ao sexo e raça. 2 1 7 O censo de

1890 t r a z t a m b é m

informações a respeito

da

população divorciada. Por

entendermos

que

tanto

s i g n i f i c a t i v o n ú m e r o de c e l i b a t á r i o s

entre

livres

na p o p u l a ç ã o

como

escravos

mato-grossense

havia adulta,

m a s c u l i n a e f e m i n i n a , o p t a m o s por a n a l i s a r o q u e s i t o e s t a d o civil v i a e t n i a — se b r a n c o s , n e g r o s , m e s t i ç o s ou c a b o c l o s , o b j e t i v a n d o m e l h o r v i s u a l i z a r o p e r f i l da p o p u l a ç ã o c e l i b a t á r i a . Os

quadros

demonstrativos

a

seguir,

embasados

nos

referidos

censos, revelam que tanto entre a população branca como entre a negra e

217

O recenseamento de 1872 não apresenta informações a respeito da faixa etária dessa população, o que nos leva a inferir que, de 11.053 pessoas moradoras na paróquia Bom Jesus de Cuiabá, 3.010 eram crianças e 8.043 adultos.

149

m e s t i ç a , os

p e r c e n t u a i s de

solteiros

e l e v a d o s que os de c a s a d o s e

em

a m b o s os s e x o s

eram

mais

viúvos.218

P e l o c e n s o de 1872, d e n t r e a p o p u l a ç ã o b r a n c a que t o t a l i z a v a em 3 . 8 6 3 p e s s o a s , os s o l t e i r o s a t i n g i a m

percentuais

de 5 6 , 4 , c a s a d o s 3 6 , 0 e

v i ú v o s 7,6, c o n f o r m e r e v e l a o q u a d r o 11.

Q U A D R O N° 11 P O P U L A Ç Ã O B R A N C A DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á - 1872

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

1.130

1.048

2.178

56,4

Casados

838

552

1.390

36,0

Viúvos

206

89

295

7,6

TOTAL

2.174

1.689

3.863

100,0

Solteiros

%

FONTE: R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1872. M a t o G r o s s o . O q u a d r o 12 d e s t a c a igual t e n d ê n c i a . E v i d e n c i a r e d u z i d o p e r c e n t u a l de c a s a d o s , se c o m p a r a d o c o m a p o p u l a ç ã o b r a n c a .

218

Em relação à população viúva, estranhamos as cifras referentes à elevada proporção de viúvos em relação às viúvas, quando se sabe, através de estudos já realizados, que a mulher sobrevive muito mais. Tais cifras expressam, a nosso ver, o estado precário dos censos do século passado.

150

Q U A D R O N° 12 POPULAÇÃO E S C R A V A (MESTIÇA E N E G R A ) DA P A R Ó Q U I A SENHOR B O M J E S U S DE C U I A B Á - 1872

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

Solteiros

696

626

1.322

94,8

Casados

40

18

58

4,1

Viúvos

9

5

14

1,1

TOTAL

745

649

1.394

100,0

FONTE: R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1872. M a t o G r o s s o . Dentre a população negra (livre e escrava), assim como dentre a c a b o c l a livre, t a m b é m a p o p u l a ç ã o de s o l t e i r o s era s u p e r i o r à c a s a d a , c o m 6 1 , 3 % e 6 0 , 7 % , r e s p e c t i v a m e n t e , c o n f o r m e d e m o n s t r a m os q u a d r o s 13 e 14.

Q U A D R O N° 13 POPULAÇÃO NEGRA (LIVRE E E S C R A V A ) DA P A R Ó Q U I A SENHOR BOM J E S U S D E C U I A B Á - 1872

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

Solteiros

563

343

906

61,3

Casados

253

204

547

30,9-

Viúvos

102

14

116

7,8

TOTAL

918

561

1.479

FONTE: R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1872. M a t o G r o s s o .

100,0

13 1

Q U A D R O N ° 14 P O P U L A Ç Ã O C A B O C L A L I V R E DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á - 1872

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

Solteiros

99

29

128

60,7

Casados

44

11

55

26,0

Viúvos

19

9

28

13,3

TOTAL

162

49

211

100,0

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o cio B r a s i l de 1872. M a t o G r o s s o . Já e n t r e a p o p u l a ç ã o m e s t i ç a ( l i v r e e e s c r a v a ) , população

de

homens

e

mulheres

solteiros

era

p e r c e b e m o s que a

superior

à

de

casados,

c o n f o r m e p o d e m o s o b s e r v a r no q u a d r o q u e segue.

Q U A D R O N° 15 POPULAÇÃO MESTIÇA (LIVRE E ESCRAVA) DA PARÓQUIA SENHOR B O M J E S U S D E C U I A B Á - 1872

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

1.006

1.016

2.022

49,4

Casados

894

803

1.697

41,4

Viúvos

271

101

372

9,2

TOTAL

2.171

1.920

4.091

100,0

Solteiros

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1872. M a t o G r o s s o . * I n c l u i n d o - s e os p a r d o s e n e g r o s e s c r a v o s . O recenseamento aponta

para

o

reforço

de

de

1890,

duas

quando

tendências:

comparado

com

superioridade

da

o de

1872,

população

f e m i n i n a d e n t r e a p o p u l a ç ã o b r a n c a , n e g r a , m e s t i ç a e c a b o c l a , e e l e v a ç ã o nos p e r c e n t u a i s r e l a t i v o s à p o p u l a ç ã o s o l t e i r a em r e l a ç ã o à c a s a d a . V e j a m o s os q u a d r o s 16 a 19.

152

Q U A D R O N° 16 P O P U L A Ç Ã O B R A N C A DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á - 1890

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

1.953

2.010

3.963

72,2

Casados

565

578

1.143

20,8

Viúvos

76

290

366

6,8

5

6

11

0,2

2.599

2.884

5.483

100,0

Solteiros

Divorciados TOTAL

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1890. M a t o G r o s s o . A p o p u l a ç ã o m e s t i ç a q u e , no c e n s o de 1872, teve os p e r c e n t u a i s equilibrados podemos

entre

verificar

solteiros

e casados,

no q u a d r o

17,

marcou

percentuais

no c e n s o

de

discrepantes:

1890, 80,2

como

e

15,1,

respectivamente.

Q U A D R O N° 17 P O P U L A Ç Ã O M E S T I Ç A DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á - 1890

ESTADO CIVIL Solteiros Casados Viúvos Divorciados TOTAL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

2.292

2.398

4.690

80,2

440

438

878

15,1

48

215

263

4,5

5

7

12

0,2

2.785

3.058

5.843

100,0

.

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1890. M a t o G r o s s o . P o r o u t r o l a d o , v e r i f i c a m o s d e c r é s c i m o de 2 6 , 3 % , e n t r e um c e n s o e outro, dentre a população mestiça casada. O referido decréscimo explica, pelo m e n o s em p a r t e , o a u m e n t o dos s o l t e i r o s m e s t i ç o s na p a r ó q u i a em e s t u d o .

153

Dentre a população negra e cabocla, verificou-se idêntica tendência r e f e r e n t e ao e s t a d o civil. Os q u a d r o s 19 e 2 0 , r e f e r e n t e s à p o p u l a ç ã o n e g r a e à c a b o c l a , c o n s t a t a m d e c r é s c i m o p e r c e n t u a l dos c a s a d o s no t r a n s c o r r e r p r a t i c a m e n t e v i n t e anos. I g u a l m e n t e e n t r e a p o p u l a ç ã o b r a n c a

de

verificamos

d e c r é s c i m o s p e r c e n t u a i s dos c a s a d o s : de 3 6 , 0 em 1872, p a r a 2 0 , 8 em

1890

l o n g e , p o r t a n t o , de s u p e r a r os p e r c e n t u a i s o c u p a d o s p e l o s s o l t e i r o s .

Q U A D R O N° 18 P O P U L A Ç Ã O N E G R A DA P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á 1890

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

1.011

1.164

2.175

86,2

156

108

264

10,4

15

71

86

3,4

1

0,0

2.526

100,0

Solteiros Casados Viúvos

1

Divorciados

-

1.183

TOTAL

1.343

FONTE: R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1890. M a t o G r o s s o .

Q U A D R O N° 19 POPULAÇÃO CABOCLA DA PARÓQUIA SENHOR BOM JESUS DE C U I A B Á - 1890

ESTADO CIVIL

HOMENS

MULHERES

TOTAL

%

257

300

557

85,0

38

31

69

10,6

1

27

28

4,3

1

1

0,1

359

655

100,0

Solteiros Casados Viúvos Divorciados

-

296

TOTAL

FONTE: R e c e n s e a m e n t o do B r a s i de 1890. M a t o G r o s s o . A l é m do d e c r é s c i m o dos c a s a d o s e n t r e um r e c e n s e a m e n t o e o u t r o , outros

fatores

poderiam

explicar

o

expressivo

número

de

solteiros

na

154

p a r ó q u i a . Na e x p l i c a ç ã o p a r a a p r e s e n ç a dos c e l i b a t á r i o s , d e v e m o s c o n s i d e r a r c o m o f a t o r do a u m e n t o a p r e s e n ç a das f o r ç a s m i l i t a r e s no p e r í o d o da g u e r r a , c o n s i d e r a n d o aí a p e r m a n ê n c i a de g r a n d e n ú m e r o de h o m e n s na c a p i t a l . E s s a h i p ó t e s e não d e v e ser d e s c a r t a d a . O r e c e n s e a m e n t o de 1872 j á e v i d e n c i a v a

a

s u p e r i o r i d a d e da p o p u l a ç ã o m a s c u l i n a . A e v i d ê n c i a da s u p e r i o r i d a d e da p o p u l a ç ã o s o l t e i r a em r e l a ç ã o à c a s a d a , a p o n t a d a nos d o i s c e n s o s , vai ao e n c o n t r o do que dizia M A R C Í L I O em r e l a ç ã o ao s i s t e m a d e m o g r á f i c o das á r e a s u r b a n a s do B r a s i l no s é c u l o X I X —

a

de

que

características

as

uniões

consensuais

pronunciadas

das

livres

estáveis

populações

constituíam-se

urbanas.219

Ou

seja,

em por

c i r c u n s t â n c i a s v a r i a d a s , as p e s s o a s d e i x a v a m de se c a s a r na I g r e j a C a t ó l i c a , mas

não

de c o n s t i t u i r

d e s i g n a d o s c o m o solteiros,

as

uniões

livres

estáveis

e,

fortuitas.

Apesar

de

homens e mulheres — brancos, negros, mestiços e

c a b o c l o s , não e r a m n e c e s s a r i a m e n t e c e l i b a t á r i o s . P o d i a m c o n s t i t u i r f a m í l i a s e gerar f i l h o s d e s s a u n i ã o , m e s m o sem a c h a n c e l a da I g r e j a C a t ó l i c a e do Estado. Q u a n d o do r e c e n s e a m e n t o de 1890, a s i t u a ç ã o era de m a i s m u l h e r e s e m e n o s h o m e n s na p a r ó q u i a da Sé. As m u l h e r e s s o m a v a m 7 . 6 4 4 e os h o m e n s 6 . 8 6 3 d e n t r e 1 4 . 5 0 7 h a b i t a n t e s da p a r ó q u i a em e s t u d o . T e r i a o c o r r i d o redimensionamento

por

parte

dos

recenseadores

ao

estimar

a

um

população

f e m i n i n a e, por c o n s e g u i n t e , a s o l t e i r a ? Ao i n d a g a r m o s s o b r e essa s i t u a ç ã o p a r a o m u n i c í p i o de C u i a b á , c o n s t a t a m o s 9 . 2 2 2 m u l h e r e s e 8.593 h o m e n s . No e n t a n t o , um olhar m a i s a t e n t o

i n d i c a q u e s o m e n t e na p a r ó q u i a S e n h o r B o m

Jesus a população feminina superava a masculina.220

219

MARCÍLIO, Maria Luiza. (org ). População e sociedade: evolução das sociedades préindustriais. Petrópolis : Vozes, 1984. p. 205. 220

Na paróquia de Sant'Anna do Sacramento, integrante do município de Cuiabá, à época do censo de 1890, o número de mulheres ficava aquém dos homens, com 1.578 e 1.730, respectivamente. O mesmo ocorre na paróquia São Gonçalo de Pedro II, com 4.738 homens e 4.540 mulheres. Essa paróquia constava nesse mesmo recenseamento como município distinto, englobando Várzea Grande e Coxipó da Ponte.

155

O q u a d r o 20 i l u s t r a n o s s a s o b s e r v a ç õ e s e p e r m i t e i g u a l m e n t e que p e r c e b a m o s o peso da p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s em r e l a ç ã o ao m u n i c í p i o de C u i a b á .

Q U A D R O N° 20 POPULAÇÃO R E C E N S E A D A DO MUNICÍPIO DE CUIABÁ, POR P A R Ó Q U I A S - 1890 LOCALIDADES

HOMENS

%

MULHERES

%

TOTAL

%

Paróquia Senhor Bom Jesus

6.863

79,9

7.644

82,8

14.507

8 1,4

Paróquia Sant'Anna Sacramento

1.730

20,1

1.578

17,2

3.308

18,6

8.593

100,0

9.222

100,0

17.815

100,0

do

Município Cuiabá FONTE:

de

Recenseamento

O

que

teria

do Brasil

propiciado

de 1 8 9 0 .

o

aumento

Mato

Grosso.

da

população

p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á ? D e v e m o s c o n s i d e r a r

feminina

na

primeiramente

que essa p a r ó q u i a , a l é m de m a i s p o p u l o s a , e r a a m a i s a n t i g a e c o m p u n h a , d e s d e m e a d o s do s é c u l o X I X ,

um dos p ó l o s das d u a s ú n i c a s

freguesias

u r b a n a s : a Sé, f o r m a d a p e l o n ú c l e o c e n t r a l , e a de São G o n ç a l o de P e d r o II — o P o r t o . T e v e sua e v o l u ç ã o l i g a d a ao d e s e n v o l v i m e n t o s o c i o e c o n ó m i c o c a p i t a n i a . A r e p r e s e n t a t i v i d a d e da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s

da

d e v e - s e ao

f a t o de ter-se c o n s t i t u í d o no n ú c l e o g e r a d o r q u e i m p u l s i o n o u a o c u p a ç ã o e p o v o a m e n t o do M a t o G r o s s o . A r e f e r i d a p a r ó q u i a g a n h o u m a i o r i m p o r t â n c i a na m e d i d a em que C u i a b á p a s s o u a s e d i a r os g o v e r n o s , civil e e c l e s i á s t i c o , na p r i m e i r a m e t a d e do s é c u l o X I X , em d e c o r r ê n c i a da t r a n s f e r ê n c i a da c a p i t a l da p r o v í n c i a para C u i a b á e da c r i a ç ã o do B i s p a d o de M a t o G r o s s o . Em m e a d o s do s é c u l o X I X , a f r e g u e s i a da Sé compreendia todo o núcleo central da cidade e em sua Jurisdição ficavam os principais prédios públicos: Igrejas e logradouros. O largo da Sé ou da matriz

156

situava-se em frente à igreja e defronte a ele, do outro lado, a Casa da Câmara com a cadeia no andar térreo. Ao lado esquerdo da matriz estava o largo do Palácio, em frente ao prédio que abrigava a residência dos presidentes de Província e a sede do governo provincial. Além da matriz, da Casa da Câmara e do Palácio do Governo, ainda se localizavam, nesses dois largos, os prédios da Tesouraria, do Correio, do Comando das Armas. 22 i A preferência

por

viver

na

paróquia

Senhor

Bom

Jesus

talvez

e n c o n t r e ai a e x p l i c a ç ã o — p r o x i m i d a d e c o m a s e d e dos g o v e r n o s civil e eclesiástico e

melhores

c o n d i ç õ e s de v i d a p r o p i c i a d a s p e l a

urbanização,

a i n d a que i n c i p i e n t e da c a p i t a l . Para MARCÍLIO, apesar de toda a dificuldade conceituai e impírica para delimitar o verdadeiro urbano do rural no Brasil tradicional, consideraremos aqui apenas as grandes cidades existentes na época em análise. Estas se confundem, em quase todos os casos, com a cidade — capital regional, com funções variadas: administrativas, portuárias — comerciais, religiosas, etc. Sua localização é, na sua quase 222 totalidade, litorânea... Nesse tradicional,

sentido,

Cuiabá,

caracterizava-se

tal

como

por

as

funções

demais

capitais

variadas:

do

Brasil

administrativas,

portuárias, comerciais e religiosas. A existência como

integrantes

de

de l a v r a d o r e s uma

e agricultores

paróquia

urbana

recenseados

revela-nos

em

quão

.1872

estreitos

e n c o n t r a v a m - s e a i n d a os l i m i t e s e n t r e o r u r a l e o u r b a n o na c i d a d e — c a p i t a l regional

e,

por

conseguinte,

na

paróquia

em

estudo.

As

atividades

desenvolvidas pela

população possivelmente mesclavam-se entre o urbano e

o

sinais

rural.

Alguns

de

urbanização

mais

pronunciados

somente

d e s p o n t a r a m em C u i a b á no p e r í o d o do p ó s - G u e r r a do P a r a g u a i . A l g u n s d e l e s podem

ser

evidenciados

através

da

instalação

de

221

VOLPATO, L. R. Ricci. Cativos do sertão: vida cotidiana e escravidão em Cuiabá em 18501888. São Paulo : Marco Zero, 1993. p. 27. 222

MARCÍLIO, Maria Luiza. População e sociedade: evolução das sociedades pré-industriais. Petrópolis : Vozes, 1984. p. 203.

157

casas

importadoras,

serviços

bancários

e

obras

de

infra-estrutura.223

A

i n a u g u r a ç ã o do J a r d i m A l e n c a s t r o na c a p i t a l e no c o r a ç ã o da f r e g u e s i a da Sé, veio p r o p i c i a r à p o p u l a ç ã o e s p a ç o s de l a z e r até e n t ã o não e x p e r i m e n t a d o s : O jardim

constituiu

cuiabana, quando

para

durante o qual

muitos

anos

se dirigiam

ali se realizavam

no

grande

principalmente

retretas

lazer nas

abrilhantadas

pelas

da

noites bandas

população de

domingo

militares

da

local.224

guarnição

As m u d a n ç a s nos n o m e s d a s r u a s de C u i a b á , a e x e m p l o da rua da Fé, que p a s s o u a c h a m a r - s e C o m a n d a n t e C o s t a ; ser d e n o m i n a d a Antonio

João,

ser c o n h e c i d a por Antonio de

Melgaço,

em

da Esperança,

da Sé (ou Piçarra),

Maria,

homenagem

q u e p a s s o u , por sua vez, a

da rua do Campo, aos

heróis

que p a s s o u a

da

q u e p a s s o u a ser Guerra,

Barão

somavam-se

às

t r a n s f o r m a ç õ e s u r b a n a s em curso. 2 2 5 O m o d o de viver das m u l h e r e s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á p o d e ser a p r e e n d i d o a t e n t a n d o - s e p a r a os e s p a ç o s p ú b l i c o s o c u p a d o s por elas, c o n f o r m e foi a p o n t a d o p e l o r e c e n s e a m e n t o de 1872. como

costureiras,

parteiras,

marceneiras,

criadas,

ourives,

Trabalhavam pedreiras,

s e r v i ç o s d o m é s t i c o s , no c o m é r c i o , a s s i m c o m o p o d i a m ser a g r i c u l t o r a s

em ou

lavradoras. Em desenvolvido

relação por

especificamente mulheres

de

ao

comércio

segmentos

da

sociais

aguardente,

era

diferenciados

223

A instalação, na capital, de lampiões a gás acetileno; a inauguração da barca-pêndulo para a travessia do rio Cuiabá, ligando a capital ao 3 o distrito, Várzea Grande; a criação de vários estabelecimentos de ensino, como o Liceu Cuiabá e a Escola Normal; a conclusão do Seminário da Conceição e ainda o fornecimento, para a parte central da cidade, de água impulsionada por máquinas a vapor, são exemplos das transformações ocorridas. 224

BRANDÃO, Jesus da Silva. Cuiabá: desenvolvimento urbano e socioeconómico - 1825-1945. Cuiabá : Livro matogrossense, 1991. p. 120. 225

Sobre as mudanças nos nomes das ruas de Cuiabá, sugerimos a leitura de MESQUITA, José de. Gente e coisas de antanho. Cadernos Cuiabanos, Cuiabá : Secretaria Municipal de Educação e Cultura, n. 4, 1978; MENDES, Francisco Alexandre Ferreira. Lendas e tradições cuiabanas. Cuiabá : Fundação Cultural de Mato Grosso, 1977.

158

independentemente vendiam aguardente

do seu e s t a d o pelo

miúdo,

civil.

Observamos

q u e as

casas

que

e s u j e i t a s ao r e s p e c t i v o i m p o s t o de 3 6 S 0 0 0

para o ano f i n a n c e i r o de 1877 a 1878, e n c o n t r a v a m - s e l o c a l i z a d a s em v á r i a s r u a s da f r e g u e s i a da Sé, a saber:

Rua 27 de dezembro, D. Etervina da Trindade Fonseca, Antonia Maria de Jesus, Delfina Amélia Fernandes; Rua Barão de Melgaço: Domingas Róis Chagas, Luiza Maria de Arruda; Rua Commandante Costa: D. Antonia Alves Fernandes da Cunha Póvoas; Rua do Commandante Antonio Maria: Anna dos Anjos; Rua de Antonio João: Joanna Henriques de Carvalho, Felicidade Augusta de Macedo, D. Joanna Baptista Ranos; Rua da Boa Vista: D. Maria Francisca de Sampaio; Rua da Caridade: Izabel da Annunciação; Rua do Cemitério: Joanna Maria de Jesus; Travessa do Palácio: Maria Joaquina de Miranda, Maria Eusébia de Annunciação, D. Maria do Carmo Lima; Travessa da Câmara: Maria Joanna Viegas; Travessa da Mandioca: Maria Ferreira Velho; Beco Torto: Jacinta de Cerqueira Leite. 226

O b s e r v a m o s que as c a s a s q u e v e n d i a m a g u a r d e n t e r e s p o n s a b i l i d a d e de u m a ou até de três m u l h e r e s . Na Travessa exemplo,

encontravam-se

Maria

Joaquina

de M i r a n d a ,

e s t a v a m sob a do Palácio,

por

Maria Eusébia

de

A n u n c i a ç ã o e D. M a r i a do C a r m o L i m a . E s t a ú l t i m a , M a r i a do C a r m o , e r a p a r a g u a i a e v i ú v a de um m i l i t a r , o a l f e r e s r e f o r m a d o B e l a r m i n o Lima. P o s s i v e l m e n t e não f o s s e a p r o p r i e t á r i a da

casa,

Ferreira

m a s sim, tal c o m o

M a r i a E u s é b i a de A n u n c i a ç ã o , e m p r e g a d a de M a r i a J o a q u i n a de M i r a n d a . N a s a t i v i d a d e s de c o s t u r a , a p o n t a d a s p e l o r e c e n s e a m e n t o de 1872 c o m o d e s e n v o l v i d a s por 420 m u l h e r e s , s e n d o 369 l i v r e s e 51 e s c r a v a s , é i n t e r e s s a n t e o b s e r v a r que p a r e c i a e x i s t i r c e r t a

elitização

do o f í c i o . Ao q u e

c o n s t a , o A r s e n a l de G u e r r a não p e r m i t i a q u e e s c r a v a s c o s t u r a s s e m as de fardamento, idôneas

e decentes.

costureiras de 1881,

a s s i m c o m o outras

das peças

Das

226

152 m u l h e r e s

de fardamento

que este Arsenal

pessoas

distribuirá

n'essas

relacionadas

e equipamento em 3 turnos

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 19 jun. 1877, p. 3.

condições,

e, sim,

peças pessoas

e matriculadas

para a saber:

o exercício do número

como do

ano

1 a 50

159

no dia 4; para

2° do número

51 a 100 no dia 10; e para

dia 15, tudo do mês de outubro

vindouro,

3° de 101 a 152

no

encontravam-se:

D. Maria The reza Ferreira, D. Idalina Lino de Faria Vasconcellos, D. Maria Izabel de Souza Malheiros,D. Maria Ramos de Oliveira, D. Sebastiana de Goffredo, D. Felicidade Januária da Cunha Hartman, D. Mariana Rosa Gaudie Ley, D. Rita Nobre da Silva, D. Catharina Maria Xavier227. O s i g n i f i c a d o de idôneo

e decente

r e l a c i o n a v a - s e ao status,

c a r g o s de d i s t i n ç ã o que f a m i l i a r e s d e s s a s m u l h e r e s , m a r i d o s ou

ou aos parentes,

o c u p a v a m nos s e t o r e s a d m i n i s t r a t i v o e m i l i t a r , a e x e m p l o do s e c r e t á r i o do Arsenal

de

Guerra

em

Cuiabá,

Ildefonso

Mendes

Malheiros

Filho,

que

p o s s i v e l m e n t e t i v e s s e p a r e n t e s c o c o m u m a das c o s t u r e i r a s , D. M a r i a I s a b e l de S o u s a M a l h e i r o s . D e v e m o s a t e n t a r p a r a o f a t o de que t o d a s as c o s t u r e i r a s a c i m a r e f e r i d a s r e c e b i a m a d e s i g n a ç ã o de Dona,

sinal de d i s t i n ç ã o

E s s a d i s t i n ç ã o não p a r e c i a , no e n t a n t o , e x i m i - l a s de t r a b a l h a r em

social. espaços

p ú b l i c o s ; a n t e s , sim, p a r e c i a d a r - l h e s o s u p o r t e de q u e n e c e s s i t a v a m

nas

d i v e r s a s á r e a s em que a t u a v a m . A d i v e r s i f i c a ç ã o de a t i v i d a d e s d e s e n v o l v i d a s

por e s s a s

mulheres

j u s t i f i c a v a c e r t a m e n t e que e n c o n t r a s s e m r a z õ e s p a r a v i v e r na p a r ó q u i a S e n h o r Bom Jesus. Esta afirmativa torna-se

válida

igualmente

para a

população

m a s c u l i n a , q u e , de certa f o r m a , e n c o n t r o u n o v a s o p o r t u n i d a d e s de t r a b a l h o , p o n t u a d a s p e l a i n c i p i e n t e u r b a n i z a ç ã o o c o r r i d a no m u n i c í p i o de C u i a b á . Ainda

que

o recenseamento

de

1872

tenha

revelado

a

relativa

e x p r e s s i v i d a d e das a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s dos s e t o r e s s e c u n d á r i o e t e r c i á r i o , o p o r t u n i d a d e s de t r a b a l h o a t r a í a m

t a n t o h o m e n s c o m o m u l h e r e s de p a r ó q u i a s

vizinhas. Nesse aspecto,

polarizava

Cuiabá

a atenção

p a r ó q u i a s v i z i n h a s , e m e s m o das m a i s d i s t a n t e s .

226

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 19 jun. 1877, p. 3.

dos habitantes

das

160

A e n t r a d a p o u c o e x p r e s s i v a de e s t r a n g e i r o s p r o c e d e n t e s de p a í s e s e u r o p e u s , b e m c o m o l a t i n o - a m e r i c a n o s , s o m a d a à p r e s e n ç a s i g n i f i c a t i v a de n e g r o s e de i n d í g e n a s ,

c o n t r i b u i u p a r a a m a n u t e n ç ã o do p e r f i l da p o p u l a ç ã o

da p a r ó q u i a : a p r e d o m i n â n c i a das p e s s o a s de cor. D e v e m o s a t e n t a r a i n d a p a r a o u t r o f a t o r que p o d e ter c o n t r i b u í d o p a r a e x p l i c a r a m e s t i ç a g e m na p a r ó q u i a em e s t u d o : a alta t a x a de i l e g i t i m i d a d e . S e g u n d o M A R C Í L I O , nas cidades,

devido

mestiçagem

à forte

concentração

foi consideravelmente O

quadro

de escravos

maior

seguinte,

do que nas áreas

relativo

quanto à filiação, indica a expressiva

e à alta

à

população

taxa

de

ilegitimidade,

a

.22S

rurais.

recenseada

filhos

grandes

em

1890,

i l e g í t i m o s , t a n t o na

p a r ó q u i a c o m o no m u n i c í p i o de C u i a b á e no E s t a d o . E s s a o b s e r v a ç ã o é f o r t e i n d í c i o que nos dirige ao q u e s t i o n a m e n t o da t e n d ê n c i a da i l e g i t i m i d a d e n a s d é c a d a s a n t e r i o r e s na p a r ó q u i a e m e s t u d o .

Q U A D R O N° 21 POPULAÇÃO RECENSEADA QUANTO À FILIAÇÃO. PARÓQUIA SENHOR B O M J E S U S D E C U I A B Á - 1890 Localidades

Legítimos

Ilegítimos

Legitimados

Expostos

População total

Paróquia Senhor Bom Jesus

8.361

5.496

434

16

14.507

Município de C u i a b á

10.336

7.016

446

17

17.815

Estado

56.243

35.287

1.235

62

92.827

F O N T E : R e c e n s e a m e n t o do B r a s i l de 1 8 9 0 . M a t o G r o s s o .

Ao c e n t r a r m o s

nossa

atenção

no f e n ô m e n o

da

ilegitimidade

i n t e r i o r da p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á ,

228

MARCÍLIO, Maria Luiza. op. cit., p. 206.

no

d e v e m o s ter

13 1

em c o n t a o p r ó p r i o p e r f i l d e s s a p o p u l a ç ã o : m e s t i ç a e m sua m a i o r i a , r e s u l t a n t e do encontro

de b r a n c o s , c o l o n i z a d o r e s e c o l o n o s , n e g r o s a f r i c a n o s , e s c r a v o s e

f o r r o s , e de í n d i o s . O f o c o de n o s s a paróquia

Senhor

Bom

a t e n ç ã o e s t á v o l t a d o p a r a o e s t u d o da b a s t a r d í a na

Jesus

de

Cuiabá,

em

busca

das

especificidades

h i s t ó r i c a s que p e r m i t i r a m a r e p r o d u ç ã o d e s s a p r á t i c a no c o n t i n g e n t e

mais

a m p l o da p o p u l a ç ã o . B u s c a r e m o s a p r e e n d e r o s e n t i d o do m a t r i m ô n i o e de relações

de c o n j u g a l i d a d e

inseridas

s o c i e d a d e de e r r a n t e s e a v e n t u r e i r o s . ilegitimidade,

o

desdobramento

da

no

quadro

dos

tratos

Concomitantemente análise

comportará

ilícitos,

numa

à abordagem a

inserção

da das

m u l h e r e s p o b r e s em r e l a ç õ e s f a m i l i a r e s f u n d a d a s em u n i õ e s c o n s e n s u a i s e viabilizadoras

da b a s t a r d í a .

PARTE III

A REMISSÃO DO PECADO

A história do abandono de crianças é a história secreta da dor feminina. Renato Pinto V e n â n c i o

III.l O PRINCÍPIO DA FRONTEIRA E A FRONTEIRA DE PRINCÍPIOS

No B r a s i l , a e x e m p l o do q u e se v e r i f i c a na E u r o p a , ~ as d i s c u s s õ e s a c e r c a da f a m í l i a p a s s a m p e l a t e n t a t i v a de a p r e e n s ã o do s e n t i d o de f a m i l i a t r a d i c i o n a l e m o d e r n a . E n t r e c r u z a m - s e , n e s s e s d e b a t e s , d e s d e u m a h i s t o r i a da moral

e

de

seus

códigos

abrindo

reflexões

acerca

de

temas

como

prostituição,2"' adultério,231 casamentos clandestinos, expostos e ilegítimos, m o r a l c r i s t ã e I n q u i s i ç ã o , 2 3 3 até u m a h i s t ó r i a das e s t r a t é g i a s f a m i l i a r e s na t r a n s m i s s ã o de legados, 2 3 4 e até a medicalização

da f a m í l i a . 2 3 3

D e um lado, h i s t o r i a d o r e s q u e a c e i t a m e d e f e n d e m a h i p ó t e s e da f a m í l i a p a t r i a r c a l e, de o u t r o , a q u e l e s q u e q u e s t i o n a m tal t e s e , n e g a n d o a aplicação

da universalidade

brasileira

colonial.

De

da f a m í l i a p a t r i a r c a l tal

questionamento,

para

toda

a

estudos236

sociedade emergiram

d e m o n s t r a n d o , p a r a o u t r a s r e g i õ e s b r a s i l e i r a s , c o m o a de São P a u l o do s é c u l o X I X , a e x i s t ê n c i a de f a m í l i a s c o m e s t r u t u r a s m a i s s i m p l i f i c a d a s e c o m m e n o r

229

STONE, Lawrence. Familia, sexo y matrimonio en Inglaterra - 1500-1800. 3. ed. México : Fondo de Cultura Económica, 1990; FLANDRIN, Jean-Louis. Familias: parentesco, casa e sexualidade na sociedade antiga. Lisboa : Estampa, 1992; MacFARLANE, Alan. Historia do casamento e do amor. São Paulo : Companhia das Letras, 1991. 230

RAGO, Margareth. Os prazeres da noite: prostituição e códigos da sexualidade feminina em São Paulo (1890-1930). Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1991. 231

LIMA, Lana Lage da Gama (org.). Mulheres, adúlteros e padres: história e moral na sociedade brasileira. Rio de Janeiro : Dois Pontos, 1987. 232

VENANCIO, Renato Pinto. Nos limites da sagrada família, ilegitimidade e casamento no Brasil colonial. In: VAINFAS, Ronald (org.) História e sexualidade no Brasil. Rio de Janeiro : Graal, 1986. p. 107-23. 233

VAINFAS, Ronaldo. Trópicos dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro : Campus, 1989. 234

SAMARA, Eni de Mesquita. As mulheres, o poder e a família: São Paulo - século XIX. São Paulo : Secretaria de Estado da Cultura. 1989; SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1984; MATTOSO, Kátia de Queirós. Família e sociedade na Bahia do século XIX. São Paulo : Corrupio, 1988. 235

COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro : Graal, 1983.

236

SAMARA, Eni de Mesquita. A família brasileira. São Paulo : Brasiliense, 1983.

164

n ú m e r o de i n t e g r a n t e s . E s s a s t e s e s a p o n t a m , c o m o e l e m e n t o s de m o d e r n i d a d e nas

famílias

nuclear; casais

de

estruturas

simplificadas,

os

seguintes

traços:

o

caráter

a i n s u b m i s s ã o das e s p o s a s a t r a v é s da i n i c i a t i v a de p e d i r d i v ó r c i o ; os que

viviam juntos

e

resistiam

ao

casamento

na

Igreja

Católica;

m u l h e r e s c o m o c h e f e s de f a m í l i a , etc. Contrária a essas duas concepções,

insurge-se

u m a outra, 2 3 7

que

n e g a os e l e m e n t o s a c i m a c i t a d o s c o m o i n d i c a d o r e s de m o d e r n i d a d e m a s sim integrados

à

vida

Corresponderiam procedimentos

social

do

Antigo

às r e m i n i s c ê n c i a s , típicos

da

família

Regime

e

à

legislação

da

época.

a d u l t e r a d a s e a d a p t a d a s , de n o r m a s e e

do

casamento

medievais

cristãos,

a t u a l i z a d o s p e l o C o n c i l i o de T r e n t o . S i t u a d a na v e r t e n t e q u e n e g a a u n i v e r s a l i d a d e da f a m í l i a p a t r i a r c a l para toda a s o c i e d a d e b r a s i l e i r a , e n c o n t r a - s e a p e r s p e c t i v a de

CORRÊA,238

s u g e r i n d o a c o e x i s t ê n c i a de v á r i a s f o r m a s de o r g a n i z a ç ã o f a m i l i a r d e n t r o de um m e s m o e s p a ç o s o c i a l , p e r m e a d a s de e l e m e n t o s c o m o t e n s ã o , m a n i p u l a ç ã o , invenção e resistência. I m p o r t a n t e dar c o n t a da e x i s t ê n c i a de u m a t e n s ã o p e r m a n e n t e e n t r e os i m p o s i t o r e s de u m a o r d e m p r é - d e f i n i d a , r e p r e s e n t a d o s p e l o E s t a d o e p e l a I g r e j a , e a q u e l e s que a ela r e s i s t e m c o t i d i a n a m e n t e . H á q u e se c o n s i d e r a r , s e g u n d o a a u t o r a , as m a n e i r a s p e l a s q u a i s as f o r m a s e c o n ô m i c a s , s o c i a i s e p o l í t i c a s a r t i c u l a m - s e e n t r e si nas d i f e r e n t e s á r e a s de o c u p a ç ã o da s o c i e d a d e b r a s i l e i r a . T a i s o b s e r v a ç õ e s p e r m i t i r i a m , s e g u n d o e l a , d e t e c t a r os e l e m e n t o s de o r d e m r e p r e s e n t a d o s p e l a f a m í l i a p a t r i a r c a l e os e l e m e n t o s de d e s o r d e m , as

uniões

irregulares,

tão

presentes

na

sociedade

brasileira

colonial.

C O R R Ê A c o l o c a em um m e s m o p a t a m a r a i m p o r t â n c i a a s s u m i d a na s o c i e d a d e

237

ALMEIDA, Angela Mendes. O gosto do pecado: casamento e sexualidade nos manuais de confessores dos séculos XVI a XVII. Rio de Janeiro : Rocco, 1992. 238

CORREA, Marisa. Repensando a familia patriarcal brasileira. In: ARANTES, Antonio Augusto et alii. Colcha de retalhos: estudos sobre a família no Brasil. Campinas : Ed. da UNICAMP, 1993. p. 15-42.

165

brasileira

pela

família

patriarcal

e pelas

f a m i l i a r . E s t a s são v i s t a s , c o m o formas e caracterizadas

como

elementos

c o m o e l e m e n t o de ordem.

demais

formas

alternativas

de desordem,

Os e l e m e n t o s de

de

organização

de vivenciar

o

cotidiano

em c o n t r a p o s i ç ã o à p r i m e i r a , ordem

e os de

desordem,

s e g u n d o ela, p o d e m ser v i s l u m b r a d o s m e d i a n t e e s t u d o s das e s p e c i f i c i d a d e s da o c u p a ç ã o do e s p a ç o s o c i a l b r a s i l e i r o . A proposta

de

estudo

apontada

por

t r a t a m e n t o dado, no p r e s e n t e e s t u d o , aos t e m a s

CORRÊA família

e

vem

reafirmar

ilegitimidade.

o De

um lado, por a p o n t a r o e m b a t e p e r m a n e n t e e n t r e o p ú b l i c o e o p r i v a d o . E, de outro,

por

ressaltar

a diversidade

de e s t r u t u r a s

familiares

existentes

no

B r a s i l , c o n e c t a d a s e n t r e si p e l o E s t a d o , em p e r í o d o s h i s t ó r i c o s d e t e r m i n a d o s . O c a s a m e n t o e r i g i u - s e no B r a s i l c o m o u m a i n s t i t u i ç ã o i m p o s t a t a n t o p e l a I g r e j a q u a n t o p e l o E s t a d o . P e l a I g r e j a , a t r a v é s de um d i s c u r s o sobre a m o r a l c o n j u g a l e a i n d i s s o l u b i l i d a d e do c a s a m e n t o .

A t r a v é s do E s t a d o , o

c a s a m e n t o c r i s t ã o i m p ô s - s e c o m o u m a n e c e s s i d a d e da e l i t e d i r i g e n t e , v i s a n d o , por

um

lado,

assegurar

seus

direitos

patrimoniais.

Toda

essa

discussão

e n v o l v e n o r m a s , r e g r a s , p r á t i c a s e d i s c u r s o s e m a n a d o s do E s t a d o i m p e r i a l

e

da I g r e j a , em d i r e ç ã o à f a m í l i a e à p o p u l a ç ã o c o m o um t o d o . I n s e r e - s e n u m q u a d r o de t r a n s f o r m a ç õ e s q u e e n v o l v e t a n t o a e c o n o m i a q u a n t o a s o c i e d a d e b r a s i l e i r a no f i n a l do s é c u l o p a s s a d o . A n t e s , p o r é m , r e a f i r m e - s e que j á a p a r t i r da s e g u n d a m e t a d e modernidade,

do s é c u l o X I X , e m

nome

da civilização

e da

a p o p u l a ç ã o p a s s a v a a ser alvo do E s t a d o i m p e r i a l , com v i s t a s a

a d e q u á - l a aos novos p a d r õ e s c u l t u r a i s e u r o p e u s . E n q u a n t o as c i d a d e s e r a m reurbanizadas,

a população

passava

a ser d i s c i p l i n a d a ,

reeducada.

s e n t i d o , a f a m í l i a c o n s t i t u í a - s e no c e r n e das p r e o c u p a ç õ e s das

Nesse

autoridades

civis. Daí a p r e o c u p a ç ã o c o m a c o n d u t a m o r a l , c o m a s a ú d e , com a v i d a s e x u a l dos c a s a i s e dos s o l t e i r o s .

166

"y ^Q Para

COSTA" ,

naquele

momento,

dois

alvos

deveriam

ser

a t i n g i d o s . O p r i m e i r o d e l e s , a f a m i l i a v e r d a d e i r a m e n t e c o n s t i t u i d a : pai, m ã e e f i l h o s . Ou s e j a , u m a d e t e r m i n a d a f a m í l i a — a u r b a n a — c u j o c a s a l h o u v e s s e contraído famílias.

núpcias

na I g r e j a .

O outro

alvo:

aqueles

que

não

constituíam

E n q u a d r a v a m - s e n e s s a c a t e g o r i a t o d o s os q u e n ã o h a v i a m se c a s a d o

na I g r e j a mas c o n v i v i a m sob o m e s m o t e t o c o m os f i l h o s . Ou, a i n d a , o c a s a l que e s p o r a d i c a m e n t e havia

gerado

filhos.

se e n c o n t r a v a e q u e , p o r t a n t o , n ã o v i v i a j u n t o , Do

rol

das

r e l i g i o s a s não se e x c l u í a m , p o r t a n t o ,

preocupações

das

autoridades

mas

civis

e

os c o n c u b i n o s .

E s s a a t i t u d e do E s t a d o i m p e r i a l em n o r m a t i z a r as f a m í l i a s r e v e l a a e x i s t ê n c i a de um c o t i d i a n o a v e s s o aos c ó d i g o s da m o r a l b u r g u e s a e da m o r a l c r i s t ã . E x e m p l o d i s s o s e r i a m os f i l h o s i l e g í t i m o s . As c r i a n ç a s i l e g í t i m a s e abandonadas

constituíram-se,

ao

longo

dos

séculos,

em

fenômeno

c a r a c t e r í s t i c o da s o c i e d a d e b r a s i l e i r a . E s s e f e n ô m e n o é r e v e l a d o r de u n i õ e s consensuais estáveis e esporádicas I g r e j a e do E s t a d o ,

não sintonizadas

que enfatizavam a importância

legitimação

da

prole.

Revelador,

reconhecida

pela

reconhecida

pela sociedade.

Igreja

Católica

também, e

não

de

c o m os d i s c u r s o s

da

do c a s a m e n t o p a r a

a

uma

regulada

sexualidade pelo

Estado,

não mas

A e x i s t ê n c i a dos i l e g í t i m o s se a p r e s e n t a v a p a r a a I g r e j a C a t ó l i c a como

uma

questão

teológica

e

social

a

ser

resolvida,

mesmo

que

c o n t r a d i t o r i a m e n t e . A q u e s t ã o dos i l e g í t i m o s e a b a n d o n a d o s t r a n s f o r m a - s e em p o n t o de p r e o c u p a ç ã o

p a r a o E s t a d o b r a s i l e i r o a p e n a s a p a r t i r da s e g u n d a

m e t a d e do s é c u l o X I X , q u a n d o a c o n d u t a s e x u a l da p o p u l a ç ã o é t o m a d a ao m e s m o t e m p o c o m o o b j e t o de a n á l i s e e a l v o de i n t e r v e n ç ã o . T a n t o a I g r e j a , q u a n t o o E s t a d o , no B r a s i l , a p r e s e n t a m u m a c e r t a i d e n t i f i c a ç ã o ao n í v e l de d i s c u r s o : a n e c e s s i d a d e de c o n t r o l e da v i d a s e x u a l d o s c a s a i s c o m o

algo

positivo. Nesse sentido, Igreja e Estado eram pragmáticos. Ambos defendiam

239

COSTA, Jurandir Freire, op. cit., p. 225-229.

167

a necessidade procriação, enquanto

amor

no i n t e r i o r instituição

higiênica.

O

medicalizado, dos filhos, Isso

de o

cristã,

Estado pois

do

do c a s a l casamento.

vinculado

A Igreja

à sexualidade

na d e f e s a

do

proclamava

o

discurso

da família

s i g n i f i c a v a que ao E s t a d o

sexual

do

casal

dos cônjuges

e o progresso interessava,

naquele

instituição

disciplinado dependia

populacional

e à

casamento

e o Estado projetando-o como uma

do bom desempenho

a moralidade

estar

a

saúde

nação.240

da

momento,

e

a

família

r e s p o n s á v e l , c o m p r o m i s s a d a c o m n o v a s a t i t u d e s d i a n t e da vida dos f i l h o s e dos novos p a p é i s p r o p o s t o s pela

polícia

médica.

A I g r e j a C a t ó l i c a , por sua

vez, c o n t i n u a v a r e a f i r m a n d o o i d e a l de f a m í l i a c r i s t ã . Esse

casal

disciplinado,

essa

família

responsável,

eram

i n t e i r a m e n t e s u b o r d i n a d o s à f i g u r a do pai. D a s m u l h e r e s , a l é m da s u b m i s s ã o , e s p e r a v a - s e que e x e r c e s s e m p l e n a m e n t e a f u n ç ã o de p r o c r i a r e t r a n s m i t i s s e m aos f i l h o s v a l o r e s m o r a i s e é t i c o s . D o s f i l h o s , que a c e i t a s s e m t o d a s as r e g r a s sem p r o c u r a r q u e s t i o n á - l a s , constituía-se,

por

um

lado,

tanto afetiva quanto disciplinar. Essa em

unidade

agenciadora

e

família

transmissora

do

p a t r i m ô n i o e, por o u t r o , em u n i d a d e r e p r o d u t o r a da e s p é c i e h u m a n a . D i a n t e de tal r e p r e s e n t a ç ã o , c a b e r i a ao c a s a l

sacramentado

r e g u l a r sua v i d a s e x u a l e

a de seus f i l h o s , o b e d e c e n d o às n o r m a s da m o r a l c r i s t ã . Se a f u n ç ã o p r i m e i r a do c a s a m e n t o c o n s t i t u í a - s e na p r o c r i a ç ã o , e v i t a r f i l h o s era c o n s i d e r a d o p e l a m o r a l c r i s t ã c o m o d e s o b e d i ê n c i a e, p o r t a n t o , p e c a d o . Reafirme-se, portanto,

q u e um

dos

instrumentos

utilizados

pela

I g r e j a para a t i n g i r a n o r m a t i z a ç ã o da p o p u l a ç ã o c o n s t i t u í a - s e na i m p o s i ç ã o dos s a c r a m e n t o s — c a s a m e n t o e b a t i s m o — e, por c o n s e g u i n t e , na v a l o r i z a ç ã o da f a m í l i a cristã. Em c o n t r a p o s i ç ã o ,

a população

d e s a f i a r as leis da I g r e j a C a t ó l i c a .

Suas práticas

cotidianamente eram

parecia

circunscritas,

no

t e r r e n o das c o n t r a v e n ç õ e s , às n o r m a s d i t a d a s p e l a I g r e j a e p e l o E s t a d o d i a n t e do c a s a m e n t o s a c r a m e n t a d o , c o n v e r t i d o em b a l u a r t e da f a m í l i a e r e g u l a d o r

239

COSTA, Jurandir Freire,op.c i t . ,p. 225-229.

168

das u n i õ e s c o n j u g á i s , e que d e v e s u s t e n t a r a propagação para

o culto

e honra

de Deus.1AX

humana,

A i m p o s i ç ã o da p r á t i c a dos

ordenada sacramentos

a d q u i r e o s e n t i d o de c o n t r a p e s o s o c i a l i z a d o r s i g n i f i c a t i v o q u e , ao tempo,

podia

compensar

CONSTITUIÇÕES

a

Primeiras

se da i n s t i t u c i o n a l i z a ç ã o

dispersão

social

do Arcebispado dos

e

controlar

da Bahia

dispositivos

o

mesmo

rebanho.

As

(1707) encarregaram-

que v i s a v a m

dar

combate

aos

d e l i t o s da c a r n e e n t r e um h o m e m e u m a m u l h e r . A a b o r d a g e m do t e m a da f a m í l i a , no â m b i t o da p a r ó q u i a

Senhor

B o m J e s u s de C u i a b á , tem m e n o s o i n t e r e s s e em d e t e c t a r a e x i s t ê n c i a

de

c a r a c t e r í s t i c a s p a t r i a r c a i s do q u e em p e r c e b e r c o m o as e s p e c i f i c i d a d e s l o c a i s p e r t i n e n t e s à r e g i ã o de M a t o G r o s s o t e r i a m f o r j a d o f o r m a s de o r g a n i z a ç ã o f a m i l i a r a l t e r n a t i v a s e qual o n í v e l de a c e i t a ç ã o d o s f i l h o s p a r t e das f a m í l i a s c u i a b a n a s em suas m a i s v a r i a d a s Pensar

o

significado

do

nascer

l e g í t i m o s por

performances.

fora

do

matrimônio

em

uma

s o c i e d a d e e s c r a v i s t a c o m o a de M a t o G r o s s o , na s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o XIX,

e de sua a c e i t a ç ã o , ou n ã o , em u m a das p a r ó q u i a s m a i s a n t i g a s e

p o p u l o s a s , c o m o a do S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , d e m a n d a a p r e m i s s a de que t o d a r e l a ç ã o p r e c i s a e s t a r s e m p r e e n c a r n a d a sociais. crianças

Essa

reflexão encontra

batizadas

registros (43,5%)

como

sentido

naturais

na

diante referida

em p e s s o a s e

do e x p r e s s i v o paróquia,

ou

contextos

número seja,

de

4.269

no c o n j u n t o de r e g i s t r o s de b a t i s m o s do p e r í o d o em e s t u d o .

E s s a e v i d ê n c i a l e v a - n o s a q u e s t i o n a r a e f i c á c i a dos p r o p ó s i t o s da I g r e j a , que a p r e g o a v a a n e c e s s i d a d e n o r m a t i z a d o r a do c a s a m e n t o nas r e l a ç õ e s c o n j u g á i s , b e m c o m o o v i g o r da j u s t i ç a e c l e s i á s t i c a na o b j e t i v a ç ã o de s u a s práticas.

Uma

primeira

inferência

possível

é a de

que

a população

da

p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o n ã o d i f e r i a das d e m a i s no t o c a n t e ao c u m p r i m e n t o

241

CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia de 1707, ordenadas por Sebastião Monteyro da Vide (arcebispo). Livro I, Título LXII, p. 107.

169

das

normas

impostas

pela

Igreja

Católica.

Ao

atentarmos

para

estudos

r e a l i z a d o s em o u t r a s p a r ó q u i a s p a r a os s é c u l o s X V I I I e X I X , v e r i f i c a m o s que o í n d i c e de i l e g i t i m i d a d e

de c r i a n ç a s b a t i z a d a s na p a r ó q u i a

Senhor

Bom

J e s u s , era c o m e x c e ç ã o de V i l a R i c a , em M i n a s G e r a i s , m a i s e l e v a d o que os d e m a i s , c o n f o r m e d e m o n s t r a m o s no q u a d r o 22. 2 4 2

242

Lembramos que nos cálculos percentuais para a paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá não estão incluídas as crianças expostas, enquanto que nos percentuais referentes às outras paróquias sim, o que evidencia, ainda mais, quão elevados eram os nascimentos de crianças ilegítimas na paróquia mato-grossense. Por outro lado, em razão de os registros de livres e escravos, na paróquia Senhor Bom Jesus, terem sido lavrados em conjunto, abstraímos as crianças ilegítimas tanto da população livre como da escrava, indistintamente.

170

Q U A D R O N ° 22 A I L E G I T I M I D A D E EM D I V E R S A S P A R Ó Q U I A S B R A S I L E I R A S S É C . XVIII E X I X %

LOCALIDADE

P a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á ( 1 8 5 3 - 1 8 9 0

43,5

V i l a R i c a ( M G ) , 1804 2 4 3

46,3

Curitiba, 1801-1850

27,4

S. J. dos P i n h a i s ( P R ) 1 7 7 6 - 1 8 5 2

25,2

São P a u l o , 1 7 4 1 - 1 8 4 5

23,2

Lapa (PR), 1770-1829244

22,4

J a c a r e p a g u á ( R J ) , s e g u n d a m e t a d e séc. X V I I I

245

Ubatuba (SP) 1800-1830

18,5 16,4

Sorocaba (SP) 1679-1845

9,5

S a n t o A m a r o ( S P ) , s e g u n d a m e t a d e séc. X V I I I

5,5

São C r i s t ó v ã o ( R J ) , 1 8 5 8 - 1 8 6 7 2 4 6

243

33,9

COSTA, Iraci del Nero da. Minas Gerais: estruturas populacionais típicas. São Paulo : Edec,

1982. p. 44. 244

Para as localidades paranaenses, respectivamente: KUBO, Elvira Mari. Aspectos demográficos de Curitiba, 1801-1850. Curitiba, 1974. Tese (Mestrado em História) - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, p. 76. SBRAVAT1, Myriam. Sño José dos Pinhais, 1776-1852 - uma paróquia paranaense em estudo. Curitiba, 1980. Tese (Mestrado em História) - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, p. 95. VALLE, Marília de Souza. Nupcialidade e fecundidnde das famílias da Lapa, 1770-1829. São Paulo, 1993. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo. p. 321. 245

VENÂNCIO, Renato P. Ilegitimidade e concubinato no Brasil colonial: Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo : CEDHAL-USP, 1986 (Estudos CEDHAL n. 1). p. 12. 246

Para as localidades paulistas, respectivamente: MARCÍLIO, Maria Luiza A cidade de São Paulo: povoamento e população - 1750-1850. São Paulo : Pioneira, 1974. . Caiçara: terra e população estudo de demografía histórica e da história social de Ubatuba. São Paulo . Paulinas/CEDHAL, 1986. p. 210. BACELLAR, Carlos de Almeida Prado. A criança exposta nos domicílios de Sorocaba, séculos XVIII e XIX. In: Família e sociedade em uma economia de abastecimento interno (Sorocaba, séculos XVIII e XIX). São Paulo, 1995. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo, Universidade de São Paulo. VENÂNCIO, Renato P. Ilegitimidade e concubinato no Brasil colonial: Rio de Janeiro e São Paulo. São Paulo : CEDHAL-USP, 1986 (Estudos CEDHAL n. 1). p. 12. KUSNESOF, Elizabeth Anne. Ilegitimidade, raça e laços de família no Brasil do século XIX: uma análise da informação de censos e batismos para São Paulo e Rio de Janeiro. In: NADAL1N, Sérgio Odilon el alii. História e população: estudos sobre a América Latina. São Paulo : ABEP, 1990. p. 164-174.

171

As r e s p o s t a s

para

os f a t o r e s q u e p o s s i b i l i t a r a m

o fenômeno

da

i l e g i t i m i d a d e nas m a i s v a r i a d a s r e g i õ e s b r a s i l e i r a s , t a n t o no p e r í o d o c o l o n i a l como

no

imperial,

especificidades

tornam-se

históricas

de

possíveis cada

somente

qual.

Estudos

quando têm

analisadas

as

relacionado

os

i l e g í t i m o s ao s i s t e m a e s c r a v o c r a t a e à p r o m i s c u i d a d e d o s e s c r a v o s . M u l h e r e s negras estavam nesse sistema sujeitas a gerar c o m o de seus companheiros,247

t a n t o f i l h o s de seus s e n h o r e s ,

E s s a e x p l i c a ç ã o , por si só, não se s u s t e n t a ,

p o i s as p e s q u i s a s d e m o n s t r a m q u e m u l h e r e s l i v r e s t a m b é m g e r a v a m f i l h o s ilegítimos. N o c a s o da L a p a , V A L L E e x p l i c a a p r e s e n ç a dos i l e g í t i m o s c o m o decorrência tropeiros

da p a s s a g e m

passavam

ilegitimidade moradores

em regra

seja de

dos tropeiros

vilas

duas

elevada,248 distantes,

vezes

na r e g i ã o : por

Segundo

Considerando

ano na região, a

dificilmente

autora, os

que

os

é natural

que a

fato

serem

pelo

tropeiros

de

reconheciam

a

p a t e r n i d a d e de f i l h o s n a s c i d o s d e s s a s u n i õ e s f o r t u i t a s . VALLE d e m o n s t r a q u e julho, agosto,

setembro

e o u t u b r o e r a m os m e s e s em que m a i s

incidiam

n a s c i m e n t o s de i l e g í t i m o s na r e g i ã o da L a p a , u m a v e z q u e , e n t r e o u t u b r o e j a n e i r o , os t r o p e i r o s aí se e n c o n t r a v a m i n v e r n a n d o s u a s t r o p a s .

247

O levantamento realizado por BEOZZO, para seis paróquias de Florianópolis: N. S. do Desterro, Camboriú, Tijucas, S. Antonio de Lisboa, S. Miguel e S. José, entre 1875 a 1888, mostrou que a proporção de filhos legítimos e naturais entre escravos era de 1,1% e de 98,9%, respectivamente. Como outro exemplo tomamos o levantamento efetuado na Igreja N. S. da Conceição da Serra, no Espírito Santo, entre 18721888, com 13,3% e 86,7%, para batizados de legítimos e ilegítimos, filhos de escravos.(BEOZZO, José Oscar (org ). A Igreja e a escravidão (1875-1888). In: História geral da América Latina; História da Igreja no Brasil. Petrópolis : Vozes, 1980. T. II/2, p. 257-95). 248

VALLE, Marília de Souza. op. cit., p. 321.

172

Para

Curitiba,

paróquia

Nossa

Senhora

da Luz,

BURMESTER249

a f i r m a que o a l t o í n d i c e de i l e g i t i m i d a d e na p o p u l a ç ã o l i v r e , no p e r í o d o e n t r e 1751 e 1800, d e m o n s t r a as p a r t i c u l a r i d a d e s de u m a r e g i ã o de t r â n s i t o , c o m d e s l o c a m e n t o c o n s t a n t e dos h a b i t a n t e s da p a r ó q u i a , s e j a p e l a sua e x t e n s ã o , s e j a p e l o p r ó p r i o c o m é r c i o i t i n e r a n t e do g a d o ou m e s m o em r a z ã o das g u e r r a s s u l i n a s . A i n d a p a r a C u r i t i b a , K U B O a t r i b u i tal f a t o ao a s p e c t o m o r a l

da

p o p u l a ç ã o na p r i m e i r a m e t a d e do s é c u l o X I X : o relaxamento

se

pode

verificar

pela

Mato

alta freqüência

Grosso

parece

sido

um

c o m p o s t o de e l e m e n t o s v a r i a d o s d e t e c t a d o s mistura

plasmou-se

o

fenômeno

da

como

ilegítimos.25°

de filhos ter

moral

caldeirão

em

efervescência,

e m o u t r a s r e g i õ e s , e de c u j a

ilegitimidade.

Encontravam-se

p r e s e n t e s t a n t o os f a t o r e s e c o n ô m i c o s q u e i m p u l s i o n a v a m

a população

ali de

o u t r a s r e g i õ e s b r a s i l e i r a s a m i g r a r , q u a n t o os o b s t á c u l o s p r ó p r i o s de á r e a s e m p r o c e s s o de p o v o a m e n t o . A l é m dos f a t o r e s c i t a d o s p a r a M a t o G r o s s o e a q u e l e s e s p e c í f i c o s das d e m a i s l o c a l i d a d e s e s t u d a d a s , d e v e s o m a r - s e o c a r á t e r da o c u p a ç ã o de u m a r e g i ã o de f r o n t e i r a , que d e s d e os p r i m o r d i o s i m p r i m i u m a r c a s t í p i c a s à região. Segundo

VOLPATO,

a condição

de

fronteira

implicara

para

a

m e t r ó p o l e p o r t u g u e s a , ao l o n g o do s é c u l o X V I I I , t r a n s f o r m a r a c a p i t a n i a de M a t o G r o s s o n u m a e s p é c i e de antemural

do Brasil.

Visava, assim, conter o

a v a n ç o e s p a n h o l sobre t e r r a s p o r t u g u e s a s s i t u a d a s à m a r g e m d i r e i t a do rio G u a p o r é , e r e c o r r i a no e m p r e e n d i m e n t o t a n t o a h o m e n s l i v r e s q u a n t o a p o v o s indígenas.

A Capitania

deveria

não

249



conter

as tentativas

de

avanço

BURMESTER, Ana Maria de Oliveira. A população de Curitiba no século XVIII - 17511800, segundo os registros paroquiais. Curitiba, 1974. Tese (Mestrado em História) - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, p. 78. 2Í0

KUBO, Elvira Mari. op. cit., p. 106.

173

espanhol,

mas

tornando-se

tentar

de fato

ocupar

o antemural

Tais atribuições característica

de

as áreas do

ainda

ocupadas

pelos

vizinhos

Brasil.251

contribuíram

itinerância

não

por a c e n t u a r

pronunciada,

em

naquela

decorrência

população

da

prática

a do

r e c r u t a m e n t o da p o p u l a ç ã o m a s c u l i n a . A p r á t i c a da c o n v o c a ç ã o c o m p u l s ó r i a da p o p u l a ç ã o m a s c u l i n a e x t r a p o l o u o s é c u l o X V I I I . M a r c o u , i g u a l m e n t e , a p o p u l a ç ã o no s é c u l o XIX, q u a n d o a d e f e s a da p r o v í n c i a se f a z i a n e c e s s á r i a . A p o p u l a ç ã o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á i n s e r i a - s e nas contingências

da s i t u a ç ã o

de

f r o n t e i r a e, j u n t a m e n t e

com

a das

demais

p a r ó q u i a s , s o f r i a as c o n s e q ü ê n c i a s na m e d i d a em que s o b r e elas i n c i d i a a p o l í t i c a do r e c r u t a m e n t o . R e s s a l t e - s e q u e a c o n d i ç ã o de f r o n t e i r a e x i g i a a o r g a n i z a ç ã o de um a p a r a t o m i l i t a r p e r m a n e n t e . Há que se a t e n t a r , p o r é m , p a r a o f a t o de q u e área

recaía

portuguesa raia

o ônus

sobre

da preservação

os habitantes

investia

menos

dos

de Mato

limites Grosso

no aparelhamento

do domínio em razão

da fronteira

português

de que a oeste

na Coroa

do que

na

Sul152 Essa

próprias

condição,

à sociedade

preocupada

segundo

VOLPATO,

mato-grossense

com a defesa

do território

sempre

imprimiu

temerosa

português253

características

de ataques

espanhóis,

e c o m a g u e r r a c o n t r a as

populações indígenas. V i v e r na f r o n t e i r a o e s t e s i g n i f i c a v a , t a n t o p a r a o h o m e m

comum

c o m o para o a b a s t a d o , p a r t i c i p a r e / o u , c u s t e a r d e s p e s a s de e x p e d i ç õ e s c o n t r a e s p a n h ó i s e í n d i o s assim c o m o d e v a s s a r os s e r t õ e s em b u s c a de r i q u e z a s e de mão-de-obra.

Através

251

dos

discursos

das

autoridades

civis

e

militares,

VOLPATO, Luiza R. Ricci. A conquista da terra no universo da pobreza. São Paulo : Hucitec, 1987. p. 38. 252 253

Idem, ibid. Ibid., p. 51.

174

c o n s t a t a - s e que a p r á t i c a de r e c r u t a m e n t o no s é c u l o X I X é j u s t i f i c a d a p e l a n e c e s s i d a d e de c o n t e r os a t a q u e s i n d í g e n a s s o b r e as c i d a d e s e p o v o a ç õ e s . N o s r e l a t ó r i o s dos p r e s i d e n t e s da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , os h o m e n s r e c r u t a d o s e r a m r e f e r i d o s c o m o cidadãos.

Senão vejamos:

em vista da deficiência de força tanto de polícia, como de linha, resultante quanto a esta do grande número de escusas por conclusão de tempo, incumbi ao Dr. Chefe de Polícia de organizar nesta capital e na Chapada, com toda a urgência, duas forças de cincoenta cidadãos cada um para operarem em baixo e em cima da serra, afim de baterem as partidas e irem as malocas dos coroados. Cada cidadão receberia uma arma de fogo e a precisa munição, e perceberia uma diária, alimentando-se à sua custa. 254 P a r a t a l , o r d e n a v a - s e ao Dr. Chefe de Polícia que, por intermédio de seus agentes, fizesse sentir aos moradores dos districtos sujeitos às agressões dos índios a necessidade de estarem vigilantes e de se estabelecerem o mais próximo possível uns dos outros, formando grupos de, pelo menos seis, afim de que possam mutuamente defenderse contra qualquer ataque dos mesmos índios.253

Diante militar,

das

circunstâncias,

como

a

citada

deficiência

de

força

as a u t o r i d a d e s m a t o - g r o s s e n s e s r e c r u t a v a m t a m b é m c i d a d ã o s c o m u n s ,

f o s s e m s o l t e i r o s ou não. E s s e s c i d a d ã o s r e c r u t a d o s d e v e r i a m o b e d e c e r a u m r o t e i r o t r a ç a d o , c o m p r e v i s ã o de p e r c u r s o nas m a t a s , por dias, s e m a n a s e m e s e s . N e s s e s e n t i d o , s e g u i r um d e t e r m i n a d o r o t e i r o para a t i n g i r as m a l o c a s dos i n d í g e n a s i m p l i c a v a n ã o f i x a r - s e em l u g a r a l g u m ... demorando-se nestes

lugares Se

até dous dias, para considerarmos

que

refazer-se

de víveres

a prática

do

e descansar

recrutamento

da

apenas 256

população

m a s c u l i n a a d u l t a era c o n s t a n t e e q u e , não r a r a m e n t e , os p e r i g o s daí a d v i n d o s ceifavam a vida daqueles homens, podemos inferir a

254

e x i s t ê n c i a de f a m í l i a s

MATO GROSSO. Presidente da província (1879-1881: Barão de Maracaju). Relatório do presidente da província de Mato Grosso. Cuiabá : Typ. J. J. R. Calhão, 1881. Microfilme. 255

Ibid.

256

Ibid.

175

d i r i g i d a s por m u l h e r e s . N e s t e s e n t i d o , a c o n d i ç ã o de f r o n t e i r a e a r e t i r a d a h o m e n s do i n t e r i o r

de

de suas f a m í l i a s p o d e m ter f o r j a d o u m a r e o r g a n i z a ç ã o e

s u b s t i t u i ç ã o de p a p é i s e n t r e h o m e n s e m u l h e r e s . P o d e m ter f o r j a d o t a m b é m na p o p u l a ç ã o c a r a c t e r í s t i c a s de v i d a m a l e á v e i s e a m o l d a d a s às c i r c u n s t â n c i a s do i m p r e v i s t o e do i m e d i a t o . N e s s e a s p e c t o , as c o n d i ç õ e s de p r i v a c i d a d e

não

p o d i a m ser d i f e r e n t e s , e s t a n d o s e m p r e s u j e i t a s aos e m b a t e s do c o t i d i a n o . Os f i l h o s i l e g í t i m o s , na p a r ó q u i a

S e n h o r B o m J e s u s de

Cuiabá,

r e v e l a r i a m a m a n i f e s t a ç ã o de u m a p r i v a c i d a d e p l a s m a d a p e l a s e s p e c i f i c i d a d e s do u n i v e r s o s o c i a l do q u a l f a z i a m p a r t e . U m a p r i v a c i d a d e em que os sentimentos

de

isolamento

e

solidão,

tão

presentes

nos

mesmos

primordios

da

o c u p a ç ã o da f r o n t e i r a o e s t e , nas p o p u l a ç õ e s das g u a r n i ç õ e s f o r t i f i c a d a s , 2 5 7 a i n d a se f a z i a m s e n t i r na s e g u n d a m e t a d e de s é c u l o XIX. Podemos afirmar que a ilegitimidade nessa paróquia não encontra e x p l i c a ç õ e s t ã o - s o m e n t e na e s c r a v i d ã o , m a s na c o n j u g a ç ã o de v á r i o s f a t o r e s que a c a b a r i a m por g e r a r no c o t i d i a n o das p e s s o a s u m a ordem

menos rígida

q u a n d o c o m p a r a d a aos p a d r õ e s c u l t u r a i s e u r o p e u s . I n d i s c u t í v e l n e g a r q u e , na s e d i m e n t a ç ã o d e s s a m a n i f e s t a ç ã o de p r i v a c i d a d e , t e v e p a r c e l a de i n f l u ê n c i a a s u p e r i o r i d a d e n u m é r i c a da p o p u l a ç ã o m e s t i ç a e n e g r a , t a n t o no s é c u l o X V I I I q u a n t o no X I X , p o r é m não d e v e m o s a t r i b u i r e x c l u s i v a m e n t e à e s c r a v i d ã o o f e n ô m e n o da i l e g i t i m i d a d e em M a t o G r o s s o . O r e g i s t r o de c r i a n ç a s i l e g í t i m a s , f i l h a s de l i v r e s e f o r r o s , r a t i f i c a o p r e s s u p o s t o de que n e s s a p r o v í n c i a e, e m p a r t i c u l a r , na p a r ó q u i a em e s t u d o , a b a s t a r d í a n ã o era a d s t r i t a à e s c r a v a s . M a i s q u e isso, i m p l i c a a f i r m a r q u e , e n t r e as m u l h e r e s l i v r e s , ela não e s t a v a r e s t r i t a às das c a m a d a s Neste

universo

estavam

presentes

mulheres

de

famílias

da

populares.

elite,

cujas

h i s t ó r i a s de v i d a p o d e m ser r e s g a t a d a s p e l o e s t u d o da g e n e a l o g í a de M a t o

257

NOVAIS, Fernando A. Condições da privacidade na colônia. In: SOUZA, Laura de Mello e (org.). História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo : Companhia das Letras, 1997. 1, p. 13-39. p. 25.

176

G r o s s o . D i s c u t i r a p a t e r n i d a d e dos i l e g í t i m o s i m p l i c a e v i d e n c i a r i g u a l m e n t e a responsabilidade

de

homens

destacados

nas

atividades

de

segurança

das

f r o n t e i r a s , de d e f e s a da p r o p r i e d a d e e da t e r r a , i l u s t r e s m i l i t a r e s , p o r t a n t o , de famílias igualmente ilustres. São s i g n i f i c a t i v o s

os e x e m p l o s

do

capitão

da G u a r d a

Nacional

P e d r o A l c â n t a r a de S o u s a O s ó r i o 2 5 8 e do p a d r e F r a n c i s c o B u e n o de S a m p a i o , c u j a s h i s t ó r i a s se c r u z a m .

O capitão Pedro Alcântara

naturais. A primeira, Leopoldina

d e i x o u duas

filhas

de A l c â n t a r a O s ó r i o , h a v i d a com

Isabel

M a r i a de C a s t r o , c a s o u - s e c o m E d u a r d o R e s e n d e F e r n a n d e s de P i n h o ,

de

P o r t u g a l , de c u j a u n i ã o n a s c e r a m 5 f i l h o s . D e s s a p r o l e c o n s t a v a m H e r m e l i n d a C e l i n a de P i n h o , q u e aos 15 a n o s de i d a d e d e s p o s o u o

tenente-farmacêutico

do E x é r c i t o A r t u r C a r i n o P i n h e i r o ( B a h i a ) ; Z u l m i r a P i n h o de A l e n c a r , c a s a d a c o m o a l f e r e s do E x é r c i t o P e d r o A m é r i c o de A l e n c a r ( A l a g o a s ) ; o c a p i t ã o de f r a g a t a E d u a r d o R e s e n d e F e r n a n d e s de P i n h o J ú n i o r , c a s a d o com L a u r a de P i n h o , f i l h a do m a j o r F r a n c i s c o P o m p e u de B a r r o s e M a r i a P o m p e u de B a r r o s . A o u t r a f i l h a n a t u r a l , J o s e f a O l í m p i a de S o u s a O s ó r i o , t e v e 4 f i l h o s com o padre

Francisco

Bueno

de

Sampaio,239

capelão-tenente

do

Exército

e

t e s o u r e i r o da I r m a n d a d e do S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , na g e s t ã o de 1842. A f a m í l i a G a u d i e Ley, t r a d i c i o n a l Maria

de A l e l u i a ,

viveu

na h i s t ó r i a m a t o - g r o s s e n s e ,

experiência

semelhante.

Maria

através

de A l e l u i a

de fora

c a s a d a com o c o m e n d a d o r A n t ô n i o T o m á s de A q u i n o C o r r e i a J ú n i o r , n e t o do padre Joaquim Gonçalves Dias Goulão, que convivera com Eugênia

Maria

C a r d o s o , de c u j o l o n g o r e l a c i o n a m e n t o n a s c e r a m v á r i o s f i l h o s , entre eles o c o r o n e l A n t ô n i o T o m á s de A q u i n o C o r r e i a . Os e x e m p l o s de J o s e f a O l í m p i a de S o u s a O s ó r i o , f i l h a n a t u r a l do c a p i t ã o da G u a r d a N a c i o n a l P e d r o A l c â n t a r a de S o u s a O s ó r i o , e do t e n e n t e -

258

ALENCAR, Adauto. Roteiro genealógico de Mato Grosso. Cuiabá : [s.n.], [199-]. v. II, p.

259

ALENCAR, Adauto. op. cit., v. II, p. 28ss.

27ss.

177

c o r o n e l Antonio T o m á s de A q u i n o C o r r e i a , p e r m i t e m que c o n s t a t e m o s

uma

t e n d ê n c i a de r e p r o d u ç ã o d e s s a p r á t i c a no i n t e r i o r das f a m í l i a s , n o t a d a m e n t e nas dos m i l i t a r e s . A e x e m p l o , o c o r o n e l J o ã o P o u p i n o C a l d a s , a l f e r e s da L e g i ã o de M i l í c i a s em 1812 e q u e s e r v i a no F o r t e de C o i m b r a sob o c o m a n d o de seu c u n h a d o b r i g a d e i r o J e r ó n i m o J o a q u i m N u n e s , d e c l a r o u ter um f i l h o n a t u r a l com M a r i a B e r n a r d a da C o n c e i ç ã o . E s s e f i l h o , o c o r o n e l J o ã o A u g u s t o C a l d a s , n a s c i d o em 1836, d e s p o s o u , em 1863, A n g é l i c a d o s S a n t o s L e q u e , f i l h a n a t u r a l , r e c o n h e c i d a , do c o m e n d a d o r A n t ô n i o F e r r e i r a dos S a n t o s L e q u e e H i l d e b r a n d i n a de J e s u s F e r r e i r a e Sá. D e s d e 1813, e n t r e t a n t o , o c o r o n e l J o ã o P o u p i n o C a l d a s e s t a v a c a s a d o c o m L u i s a da Silva A l b u q u e r q u e , f i l h a do s a r g e n t o - m o r A n t ô n i o da S i l v a A l b u q u e r q u e . 1820 o coronel J o ã o P o u p i n o C a l d a s J ú n i o r , Nacional

em 1857 e que

Desse casamento nasceu

em

p r o m o v i d o a a l f e r e s da G u a r d a

c o n f e s s o u deixar duas filhas naturais reconhecidas,

h a v i d a s com Ana F r a n c i s c o de A r a ú j o . São elas: Ana P o u p i n o C a l d a s , c a s a d a em

1864, com o t e n e n t e do E x é r c i t o ,

depois capitão, Joaquim Maria

do

E s p í r i t o Santo, p r o c e d e n t e de São P a u l o , e L u i s a P o u p i n o C a l d a s , c a s a d a em 1871, c o m João H e n r i q u e de C a r v a l h o , o r i u n d o do R i o G r a n d e do Sul. 2 6 0 A certidão exarada pelo padre José Joaquim dos Santos Ferreira, e s c r i v ã o da C â m a r a e da A u d i t o r i a E c l e s i á s t i c a do B i s p a d o de C u i a b á , em um processo

de d i v ó r c i o ,

vem

ratificar

não



a idéia

da

reincidência

de

i l e g í t i m o s , mas a a c e i t a ç ã o s o c i a l de tal e s t a d o , sob as b ê n ç ã o s da I g r e j a : aos sete d'Agosto de mil oitocentos e cincoenta e três annos, nesta cathedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, pelas cinco horas e meia da tarde, feitas as deligências do estilo, em minha presença e das testemunhas Júlio Baptista da Costa e Constantino Lopes Pereira, se recebeo em Santo Matrimônio com palavras de presente Marcelino dos Santos, filho natural de Joana Maria de Asevedo, de vinte e quatro annos, com Gertrudes Maria Ferreira, filha natural de Luisa de Sousa Ribeiro, de vinte annos: ambos naturaes deste Bispado e

260

ALENCAR, Adauto. op. cit., v. II, p. 128ss.

178

freguezes desta Parochia e receberão as Benções Nupciaes na forma do Ritual Romano.261 A a n á l i s e dos f i l h o s i l e g í t i m o s será f e i t a na r e l a ç ã o c o m os f i l h o s legítimos,

legitimados

e expostos.

Nesse

sentido,

através

do q u a d r o

que

segue, i n i c i a - s e a c l a s s i f i c a ç ã o dos b a t i z a n d o s c o m o um t o d o . O q u a d r o 24 p e r m i t e v i s u a l i z a r o c o n j u n t o de b a t i z a d o s r e g i s t r a d o s na p a r ó q u i a

Senhor

B o m J e s u s de C u i a b á , e n t r e 1853 e 1890. U m a p r i m e i r a i n f o r m a ç ã o diz r e s p e i t o à d i s t r i b u i ç ã o da p o p u l a ç ã o b a t i z a d a entre l e g í t i m o s , n a t u r a i s , l e g i t i m a d o s , e x p o s t o s e i n d í g e n a s . P o d e - s e o b s e r v a r que os l e g í t i m o s e n a t u r a i s o c u p a v a m os p e r c e n t u a i s m a i s e l e v a d o s , com 5 4 , 6 % e 4 3 , 5 % , r e s p e c t i v a m e n t e . A

apresentação

dos

dados

relativos

aos

registros

de

filhos

i l e g í t i m o s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á p e r m i t i r á a c o m p a n h a r a e v o l u ç ã o desse s e g m e n t o , a s s i m c o m o dos l e g i t i m a d o s , e x p o s t o s e l e g í t i m o s , em r e l a ç ã o a um f a t o de r e l e v â n c i a na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o : a G u e r r a do P a r a g u a i . No q u e se r e f e r e à p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , a G u e r r a do P a r a g u a i d e v e ser c o n s i d e r a d a c o m o o p o n t o e x t r e m o de i t i n e r â n c i a

da

população

m a s c u l i n a , q u a n d o do r e c r u t a m e n t o de m i l h a r e s de s o l d a d o s .

261

LIBELO Civil de divórcio. Cuiabá. Juízo Eclesiástico da cidade de Cuiabá. 1864. Arquivo da Cúria Metropolitana. Caixa n° 11.

179

Q U A D R O N° 23 I D E N T I D A D E DOS B A T I Z A N D O S D A P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE CUIABÁ - 1853-1890 IDENTIFICAÇÃO Legítimos

N°ABSOLUTO 5.370

Naturais

% 54,7

4.269

43,5

Legitimados

25

0,3

Expostos

73

0,7

Indígenas

67

0,7

*Não c o n s t a o r e g i s t r o de i d e n t i d a d e e sim o ano de b a t i s m o TOTAL

16

0,1

9.820

100,0

F O N T E : Livros de r e g i s t r o de b a t i z a d o s . A r q u i v o da C ú r i a Cuiabá.

M e t r o p o l i t a n a de

Os d a d o s de b a t i z a d o s r e f e r e n t e s aos a n o s de d u r a ç ã o da G u e r r a do P a r a g u a i , assim c o m o dos r e g i s t r o s dos r e c o r t e s de seis a n o s a n t e r i o r e s ( 1 8 5 9 1864) e seis p o s t e r i o r e s ( 1 8 7 1 - 1 8 7 6 ) , p o d e m f o r n e c e r i n f o r m a ç õ e s a r e s p e i t o da p o s s i b i l i d a d e ou não de u m a r e l a ç ã o e n t r e o c o n f l i t o e n a s c i m e n t o s de c r i a n ç a s i l e g í t i m a s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á .

A constatação

p o s s í v e l , à p r i m e i r a v i s t a , o b s e r v a d o o q u a d r o 24, é a de e s t a b i l i d a d e r e l a t i v a de b a t i z a d o s , no r e c o r t e de d e z o i t o a n o s s i t u a d o s e n t r e 1859 a 1876. Comparando-se o b s e r v a m o s que (1871-1876),

os

dados

entre

os

legítimos

e

os

ilegítimos,

nos a n o s a n t e r i o r e s ( 1 8 5 9 - 1 8 6 4 ) e p o s t e r i o r e s à g u e r r a

registraram-se

índices

menores

de

batizados,

c o m p a r a d o s com os a n o s de g u e r r a ( 1 8 6 5 - 1 8 7 0 ) . P e r c e b e m o s , no

quando entanto,

a u m e n t o p o u c o s i g n i f i c a t i v o de b a t i z a d o s de i l e g í t i m o s na p a r ó q u i a d u r a n t e o

262

No recorte dos dezoito anos acima referidos consideramos o inicio da guerra como sendo o ano de 1865, em razão de esse ter sido o ano da efetiva participação de Mato Grosso no conflito bélico.

180

período

da

ocorreram

guerra,

entre

1% e 2%.

Nos

seis

anos

1.417 r e g i s t r o s ; nos seis a n o s p o s t e r i o r e s ,

anteriores

à

guerra

1.366 e, f i n a l m e n t e ,

d u r a n t e a g u e r r a , 1.476, c o m 4 6 , 4 % , 4 5 , 5 % e 4 7 , 6 % , r e s p e c t i v a m e n t e aos t r ê s recortes. D i a n t e de tais c o n s t a t a ç õ e s , é p o s s í v e l d e d u z i r q u e a m o v i m e n t a ç ã o de m i l i t a r e s o r g a n i z a n d o - s e p a r a p r o t e g e r

C u i a b á da i n v a s ã o p a r a g u a i a , a l é m

de g u a r d a r r e l a ç ã o com a b a s t a r d í a na p a r ó q u i a ,

alterou a tendência

n a s c i m e n t o s de c r i a n ç a s i l e g í t i m a s d u r a n t e o r e f e r i d o r e c o r t e .

de

181

TABELA N° 1 B A T I Z A D O S DE L E G Í T I M O S E I L E G Í T I M O S : P A R Ó Q U I A S E N H O R BOM JESUS DE CUIABÁ: 1853-1890 ANO

absoluto 1853 1854 1855 1856 1857 1858 1859 1860 186 1 1862 1863 1864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 187 1 1872 1873 1874 1875 1876 1877 1878 1879 1880 188 1 1882 1883 1884 1885 1886 1887 1888 1889 1890 N. C * TOTAL FONTE:

TOTAL

ILEGITIMOS

LEGITIMOS

%

absoluto

%

41 110 165 117 123 15 1 125 1 14 127 13 1

47 52 54 52 51 60 52 55 51 51

1 4 0 0 5 4 7 1 6 4

46 100 141 1 08 116 99 112 93 119 124

52 47 46 48 48 39 47 44 48 48

9 6 0 0 5 6 3 9 4 6

87 210 306 225 239 250 23 7 207 246 255

119 144 195 139 110 92 127 11 1 113 94 122 142 137 136 157 113 143 19 1 183 201 200 265 169 184 166 177 107 124 5 5.370

51 59 61 56 55 49 42 48 46 51 54 57 61 55 58 51 57 51 57 60 55 61 60 62 62 60 59 66 71 55

5 7 1 5 3 7 5 7 3 9 2 0 7 5 4 0 9 0 7 4 7 2 4 4 0 6 8 3 4 7

1 12 97 124 107 89 93 172 117 131 87 103 107 85 1 09 1 12 109 104 184 134 132 159 168 11 1 11 1 102 115 72 63 2 4.269

48 40 38 43 44 50 57 51 53 48 45 43 38 44 41 49 42 49 42 39 44 38 39 37 38 39 40 33 28 44

5 3 9 5 7 3 5 3 7 1 8 0 3 5 6 0 1 0 3 6 3 8 6 6 0 4 2 7 6 3

23 1 24 1 319 246 199 185 299 228 244 181 225 249 222 245 269 222 247 375 317 333 359 433 280 295 268 292 179 187 7 9.639

Livros de registro de batizados. Arquivo da Cúria M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á . * N . C : N ã o c o n s t a o a n o d o r e g i s t r o de i d e n t i d a d e n o s livros p a r o q u i a i s , e, s i m , s e e r a m l e g í t i m o s o u n a t u r a i s (ilegítimos).

182

Os d a d o s e x p r e s s o s no g r á f i c o q u e s e g u e de

indicam

uma tendência

s u p r e m a c i a de n a s c i m e n t o s de c r i a n ç a s l e g í t i m a s ao l o n g o de q u a s e t o d o

o período, imprimindo características próprias à

s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o

XIX. Há que se d e s t a c a r , e n t r e t a n t o , um p e r í o d o de i n v e r s ã o d e s s a t e n d ê n c i a , q u a n d o os n a s c i m e n t o s de i l e g í t i m o s t o r n a m - s e s u p e r i o r e s , e n t r e os a n o s de 1868 e 1871.

T a i s d a d o s r a t i f i c a m a e s t r e i t a r e l a ç ã o e n t r e a p r e s e n ç a de

militares e a

t e n d ê n c i a de p r e d o m i n â n c i a de n a s c i m e n t o s de i l e g í t i m o s na

p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á no r e c o r t e c r o n o l ó g i c o da c o n j u n t u r a bélica. Os í n d i c e s m a i s e l e v a d o s

de n a s c i m e n t o s de i l e g í t i m o s ,

contudo,

e s t ã o l o c a l i z a d o s no p e r í o d o p ó s - g u e r r a , e m p a r t i c u l a r e n t r e os a n o s de e

1884.

1880

A p a r t i r da s e g u n d a m e t a d e dos a n o s 80, o d e c l í n i o de n a s c i m e n t o s

de l e g í t i m o s t o r n a - s e u m a t e n d ê n c i a a c e n t u a d a , p o r sua vez a c o m p a n h a d a de comportamento

i d ê n t i c o dos n a s c i m e n t o s

p r e s e n ç a de c e l i b a t á r i o s ,

de i l e g í t i m o s .

A

considerável

b e m c o m o a s u p e r i o r i d a d e n u m é r i c a da p o p u l a ç ã o

feminina, cujos indicativos estão presentes nos dados censitários, que d e v e m ser c o n s i d e r a d o s n e s t e q u a d r o e x p l i c a t i v o .

são f a t o r e s

18:

F I G U R A N° 1

Batizados de legítimos e ilegítimos: Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. 1853-1890

FONTE: Tabela número 1

A e x i s t ê n c i a de i l e g í t i m o s d e l i n e i a uma t e n d ê n c i a q u e se i n s i n u a d u r a n t e t o d a a s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X I X , na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . Ou s e j a , t a n t o na d é c a d a registraram-se

batizados

de

de 50, q u a n t o nas de 60, 70 e 80,

ilegítimos

em

índices

elevados,

conforme

demonstra o quadro a seguir.

Q U A D R O N° 24 FREQÜÊNCIA

DE BATISiMOS DE C R I A N Ç A S N A T U R A I S D A P A R Ó Q U I A

SENHOR Décadas

BOM JESUS Batizados

DE C U I A B Á

1853 - 1890

Crianças naturais

%

1853 - 1860

1.797

815

45.4

1861 - 1870

2.477

1.154

46.6

1871 - 1880

2.505

1.131

45.1

1881 - 1890

3.041

1.169

38.4

TOTAL

9.820

4.269

43.5

F O N T E : Livros de r e g i s t r o de b a t i z a d o s . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá.

184

N a s três p r i m e i r a s

décadas

da s e g u n d a

metade

do s é c u l o

XIX,

r e g i s t r a - s e u m a m é d i a de 4 5 % de i l e g í t i m o s e n t r e os n a s c i t u r o s e, na d é c a d a de 80, de 38%. A p e s a r da e p i d e m i a de v a r í o l a o c o r r i d a em 1867, v e r i f i c a m o s um í n d i c e b a s t a n t e

alto, qual

s e j a , 4 6 , 6 % de b a t i z a d o s

de i l e g í t i m o s

na

d é c a d a de 60. L e m b r a m o s q u e t a n t o a g u e r r a q u a n t o a e p i d e m i a de b e x i g a f o r ç a r a m a p r e s e n ç a de f o r ç a s m i l i t a r e s na c a p i t a l . Tal p r e s e n ç a é e x p l i c a d a c o m o n e c e s s á r i a p a r a p r o t e g e r C u i a b á de p o s s í v e l i n v a s ã o p a r a g u a i a e p e l a a j u d a que os m i l i t a r e s d e v e r i a m p r e s t a r à p o p u l a ç ã o no e n f r e n t a m e n t o da epidemia. M O U T I N H O r e f e r e - s e à p r e s e n ç a do 2 o B a t a l h ã o de A r t i l h a r i a a P é , que c o l a b o r o u d u r a n t e t o d o o a n o de 1867 na r e m o ç ã o dos c o r p o s das v í t i m a s da v a r í o l a . O r e f e r i d o b a t a l h ã o era c o m p o s t o de s o l d a d o s v a c i n a d o s e v i n d o s de d i f e r e n t e s p r o v í n c i a s : Apesar perversidade

praticada

prestarão, motor

embora

por

à

'caridade'.

tão-somente

segundo

MOUTINHO,

encontravão, esse trabalho,

receber

atiravam

afim de poderem 30, 40...

seus

bem

que

alto

exigido

movidos

pela

pecúlios

os

requintada

socorros

de prompto

os

mais

pelo

corpos

ao

receber

que

fosse

o

insoffrega

serviço

prestado,

pois,

matto

que

e cobrassem

por

primeiro outros

ambição

E p o s s í v e l t a m b é m que f o s s e m m o v i d o s

p e l a i n s e n s i b i l i d a d e a p o n t o de n ã o r e s p e i t a r e m as

263

da mais

263

com brevidade

até 100S000.

e actos

bradão

immediato

E p o s s í v e l que tais homens visassem

tropelías

alguns,

o interesse

que os compelisse

das

MOUTINHO, José Joaquim Ferreira, op. cit., p. 105.

moças

que mendigavão

ao

185

desamparo

um abrigo

imediatos

ao

264

à sua

honra

da

guerra,

término

A e x i s t ê n c i a dos i l e g í t i m o s nos a n o s

no

entanto,

não

deve

ser

explicada

e x c l u s i v a m e n t e p e l a p r e s e n ç a das f o r ç a s m i l i t a r e s na c a p i t a l , c o m o quer nos faz e n t e n d e r M O U T I N H O

q u a n d o a p o n t a para o c r e s c i m e n t o

demográfico

o c o r r i d o no p e r í o d o : Concorreu para o desejo de augmentar a população a chegada de uma brigada que operou com bravura e denodo nas fronteiras do Apa, composta de uma mocidade ardente e sequiosa de prazeres, por causa das muitas privações pelos quaes havia passado no serviço agro e pesado da guerra, privações que começara a soffrer desde que encetára a viagem para a província, onde deu exuberantes provas de valor e patriotismo. Topou a vontade com o desejo.265 Podemos

dizer

que

os

agentes

históricos

nessa

província

de

f r o n t e i r a e s t a b e l e c i a m r e l a ç õ e s p r o p i c i a d o r a s ao n a s c i m e n t o de i l e g í t i m o s . É possível

pensar

que

o nível

de

aceitação

dessas

crianças

por

parte

da

p o p u l a ç ã o c o m o um t o d o , e r a p o s i t i v o . Tal h i p ó t e s e n ã o d e v e ser d e s c a r t a d a se a v e n t a r m o s q u e e s s a s c r i a n ç a s , a p e s a r de n ã o n a s c e r e m de um c a s a m e n t o l e g a l i z a d o p e l a I g r e j a C a t ó l i c a , p o d e r i a m c o n v i v e r c o m s e u s p a i s e, q u a n d o não,

poderiam

ser

criadas

por

suas

mães.

Uma

rede

de

solidariedade

p o s s i v e l m e n t e era f o r m a d a q u a n d o do n a s c i m e n t o de t a i s c r i a n ç a s , de m a n e i r a que as m ã e s p u d e s s e m c o n t a r u m a s c o m as o u t r a s . C o n t u d o o ato de e n j e i t a r c r i a n ç a s i l e g í t i m a s era r e f o r ç a d o

por

m u i t a s m u l h e r e s b r a n c a s , de b o a e s t i r p e , e r e s u l t a v a da c o n d e n a ç ã o m o r a l e f a m i l i a r dos a m o r e s i l í c i t o s . E n t r e as c o n t i n g ê n c i a s de um c o t i d i a n o real e as c o n d e n a ç õ e s à a t i t u d e s t o m a d a s e n q u a n t o c o n t r a v e n ç õ e s às n o r m a s da I g r e j a , foi t e c i d o um e s p a ç o de t r a m a , r e s i s t ê n c i a e e s t r a t é g i a s v o l t a d a s à s o l u c i o n a r os n a s c i m e n t o s i l e g í t i m o s . Em

muitos

casos,

quando

as

mulheres

brancas

viam-se

i m p o s s i b i l i t a d a s de a s s u m i r p u b l i c a m e n t e a b a s t a r d í a , as c r i a n ç a s i l e g í t i m a s

264

Ibid., p. 104.

265

Ibid., p. 110.

186

e r a m d e i x a d a s aos c u i d a d o s de p a r e n t e s , v i z i n h o s , p a d r i n h o s e, m e s m o , dos c l é r i g o s . E r a c o m u m r e c o r r e r - s e à c u m p l i c i d a d e das p a r t e i r a s e das e s c r a v a s mais

íntimas

do

ambiente

doméstico

e n c a m i n h a d a s aos d e s t i n a t á r i o s

para

que

tais

crianças

fossem

preestabelecidos.

U m a e x t e n s a r e d e de p a r e n t e l a e v i z i n h a n ç a a s s e n t a v a p r á t i c a s e estratégias

de m ã e s

r e l a ç õ e s de parentesco atitudes

de

pobres

para

espiritual,

solidariedade

e

socializar

os f i l h o s n a t u r a i s

através

de

v i a c o m p a d r i o . E s s a s r e l a ç õ e s , s e l a d a s por conivência,

deixaram

marcas

nos

espaços

r e c ô n d i t o s da f a m í l i a e e n r e d a r a m p r á t i c a s a n í v e l do p r i v a d o . Sua p r e s e n ç a corriqueira

em e s p a ç o s e s q u a d r i n h a d o s p e l a I g r e j a r e v e l a , s o b r e t u d o , n u a n c e s

de u m a c u l t u r a de r e s i s t ê n c i a p o p u l a r .

Assim,

as c i f r a s

pouco expressivas

de c r i a n ç a s e x p o s t a s p o d e m s i g n i f i c a r q u e as p e s s o a s a d o t a v a m u m a p o s t u r a m e n o s de n e g a ç ã o d e s s a s c r i a n ç a s do q u e de a c e i t a ç ã o . A 7 de a g o s t o de 1833, q u a n d o c o m p a r e c e u em c a r t ó r i o p a r a a d o ç ã o da f i l h a , J o ã o M a n u e l A u g u s t o L e v e r g e r d e c l a r o u n ã o ter pais v i v o s , n e m d e s c e n d e n t e s , e que o o b j e t i v o da a d o ç ã o era o r e c o n h e c i m e n t o de u m a f i l h a , t i d a com Inês de A l m e i d a L e i t e , c a s a d a . L e v e r g e r d e c l a r o u , a i n d a , q u e r e r a f i l h a em sua c o m p a n h i a , b e m c o m o q u e a c r i a n ç a se t o r n a s s e h e r d e i r a de s u a s f a z e n d a s . Ato c o n t í n u o , t o r n o u - s e a d i d o m i l i t a r no P a r a g u a i . 2 6 6 Inês de A l m e i d a L e i t e , f i l h a l e g í t i m a do c a p i t ã o B e n t o de T o l e d o P i z z a , n a t u r a l de P o r t o F e l i z , e de M a r i a n a de A s s u n ç ã o , de s a n g u e b o r o r o , é p r o t a g o n i s t a de um dos e p i s ó d i o s de f i l h o s n a t u r a i s . Aos 16 anos i n c o m p l e t o s , d e s p o s a r a o t e n e n t e J o s é da C o s t a L e i t e . E s t e , p r ó s p e r o c o m e r c i a n t e

em

C u i a b á , v i ú v o e c o m v á r i o s f i l h o s , era t a m b é m , n a t u r a l de P o r t o F e l i z . D e s s a u n i ã o , em 1816, n a s c e r a m v á r i o s f i l h o s . S e n h o r a de m u i t o p r e s t í g i o , I n ê s de

266

Lembramos que João Manoel Augusto Leverger galgou cargos e posições de relevância na sociedade cuiabana, com destaque para a presidência da província de Mato Grosso entre os anos de 1851 e 1857. Como vice-presidente, foi chamado a governar em 1863, 1865, 1866 e em 1869. O título de Barão de Melgaço foi-lhe outorgado em decorrência de sua participação na defesa da capital, durante a Guerra do Paraguai.

187

A l m e i d a L e i t e foi e l e i t a i r m ã de m e s a da I r m a n d a d e do S e n h o r Bom J e s u s de C u i a b á nos a n o s de 1825,

1841 e 1863 e, em

1840, o c u p o u o c a r g o

de

p r o v e d o r a da I r m a n d a d e . O t e n e n t e J o s é da C o s t a L e i t e , por sua vez, o c u p o u o c a r g o de e s c r i v ã o da m e s m a I r m a n d a d e em 1822, 1828 e 1836 e, em 1839, era um dos i r m ã o s de mesa. Inès m a n t e v e seu c a s a m e n t o até 1842, q u a n d o se tornou viúva. J o ã o M a n u e l A u g u s t o L e v e r g e r c o n t r a c e n a , de m a n e i r a p a r t i c u l a r , n e s s e e p i s ó d i o que m a r c o u a h i s t ó r i a da e l i t e c u i a b a n a . T e n e n t e da M a r i n h a b r a s i l e i r a , n a s c i d o em S a i n t - M a l ô , r e g i ã o da B r e t a n h a , c h e g o u a C u i a b á em 1830, o n d e c o n h e c e u Inés, j á c a s a d a , em t o r n o de s e u s 30 anos. E n t r e t a n t o , resultado

de u m a

relação

adúltera,

nasceu

Emilia,

exposta

na

casa

dos

p a d r i n h o s e, em s e g u i d a , a d o t a d a p e l o pai. N a c e r t i d ã o de b a t i s m o , de 1832, c o n s t a r a m c o m o p a d r i n h o s Dr. A n t ô n i o J o s é de A b r e u e T e o d o r a A n t o n i a de Freitas. A h i s t ó r i a de A u d e l i n o A u g u s t o C o r r e i a é, i g u a l m e n t e ,

reveladora

das e s t r a t é g i a s de a b a n d o n o de i l e g í t i m o s e n t r e as f a m í l i a s da elite.

Em

e s t a d o de s o l t e i r o , teve um f i l h o de n o m e C a i o , e x p o s t o p e l a m ã e em c a s a do p r o f e s s o r J o s é E s t ê v ã o C o r r e i a , seu avô. A u d e l i n o c o n t r a i u n ú p c i a s com o u t r a m u l h e r , H i l d a L i m a C o r r e i a , f i l h a do c o r o n e l J o ã o L i m a e de E u d ó x i a

da

G l ó r i a Lima. O recurso

aos p a r e n t e s

p a r e c e ter

sido

uma

solução

comum

e

r e c o r r e n t e no c u i d a d o do f i l h o i l e g í t i m o , e v i d e n c i a n d o que a f a m í l i a era o espaço, em geral, escolhido

para abrigar

os n a s c i d o s

f o r a do

casamento

f o r m a l . O c a p i t ã o C a e t a n o da Silva A l b u q u e r q u e J ú n i o r , p r i m o e m a r i d o de A n a J o a q u i n a G a u d i e de A l b u q u e r q u e , foi e x p o s t o em casa do c a p i t ã o N u n o Anastácio

Monteiro

provavelmente

sua

de tia.

Mendonça Era

filho

e

de

natural

Rosa do

da

capitão

Silva

Albuquerque,

Caetano

da

Silva

A l b u q u e r q u e e de M a r i a M a d a l e n a R a m o s , u n i d o s p o r l a ç o s de p a r e n t e s c o e, m a i s t a r d e , por l a ç o s c o n j u g á i s .

188

As

73 c r i a n ç a s e x p o s t a s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á ,

no t r a n s c o r r e r das d é c a d a s de 60 a 80, p e r f i z e r a m a p e n a s 0 , 7 % . R e s s a l t e - s e q u e nos anos 50 os p e r c e n t u a i s o b t i d o s f o r a m s u p e r i o r e s aos 1,0, 0,2 e 0,8 das d é c a d a s de 60, 70 e 80, r e s p e c t i v a m e n t e .

Q U A D R O N° 25 FREQÜÊNCIA

DE BATISMOS DE CRIANÇAS

PARÓQUIA

SENHOR

EXPOSTAS

DA

B O M J E S U S DE C U I A B Á

1853 - 1890 DÉCADAS

BATIZADOS

EXPOSTAS

%

1853 - 1860

1.797

23

1,3

1861 - 1870

2.477

19

0,8

1871 - 1880

2.505

06

0,2

1881 - 1890

3.041

25

0,8

Total

9.820

73

0,7

F O N T E : Livros de r e g i s t r o de b a t i z a d o s . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá. Os b a i x o s p e r c e n t u a i s de c r i a n ç a s e x p o s t a s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á

i n d i c a m q u e a p r á t i c a de c o l o c a r os r e c é m - n a s c i d o s na R o d a

n ã o e r a u t i l i z a d a na m e s m a brasileiras.

Portanto,

intensidade

as m u l h e r e s

c o m o o c o r r i a em o u t r a s

não tendiam

a abandonar

seus

regiões recém-

n a s c i d o s i l e g í t i m o s , mas c o n t i n g e n c i a l m e n t e d e i x a v a m - n o s aos c u i d a d o s de outrem. A p r e s e n ç a de c r i a n ç a s i l e g í t i m a s , c e l e b r a d a p e l o b a t i s m o , p r o p i c i a e s p a ç o s p o t e n c i a l i z a d o s , n ã o só

p a r a a i n t e r m e d i a ç ã o da r e l i g i ã o , c o m o p a r a

a p r e s e n ç a da I g r e j a no c o n t r o l e da v i d a c o t i d i a n a da f a m í l i a . M e s m o a s s i m , a r e c o r r ê n c i a ao s a c r a m e n t o do b a t i s m o , e n q u a n t o p r á t i c a de c e l e b r a ç ã o

do

n a s c i m e n t o , e v i d e n c i a , a n t e s de t u d o , q u e a o r i g e m i l e g í t i m a n ã o é b a r r e i r a p a r a a a c e i t a ç ã o das c r i a n ç a s e p a r a o r e c o n h e c i m e n t o da p a t e r n i d a d e . P a r a a l é m d i s s o , r e v e l a o p a r a d o x o de um r e a l q u e e s c a p a v a ao c o n t r o l e do o l h a r

189

v i g i l a n t e da I g r e j a , a i n d a q u e

sob sua m i r a nas m ú l t i p l a s c o n f i g u r a ç õ e s dos

espaços cotidianos. E m S a l v a d o r e R i o de J a n e i r o , a C a s a da R o d a da S a n t a C a s a de Misericórdia já

existia

desde

a primeira

metade

do s é c u l o

XVIII,

antes

m e s m o do A l v a r á de 24 de m a i o de 1783, de D. M a r i a I, q u e e s t e n d i a p a r a t o d a s as p o s s e s s õ e s u l t r a m a r i n a s p o r t u g u e s a s tal

benefício

público.

Apesar

dos i n s u f i c i e n t e s r e c u r s o s p a r a a t e n d e r às c r i a n ç a s a b a n d o n a d a s , a C a s a da R o d a , t a n t o em S a l v a d o r q u a n t o no R i o de J a n e i r o , n ã o d e s a p a r e c e u até o f i n a l do s é c u l o XIX. R e s s a l t a V E N Â N C I O q u e , nos t e m p o s de d i f i c u l d a d e s e c o n ô m i c a s , as

mères

célibataires

( m ã e s s o l t e i r a s ) p o d i a m r e c o r r e r à C a s a da

Roda,

r e v e l a n d o que o a b a n d o n o r e s u l t a v a da m i s é r i a e n ã o da r e p r e e n s ã o m o r a l aos amores

ilícitos.267 Segundo

o autor,

as

mulheres

enfrentavam

obstáculos

i n t r a n s p o n í v e i s ao t e n t a r a s s u m i r e s u s t e n t a r seus f i l h o s l e g í t i m o s ou n a s c i d o s f o r a do o r d e n a m e n t o m a t r i m o n i a l . D e s s e m o d o , a história crianças forçadas aspecto

é a história

a abandonar levantado

da dor feminina,268

secreta seus

pelo

rebentos

autor

em

de

c o m p a r t i l h a d a por m u l h e r e s

marcados

questão,

do abandono

em

pela

ilegitimidade.

relação

ao

Outro

abandono,

diz

r e s p e i t o à d i s s o l u ç ã o da f a m í l i a , s e n d o a m o r t e u m e l e m e n t o e s s e n c i a l

na

desagregação familiar. Ao Expostos

ter

que sido

consta,

na

instituída

e s p e c i f i c a m e n t e no a n o de a s s i m que causas, público,

pois

porém,

há mais

que de

paróquia apenas

em

estudo,

de

1833, n ã o era u t i l i z a d a p e l a p o p u l a ç ã o ,

tanto

16 anos

nenhum

há muito exposto

do

a Roda

XIX,

fizerão

metade

de

século

ignoro,

na p r i m e i r a

apesar

cessar tem

este

recebido

benefício a

Santa

267

VENÂNCIO, Renato Pinto. O abandono de crianças no Brasil antigo: miséria, ilegitimidade e orfandade. Revista de História, São Paulo, v. 14, 1995. p. 153-171. 268

Idem. Maternidade negada. In: PRIORE, Mary Del (org ). História das mulheres no Brasil. São Paulo : Contexto, 1997, p. 189.

190

Casa."

^69

Isso s i g n i f i c a d i z e r q u e em C u i a b á a e x i s t ê n c i a da R o d a t e v e c u r t a

d u r a ç ã o , p o s s i v e l m e n t e não m a i s que t r i n t a a n o s . Em n e n h u m dos crianças

tivessem

sido

r e g i s t r o s de b a t i z a d o s h o u v e m e n ç ã o de que as colocadas

na

Roda

e

sim

em

residências,

e s p e c i a l m e n t e n a q u e l a s dos f u t u r o s p a d r i n h o s :

Aos vinte e sete de março de mil oitocentos e cincoenta e sete annos, nesta Cathedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, baptisei e pus os Santos olhos a José, de vinte e quatro dias, exposto em casa de Antonio Fernandes dos Reis: farão padrinhos o mesmo Antonio Fernandes e Isabel Gomes, e para constar fiz este termo, que assignei. O Cura José Jacinto da Costa e Silva.270 e de c l é r i g o s , c o n f o r m e e x e m p l o q u e s e g u e : Aos sete dias do mês de junho de mil oitocentos e sessenta e seis na Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, o Cura José Jacinto da Costa e Silva, baptizou solenemente a Marianna. Nascida aos dias de do anno de N.S.J. Ch. de mil oitocentos e cincoenta e quatro. Filha de paes incógnitos. Foram seus padrinhos o snr. Cura José Jacinto da Costa e Silva. O vigário Cura João Leocádio da Rocha.271

Seria p o s s í v e l s u p o r q u e na c a p i t a l , e no c a s o na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , os p a i s e, p r i n c i p a l m e n t e , as m u l h e r e s n ã o a d o t a v a m a p r á t i c a de a b a n d o n a r seus r e c é m - n a s c i d o s

ilegítimos.

R o d a dos E x p o s t o s r e v e l a u m f o r t e i n d i c a t i v o de

Negar o espaço

da

a t i t u d e de n e g a ç ã o

do

e s p a ç o p ú b l i c o de c o n t r o l e da v i d a f a m i l i a r . P o d e r e s i d i r aí um e s p a ç o de t e c i t u r a de a t i t u d e s de r e s i s t ê n c i a à i n t e r m e d i a ç ã o da I g r e j a , r e s p a l d a d a s por p r á t i c a s de s o l i d a r i e d a d e q u e a c a b a m por agir c o m o a t e n u a n t e s de t e n s õ e s

269

MATO GROSSO. Presidente da província (1878-1879: Pedroza). Relatório com que o presidente da província de Mato Grosso, João José Pedroza, abriu a sessão da 22a Legislatura da respectiva Assembléia no dia I o de novembro de 1878. Cuiabá, Typ. do Liberal. 1878. 270

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. 1857 a 1861,

271

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. 1865 a 1869,

número 5. número 7.

191

e n t r e o p ú b l i c o e o p r i v a d o . T a n t o as b a i x a s c i f r a s de e x p o s t o s

parecem

c o n f i r m a r tal s u p o s i ç ã o , q u a n t o a p r ó p r i a r e f e r ê n c i a de q u e a R o d a não era utilizada. creados,

Nos

primeiros

chegando

annos

alguns

bancarão-se

orphãos

alguns

a tomar

estado

inocentes,

que

forão

casamento.272

pelo

As

r e l a ç õ e s s e l a d a s p e l o c o m p a d r i o são c o n v e r t i d a s em r e l a ç õ e s de p a r e n t e s c o g e n e r a l i z a d o e n t r e p a r e s de i d ê n t i c a c o n d i ç ã o , p a r a a l é m do casal, i n c l u s i v e e n t r e os s e t o r e s m a i s e m p o b r e c i d o s . O c o m p a d r i o se c o n v e r t e em a r e n a o n d e se d e f i n e a r e s i s t ê n c i a alianças

e. de u m a

cultural

moral

da p o p u l a ç ã o

que

guardava

através

distância

o b j e t i v a d a p e l o E s t a d o e pela I g r e j a . L í c i t o d i z e r q u e

de

da

um s i s t e m a

de

institucionalização

o compadrio

era um

dos e l e m e n t o s f u n d a n t e s de u m a s o l i d a r i e d a d e f o r j a d a no c o t i d i a n o de t a i s s e t o r e s da p o p u l a ç ã o . Há r e f e r ê n c i a s nos r e l a t ó r i o s m e n o r e s v i s t o s c o m o enjeitados e moral113

profissional Guerra,

onde

Companhia

eram de

de p r e s i d e n t e s

da fortuna

da p r o v í n c i a

que têm direito

a uma

sobre

educação

e que p a r a t a n t o e r a m e n c a m i n h a d o s ao A r s e n a l iniciados

Aprendizes

em

uma

Artífices

determinada e

da

profissão,

Companhia

de

através

de da

Aprendizes

M a r i n h e i r o s . O t e x t o a seguir p o d e m e l h o r e x p l i c a r a a f i r m a t i v a : É assaz difficil elevar-se ao seo estado completo aquella Companhia, e o motivo é o mesmo que em meo anterior Relatório annunciei-vos, isto é, que em todas as Províncias onde existe Arsenal de Guerra e nesta Companhia de Aprendizes, os paes e tutores preferem estas às de Aprendizes Marinheiros, porque destinão-se estes à um ramo de serviço, que mais tarde, os afastará da Província, e aquelles sem educação, crescem aprendendo um officio mechanico e continuam servindo

272

MATO GROSSO. Presidente da província (1878-1879: Pedroza). Relatório com que o Presidente da Província de Mato Grosso, João José Pedroza, abriu a sessão da 22a Legislatura da respectiva Assembléia no dia I o de novembro de 1878. Cuiabá : Typ. Do Liberal. 1878. 273

MATO GROSSO. Presidente da província (1879-1881: Galvão). Fala do vice-presidente da província de Mato Grosso, tenente-coronel José Leite Galvão, na abertura da 2a sessão da Assembléia Legislativa Provincial, em 3 de maio de 1881. Cuiabá : Typ. J. J. R. Calhão. 1881. Microfilme.

192

no mesmo Arsenal, com maior proveito para si e para suas famílias, sem o receio da separação até que chegaria a concluir o seo tempo 274 O b s e r v a - s e que t a n t o c r i a n ç a s sob a c u s t ó d i a de t u t o r e s ,

quanto

a q u e l a s sem pais e até m e s m o a q u e l a s q u e p o s s u í a m pais, e r a m e n v i a d a s m a i s p a r a a C o m p a n h i a de A p r e n d i z e s A r t í f i c e s e m e n o s p a r a a C o m p a n h i a

de

A p r e n d i z e s M a r i n h e i r o s . Na C o m p a n h i a de A p r e n d i z e s A r t í f i c e s os m e n o r e s certamente

poderiam

aprender

algum

ofício

manual

que

lhes

permitiria

g a r a n t i r s u s t e n t o p a r a si e, q u i ç á , p a r a sua f a m í l i a . O b s e r v a a i n d a M O U T I N H O s o b r e os m e n o r e s e n v i a d o s à C o m p a n h i a Aprendizes sociedade, filhos

se não fosse

da pátria,

estarião crime.

de A r t í f i c e s : Estes

arriscados

meninos

essa caridosa

quando

pela

à vida

serião

verdadeiros

e útil instituição

orphandade

da mendicidade,

parasitas

que os torna

ou pela

miséria

ou se arrojarião

em

de seus na estrada

na bons paes do

275

Os pais, s e j a v i v e n d o em f o r m a de u n i ã o c o n s e n s u a l livre, s e j a a m ã e s o z i n h a , p r e f e r i a m a r c a r com os c u s t o s de p e r m a n e c e r com os f i l h o s e m vez

de

colocá-los

na

Roda.

No

primeiro

caso,

quando

da

convivência

p e r m a n e n t e dos p a i s , os f i l h o s p o d e r i a m , e v e n t u a l m e n t e , ser l e g i t i m a d o s p e l o pai. R e g i s t r a d a c o m o filho

natural,

a c r i a n ç a p e r m a n e c i a n e s s e e s t a d o até q u e

os p a i s se c a s a s s e m na I g r e j a C a t ó l i c a , q u a n d o e n t ã o p a s s a v a ao e s t a d o de filho

legitimado. Na

paróquia

em

estudo,

raros

também

foram

os

casos

de

l e g i t i m a ç õ e s c o n f o r m e o que p r e g a v a a I g r e j a . C o n f o r m e se p o d e o b s e r v a r no q u a d r o 2 6 , r e g i s t r a m - s e , a p e n a s 25 c r i a n ç a s , p e r f a z e n d o 0 , 3 % d e n t r e os 9 . 8 2 0 b a t i s m o s . S u p õ e - s e que não p a r e c i a f a z e r p a r t e da p r e o c u p a ç ã o dos p a i s a

274

MATO GROSSO. Presidente da província (1876-1877: Fonseca). Fala com que o senhor general Hermes Ernesto da Fonseca abriu a 2a sessão da 21a Legislatura da Assembléia Provincial de Mato Grosso a 3 de maio de 1877. Cuiabá : Typ. da Situação, 1877. 263

MOUTINHO, José Joaquim Ferreira, op. cit., p. 105.

193

l e g a l i z a ç ã o do e s t a d o de s o l t e i r o p a r a o de c ô n j u g e p r o p r i a m e n t e d i t o , de acordo

com

as

exigências

independentemente

da

Igreja

Católica.

Até

da l e g i t i m a ç ã o via m a t r i m ô n i o ,

mesmo

porque,

o pai t i n h a u m a

outra

a l t e r n a t i v a : l e g i t i m a r o(a) f i l h o ( a ) m e d i a n t e t e s t a m e n t o l a v r a d o em c a r t ó r i o . Os b a i x o s p e r c e n t u a i s de c r i a n ç a s e x p o s t a s , e a n ã o - u t i l i z a ç ã o da R o d a , l e v a m - n o s a i n f e r i r a e x i s t ê n c i a de u m a f o r t e s o c i a b i l i d a d e i n s c r i t a no âmbito

do p r i v a d o .

utilizar-se

Os pais

do r e c u r s o

das

crianças

de a p o i a r - s e

indesejáveis

antes

pareciam

nas f a m í l i a s do que na R o d a .

Nesse

s e n t i d o , i g u a l m e n t e as m ã e s das c r i a n ç a s r e g i s t r a d a s c o m o n a t u r a i s p a r e c i a m t a n t o viver a c o m p a n h a d a s dos p a i s de s e u s f i l h o s c o m o v i v e r s o z i n h a s c o m os f i l h o s , n u m a i n d i c a ç ã o de f o r m a s de o r g a n i z a ç ã o f a m i l i a r a l t e r n a t i v a s . Há q u e se c o n s i d e r a r , a i n d a , que u m a p a r c e l a das c r i a n ç a s m o r r i a a n t e s m e s m o de ser b a t i z a d a e não era r e g i s t r a d a nos a s s e n t a m e n t o s p a r o q u i a i s .

Q U A D R O N° 26 FREQÜÊNCIA PARÓQUIA

DE B A T I S M O S DE C R I A N Ç A S

LEGITIMADAS

DA

S E N H O R B O M J E S U S D E C U I A B Á : 1853 - 1890 BATIZADOS

LEGITIMADAS

%

1853 - 1860

1.797

02

0,1

1861 - 1870

2.477

04

0,2

1871 - 1880

2.505

11

0,4

1881 - 1890

3.041

08

0,3

Total

9.820

25

0,3

DECADAS

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i z a d o s . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá. Interessa concebiam reincidentes

averiguar

filhos ilegítimos. não pertenciam

se, Com

por

mais

de

uma

base nas atas,

à elite

local

e sim,

c a m a d a s p o p u l a r e s . Nos r e g i s t r o s , as m u l h e r e s de

vez,

essas

mulheres

pode-se deduzir que

as

preponderantemente,

às

boa estirpe

r e c e b i a m do

194

p á r o c o a d e s i g n a ç ã o de Dona

e seus respectivos nomes eram

acompanhados

do n o m e do m a r i d o , pai de seus f i l h o s l e g í t i m o s . E s o b r e a o u t r a p a r c e l a de m u l h e r e s , as n ã o i d e n t i f i c a d a s Dona,

que e s t e e s t u d o se p r e n d e r á . N o p r i m e i r o m o m e n t o , c o n t u d o ,

presente a preocupação relações ilícitas.

c o m as u n i õ e s c o n s e n s u a i s ,

como estará

formas expressas

das

E m s e g u i d a , a a t e n ç ã o e s t a r á v o l t a d a p a r a as m u l h e r e s q u e

não l e v a v a m o s o b r e n o m e de f a m í l i a e sim n o m e s e v o c a t i v o s de s a n t o s ou de s i t u a ç õ e s de vida.

III.2 E R R A N T E S E A V E N T U R E I R O S : O S E N T I D O D O M A T R I M O N I O E OS T R A T O S I L Í C I T O S

Ao

discutir

os

padrões

concubinários

a m o r o s a s na c o l o n i a , V A I N F A S r e s s a l t a

nas

relações

sexuais

e

a v a l o r i z a ç ã o e d i f u s ã o s o c i a l do

c a s a m e n t o c r i s t ã o , bem c o m o p r o p õ e r e l e r o l u g a r que o c o n c u b i n a t o o c u p a v a na s o c i e d a d e c o l o n i a l .

E s s a r e l e i t u r a a b a r c a a m u l t i p l i c i d a d e de

amorosas

no

objetivadas

cotidiano

de

homens

e

mulheres.

relações Parte

do

p r e s s u p o s t o de que o c o n c u b i n a t o d e v e ser d e s v i n c u l a d o da i d é i a de que era, n e c e s s a r i a m e n t e , uma e s p é c i e de casamento

informal,

u m a c o n j u g a l i d a d e de

f a t o , que, c o m o tal, p o d i a s u b s t i t u i r o c a s a m e n t o c h a n c e l a d o p e l a I g r e j a . N o t e r r e n o dos passavam

ao l a r g o de

tratos

ilícitos,

entretanto,

havia relações

que

u m a s i t u a ç ã o c o n j u g a i . Os a m a n c e b a m e n t o s

entre

s e n h o r e s e e s c r a v a s , os c o n c u b i n a t o s de c l é r i g o s , as r e l a ç õ e s de a d u l t é r i o , p o d i a m até c o n v i v e r p a r a l e l a m e n t e ao m a t r i m ô n i o , p o r é m n ã o r e s u l t a v a m em n e n h u m a f o r m a de c o n j u g a l i d a d e s o c i a l m e n t e r e c o n h e c i d a . L O N D O Ñ O r e c o r r e à d o c u m e n t a ç ã o e c l e s i á s t i c a do s é c u l o X V I I I — v i s i t a s p a s t o r a i s nas c a p i t a n i a s de M i n a s G e r a i s , M a t o G r o s s o e São Paulo 2 7 7 — e nessa leitura decifra concubinado

ou estar

t r ê s n í v e i s de s i g n i f i c a d o s de c o n c u b i n a t o .

amancebado

eram termos que delineavam

um

Viver nível

p r i m e i r o . R e f e r i a m - s e a h o m e n s e m u l h e r e s q u e m a n t i n h a m t r a t o s f í s i c o s sem,

276

VAINFAS, Ronaldo. Moralidades brasílicas. In: SOUZA, Laura de Mello e. (org.) História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. São Paulo : Companhia das Letras, 1997. p. 222-73. (org.). História e sexualidade no Brasil. Rio de Janeiro : Graal, 1986. Trópico do pecado: moral, sexualidade e inquisição no Brasil. Rio de Janeiro : Campus, 1989. 277

LONDOÑO, Fernando Torres. Público e escandaloso: Igreja e concubinato no antigo Bispado do Rio de Janeiro. São Paulo, 1992. Tese (Doutorado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

196

contudo,

estar

permanentes.

casados,

e

Entendia-se

necessariamente

não

abrangiam

o concubinato

se

consumava

a

tanto

tratos

como

um

coabitação.

significado compreendia o adultério e a prostituição. portas

adentro

objetivava

concubinato

ou

concubinato

sobre

o

mancebía,

terceiro

nível

expressava

o qual não havia

a

de

vínculo O

quanto

permanente

segundo

nível

e de

Finalmente, a expressão

significado.

coabitação,

dúvidas.

episódicos

Associada

a

caracterizando

um

278

P e s q u i s a s r e c e n t e s têm m o s t r a d o q u e , a p e s a r da e s t r e i t a r e l a ç ã o com a e s c r a v i d ã o , as p r á t i c a s de c o n c u b i n a t o e x t r a p o l a r a m as r e l a ç õ e s e n t r e livres e e s c r a v o s ou f o r r o s . Há q u e se c o n s i d e r a r

um a m p l o l e q u e de

relações

amorosas classificáveis como concubinato e que envolviam forros e pobres, que se u n i a m e n t r e si ou senhor

e escrava,

que

andavam marcavam

juntos. a

As p r á t i c a s c o n c u b i n á r i a s e n t r e

íntima

relação

entre

escravidão

e

p r o s t i t u i ç ã o , se f a z i a m p r e s e n t e s t a m b é m e n t r e a p o p u l a ç ã o p o b r e . As solturas pela

Igreja,

escravidão. Primeiras

de s e n h o r e s e e s c r a v a s e r a m p l e n a m e n t e

impotente Tal

no

impossibilidade

do Arcebispado

da Bahia,

foi d e f i n i d o c o m o uma ilícita por tempo

considerável.

um homem

manter

278

combate

à

deitou onde

conversação

vigorosa lastro

parceria

do homem

concubinato-

nas

c o n c u b i n a t o ou

condenadas

CONSTITUIÇÕES amancebamento

com mulher

Foi c o n s a g r a d o c o m o p r o v a da t r a n s g r e s s ã o

em casa

alguma

LONDOÑO, ibid., p. 24.

mulher

que dele

engravidasse,

continuada o fato não

de

sendo

197

com

ele

casado

e desde

que

a mesma

fosse

livre.

279

Derivava

daí

o

p r e s s u p o s t o t á c i t o de que as e s c r a v a s da c a s a se c o n s t i t u í a m em a l v o da v o l ú p i a dos s e n h o r e s , que e x e r c i a m o l i v r e d i r e i t o de e n g r a v i d á - l a s , sem que se c o n f i g u r a s s e q u a l q u e r i n t e r d i ç ã o . Se nos c o m p ê n d i o s da I g r e j a a d e f i n i ç ã o do c o n c u b i n a t o , a i n d a que i m p r e c i s a , era s u f i c i e n t e m e n t e a m p l a c a r n e entre um h o m e m

p a r a c o m p o r t a r t o d o s os

e uma mulher,

na p r á t i c a

m ú l t i p l a s r e l a ç õ e s a m o r o s a s t o m a d a s c o m o tratos

tornou-se ilícitos.

d e l i t o s da

o espaço

É nesse

de

mesmo

e s p a ç o que se l o c a l i z a m as u n i õ e s i l e g í t i m a s a s s e n t a d a s em p r á t i c a s q u e , de certo modo,

se r e v e s t i r a m

de l e g i t i m i d a d e

social,

ainda

que

sempre

em

consensuais comportava

boa

c o n f r o n t o c o m a m o r a l da I g r e j a . A c o m p l e i ç ã o das r e l a ç õ e s l i v r e s e p a r t e da p o p u l a ç ã o e tais t r a t o s se

m u l t i p l i c a v a m à m a r g e m do p o d e r de

c o n t r o l e da I g r e j a . D e s s e m o d o , i l e g i t i m i d a d e e c o n c u b i n a t o são f a c e s de u m a só m o e d a .

S i g n o s e e m b l e m a s de t a i s p r á t i c a s s o c i a i s p o d e m ser

pontuados

se c o n s i d e r a d a s

as e s p e c i f i c i d a d e s

históricas

que

melhor

balizaram

o

p r o c e s s o de o c u p a ç ã o e de m o d e r n i z a ç ã o do M a t o G r o s s o . As f o n t e s nos m o s t r a m q u e , a i n d a no s é c u l o X I X , o c o n c u b i n a t o se r e v e l a e n q u a n t o r e l a ç ã o f a m i l i a r t í p i c a de s e t o r e s p o p u l a r e s ,

abrangendo,

m e s m o , p e s s o a s dos g r u p o s m é d i o s e da p r ó p r i a e l i t e . E m b o r a sem a c h a n c e l a da I g r e j a , sua t e c i t u r a é de casamento

279

u m a c o n j u g a l i d a d e q u e se e s p e l h a nos m o l d e s do

l e g í t i m o . E s s a s r e l a ç õ e s f a m i l i a r e s , c o m o que e n t r e l a ç a d a s

no

E achcmdo-se contra algum homem fama pública com alguns indícios, que não bastem, para haver o amancebamento por provado, o admoestarão e lhe mandarão que com tal mulher não falle, trate, nem tenha comunicação por via alguma, sob pena de se lhe haver o crime por provado. E da mesma maneira serão admoestados quaisquer culpados, que viverem das mesmas portas adentro, estando hum delles na casa com o titulo de servir, ou por outra razão semelhante desonesta, se além da dita fama não houver outro indicio mais do que estar na dita casa, porque muytas vezes estão vivendo amancebados com huns, estando vivendo e servindo a outros. Porém, se a mulher emprenhasse na mesma casa, não sendo escrava do dono delia mas , se depois deste, ou quem a tem nella, o saber, tendo razão para isso a não lançou fóra, continuou em a ter, ou em se servir delia, não havendo alguma forçosa razão em contrário, será havido o concubinato por provado, precedendo o tempo necessário e serão admoestados com rigor, e condenados na pena pecuniária já dita. CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro V, título XXII, § 988, p. 366.

198

t e c i d o social m a i s a m p l o , e n r e d a d a s em a f r o n t a m e n t o aos r i g o r e s da I g r e j a , a c a b a v a m por i n c o r p o r a r e r e p r o d u z i r p r á t i c a s c o t i d i a n a s que c u l m i n a v a m na sua l e g i t i m i d a d e s o c i a l . A c o n j u g a l i d a d e de pessoas

que viviam

como se casadas

fossem

não

c h e g a v a r i g o r o s a m e n t e a se c o n s t i t u i r a l v o de c e n s u r a da c o m u n i d a d e

nem

l i m i t e à a s c e n s ã o s o c i a l . D o e s p a ç o s o c i a l da c o n v i v ê n c i a de tais p r á t i c a s deriva

o interessante

binômio

casamento

x concubinato.

Um,

objeto

de

p r e g a ç õ e s ; o u t r o , a l v o de c o m b a t e p e l a I g r e j a , e s p a ç o d i f u s o de p r é d i c a s e práticas cúmplice

conjugáis

que

do casamento,

f r i s a r que as r e l a ç õ e s

acabam

por

converter

rival

e

na a c e p ç ã o de V A I N F A S . O a u t o r f a z q u e s t ã o

de

concubinárias

o concubinato

que e n v o l v i a m

em

senhores

e

escravas,

f u g a z e s ou d u r a d o u r a s , n ã o se r e v e s t i a m de u m a c o n j u g a l i d a d e à s e m e l h a n ç a das u n i õ e s f o r m a i s .

N ã o se t r a t a , a q u i , de d i s c u t i r as solturas

de s e n h o r e s e

e s c r a v a s , m u i t o m e n o s as r e l a ç õ e s c a r a c t e r i z a d a s e n q u a n t o b i g a m i a . p r e o c u p a ç ã o r e s i d e na c o n j u g a l i d a d e c o m o se casadas

fossem,

de p e s s o a s q u e viviam

portas

Nossa adentro,

e q u e a c a b o u por f o r j a r u m a e s p é c i e de c a s a m e n t o

i n f o r m a l , não i m p o r t a n d o se r i v a l ou c ú m p l i c e do c a s a m e n t o i n s t i t u c i o n a l . As f o n t e s u t i l i z a d a s nos l e v a m a r e l a t i v i z a r a q u e s t ã o no â m b i t o das p r á t i c a s

concubinárias.

Apurar

numericamente

da b i g a m i a as

relações

b í g a m a s e x i g i r i a o c r u z a m e n t o d e s s a s f o n t e s c o m as c e r t i d õ e s de b a t i s m o . E n t r e t a n t o , os a u t o s de j u s t i f i c a ç ã o de c a s a d o ou de v i u v e z , em a p r e ç o , contêm

o nome

dos m e m b r o s

da p r o l e

que

seria

legitimada

através

não da

f o r m a l i z a ç ã o da u n i ã o c o n j u g a i p e l a I g r e j a . R e s t a - n o s p r e s s u p o r r e l a ç õ e s de c o n c u b i n a t o a s s o c i a d a s às t e n d ê n c i a s de i l e g i t i m i d a d e , em um c o n t e x t o r e a l , o n d e a i n f l e x ã o dos í n d i c e s da b a s t a r d í a r e s u l t a d i r e t a m e n t e práticas assentadas

da d i s t e n s ã o das

na c o n j u g a l i d a d e i n f o r m a l .

A i n c i d ê n c i a de c a s o s de h o m e n s e m u l h e r e s da e l i t e u n i d o s s e m os l a ç o s do m a t r i m ô n i o r e l i g i o s o n o s m o s t r a q u e o v i v e r c o n s e n s u a l m e n t e s o c i e d a d e c u i a b a n a da s e g u n d a

m e t a d e do s é c u l o X I X

na

não era um e s t a d o

e x c l u s i v o de p o b r e s , f o s s e m l i v r e s ou f o r r o s . T a i s c o n s t a t a ç õ e s l e v a m - n o s a

199

a f i r m a r , de um l a d o , q u e , a p e s a r das p r é d i c a s da I g r e j a C a t ó l i c a uma

legislação

que

ordenava

as

relações

conjugáis,

a c a b a v a m por n u a n ç a r a s o c i e d a d e m a t o - g r o s s e n s e ; de verdadeiro

supor

que

os i n d i v í d u o s

das b a i x a s

as

e de t o d a

transgressões

o u t r o lado, q u e n ã o é

camadas

deixassem

viuvez

e

de

r e c o n h e c e r a i m p o r t â n c i a s o c i a l do c a s a m e n t o . Os

autos

de j u s t i f i c a ç ã o

de

estado

de

de

casado

e n c o n t r a d o s no A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á , são por e x c e l ê n c i a as f o n t e s d e s t e c a p í t u l o . C o n s t i t u e m - s e em u m a c a t e g o r i a de f o n t e v a l i o s a p a r a a c o m p r e e n s ã o e r e f l e x ã o de não aquela

o f i c i a l i z a d a e r e c o n h e c i d a p e l a I g r e j a C a t ó l i c a , q u a i s s e j a m , as

uniões consensuais estáveis. estáveis

o u t r a s f o r m a s de o r g a n i z a ç ã o f a m i l i a r , q u e

ganham

contingenciamento

E n t r e os tratos

dimensão da n a t u r e z a

nesta

ilícitos,

as u n i õ e s c o n s e n s u a i s

abordagem

e especificidade

das

exatamente fontes

pelo

documentais

t r a b a l h a d a s , i n é d i t a s na h i s t o r i o g r a f i a m a t o - g r o s s e n s e . Os e s t u d o s de c a s o , t o m a d o s e e x e m p l i f i c a d o s a s e g u i r , d e v e m ser c o n s i d e r a d o s c o m o p i s t a s p o s s í v e i s p a r a nos a p r o x i m a r m o s d a q u e l e s

casais

q u e t i n h a m u m a v i d a em c o m u m sem a c o n s a g r a ç ã o da I g r e j a . T i p i f i c a ç ã o e a t r i b u t o s dos c ô n j u g e s , t a i s c o m o p r o c e d ê n c i a , i d a d e ,

o f í c i o s e m e i o s de

v i d a ; j u s t i f i c a t i v a s a p r e s e n t a d a s e os p r o p ó s i t o s das j u s t i f i c a ç õ e s , b e m c o m o outros aspectos

implícitos

nos a u t o s , t o r n a m - s e de a g o r a em d i a n t e o b j e t o

d e s t e e s t u d o . D e i x e m o s q u e j u s t i f i c a n t e s e t e s t e m u n h a s falem

a r e s p e i t o de

suas v i d a s p a r a que m e l h o r p o s s a m o s c o n h e c ê - l o s e a p r e e n d e r o c o n t o r n o do u n i v e r s o em que v i v i a m . Em 12 de o u t u b r o de 1882, o c a p i t ã o J e s u í n o D i o c l e s c i a n o de S o u s a B r u n o e D o n a J o a n a D o l o r e s L a r a , m o r a d o r e s na p a r ó q u i a de São G o n ç a l o de Pedro Segundo, que

pretendiam unir-se pelo matrimônio,

compareceram

d i a n t e da J u s t i ç a E c l e s i á s t i c a . E l e , s o l d a d o do O i t a v o B a t a l h ã o de I n f a n t a r i a em C u i a b á , n a t u r a l da B a h i a , 43 a n o s de i d a d e , e ela, p a r a g u a i a , c o m 23 a n o s , e n c a m i n h a r a m p e t i ç ã o ao p r o v i s o r v i g á r i o g e r a l de G ê n e r e e C a s a m e n t o s , m o n s e n h o r J o s é J o a q u i m G r a c i a n o de P i n a , p a r a q u e f o s s e a d m i t i d a a eles

200

p e r m i s s ã o para j u s t i f i c a r q u e e r a m l i v r e s e d e s i m p e d i d o s para c o n t r a i r n o v a s nupcias.

280

O capitão Jesuíno f a l e c i d a em A s s u n ç ã o ,

apresentou-se

com

quem

era

como

v i ú v o de u m a

o mesmo

justificante

paraguaia, casado.

p r e t e n d e n t e para n ú p c i a s era i g u a l m e n t e p a r a g u a i a e d e s e m b a r c a r a de C u i a b á em

1878 e, d e s d e

então,

e r a ali m o r a d o r a . 2 8 1

j u s t i f i c a n t e era a p r e s e n t a d a c o m o filha

legítima

Mercê

da República

Ugedo Lara, já falecida, Rogava

natural

o requerente

j u s t i f i c a r seu e s t a d o de v i u v e z , m e d i a n t e t e s t e m u n h a s , visto sua dita mulher, da nubente.

como também

ao

Juízo

de José do

Eclesiástico

A

no p o r t o

Na petição,

Vicente

Lara

e

a

Maria

Paraguai. que

fosse

admitido

" e, por c o n s e g u i n t e , o de s o l t e i r o da n o i v a ,

ter-se

desencaminhado

a de estado

A l é m d i s s o , era a p r e s e n t a d o

de solteira,

a certidão livre

de

de óbito

de

impedimentos

um a t e s t a d o e x p e d i d o p e l o c o r o n e l

c o m a n d a n t e do b a t a l h ã o o n d e s e r v i a . N o d o c u m e n t a d o , f i c a v a d e c l a r a d o o e s t a d o de v i u v e z do c a p i t ã o S o u s a B r u n o :

280

Auto de justificação de estado de viuvez. 1882-1884. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá, caixa n° 10. 281

Nas instruções sobre os procedimentos das denunciações que deveriam preceder o matrimônio constava que: Sendo os contrahentes, ou algum delies de fóra do nosso Arcebispado ou, posto que sejão naturaes delle, tendo residido em outro por mais de seis mezes, trarão certidões dos Ordinários dos ditos lugares, de como nelle se fizerão denunciações e que estão desempedidos para poderem casar: as quaes certidões serão apresentadas a nosso Provizor, e sem licença ou despacho seu não serão admittidas pelos Párochos, sob pena de quatro mil reis pagos do Aljube. CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro I, título LXIV, § 273, p. 119. 282

As mesmas instruções recomendavam: Se ambos os contrahentes forem viúvos, ou algum delles, se declararão os nomes da mulher, ou mulheres, marido ou maridos defuntos, de seus pays e mays, lugares e Freguesias aonde eram naturaes e moradores. E não serão recebidos sem que primeyro legitimamente conste da morte da última mulher ou marido e havendo sido os defuntos da mesma Freguesia, constando ao Párocho que nella fallecerão, poderá receber os contrahentes, não havendo outro impedimento. E se o defunto falecer em outra Freguesia deste nosso Arcebispado e o Párocho delia o certificar, bastará a sua certidão jurada, sendo conhecida ou reconhecendo-a algum Párocho de nosso Arcebispado ou Escrivão do nosso juizo Ecclesiástico. Porém, havendo falecido em outra parte fóra do Arcebispado, não os receberá sem licença nossa ou de nosso Provedor, na qual se declare que justificarão a morte do marido ou mulher, o que os Párochos assim cumprirão, sob pena de que fazendo o contrário, serem gravemente castigados. CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro I, título LXIV, § 271, p. 118.

201

João Theodoro Pereira de Mello, Comendador da Imperial Ordem da Rosa, Cavalheiro de São Bento de Aviz, Christo e Cruzeiro e Coronel Comandante do Oitavo Batalhão de Infantaria, tudo por sua Magestade Imperial. Atiesto que o Senhor Capitão Jesuino Dioclesciano de Souza Bruno, apresentou nesta Secretaria, certidão de óbito do falecimento de sua esposa Dona Maria Agueda Romeiro Bruno em doze de junho de 1880, na República do Paraguai. Em firmesa do que passo o presente, por me ser pedido, sendo por mim assignado e sellado com signal das Armas Imperiais. Quartel de Comando do 8 ° Batalhão de Infantaria em Cuiabá, 11 de setembro de 1882. João Theodoro Pereira de Mello. O p r o c e s s o não t e v e t r a m i t a ç ã o ágil, pois as t e s t e m u n h a s n ã o f o r a m c o n v o c a d a s de i m e d i a t o . Os d e p o i m e n t o s só f o r a m r e g i s t r a d o s

c e r c a de um

a n o d e p o i s . Na e x p l i c a ç ã o d a d a p e l o c a p i t ã o Sousa B r u n o , o p r o c e s s o

não

t e v e c o n t i n u i d a d e em r a z ã o da a u s ê n c i a de u m a das t e s t e m u n h a s , o c a p i t ã o A n t ô n i o José da F o n s e c a ,

que tendo

por

ordem

passada,

se ausentado

desta

Capital... Alegando o desejo poderem Silva

se casar, em

de dar andamento

à dita justificação

a fim

de

os j u s t i f i c a n t e s i n d i c a r a m o a l f e r e s J o ã o L u í s de C a s t r o e

substituição

ao

ausente

e

solicitavam

que

as

testemunhas

a n t e r i o r m e n t e o f e r e c i d a s f o s s e m n o t i f i c a d a s a d e p o r . E m 27 de o u t u b r o de 1883, t o d o s f o r a m n o t i f i c a d o s a comparecerem vinte acerca

e nove

do corrente

do que alegavam

de juramento Sob

no Cartório em sua petição

o que souberam juramento,

sobre o

às dez horas

da Câmara

capitão

Eclesiástica

e as testemunhas

o allegado foi

o

da manhã

para

na mesma primeiro

do dia

para

jurarem

dizer

debaixo

petição. a

depor.

Após

ter

r e s p o n d i d o por seu n o m e , i d a d e , e s t a d o , n a t u r a l i d a d e e p r o f i s s ã o , respondeo que no dia doze de junho de na cidade de Assumpção, Capital da República do Paraguay, fallecer a sua dita mulher Dona Maria Agueda de Romeiro Bruno, sendo ali mesmo sepultada no Cemitério Brasileiro; que posto que não assistisse ao fallecimento dela tem todavia certeza deste acontecimento por comunicação que lhe fizera o Ministério Brasileiro Encarregado dos Negócios do Brazil naquela República, e finalmente pela chegada de suas filhas, que mandou vir para a sua companhia.

202

Em seu d e p o i m e n t o , J o a n a D o l o r e s r e s p o n d e u que no ano de 1878 deixou

o lugar de seo nascimento,

tem residido conserva

até o presente,

no estado

assento

Auditório

directamente

para

esta Capital,

sempre

como

ainda

de impedimentos

para

conservando-se

de solteira,

do j u r a m e n t o

vindo

dos

livre

as

J o a q u i m M a n u e l M a r t i n s M o r e i r a , de 38 a n o s , c a s a d o , n a t u r a l

da

Joaquim

dos

da

Feito o

Ferreira,

José

escrivão

se casar.

se

do

cônego

pelo

até hoje

e

Eclesiástico,

justificantes

onde

Câmara

Santos

testemunhas foram ouvidas.

B a h i a , t a m b é m m o r a d o r na f r e g u e s i a de São G o n ç a l o de P e d r o S e g u n d o , e c a p i t ã o do O i t a v o B a t a l h ã o de I n f a n t a r i a , a s s e g u r o u q u e s a b i a do f a l e c i m e n t o da e s p o s a do c a p i t ã o J e s u í n o D e o c l e s c i a n o de S o u s a B r u n o . A l e g o u nas

mãos

do

participando Tenente sabia Romeiro

setenta Joanna...

elle Bruno.

justificante

cartas

esse a c o n t e c i m e n t o .

trouxe ser

justificante

em sua companhia viúvo

por

do

tenente

Na ocasião, as filhas

fallecimento

Augusto

referida

capitão

Dona

S o b r e J o a n a D o l o r e s , r e p l i c o u q u e por

na Capital

daquela

e três, mais ou menos,

República sabia

desde

Mendonça,

s e g u n d o ele, o mesmo

do sobredito

da

de

ter v i s t o

do anno

ser ela a própria

ver

dito

e por

Maria

isso

Agueda

e conhecer

a

de mil oitocentos

e

e idêntica

pessoa

de D.

e ainda que sabia por ver que no ano de 1878, a justificante chegou residido até o presente; e que finalmente sempre a solteira, em que actualmente se acha, e que não sabia que fosse casada ou que tinha qualquer impedimento casar.

à esta Capital, onde tem conheceu no estado de e nem tinha ouvido dizer pelo qual não se possa

Por sua vez, M a t i a s J o s é de S o u s a R i b e i r o , a s e g u n d a t e s t e m u n h a , de 35 anos, i d e n t i f i c o u - s e c o m o c a s a d o , n a t u r a l

do M a r a n h ã o , m o r a d o r e m

C u i a b á na rua T r e z e de J u n h o , t e n e n t e do O i t a v o B a t a l h ã o de I n f a n t a r i a , r e s p o n d e u que s o u b e que o C a p i t ã o J e s u í n o D e o c l e s c i a n o era v i ú v o por ter o mesmo

Capitão

público

em ordem

apresentado de

detalhe.

ao Batalhão,

certidão

de

óbito

e este

feito

203

S o b r e J o a n a , a f i r m o u o m e s m o t e n e n t e , c o n h e c ê - l a d e s d e 1874, em A s s u n ç ã o , onde foram

vizinhos,

1878,

no

conservando-se

conheceu tivesse

mesmo

e que não sabia qualquer João

de

estado

e nem tinha

impedimento Luís

e que a j u s t i f i c a n t e chegara a Cuiabá

pelo

Castro

de

ouvido

solteira dizer

Silva,

que

que fosse

qual não se possa e

com

em

sempre

casada

a

ou

que

Batalhão

de

casar.

alferes

do

Oitavo

I n f a n t a r i a , de 36 a n o s , c a s a d o , n a t u r a l

do C e a r á , m o r a d o r à rua C o u t o de

M a g a l h ã e s , c h a m a d o a d e p o r na o r d e m ,

n ã o f u g i u ao que d i s s e r a m as d u a s

primeiras

testemunhas.

Deoclesciano oitenta,

apresentado

e o Batalhão noiva,

de Sousa

ter feito

acrescentou

Respondeu Bruno

sabe

que

o

é viúvo por ter ele em junho

ao Batalhão público que

que

a certidão esta

de óbito

ocorrência

a conhecera

em

Jesuíno

de mil oitocentos

de sua mulher,

em ordem 1873,

Capitão

em

falecida,

do detalhe.

Sobre a

Assunção.

Que,

d e z e m b r o de 1878, vira a j u s t i f i c a n t e d e s e m b a r c a n d o no p o r t o de o n d e tem r e s i d i d o , e que

não

casada

impedimento,

ou que tivesse

algum

sabia

e nem pelo

tinha

ouvido

dizer

qual não se possa

termo

de

conclusão.

Ato

contínuo,

o

cônego

A u d i t ó r i o E c l e s i á s t i c o , J o a q u i m dos S a n t o s F e r r e i r a ,

Escrivão registrou

em

Cuiabá,

que

fosse

casar.

Terminada a inquirição dos j u s t i f i c a n t e s e testemunhas, o

e

foi lavrado

da

Câmara

e

outra petição

de D o n a J o a n a

p e l a d i s p e n s a de a p r e s e n t a r a c e r t i d ã o do a s s e n t o de b a t i s m o .

O

continha

documento

despacho

do

bispo

diocesano,

D.

Carlos

Luís

D ' A m o u r , c o n c e d e n d o - l h e a dita d i s p e n s a . Exmo.

Rm°

Snr.

Joana Dolores Lara de vinte e três anos, filha legítima de José Vicente Lara, da finada Mercedes Ugedo Lara, natural da cidade de Assunpção, Capital da República do Paraguay, desejando receberse em Santo Matrimonio com o Capitão Jesuíno Deoclesciano de Souza Bruno, união que tanto anhela não só para o bem de sua alma como para legitimar os seos filhos, e sendo para este fim preciso juntar aos authos de sua justificação de estado livre certidão de seo batisamento e não (sic) não só por que, em razão da falta de meios pecuniários não é, possível fazer a justificação de direito, como pela grande distância que separa essa daquela

204

Capital recorre por supplicando a graça possa ter andamento supplicante realizar o Cuiabá, 6 de novembro Pela suplicante Geographo Antonio de

isso a Paternal Bondade de V. Exa. Rva., de dispensar-lhe da dita certidão para que a sua justificação e a final poder a seo casamento : por cujo bemfiéis. de 1883. Castro

e

Silva.

A l é m d i s s o , J o a n a D o l o r e s e x p ô s a s i t u a ç ã o em q u e se e n c o n t r a v a e e x p l i c o u q u e d e s e j a v a r e c e b e r - s e em s a n t o m a t r i m ô n i o c o m o C a p i t ã o J e s u í n o não só para o b e m e s t a r de sua a l m a , c o m o p a r a l e g i t i m a r os seos f i l h o s . Finalmente,

a p ó s a l g u n s dias, nos t e r m o s

conclusos,

o J u i z de G ê n e r e e

C a s a m e n t o s a t e n d e u à s o l i c i t a ç ã o dos j u s t i f i c a n t e s : Conclusos Visto estes autos Dei por Justificado ser o justificante Capitão Jesuíno Deoclesciano de Souza Bruno, viúvo por falecimento de sua mulher, D. Maria Agueda Romeiro Bueno, ocorrido na cidade de Assunpção do Paraguai, em doze de julho de mil oitocentos e oitenta e que no estado de viúvo se tem conservado: outro sim ser a justificante Joanna Dolores Lara, filha legítima dos paes que declara em seo depoimento, natural da refferida cidade de Assumpção, donde veio para esta Província no estado de solteira, livre e desempedida, e que assim se conserva, tudo segundo depusera as testemunhas assistidas nesta justificação. Assim o julgo, se lhes pásse Provisão, pagas as custas. Cuiabá, 13 de novembro de 1883. Monsenhor José Joaquim Graciano de Pina.

A a p r e s e n t a ç ã o do p r o c e s s o do c a p i t ã o S o u s a B r u n o e de Dolores

permitiu

que

ouvíssemos

os e n v o l v i d o s ,

tanto

Joana

os j u s t i f i c a n t e s

q u a n t o as t e s t e m u n h a s , e os r e p r e s e n t a n t e s da I g r e j a C a t ó l i c a . A f a l a de c a d a um r e v e l o u

i n f o r m a ç õ e s que

puderam

ser c o n f r o n t a d a s .

Não

restaram

d ú v i d a s q u a n t o ao e s t a d o civil dos n u b e n t e s . O a t e s t a d o do c o m a n d a n t e do O i t a v o B a t a l h ã o de I n f a n t a r i a r a t i f i c o u as j u r a s s o b r e a v i u v e z do j u s t i f i c a n t e , e a anuência

da I g r e j a C a t ó l i c a ,

nos t e r m o s

conclusos,

a t e n d e r aos a n s e i o s dos r e q u e r e n t e s . A d e s i g n a ç ã o de Dona

veio

finalmente

a uma mulher

d e s v i n c u l a d a d a s f a m í l i a s de e l i t e de M a t o G r o s s o p o d e ser e x p l i c a d a d e c o r r ê n c i a do p o s t o o c u p a d o por D i o c l e s c i a n o .

em

2 0 5

Se p a r a os p r e t e n d e n t e s

o d e s f e c h o s a t i s f a t ó r i o do p r o c e s s o

f u n d a m e n t a l p a r a a g i l i z a r o c a s a m e n t o , p a r a a I g r e j a , por sua v e z ,

foi

f o i útil

no

s e n t i d o de r e g u l a r i z a r u m a s i t u a ç ã o de u n i ã o c o n s e n s u a l c a r a c t e r i z a d a . E s s a s i t u a ç ã o em n e n h u m m o m e n t o f o i a v e n t a d a p e l a s t e s t e m u n h a s . N o e n t a n t o , a e l a s f o r a m f o r m u l a d a s v á r i a s p e r g u n t a s s o b r e a v i d a dos j u s t i f i c a n t e s . N ã o f a l t o u o c a s i ã o p a r a que se l e m b r a s s e m

de m e n c i o n a r

que o militar e a

pretendente paraguaia já haviam concebido filhos.

Ao p r o c u r a r l e g i t i m a r os

filhos,

oficialmente

o

casal

nada

mais

fazia

que

legalizar

uma

união

o b j e t i v a d a no c o t i d i a n o e a c e i t a p e l a c o m u n i d a d e . Vale dizer ainda que, pelo menos p o s i ç ã o da I g r e j a f o i de c o m p l a c ê n c i a a p r e s e n t a ç ã o das c e r t i d õ e s

de v i u v e z

d i s p o s i t i v o s das CONSTITUIÇÕES

a respeito desse

processo,

p a r a c o m os j u s t i f i c a n t e s . A

a

não-

ou de b a t i s m o , c o n f o r m e o r d e n a v a m os

Primeiras

do Arcebispado

da Bahia,

não

o b s t o u o p a r e c e r f a v o r á v e l do J u í z o E c l e s i á s t i c o p a r a as n ú p c i a s . Há q u e se l e m b r a r q u e i n t e r e s s a v a à I g r e j a c e l e b r a r o m a t r i m ô n i o do c a s a l e m ainda

não a b e n ç o a d a

e com

p l a u s í v e l da I g r e j a s e r i a a agilizar a celebração

filhos a serem dispensa

legitimados.

das a l u d i d a s

união

A atitude

certidões,

a

mais

fim

de

do s a c r a m e n t o .

N e s s e s e n t i d o , a I g r e j a c o m o q u e se dobrou sem m a n i f e s t a ç ã o a l g u m a de c o n d e n a ç ã o

aos a n s e i o s do c a s a l ,

da sua v i d a em c o m u m . 2 8 3

e x t r a v i o da c e r t i d ã o de b a t i s m o da n o i v a e a

distância para buscar

O nova

c e r t i d ã o em o u t r o p a í s n ã o se c o n s t i t u í r a m em e m p e c i l h o s s u f i c i e n t e s p a r a c o m p r o m e t e r a a u t o r i z a ç ã o do c a s a m e n t o r e l i g i o s o . A c o n c e p ç ã o de f i l h o s a n t e s do m a t r i m ô n i o

283

deixou

de m e r e c e r

qualquer

condenação

visível

no

E se a mulher solteyra ou viúva que foy culpada no concubinato, (antes de ser admoestada ou começar seo livramento) casar, não se procederá contra ella, nem a mandarão apparecer para fazer termo; porém, se correndo já o livramento se casar, se não proceda mais nelle até se nos dar conta. E se ambos os cúmplices forem solteyros e quizerem casar, e com effeyto o fizerem, se observará o mesmo a respeyto de ambos. E sendo alguns delinqüentes tão pobres, que não tenhão por onde pagar a pena pecuniária toda, ou parte considerável delia, ser-lhes-há comutada em corporal e em alguns dias de Aljube. CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro V, título XXIII, § 992, p. 368.

206

processo. Não fosse Dolores

pelos filhos, possivelmente o capitão Jesuíno e Joana

t i v e s s e m m a n t i d o a c o n v i v ê n c i a c o n j u g a i na p a r ó q u i a o n d e r e s i d i a m ,

sem q u a l q u e r a d m o e s t a ç ã o ou c e n s u r a . I m p o r t a r e s s a l t a r q u e um dos f i l h o s do c a s a l , Luís de S o u s a B r u n o , c a s o u - s e c o m E t e l v i n a de P a u l a C o r r e a . E t e l v i n a , juntamente

com

seus q u a t r o

irmãos,

havia

sido t a m b é m

legitimada

pelo

c a s a m e n t o dos p a i s , José de P a u l a C o r r e a e C o n s t a n ç a L u i s a do C o u t o . V a l e l e m b r a r que J o s é de P a u l a C o r r e a t i v e r a u m a f i l h a n a t u r a l , A n a de P a u l a C o r r e a , por ele r e c o n h e c i d a c o m o l e g í t i m a . Há, portanto, uma

atitude

freqüente

f o r t e i n d i c a ç ã o de que a l e g i t i m a ç ã o da p r o l e era na

sociedade

d e c o r r ê n c i a da i d a d e a v a n ç a d a de um

cuiabana.

Ela

podia

ocorrer

em

d o s c ô n j u g e s , g e r a l m e n t e do p a r c e i r o ,

c o m o que num ato de c o n f i s s ã o p ú b l i c a , com d u p l o s e n t i d o : o b t e r o p e r d ã o para uma transgressão casamento.

e, ao m e s m o

tempo,

o a l c a n c e do s a c r a m e n t o

T r a t a v a - s e , p o i s , de unir o útil ao n e c e s s á r i o . P o d i a

t a m b é m , da l i b e r t a ç ã o da p a r c e i r a e s c r a v a , c o n d i ç ã o essa

que

do

resultar,

caracterizava

de m o d o m a i s c o n t u n d e n t e u m a p r á t i c a i n t e r d i t a p e l a I g r e j a . N ã o d e i x a v a de ser,

portanto,

a e x p r e s s ã o de um c o n f l i t o com a I g r e j a , c u j a s o l u ç ã o v i n h a

s e n d o p o s t e r g a d a p e l a s i n j u n ç õ e s do c o t i d i a n o .

escrava,

T a m b é m S i l v e s t r e da Silva P r a d o , h o m e m l i v r e e v i ú v o ,

e Rita,

moradores

poucos

na

paróquia

de

Sant'Anna

da

q u i l ô m e t r o s d i s t a n t e de C u i a b á , e n c a m i n h a r a m p e t i ç ã o

Chapada,

visando à permissão

do J u í z o E c l e s i á s t i c o p a r a se c a s a r . 2 8 4 N o d o c u m e n t o , d a t a d o de 8 de a g o s t o de 1884 ; S i l v e s t r e a f i r m a v a v i v e r c o m R i t a em estado

284

pecaminoso

e, por isso,

Auto de justificação de estado de viuvez. 1882-1884. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá, caixa n 0 10.

207

e s t a v a resolvido O como

a recebe-la

viver

exemplo

em santo

com Ritta

típico

de

matrimônio.28^

em estado

união

pecaminoso,

consensual

estável,

e s t á v e i s de r e l a c i o n a m e n t o e n t r e h o m e n s e m u l h e r e s , pluriétnicas.

se n ã o se c o n f i g u r a aponta

para

formas

no â m b i t o das r e l a ç õ e s

S i l v e s t r e , ao i n g r e s s a r c o m a p e t i ç ã o , n ã o d i s s i m u l o u que ele e

R i t a h a v i a m t r a n s g r e d i d o os p r e c e i t o s da I g r e j a C a t ó l i c a , c o n f o r m e se p o d e observar: Exm° e Revm° Senhor Silvestre da Silva Prado, natural da cidade de Meia Ponte, no Bispado de Goiás, desejando ardentemente sahir do estado peccaminoso em que tem vivido com Rita, escrava pertencente a herança do finado Major João Capistrano Moreira Serra, filha natural de Bárbara, escrava de Matheos Pereira, natural da Província de Sant'Anna da Chapada, está resolvido a recebel-a em Santo Matrimonio, mas como para este fim é necessário que o supplicante, justifique, por um lado: Que elle é a própria pessoa de Silvestre da Silva Pedroso, natural d'quela cidade e viúvo de Maria Balbina fallecida na dita cidade, no dia 17 de agosto de 1877, residente na Freguezia de Sant' Anna da Chapada desde o anno de 1880, em que aqui chegou, e tem até hoje se conservado no estado de viuvez, sem impedimento algum para se casar. Por outro lado, que Ritta é também natural da Província de Minas Gerais d'onde veio para esta na idade de sete annos, e aqui tem residido até o presente como escrava, primeiramente de D. Marianna Moreira Serra, e ultimamente do finado Major João Capistrano Moreira Serra, nestes Termos, o supplicante cheio de a confiança, na Paternal Bondade de V. Exa. Revm . P. a V. Exa. Rvma se digne mandar não só que a dita justificação seja feita em forma summaríssima attendendo ser o supplicante

283

Em relação ao amancebamento dos escravos necessita de prompto remédio, por ser usual e quasi commum em todos deyxarem-se andar em estado de condenação, a que elles por sua rudeza e miséria não attendem, ordenamos e mandamos, que constando na forma sobredita de seus amancebamentos sejão admoestados, mas não se lhes ponha pena alguma pecuniária, porém, judicialmente se fará saber a seus Senhores do mao estado em que andão; advertindo-os, que se não puzerem cobro nos ditos seus escravos, fazendo-os apartar do illicito trato e ruim estado, ou por meyo de casamento, (que he o mais conforme à Ley de Déos e lho não podem impedir seus Senhores, sem muyto grave encargo de suas almas) ou por outro que seja conveniente, se há de proceder contra os ditos escravos a prisão e degredo, sem se attender à perda, que os ditos Senhores podem Ter em lhe faltarem os ditos escravos para seu serviço; porque o serem cativos os não isenta da pena, que por seus crimes merecerem. CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro V, título XXII, § 989, p. 367.

208

paupérrimo, como também disperisal-os dos Freguezia, que desde muito se acha vaga, assim de apresentar a certidão de seo baptisamento, impossível; por cujo benefício a supplicante. R. M. Cuiabá, 08 de agosto de 1884. À rogo do supplicante, José da Costa Leite Falcão.

Silvestre contrário,

não

cogitava

a

não t e r i a a p r e s e n t a d o

possibilidade

de

proclamas de sua como a contrahente por lhe ser quase

punição,

pois,

caso

p o r e s c r i t o a s i t u a ç ã o em q u e ele e a

c o m p a n h e i r a se e n c o n t r a v a m . P o d i a s i m p l e s m e n t e ter f e i t o a i d e n t i f i c a ç ã o de praxe

acerca

dos nomes,

e n t a n t o , foi a l é m

idade,

procedência

e p r o f i s s ã o de a m b o s .

No

e s u s c i t o u q u e s t õ e s de f o r o í n t i m o s o b r e si e s o b r e R i t a .

Q u a l o p r o p ó s i t o d i s s o ? Os j u s t i f i c a n t e s t e r i a m sido a c o n s e l h a d o s a p r o c e d e r de tal f o r m a p a r a a g i l i z a r o c a s a m e n t o ? S e r i a m e s s e s os t e r m o s h a b i t u a i s p a r a o teor de p e t i ç õ e s de j u s t i f i c a ç ã o de e s t a d o de v i u v e z ou de s o l t e i r o ?

C a b e i n d a g a r se era u s u a l q u e nas p e t i ç õ e s o v i ú v o se r e f e r i s s e a aspectos

íntimos

de

sua

vida

para

poder

ser

recebido

em

sacramento

m a t r i m o n i a l . A a n á l i s e do c o n j u n t o de a u t o s c o l e t a d o s r e v e l a q u e

não. 2 8 6

N e s s e s três a u t o s , de u m a f o r m a ou de o u t r a , os v i ú v o s e x p l i c i t a r a m

um

p o u c o m a i s s o b r e s u a s v i d a s , a d m i t i n d o q u e e r a m p a i s de f i l h o s i l e g í t i m o s

ou

q u e v i v i a m u m a u n i ã o t i d a c o m o pecaminosa,

de

Silvestre e Rita.

como o caso particular

E s s e s c o n s o r t e s n ã o p a r e c i a m t e m e r r e p r e s á l i a s da I g r e j a ,

a t r a v é s do b i s p o d i o c e s a n o , D. C a r l o s Luís D ' A m o u r e do p r o v i s o r v i g á r i o g e r a l e j u i z de G ê n e r e e C a s a m e n t o s , m o n s e n h o r J o s é J o a q u i m G r a c i a n o de P i n a . E, de f a t o , n ã o se r e g i s t r a r a m n o s p r o c e s s o s a d m o e s t a ç õ e s ou c e n s u r a

286

Em 24 autos de justificação do estado de viuvez, apenas os três em análise neste capítulo nos chamaram a atenção pela forma despojada como os justificantes dirigiram-se ao Juízo Eclesiástico. Tais autos referem-se aos justificantes capitão Jesuíno Deoclesciano de Sousa Bruno e D. Joana Dolores Lara; Silvestre da Silva Prado e Rita, em questão e, a seguir, o de Maria da Silva Prado.

209

pública. 2 8 7 Na p r ó p r i a p e t i ç ã o em q u e S i l v e s t r e d e c l a r o u o estado em que ele e sua c o m p a n h e i r a v i v i a m , D. C a r l o s a s s i m

pecaminoso

apontou:

Os nubentes justifiquem summariamente o seu estado de solteiro perante o Juiz competente, apresentando para isso certidão dos proclamas corridos nas Freguezias desta Capital. Cuiabá, 08 de agosto de 1884. Carlos, Bispo de Cuiabá. T a n t o o p a r e c e r do b i s p o q u a n t o o do v i g á r i o geral e j u i z de G ê n e r e e de C a s a m e n t o s , a p r e s e n t a d o a s e g u i r , f o r a m de a p r o v a ç ã o do c a s a m e n t o de Silvestre e Rita: Conclusos Vistes estes autos Dei por justificar serem os justificantes Silvestre da Silva Pedroso e Ritt a, escrava de herança do finado Major João Cap is trano Moreira Serra, aquelle viúvo por fallecimento de sua mulher Maria Balbina, natural da Cidade de Meia Ponte, e esta natural da Cidade de Uberaba donde vieram para esta Diocese, elle no estado de viúvo e ella na idade de sete annos, conforme depuserão as testemunhas promovidas nesta justificação. Assim o julgo, e se lhe passe Portarias, pagas as custas. Cuiabá, vinte e um d'agosto de mil oitocentos oitenta e quatro. Monsenhor José Joaquim Graciano de Pina. Os Eclesiástico

dizeres podem

da ser

petição

encaminhada

interpretados

como

j u s t i f i c a n t e , ao c o n f e s s a r - s e a r r e p e n d i d o , estado

pecaminoso

em

que

tem

vivido

desejando com

f o r m a l i z a r a u n i ã o a t r a v é s do s a c r a m e n t o ensejado

uma

Ritta,

por

Silvério

contrição.

ao Ou

Juízo seja,

o

ardentemente

sahir

do

demonstrou

desejo

de

Tal d e s e j o

foi

do m a t r i m ô n i o .

p e l a m o r t e do p r o p r i e t á r i o de R i t a a q u e m era c o n c e d i d a l i c e n ç a

pelo herdeiro,

o que p o s s i b i l i t a v a a o f i c i a l i z a ç ã o do c a s a m e n t o na I g r e j a

Católica:

287

A pena máxima prevista depois de serem três vezes admoestados se não emendarem, antes forem convencidos na continuação do peccado, se procederá contra elles com mayor pena pecuniária e com as de prizão, degredo ou excomunhão, segundo o que parecer mais conveniente e accomodado para se conseguir a emenda que se pretende e he o principal intento. CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro V, título XXII, § 982, p. 365.

2 10

A escrava Ritta, preta, de vinte e oito annos, de idade, matriculada sob n° 5.148, pertencente a herança do meo fallecido Pai o Major João Capistrano Moreira Serra, tem permissão para se casar com Silvestre da Silva Pedroso, homem de condição livre. Cuyabá, 19 de junho de 1884. O herdeiro inventoriante Demétrio Moreira Serra. yoo

Os Banhos

c o r r i d o s n a s f r e g u e s i a s da Sé e

de São G o n ç a l o de

P e d r o S e g u n d o , j u n t a d o s à p e t i ç ã o , c o n f o r m e o r d e n a ç ã o do b i s p o d i o c e s a n o , revelaram

não

ter

existido

denúncia

alguma

contra

o

estado

livre

dos

j u s t i f i c a n t e s que os i m p e d i s s e de c o n t r a i r m a t r i m ô n i o . A a f i r m a ç ã o do v i g á r i o da p a r ó q u i a de São G o n ç a l o de P e d r o S e g u n d o f o i b a s t a n t e e n f á t i c a s e n t i d o : sem affirmo

impedimento

algum

sob a fé de meu cargo.

de 1884, e Vigário,

Conego

denunciado,

São Gonçalo

Antonio

ou o que de Pedro

Henriques

eu o saiba:

Segundo;

de Carvalho

o

18 de

que

agosto

Ferro.

Os j u s t i f i c a n t e s f o r a m a t e n d i d o s em p o u c o t e m p o e sumarissima

nesse

de

forma

c o m o s o l i c i t a r a m . R i t a f o i d i s p e n s a d a de a p r e s e n t a r a c e r t i d ã o

de b a t i s m o por s e r - l h e

quase

impossível

b u s c á - l a , e S i l v e s t r e , por sua v e z ,

n ã o p r e c i s o u p r o v i d e n c i a r a c e r t i d ã o de ó b i t o da e s p o s a

para que fossem

p r o v a d o s os f a t o s . P o d e - s e d i z e r que a c o n d i ç ã o de v i d a dos j u s t i f i c a n t e s , a viviam

em

estado

pecaminoso,

s i n g u l a r de t r a n s g r e s s ã o . denominado

de estado

não

era

considerada

Conviver com o parceiro,

pecaminoso

como

uma

sem c a s a r - s e ,

e se c a r a c t e r i z a s s e

enquanto

i r r e g u l a r aos o l h o s da Igreja, n ã o se c o n s t i t u í a em p a r t i c u l a r i d a d e

de

que

situação embora situação naquele

contexto social. As c o n d i ç õ e s de v i d a d o s h a b i t a n t e s da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , c o m o as d i f i c u l d a d e s dos m e i o s de t r a n s p o r t e ( l o n g a s v i a g e n s p o r t e r r a e p o r via

fluvial),

288

a u m e n t a v a m as d i s t â n c i a s e a c a b a v a m por p a t r o c i n a r

Proclamas de casamento.

situações

2 11

c o m o as c i t a d a s . Se a I g r e j a e x i g i a c e r t i d õ e s e n ã o h a v i a p o s s i b i l i d a d e

de

b u s c á - l a s , o m e l h o r a f a z e r era e s p e r a r o m o m e n t o a p r o p r i a d o p a r a ir em b u s c a dos d o c u m e n t o s , o que na m a i o r i a das v e z e s n ã o o c o r r i a . N o c o t i d i a n o , a p r e m ê n c i a da v i d a não e s p e r a v a p e l o s p a p é i s . Os e n c o n t r o s a c o n t e c i a m e

os

l a ç o s a f e t i v o s a c a b a v a m por unir h o m e n s e m u l h e r e s , até o m o m e n t o e m q u e r e s o l v i a m d i r i g i r - s e ao C a r t ó r i o E c l e s i á s t i c o na b u s c a de p e r m i s s ã o p a r a o enlace matrimonial. O

cotidiano

acabava

por

comportar

relações

conjugáis

que

se

c o l o c a v a m na c o n t r a m ã o do p ú b l i c o , c o m o q u e a c o n f r o n t a r as i m p o s i ç õ e s da I g r e j a . As p r e g a ç õ e s do c l e r o a c a b a v a m a t r o p e l a d a s p e l a d i n â m i c a de p r á t i c a s p l u r a i s a m a l g a m a d a s na r e i n c i d ê n c i a d o s c o s t u m e s e no c a l d o da c u l t u r a da r e s i s t ê n c i a p o p u l a r . Ou, no d i z e r de F I G U E I R E D O , o cotidiano vencer

as instituições

que

deveriam

agir

na

moralização

e

acabava

por

normalização

289

oy

sócia l/

Para

a

I g r e j a,

dispensar

os j u s t i f i c a n t e s

da

c e r t i d õ e s de ó b i t o e de b a t i s m o , a l é m de c o n s t i t u i r - s e em para com os

pecaminosos,

u n i õ e s i l í c i t a s . Estas às uniões

ilícitas

dispensas

apresentação

ato de t o l e r â n c i a

era um e s f o r ç o p a r a d i s t e n d e r a seriam

tidas

como

das

um mal menor

prática em

das

relação

290

O u t r o e x e m p l o de u n i ã o c o n s e n s u a l e s t á v e l é o de J o s é S i l v é r i o de Campos vivia

e M a r i a R o d r i g u e s do P r a d o . E s s e c a s a l a s s u m i u p l e n a m e n t e

como

marido

e mulher,

que, no e n t a n t o , n ã o h a v i a Santa

Madre

vistos

porta

Igreja.291 adentro

que

que dessa vida em c o m u m resultaram filhos, e se u n i d o em m a t r i m ô n i o conforme

mandava

A m b o s e r a m n a t u r a i s do B i s p a d o de C u i a b á e

a eram

h a v i a m u i t o s a n o s na p a r ó q u i a de São G o n ç a l o de P e d r o

289

FIGUEIREDO, Luciano. Mulheres nas Minas Gerais. In: PRIORE, Mary del. (org ). História das mulheres no Brasil. São Paulo : Contexto, 1997, p. 141-88. 290

BRÜGGER, Silvia Maria. Casamento e valores sociais: o triunfo do discurso amoroso. In: ENCONTRO NACIONAL DE ESTUDOS POPULACIONAIS (10 : 1996 : Belo Horizonte). Anais. Belo Horizonte : ABEP, 1996. p. 1765. 291

Auto de justificação de estado de viuvez. 1882-1884. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá, caixa n° 10.

212

S e g u n d o . O e s t a d o de v i u v e z e r a da m u l h e r , c u j o c ô n j u g e f a l e c e r a por v o l t a de 1859. S e g u n d o t e s t e m u n h o de J o s é M a r i a C u r v o , o ó b i t o h a v i a o c o r r i d o em C u i a b á , na S a n t a C a s a de M i s e r i c ó r d i a , p a r a o n d e v i e r a A n t ô n i o J o s é M o d e s t o se tratar Maria

d'uma e

grande

Antônio

pertencente

ao

sepultamento

do

enfermidade

José

que estava

Modesto,

município

de

marido

havia

residia

Cuiabá.

na

Em

ocorrido

soffrendo. freguesia

decorrência

na

Na época o casal,

freguesia

do disso

da

Sé.

Livramento, mesmo, Se

o

Maria

R o d r i g u e s do P r a d o m u d o u - s e de i m e d i a t o p a r a a c i d a d e de C u i a b á , n ã o se sabe. O f a t o é que c e r c a de 25 a n o s d e p o i s ela v i v i a na c a p i t a l c o m

outro,

J o s é S i l v é r i o de C a m p o s , e c o m ele t i v e r a f i l h o s c o n f o r m e se c o n s t a t a : Exm° e Rvm° Senhor Dizem os oradores José Silvério de Campos e Maria Rodrigues do Prado, que desejando elles se receber em santo matrimônio, por bem de sua salvação, para repararem a união ilícita em que vivem há muitos annos, e se legitimar assim a prole delia residíante, obsta lhes a falta das certidões de baptismo do orador, e de óbito do marido da oradora, as quais não foram encontradas, como se vê dos documentos juntos; pelo que, como sejão pobres, vem recorrer à Caridade de V. Ilma Rvm" pedindo-lhe a Graça da Dispensa da apresentação das ditas certidões para o fim mencionado. Os oradores são naturais deste Bispado e freguezes da Paróchia de São Gonçalo de Pedro 2 o. Assim pois humildemente P.P. à V. Exma Rvma favorável Deferimento à sua supplica, de que, S. Gonçalo de Pedro Segundo, 06 de setembro de 1884. Pelos oradores: Cônego Antonio Henriques de Carvalho Ferro. O p r o n u n c i a m e n t o do b i s p o r e g i s t r o u , em 9 de s e t e m b r o de Dispensamos o óbito

a certidão

de seu marido

de baptismo perante

o juiz

do orador;

a oradora,

porém,

1884:

justifique

competente.

O documento acima aponta para alguns aspectos já comentados, mas que c h a m a m a t e n ç ã o . M a r i a e J o s é S i l v é r i o uma união Indica

ilícita,

eram sobretudo pobres e

viviam

da qual n a s c e r a m f i l h o s q u e n e c e s s i t a v a m ser l e g i t i m a d o s .

q u e o p e d i d o de J o s é S i l v é r i o

h a v i a s i d o a t e n d i d o e n q u a n t o q u e o de

M a r i a não. O f a t o de D. C a r l o s L u í s D ' A m o u r h a v e r d i s p e n s a d o a c e r t i d ã o de

218

b a t i s m o , mas n ã o a de v i u v e z da j u s t i f i c a n t e , é b a s t a n t e s i g n i f i c a t i v o .

Tal

p r o c e d i m e n t o do b i s p o d i o c e s a n o r e m e t e à p r ó p r i a p o s i ç ã o da I g r e j a da é p o c a em r e l a ç ã o à v i d a s e x u a l e m o r a l dos c r i s t ã o s . C a s a r - s e t o d o s d e v e r i a m e poderiam,

desde

que já

não

o fossem,

ou,

então,

que j á

não

tivessem

p r o m e t i d o c a s a m e n t o a o u t r e m . Daí a i m p o r t â n c i a de a j u s t i f i c a n t e p r o v a r que naquele momento

e n c o n t r a v a - s e em e s t a d o de v i u v e z e l i v r e p a r a

contrair

n o v a s n û p c i a s . A a u s ê n c i a da c e r t i d ã o c o m p r o v a d o r a da c o n d i ç ã o civil e x i g i a que

a justificação

de

viuvez

fosse

feita

mediante

o

depoimento

das

t e s t e m u n h a s . P e r c e b c - s e aqui a i m p o r t â n c i a d a d a à p a l a v r a dos j u s t i f i c a n t e s e das t e s t e m u n h a s . D i s p e n s a v a m - s e , m u i t a s v e z e s , os d o c u m e n t o s , p o r é m n ã o os d e p o i m e n t o s das p e s s o a s . Como bem avaliou oralidade

tinha

preocupara

mais

em carregar A condição

BRÜGGER,

vale

do

documento

peso consigo

que cópia

o

ressaltar

de seu registro

de p o b r e z a t a m b é m

que neste escrito.

Ninguém

a se

292

de casamento

n ã o se c o n s t i t u i u

mundo

em

atributo

n e g a t i v o ou d e s m e r e c e d o r , n e m m e s m o l i m i t e p a r a c o n t r a i r e m a n t e r r e l a ç õ e s de a m i z a d e c o m p e s s o a s de d e s t a q u e s o c i a l na p a r ó q u i a em q u e v i v i a m . T a i s r e l a ç õ e s r e v e l a m q u e , n a s d é c a d a s f i n a i s do s é c u l o X I X , p o t e n c i a l i z a v a m - s e os e s p a ç o s de s o c i a b i l i d a d e na c a p i t a l m a t o - g r o s s e n s e , f u n ç ã o dos a s p e c t o s

da m o d e r n i d a d e

que tomava

provavelmente

em

c o n t a da p r o v í n c i a .

Do

m e s m o m o d o , os l a ç o s de a m i z a d e e n t r e as f a m í l i a s e r a m f u n d a d o s em a n t i g a s r e l a ç õ e s de v i z i n h a n ç a , s o l i d i f i c a d a s no c o t i d i a n o u r b a n o , n ã o m a i s a t e s t a d a s p e l o ouvir d i z e r . U m a das t e s t e m u n h a s , M a n u e l T e i x e i r a C o e l h o , 49 a n o s , c a s a d o , era p r o f e s s o r p ú b l i c o , j á a p o s e n t a d o , Couto

de Magalhães.

morador

nesta

cidade

à

rua

A s s i m a t e s t o u ele s o b r e o c a s a l :

que em rasão de conhecimento e relações d'amizade com a família do finado Antonio José Modesto, casado com a justificante Maria Rodrigues do Prado, sabe que o mesmo Antonio José Modesto, faleceu na Casa de Misericórdia, desta

292

BRÜGGER, op. cit., p. 1.766.

218

cidade, há vinte e cinco anos, mais ou menos, e que isto affirmava por ser um facto geralmente sabido e nada mais disse... J o s é M a r i a C u r v o , a o u t r a t e s t e m u n h a , 54 a n o s de idade, c a s a d o e natural

dessa

província,

procurador

fiscal

provincial

de

Mato

Grosso,

e f e t i v a m e n t e u m a a u t o r i d a d e de p r e s t í g i o em C u i a b á , disse que por ver e conhecer o finado Antonio José Modesto, casado com a justificante Maria Rodrigues do Prado, moradores então na Freguezia do Livramento, d'onde veio para esta cidade Antonio José Modesto com destino para se tratar d'uma grave enfermidade, que estava sojfrendo, aqui faleceu há vinte e cinco anos mais ou menos, e (sic) o fallecimento dele por ter ouvido as pessoas da família, como sejão paes e irmãos e por um facto público e notório, e nada mais disse. 0

d o c u m e n t o a p o n t a a i n d a que M a r i a R o d r i g u e s do P r a d o e seu

c o m p a n h e i r o não a p e n a s p e r t e n c i a m à p a r ó q u i a de São G o n ç a l o de P e d r o S e g u n d o , mas que e r a m t a m b é m f r e q ü e n t a d o r e s da I g r e j a do m e s m o n o m e . N e s s e a s p e c t o , não p a r e c i a m ser d i s c r i m i n a d o s p e l o f a t o de

conviver

em

u n i ã o i l í c i t a . O p r ó p r i o b i s p o D. C a r l o s não a p o n t o u r e c r i m i n a ç ã o a l g u m a ao casal e sim a p e n a s e n f a t i z o u a i m p e r i o s a n e c e s s i d a d e de que a j u s t i f i c a n t e provasse

o

estado

CONSTITUIÇÕES

de

viuvez,

em

observância

dos

dispositivos

das

Primeiras.

I n ú m e r o s e x e m p l o s de c o m p a n h e i r o s a n o s sem o s a c r a m e n t o

que conviveram

do m a t r i m ô n i o f o r a m e n c o n t r a d o s

por

longos

em C u i a b á ,

na

s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X I X . T a i s c a s o s p e r m i t e m p e r c e b e r que as u n i õ e s consensuais

e x i s t i a m não s o m e n t e nas c a m a d a s p o p u l a r e s c o m o t a m b é m na

elite. E n q u a d r a m - s e aí os G a u d i e Ley, os C e r q u e i r a C a l d a s , os L e v e r g e r , os Arruda,

os C o r r e a ,

os B o r g e s ,

etc.

São

nomes

de

famílias

desde

então

r e l a c i o n a d o s a um d e t e r m i n a d o p r e s t í g i o s o c i a l na p r o v í n c i a , a e x e m p l o do o f i c i a l a t o m i l i t a r , da m a g i s t r a t u r a , da a d v o c a c i a , da a d m i n i s t r a ç ã o do c o m é r c i o e e n g e n h o s de c a n a - d e - a ç ú c a r .

pública,

215

J o ã o A u g u s t o de C e r q u e i r a C a l d a s , f i l h o do B a r ã o de D i a m a n t i n o , Antônio

de C e r q u e i r a C a l d a s , e de M a r i a A n t o n i a G a u d i e L e y ,

não se c a s o u ,

m a s c o n v i v e u com M a r i a n a L á z a r a dos S a n t o s A l b u q u e r q u e , c o m q u e m t e v e cinco

filhos: Antônio,

João

Augusto

de

Cerqueira

Caldas

Júnior,

Maria

A n t o n i a , José e Ana, t o d o s r e c o n h e c i d o s por e s c r i t u r a p ú b l i c a , no c a r t ó r i o do 2 o O f í c i o de Cui abá. 2 9 3 O f i l h o do B a r ã o de D i a m a n t i n o , J o ã o A u g u s t o , s e g u i u a c a r r e i r a m i l i t a r , tal c o m o o p a i , c a p i t ã o da G u a r d a N a c i o n a l e p r o p r i e t á r i o de

engenho

na r e g i ã o

de

Serra

Acima.

Tornou-se

capitão

e

destacado

v e t e r a n o da G u e r r a do P a r a g u a i . M a i s um e x e m p l o de u n i ã o c o n s e n s u a l o c o r r i d a d e n t r e o o f i c i a l a t o militar

deve

ser r e s s a l t a d o :

o do c a p i t ã o

J o ã o J o s é do C o u t o ,

que,

por

f a l e c i m e n t o de sua m u l h e r A u g u s t a M a l v i n a L e v e r g e r , f i l h a do B a r ã o

de

Melgaço, passou a dividir sua vida comum

do

com F r a n c e l i n a F e l i s m i n a

C o u t o . 2 9 4 E s t a era sua p a r e n t a , f i l h a n a t u r a l de seu tio, o c a p i t ã o J o ã o José do C o u t o , com Ana L u i s a dos G u i m a r ã e s , tarde.

mulher solteira, reconhecida

mais

D e s s a r e l a ç ã o em c o n v í v i o c o m u m n a s c e r a m sete f i l h o s e, m a i s t a r d e ,

a p ó s o c a s a m e n t o , m a i s um, s e n d o eles: H e r c u l a n o José da C o s t a , Á l v a r o J o s é do C o u t o , F r a n c i s c o J o s é do C o u t o , A n á l i a do C o u t o , A n g e l i n a do C o u t o , Juvenal

Antenor

Antônio

Cesário

e Artur da

do C o u t o .

Costa,

filho

Angelina de

José

casou-se Costa

aos

Leite,

18 a n o s de

família

com de

p r o p r i e t á r i o s de e n g e n h o s de a ç ú c a r . T a m b é m A n t ô n i o de P a u l a C o r r e a c o n v i v e u como se casado

fosse

na

c i d a d e de C u i a b á , com F r a n c e l i n a V i r g í n i a da Silva, f i l h a do t e n e n t e M a n u e l E c l e s i á s t i c o V i r g i n i o e T e o d o l i n d a F e r r e i r a da Silva. A n t ô n i o era f i l h o do c a p i t ã o F r a n c i s c o de P a u l a C o r r e a e de A n a R o s a de S o u s a P o r t u g a l . 2 9 3 A n t e s

293

ALENCAR, Adauto. Roteiro genealógico de Mato Grosso. Cuiabá : fs.n.], [199-], v. II,

p. 106. 294

ALENCAR, op. cit., v. I, p. 20 .

295

Ibid., v. I, p. 34.

218

de c o m p a r t i l h a r seu t e t o

com Francelina, Antonio

t e v e um f i l h o de n o m e

J o a q u i m L e i t e de L i m a , n a s c i d o de u m a r e l a ç ã o ,

igualmente

ilícita,

com

Custódia Ribeiro Taques, posteriormente reconhecido por escritura pública. F r a n c i s c o de A r r u d a L o b o não se c a s o u ,

mas conviveu com Amélia

I n o c ê n c i a de O l i v e i r a , f i l h a n a t u r a l de M a r i a A n t o n i a de J e s u s , e q u e h a v i a sido e s c r a v a

de A n t ô n i o A u g u s t o de O l i v e i r a . 2 9 6

Dessa longa convivência

n a s c e r a m seis f i l h o s , s e n d o que um d e l e s , F r a n c i s c o de A r r u d a L o b o , g a l g o u c a r g o s p ú b l i c o s , c h e g a n d o a ser d e s e m b a r g a d o r do T r i b u n a l de J u s t i ç a

de

M a t o Grosso. P e r c e b e - s e aí q u e , t a n t o o d e s e m b a r g a d o r q u a n t o sua m ã e , m e s m o n a s c i d o s sob o s i g n o da t r a n s g r e s s ã o , e n c o n t r a r a m os r e s p e c t i v o s e s p a ç o s de ascensão

social.

elementos

A

bastardía

desqualificadores

da

ou

a

relação

sociabilidade

conjugai ou

das

ilícita

não

relações

foram

familiares

t e c i d a s a n í v e l do p ú b l i c o e do p r i v a d o . E v i d e n c i a - s e a i n d a que F r a n c i s c o de A r r u d a , tal q u a l os i r m ã o s , f o i l e g i t i m a d o p e l o p a i , e e s s e ato p o d e ter s i g n i f i c a d o a a s s e p s i a de b a s t a r d a . A p e s a r de

d e s c e n d e r de u m a

sua o r i g e m

e x - e s c r a v a , F r a n c i s c o n ã o d e i x o u de

m e r e c e r o r e c o n h e c i m e n t o de s e u s p a r e s a t r a v é s de sua a t u a ç ã o no T r i b u n a l de J u s t i ç a . O u t r o c a s o de u n i ã o c o n s e n s u a l

estável,

encontrado

em m e i o

a

f a m í l i a s de p r e s t í g i o s o c i a l , f o i o de A n t ô n i o B r u n o B o r g e s S o b r i n h o , n e t o do c o m e n d a d o r J o ã o J o s é S i q u e i r a e c u j o s p a i s e r a m J o ã o C o r r e a dos C a m p o s B o r g e s e C a r o l i n a J o s e f a de S i q u e i r a . E m e s t a d o de c e l i b a t o , A n t o n i o conviveu

ilicitamente

296

com

Ibid., v. I, p. 118

Maria

Gregória

da

Silva,

com

quem

Bruno teve

os

217

seguintes filhos: José, Manuel, Nestor, João e Salomé

Bruno Borges, todos

devidamente registrados.297 O c o n j u n t o de e x e m p l o s de u n i õ e s c o n s e n s u a i s nos p e r m i t e

afirmar

que o c a s a m e n t o era um s a c r a m e n t o i m p o r t a n t e e a l m e j a d o p e l a s

pessoas,

i n d e p e n d e n t e m e n t e da c l a s s e s o c i a l a q u e p e r t e n c i a m . E r a c o n s i d e r a d o c o m o a l g o n e c e s s á r i o , t a n t o para as p e s s o a s de o r i g e m s i m p l e s c o m o p a r a a q u e l a s que p o s s u í a m

algum prestígio

ou status

na s o c i e d a d e

cuiabana.

A Igreja

p r a t i c a m e n t e não c r i a v a o b s t á c u l o s à r e a l i z a ç ã o dos c a s a m e n t o s o r i u n d o s de r e l a ç õ e s i l í c i t a s , m u i t o ao c o n t r á r i o , m u i t a s v e z e s f a c i l i t a v a as s o l i c i t a ç õ e s dos c a s a i s m e d i a n t e a d i s p e n s a das c e r t i d õ e s de b a t i s m o e de ó b i t o s

dos

j u s t i f i c a n t e s . M e s m o a s s i m , as u n i õ e s c o n s e n s u a i s t e i m a v a m em p e r s i s t i r . Uma

breve

emolumentos

em

sacramentos,

tomados

consideração

geral

cobrados enquanto

se

faz

pelos párocos

necessária

a

respeito

dos

para a administração

dos

fatores que dificultavam

casamentos

e

b a t i s m o s . N I Z Z A D A SILVA d e m o n s t r o u a f r e q ü ê n c i a de c a s a i s que se u n i a m no B r a s i l c o l o n i a l sem p a s s a r p e l o s a c r a m e n t o do m a t r i m ô n i o , em d e c o r r ê n c i a dos e n t r a v e s b u r o c r á t i c o s i m p o s t o s p e l a I g r e j a . 2 9 8 S e g u n d o a a u t o r a ,

viver

c o n s e n s u a l m e n t e , a s s i m c o m o g e r a r f i l h o s d e s s a s u n i õ e s , s i g n i f i c a v a , a n t e s de t u d o , f a l t a de

o u t r a o p ç ã o de v i d a p a r a a m a i o r p a r t e da p o p u l a ç ã o , q u e não

p o d i a pagar as t a x a s p a r o q u i a i s . A tabela anterior,

de

presentemente dos

298

de

ao fim

emolumentos

297

27

b a i x a d a em 1882 p e l o b i s p o de C u i a b á v i n h a a n u l a r a novembro a que

parochiais

de

1824,

em

razão

é destinada,

devendo

esta

em todas

as Freguesias,

de regular e que,

não

satisfazer

a

percepção uniformisando

Ibid., v. I, p. 5 .

SILVA, Maria Beatriz Nizza da. Sistema de casamento no Brasil colonial. Universidade de São Paulo, 1984, p. 47-56.

São Paulo :

2 18

essa

percepção,

faça

cessar

os abusos

que freqüentemente

se estão

dando

299

Se os n u b e n t e s f o s s e m p o b r e s , t a x a a l g u m a d e v e r i a ser

cobrada

p e l o s p á r o c o s por um s a c r a m e n t o , t a n t o d u r a n t e o d i a q u a n t o à n o i t e . A i s e n ç ã o era e x t e n s i v a aos b a t i z a d o s de p e s s o a s de i g u a l c o n d i ç ã o .

199

A PROVÍNCIA DE MATO GROSSO. Cuiabá, 20 ago. 1882, p. 1.

219

Q U A D R O N° 27 T A B E L A P R O V I S Ó R I A DE E M O L U M E N T O S P A R O C H I A E S D O B I S P A D O DE CUYABÁ-1882 8$000 Por uma m i s s a c a n t a d a c o m p e t e ao P á r o c h o 2S000 P o r um d i a de N o v e n a , s e p t e n a r i o ou t r i d u o 5S000 P o r um T e - D e u m 5 $000 Por uma P r o c i s s ã o P e l a e n c o m m e n d a ç ã o de um d e f u n t o ou p á r v u l o : 4S000 Cantada com música Cantada sem m ú s i c a 3$000 Resada 1$000 Pelos acompanhamentos dos enterros, além da 3 $000 encommendação P o r um m o m e n t o ou l a ú d a t e c a n t a d o , d u r a n t e o t r a j e c t o 2 $000 P o r um m o m e n t o ou l i b e r a - m e d e p o i s da m i s s a : Cantando com música 4$000 Cantando sem música 3 $000 Resado grEm cada e n c o m m e n d a ç ã o , a c o m p a n h a m e n t o , bem c o m o em q u a l q u e r p r o c i s s ã o t e r á u m a v e l a de l i v r a . P o r um m o m e n t o c a n t a d o n a s e p u l t u r a n o s d i a s 3 o , 7 o , 30° e a n n i v e r s a r i o 2$000 Resado gr. Por uma missa resada sem dia d e t e r m i n a d o 2$000 P o r uma m i s s a r e s a d a de c o r p o p r e s e n t e ( e s m o l a ) 3 $000 Por uma m i s s a r e s a d a no dia 3o, 7o, 30° e a n n i v e r s á r i o , sem hora c e r t a nem I g r e j a d e t e r m i n a d a ( e s m o l a ) 3 $000 Com hora certa e Igreja d e t e r m i n a d a 4$000 Com hora certa e Igreja determinada havendo música 5 $000 P o r um b a p t i z a d o f e i t o na M a t r i z 2$000 P o r um b a p t i z a d o na M a t r i z , t r a t a n d o - s e de pessoas minimamente pobres grP o r um b a p t i z a d o f e i t o f o r a da m a t r i z e m qualquer I g r e j a ou c a s a p a r t i c u l a r d e n t r o da c i d a d e , v i l l a ou 3 $000 povoação P o r um b a p t i z a d o f o r a da c i d a d e , v i l l a ou p o v o a ç ã o 6$000 Por um c a s a m e n t o na M a t r i z , de dia, n a d a p e r c e b e r á : Se f o r de n o i t e e os n u b e n t e s n ã o f o r e m p e s s o a s p o b r e s porque então nada pagarão 4$000 P o r um c a s a m e n t o f ó r a da m a t r i z , q u e r s e j a em o u t r a I g r e j a ou c a s a p a r t i c u l a r : D e n t r o da c i d a d e , v i l l a ou p o v o a ç ã o , de d i a 4$000 F ó r a da c i d a d e , v i l l a ou p o v o a ç ã o 10$000 P o r um c a s a m e n t o in a r t i c u l o m o r t i s grFONTE: A P R O V Í N C I A D E M A T O G R O S S O . C u i a b á . 20 a g o . 1882, p. 2 e 3.

220

As t a x a s c o b r a d a s p e l o s b a t i z a d o s e c a s a m e n t o s na i g r e j a m a t r i z S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á e r a m i n f e r i o r e s à q u e l a s r e a l i z a d a s em o u t r a s i g r e j a s ou em

c a s a s p a r t i c u l a r e s . Q u a n d o f o r a da m a t r i z , em o u t r a s i g r e j a s e

f o r a da c i d a d e , os v a l o r e s p r a t i c a m e n t e t r i p l i c a v a m . Os s a c r a m e n t o s , em desobriga

ou capellas

filliaes,

sendo

d e v e r i a m o c o r r e r s e m p r e com a u t o r i z a ç ã o

do b i s p o ou r e p r e s e n t a n t e . Ao que t u d o i n d i c a , tal t a b e l a n ã o e r a s e g u i d a r i g i d a m e n t e p e l o s p á r o c o s , o que se c o n s t i t u í a em i m p e d i m e n t o p a r a q u e a p o p u l a ç ã o p r o c u r a s s e p e l o s seus s e r v i ç o s .

pobre

O v i g á r i o da f r e g u e s i a de N o s s a S e n h o r a da

Guia e e n c a r r e g a d o da a d m i n i s t r a ç ã o p a r o q u i a l da f r e g u e s i a de N o s s a S e n h o r a das B r o t a s p o d e ser c i t a d o c o m o e x e m p l o de t r a n s g r e s s ã o às d i s p o s i ç õ e s da nova tabela. por falta

T e v e suas o r d e n s c a s s a d a s p e l o b i s p o D. C a r l o s Luís d ' A m o u r ,

de prudência

e da 'indispensável

caridade'.

d i z i a D. C a r l o s ao p a d r e M a r i a n o G i z i n s k i : até dos pobres

e concubinados,

do matrimonio

na Matriz, alguma?300

exigir

cousa

fato,

constituía-se

Com que direito

dez mil réis pela

quando

segundo

E m t o m de r e p r i m e n d a ,

celebração

a Tabela

V. Rvma do

exige

sacramento

da Diocese,

não

deve

A c o b r a n ç a d e s c a b i d a de e m o l u m e n t o s p a r o q u i a i s , de

em

obstáculos

à

pretensão

da

população

pobre

para

o b t e n ç ã o do s a c r a m e n t o do m a t r i m ô n i o . Por a l g u n s m o t i v o s e s p e c í f i c o s , os c a s a i s r e v e l a v a m , por e s c r i t o , a união

ilícita

segurança

em

da

que

prole.

viviam. A

Entre

necessidade

eles de

estava legitimar

a preocupação os

filhos

com

levava

a os

j u s t i f i c a n t e s a p r o c u r a r e m o J u í z o E c l e s i á s t i c o p a r a o a l c a n c e do m a t r i m ô n i o . E n t r e as f a m í l i a s de p o s s e s , as l e g i t i m a ç õ e s o c o r r i a m v i s a n d o - s e herança

aos f i l h o s t i d o s no â m b i t o d a s r e l a ç õ e s i l í c i t a s .

legitimação

revestia-se

de

importância

p a r a os c a s a i s

assegurar

M a s por q u e a reconhecidamente

p o b r e s ? N o caso dos c a s a i s a q u i e x e m p l i f i c a d o s , a t r a v é s dos a u t o s de v i u v e z , e m b o r a o c a s a m e n t o n ã o a s s e g u r a s s e f o r t u n a s , n ã o d e i x a v a de c o n s t i t u i r - s e

300

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 27 fev. 1887, p. 3.

221

em um i n s t r u m e n t o p o s s i b i l i t a d o r de s e g u r a n ç a aos f i l h o s e e s p o s a , em caso de m o r t e do g e n i t o r . Maria

do

Carmo

Lima,

paraguaia,

viúva

do

alferes

reformado

B e l a r m i n o F e r r e i r a L i m a , e x p r e s s a , a n o s s o ver, a s i t u a ç ã o de u m a m u l h e r em e s t a d o de v i u v e z na b u s c a do a u x í l i o q u e o c a s a m e n t o c o m um m i l i t a r p o d e r i a a u f e r i r - l h e . 3 0 1 N a p e t i ç ã o d a t a d a de 18 de o u t u b r o de 1884 ao v i g á r i o geral e j u i z de G ê n e r e e C a s a m e n t o s , m o n s e n h o r P i n a , M a r i a do C a r m o a p r e s e n t o u - s e c o m o mãe de c i n c o f i l h o s m e n o r e s , o m a i s v e l h o c o m 12 e o m e n o r com um ano

de

idade.

Pleiteava

a

requerente

que

as

autoridades

eclesiásticas

r e c o n h e c e s s e m seu c a s a m e n t o c o m o f a l e c i d o m e d i a n t e a a l e g a ç ã o de que era pobre

e sobrecarregada

seo estado

de filhos

de casada

a fim

pequenos,

de que possa

precisa

justificar

receber

o meio

durante

a

(ao

soldo

Exército)

de seu

finado

marido. Não

restam

principalmente, aproximação

no

entre

dúvidas período

de

que

pós-guerra,

militares

vários

brasileiros

e

Guerra fatores

paraguaias.

do

Paraguai

e,

possibilitaram

a

Considerem-se

a

d i z i m a ç ã o da p o p u l a ç ã o p a r a g u a i a do s e x o m a s c u l i n o d u r a n t e a g u e r r a , a c o n s e q ü e n t e m i s é r i a no p a í s a d v i n d a da c a t á s t r o f e , a f a l t a de c o n d i ç õ e s de m o r a d i a e de a l i m e n t o s , etc. E s s e s f a t o r e s p r o v o c a v a m o ê x o d o para

o Brasil

casamentos

de

e

para

regiões

militares

fronteiriças,

brasileiros

com

como

Mato

paraguaias

de p a r a g u a i a s

Grosso.

foram

Muitos

realizados,

c o n f o r m e a t e s t a m os r e g i s t r o s de c a s a m e n t o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , em a n e x o . Já

vivendo

em

Cuiabá,

Maria

do

Carmo

apresentou

como

t e s t e m u n h a s t r ê s m i l i t a r e s , s e n d o dois c a p i t ã e s e um t e n e n t e , c o m o p r o v a de seu c a s a m e n t o c o m B e l a r m i n o em

301

caixa n° 10.

1870, no a c a m p a m e n t o de H u m a i t á ,

no

Auto de justificação do estado de casado, 1884. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá,

222

P a r a g u a i . N e s s e l u g a r não h a v i a , s e g u n d o ela, livro assentamento,

de modo que a impossibilita

de exibir

próprio d'aquelle

para

respectivo

acto.

A p r i m e i r a t e s t e m u n h a , c a p i t ã o N o r b e r t o J o s é de S o u s a , n a t u r a l de S e r g i p e , ao ser i n q u i r i d a r e s p o n d e u que sabe de sciencia certa que em dias dos meses de março a junho do anno de mil oitocentos e setenta, no acampamento das forças brasileiras no Humaytá, República do Paraguay, o Alferes Belarmino Ferreira Lima, já falecido, casou-se na forma da Santa Igreja Católica com Maria do Carmo Lima, sendo celebrante do acto o Capelão Militar Padre Alexandre, e nada mais disse por não saber e sem lhe ser perguntado... A s e g u n d a t e s t e m u n h a , A n t ô n i o T u p i F e r r e i r a C a l d a s , c a p i t ã o do O i t a v o B a t a l h ã o de I n f a n t a r i a , n a t u r a l do M a r a n h ã o , s e n d o i n q u i r i d a

pela

petição, atestou que por ter assistido e presenciado, sabe de sciencia certa que em dias do mês d'abril a julho do anno de mil oitocentos e setenta no acampamento de Humaytá, o Capelão do exército Padre Alexandre recebeo em Santo Matrimônio o Alferes Ferreira Lima com Maria do Carmo Lima, natural da República do Paraguay, nada mais disse por não saber e nem lhe foi perguntado... P o r sua v e z , P e t r o n i l h o de C a r v a l h o R a n g e l , t e n e n t e do B a t a l h ã o V i n t e e Um de I n f a n t a r i a , n a t u r a l do C e a r á , r e s p o n d e u que por ouvir dizer, soube que o finado Alferes Belarmino Ferreira Lima, quando estava no acompanhamento brasileiro, no Humaytá, se casou com a justificante Maria do Carmo Lima... a encontrou nesta Província, e, sempre entreteve, relação de família, com este e sua esposa; e nada mais sabia e nem tinha ouvido dizer... O u v i d a s as t e s t e m u n h a s e p a g a s as c u s t a s , o d e s f e c h o do p r o c e s s o c u l m i n o u no a s s e n t o do c a s a m e n t o de M a r i a do C a r m o c o m B e l a r m i n o no livro dos j u s t i f i c a d o s da C â m a r a e do A u d i t ó r i o E c l e s i á s t i c o de C u i a b á , em j a n e i r o de 1885, c o n f o r m e r e v e l a r a m as Conclusões.

M a r i a do C a r m o p o d e r i a ,

a p a r t i r de e n t ã o , r e q u e r e r do E x é r c i t o o m e i o s o l d o a q u e t i n h a d i r e i t o e desfrutar

os

benefícios

advindos

c o n v i v ê n c i a ) com um m i l i t a r .

da

união

conjugai

(ou

mesmo

da

223

T a m b é m a e s p o s a de J o s é A n t o n i o M u r t i n h o , i l u s t r e p e r s o n a l i d a d e da s o c i e d a d e m a t o - g r o s s e n s e , r e q u e r e u o m e i o s o l d o a que t i n h a d i r e i t o a p ó s a morte

do m a r i d o .

José

Antônio

Murtinho,

baiano,

médico

homeopata,

f o r m a d o p e l a F a c u l d a d e de M e d i c i n a do R i o de J a n e i r o , f e z c a r r e i r a m i l i t a r em M a t o G r o s s o : c i r u r g i ã o - m o r em 1839; c a p i t ã o em 1842; m a j o r em tenente-coronel

em

1855. Q u a n d o

morreu,

em

1888, o c u p a v a

1852;

o cargo

de

d e l e g a d o do c i r u r g i ã o - m o r do E x é r c i t o na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o . 3 0 2 As a l e g a ç õ e s a p r e s e n t a d a s p e l a v i ú v a j u s t i f i c a r a m o a t e n d i m e n t o de sua p e t i ç ã o pelo Exército: Casado em segundas nupcias com D. Gertrudes de Sousa Murtinho, apenas lhe deixaria de herança o direito à percepção do meio soldo, que ela requereu e F. R. de Melo Rego encaminhou, a 7 de outubro seguinte, ao Ajudante General do Exército, Marechal de Campo Severiano Martins da Fonseca. Informando a V. Excia. sobre tal pretenção, asseverava o Presidente da Província e Comandante das Armas de Mato Grosso, cabe-me dizer que a peticionária acha-se em estado de verdadeira pobreza, sem outros recursos além desse meio soldo, pelo que a julgo nas condições de merecer o que deseja.303 Dona Augusta Amália, viúva, t a m b é m endereçou

uma petição à

C â m a r a e A u d i t ó r i o E c l e s i á s t i c o , s o l i c i t a n d o o a s s e n t o de seu c a s a m e n t o c o m M a r i t a n o M a r t i l i n o de S o u s a G u i m a r ã e s . 3 0 4

Na carreira

militar, o marido

2 o t e n e n t e . N a p e t i ç ã o , D o n a A u g u s t a n ã o d e i x a t r a n s p a r e c e r , em

chegara a

m o m e n t o a l g u m , que p r e t e n d i a c a s a r - s e n o v a m e n t e . N ã o c o n s t a v a

qualquer

s o l i c i t a ç ã o do a t e s t a d o do ó b i t o do m a r i d o e sim o do a s s e n t o do c a s a m e n t o :

302

José Antônio Murtinho casou-se primeiramente com Rosa Joaquina, filha de Joaquim Duarte Pinheiro e Rosa Laura de Campos Maciel, com quem teve nove filhos. Os filhos do casal, em particular José Antônio, Manuel José e Joaquim Duarte, destacaram-se na vida pública e na magistratura, recebendo formação acadêmica na corte do Rio de Janeiro. O terceiro filho, Joaquim Duarte Murtinho, bacharel em ciências físicas e naturais, e também médico homeopata, com tese defendida em 1873, ocupou a pasta do Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas em 1897, no governo de Prudente de Moraes e, em 1898, no governo de Campos Sales, ocupou a pasta do Ministério da Fazenda.

caixa n° 10.

303

FILHO, Virgílio Correa. Joaquim Murtinho. Rio de Janeiro : Imprensa Nacional, 1951. p. 12.

304

Auto de justificação do estado de viuvez, 1883. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá,

224

limo Revmo. Sr. Cônego, Vigário Geral Diz Dona Augusta Amália, viúva do Tenente Maritano Martilino de Souza Guimarães, que precizando do teôr de assento do seu Cazamento que teve lugar na Igreja da cidade de Corumbá no anno de 1864, roga a V. Revma. lhe mande passar por certidão e espero deferimento, Cuiabá, 19 de junho de 1882. O Procurador Antonio João de Souza.

O documento

n ã o r e v e l a q u a i s as r a z õ e s de D. A u g u s t a p a r a a

s o l i c i t a ç ã o da c e r t i d ã o de c a s a m e n t o . E n t r e t a n t o ,

não era u s u a l as p e s s o a s

t e r e m a p r e o c u p a ç ã o de r e u n i r d o c u m e n t o s e c a r r e g á - l o s c o n s i g o sem u m a i m p e r i o s a n e c e s s i d a d e . É p r o v á v e l q u e a s o l i c i t a n t e , na c o n d i ç ã o de

v i ú v a de

um m i l i t a r , e s t i v e s s e p r e t e n d e n d o r e c o r r e r a a l g u m b e n e f í c i o do E x é r c i t o . A e x p e c t a t i v a do

r e c e b i m e n t o de u m a u x í l i o e m f o r m a de p e n s ã o ,

ou de o u t r o s b e n e f í c i o s , e n c o r a j a v a as v i ú v a s a e n d e r e ç a r s u a s r e i v i n d i c a ç õ e s ao E x é r c i t o . G e r a l m e n t e , r e c o r r i a m à i n t e r f e r ê n c i a de p e s s o a s h a b i l i t a d a s

e,

a t r a v é s dos m e a n d r o s da lei, as v i ú v a s iam em b u s c a do a u x í l i o q u e j u l g a v a m pertencer-lhes.

O comunicado

a d v o g a v a m em c a u s a dos

abaixo

flagelados

indica

a existência

de h o m e n s

que

da g u e r r a , v i ú v a s e ó r f ã o s :

Aos voluntários da Pátria, Guarda Nacional e todos aquelles que tem seus direitos a reclamarem. O abaixo assinado, advogado e morador na Côrte, requer atrasados de campanha que cahirão em exercício findo, mandando os interessados suas baixas em original, informando quaes os batalhões e companhias que esteve e os mezes do anno que se lhe deve. Requer os meio-soldos, e pensão que competem às viúvas e filhas. Requer as medalhas de campanha, e honra dos postos que alcançarão na guerra. Requer qualquer reclamação que tenham com o Governo Imperial. Mandarão procuração com poderes especiais. O seu trabalho é módico e pago depois de concluído. Rio de Janeiro, 15 de junho de 1875. O advogado305, Dr. Simeão Estellite de Paula e Silva

300

A SITUAÇÃO. Cuiabá,27fev.1887,p.3.

225

Um s i g n i f i c a t i v o n ú m e r o de p e s s o a s , h o m e n s e m u l h e r e s , que d i r e t a ou i n d i r e t a m e n t e f o r a m a f e t a d o s p e l a s p e r d a s h u m a n a s c a u s a d a s p e l a G u e r r a do P a r a g u a i , p a s s o u a ser alvo das a t e n ç õ e s de b a c h a r é i s a s e r v i ç o das v i ú v a s e f i l h a s de m i l i t a r e s da G u a r d a N a c i o n a l e V o l u n t á r i o s da P á t r i a c o m b a t e n t e s . Se ao E s t a d o c a b i a i n d e n i z a r e s s a s p e r d a s , às m u l h e r e s c a b i a p r o v a r j u n t o ao J u í z o E c l e s i á s t i c o e ao E x é r c i t o o e s t a d o de v i u v e z e de p o b r e z a em que v i v i a m para o b t e r e m a i n d e n i z a ç ã o . P a r a t a i s m u l h e r e s , o c a s a m e n t o se r e v e s t i a de d u p l o s e n t i d o : a c e r i m ô n i a r e l i g i o s a na I g r e j a e, s o b r e t u d o , a p a r t i l h a de u m a vida í n t i m a com um h o m e m da c a s e r n a , que s i g n i f i c a v a

a p o s s i b i l i d a d e de r e i v i n d i c a r j u n t o

ao E x é r c i t o o m e i o s o l d o a que f a z i a m j u s no e s t a d o de v i u v e z . A c o n t i n g ê n c i a de j u s t i f i c a r o e s t a d o de v i u v e z nos livros de a s s e n t o de c a s a m e n t o s da C â m a r a e do A u d i t ó r i o E c l e s i á s t i c o , p e l o v i g á r i o g e r a l e j u i z de G ê n e r e e C a s a m e n t o s , é um

i n d í c i o de que, m u i t a s v e z e s , o p ú b l i c o

não se c o n t r a p u n h a ao p r i v a d o , m a s p a r e c i a vir a r e b o q u e . C o m o se na p r á t i c a a I g r e j a , ao n ã o c o n s t i t u i r - s e em f o n t e de á g u a s c r i s t a l i n a s p a r a s a c i a r a sede dos f i é i s , a p o s t a s s e , p e l o m e n o s , nas suas á g u a s .

no r e t o r n o de seu r e b a n h o para b a n h a r - s e

E m a l g u n s m o m e n t o s m u i t o e s p e c í f i c o s da v i d a , c o m o os de

r e g i s t r a r os f i l h o s , de s e p u l t a r os f a m i l i a r e s , de c o n t r a i r n ú p c i a s ou m e s m o de legitimar

a

prole

gerada

através

de

relações

ilícitas

os

indivíduos

d e f r o n t a v a m - s e c o m as leis c a n ó n i c a s . N a d a que n ã o p u d e s s e ser e s q u i v a d o por longo t e m p o da v i d a , até um d e t e r m i n a d o m o m e n t o em que o s e n t i d o das normas

e

das

necessidades

sobrepunha-se

a

um

viver

a d v e r s i d a d e s e m u i t o p a r t i c u l a r da p o p u l a ç ã o da p r o v í n c i a

marcado

pelas

de M a t o G r o s s o .

N o c a s o de J o a q u i m A n t ô n i o R o d r i g u e s , 3 0 6 m o r a d o r da p a r ó q u i a da Sé, o f a l e c i m e n t o da m u l h e r , em 1884, não p ô d e ser r e g i s t r a d o

306

por

não

ter

Auto de justificação de viuvez, 1888. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá, caixa n° 10.

sido

aberto

o devido

assento,

c o n f o r m e d e m o n s t r o u nos d i z e r e s c o n t i d o s na

sua p e t i ç ã o : Diz Joaquim Antonio Rodrigues, filho legítimo de João José dos Santos, e Innocencia Maria do Rosário, de 28 annos de idade, natural desta Província, freguez da Parochia da Sé, e viúvo por fallecimento de Maria Vicencia de Lara, que tendo de contrahir matrimônio com Ignes Maria Rodrigues, filha legítima de João Rodrigues Lemes e Anna Rodrigues, natural desta Província e fregueza da mesma Parochia da Sé, que precisando provar o seu estado de viuvez, visto não poder fazel-o com certidão de óbito de sua finada mulher por ter fallecido no Engenho do Bomfim, em Serra acima, e não tendo sido aberto o competente assento, vem pedir a V. Exa. R.ma. A graça de admittil-o a justificar sumariamente o seguinte: Io Que a supplicante é a própria pessoa acima mencionada e viúvo de Maria Vicencia de Lara. 2o Que o supplicante casou-se a 6 annos mais ou menos e que sua mulher fallecêo a 20 de outubro de 1884. 3o Finalmente que d'aquella data até hoje o supplicante nunca se retirou desta Província e tem-se conservado no estado de solteiro. Para o que offerece o supplicante as testemunhas, cidadãos José da Silva Tavares e Victal Baptista d 'Araújo. Assim pois respeitosamente, a V.Exa Rma favorável deferimento de que R. ma. Cuiabá, 23 de junho de 1888. Pelo supplicante Thomás P. Jorge.

P a r a a m b a s as t e s t e m u n h a s , a r a z ã o de n ã o ter sido a b e r t o o a s s e n t o do f a l e c i m e n t o de M a r i a V i c ê n c i a n'aquella

ocasião,

Párocho

casado,

35 a n o s ,

natural

de L a r a

na Freguesia. de

Santa

explicava-se

por

não

haver

Vital Baptista d ' A r a ú j o , jornalista

Catarina,

morador

em

Cuiabá,

assim

testemunhou: tendo feito uma viagem à Freguesia da Chapada, no anno de mil oitocentos e oitenta e quatro, teve de passar no Engenho do Bomfim, pertencente à dita Freguesia, no dia vinte de outubro do mesmo anno, se bem se recorda, sabendo elle que havia fallecido Maria Vicencia de Lara, Mulher do Justificante Joaquim Antonio Rodrigues, sendo o cadáver conduzido para a mencionada Freguesia, afim de ser sepultada, sem que se fizesse a participação do costume para abrir-se o competente assento por não haver n 'aquella ocasião Párocho em exercício...

227

Questiona-se

aqui

o significado

dos

4 anos

decorridos

entre

o

r e f e r i d o f a l e c i m e n t o e a p e t i ç ã o de J o a q u i m A n t ô n i o p a r a o a s s e n t a m e n t o do a t e s t a d o de ó b i t o da e s p o s a na p a r ó q u i a da Sé. D i s c u t e - s e , a i n d a , o f a t o de os i n d i v í d u o s b u s c a r e m o legal c o m o u m a n o r m a . Ou s e j a , as p e s s o a s b u s c a v a m r e g i s t r a r o f a l e c i m e n t o de s e u s e n t e s q u e r i d o s , a s s i m c o m o r e c o n h e c i a m a necessidade

de r e g i s t r a r os n a s c i m e n t o s

dos filhos. Nem

sempre,

porém,

c o n s e g u i a m f a z ê - l o , pois, na v i v ê n c i a c o n c r e t a , os p r o p ó s i t o s a c a b a v a m s e n d o o b s t a c u l i z a d o s , ou m e s m o , i n v i a b i l i z a d o s . Por

fatores

variados,

os

indivíduos

deixavam

de

cumprir

suas

o b r i g a ç õ e s , a j u s t a n d o - s e a s i t u a ç õ e s nem s e m p r e d e s e j a d a s . J o a q u i m A n t ô n i o possivelmente,

houvesse

se

acomodado

comprobatorio

do

da

esposa,

óbito

até

com o

a

ausência

momento

em

do que,

documento premido,

d e f r o n t o u - s e c o m as e x i g ê n c i a s p a r a j u s t i f i c a r o e s t a d o de v i u v e z p e r a n t e o J u í z o E c l e s i á s t i c o . A j u s t i f i c a ç ã o do e s t a d o de v i u v e z t r a n s f o r m a v a - s e , p a r a Joaquim,

em

requisito

básico

para

casar-se

Portanto, caracteriza-se, aqui, uma situação

com

Inês

Maria

Rodrigues.

em q u e o l i v r e e x e r c í c i o de um

ato ou d i r e i t o d e p e n d e da f o r m a l i z a ç ã o de p r á t i c a s a n t e r i o r e s . E s s e t i p o de c o n t i n g e n c i a m e n t o , não a p e n a s é r e v e l a d o r das a t r i b u i ç õ e s sobretudo,

do p ú b l i c o , m a s ,

c a p a z de e x p r e s s a r a r e l a t i v i d a d e de sua e f i c á c i a s o b r e o p r i v a d o ,

a i n d a que nas ú l t i m a s d é c a d a s no s é c u l o XIX. T a m b é m D. M a r i a I n ê s P a e s da C o s t a , v i ú v a e c o m p r o m e t i d a

em

c a s a m e n t o c o m J o a q u i m P e d r o s o d ' O l i v e i r a , e n d e r e ç o u u m a p e t i ç ã o ao J u í z o E c l e s i á s t i c o r e q u e r e n d o c e r t i d ã o do f a l e c i m e n t o do c ô n j u g e . 3 0 7 P o r D. M a r i a , d i z i a seu p r e t e n d e n t e :

307

caixa n° 10.

Auto de justificação do estado de viuvez. 1882. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá,

228

Ilm° Exm° e Revm° Sr. Governador do Bispado Joaquim Pedroso d'Oliveira, tendo contractado casamento com Dona Maria Ignez Paes da Costa, viúva de Francisco Alves da Ressurreição, e não podendo effectuar o dito casamento sem a certidão de óbito do fallecido marido da contrahente, vem o supplicante respeitosamente pedir a V. Exa Revma, ordenar que a Secretaria da Câmara Eclesiástica passe a dita certidão que deve existir nos livros da Villa de Diamantino ou Capella do N. Senhora do Rosário nos anno se 1876. Pelo que o supplicante pede e espera. Cuiabá, 7 de outubro de 1882. Joaquim Pedroso de Oliveira. De um e v e n t o a o u t r o f o r a m d e c o r r i d o s seis a n o s , q u a n d o , e n t ã o , a n u b e n t e foi p r e m i d a a p r o v i d e n c i a r a c e r t i d ã o de ó b i t o do m a r i d o . C o m o os próprios

justificantes afirmavam, o casamento somente poderia

efetuar-se

m e d i a n t e a a p r e s e n t a ç ã o da c e r t i d ã o de ó b i t o do c ô n j u g e , a s s a s s i n a d o em sua p r o p r i e d a d e , um s í t i o , d i s t a n t e 6 l é g u a s da vila de D i a m a n t i n o . O e s t a d o de v i u v e z n e m s e m p r e se o b j e t i v a v a de f o r m a r á p i d a p a r a os c ô n j u g e s .

E m m u i t o s c a s o s h a v i a um l a r g o p e r í o d o de c a r ê n c i a e n t r e o

ó b i t o de um dos c ô n j u g e s e o c o n h e c i m e n t o disso,

da n o t í c i a

pelo viúvo. Além

q u a n d o do c o n h e c i m e n t o do f a t o , não era u s u a l o c ô n j u g e ir ao local

v e r i f i c a r sua v e r a c i d a d e . N e s s e s c a s o s , a

n o t í c i a do ó b i t o c h e g a v a c o m o que

p a r a c o n f i r m a r u m a s e p a r a ç ã o c o n j u g a i j á e x i s t e n t e no d i a - a - d i a . E r a e l e v a d o o n ú m e r o de h o m e n s c u j a o r i g e m e r a m f r e g u e s i a s d i s t a n t e s , ou m e s m o o u t r a s p r o v í n c i a s e q u e lá h a v i a m d e i x a d o e s p o s a

e filhos e não mais

voltaram. Por

c o n t i n g ê n c i a s do t r a b a l h o , de c o m p r o m i s s o s , de c u m p r i m e n t o de o r d e n s , de d i f i c u l d a d e s f i n a n c e i r a s , a c a b a v a m por p e r m a n e c e r em M a t o G r o s s o . V e r i f i c a - s e , por e x e m p l o , q u e F r a n c i s c o G o n ç a l v e s de Q u e i r ó s , 33 anos, sargento

do B a t a l h ã o

de C a ç a d o r e s

da p r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

n a t u r a l da V i l a P o c o n é , não e s t a v a p r e s e n t e q u a n d o do f a l e c i m e n t o da e s p o s a em V i l a B e l a , serviço fidedignas

do

achando-se

Estado. da morte

elle

Segundo delia

na ocasião

suas

na povoação

próprias

bem como fosse

entre

palavras, outras

de soube

Corumbá de

em

pessoas

de uma sobrinha

da

229

dita falecida. casamento Joaquim

H a v i a sido c a s a d o com G e r t r u d e s P. da R o c h a , sendo celebrado

Amaral

na Matriz

do Sacramento,

da cidade

de Matto

Grosso

pelo

este

seo

Reverendo

no dia 9 de f e v e r e i r o de 1845.

O s e p u l t a m e n t o da e s p o s a , e m 3 de n o v e m b r o de 1860, em B e l a da S a n t í s s i m a T r i n d a d e , f o r a p r e s e n c i a d o p e l a s t e s t e m u n h a s :

Vila

Manuel

F e r r e i r a da S i l v a , t a m b é m do B a t a l h ã o de C a ç a d o r e s , 30 a n o s , s o l t e i r o e n a t u r a l de M a t o G r o s s o ; P l á c i d o de O l i v e i r a , 25 a n o s , s o l t e i r o , n a t u r a l

de

M a t o G r o s s o e p r a ç a do B a t a l h ã o de C a ç a d o r e s d e s s a p r o v í n c i a , e J o ã o A l v e s F e r r e i r a , 19 a n o s , s o l t e i r o , n a t u r a l de M a t o G r o s s o e c o m o f í c i o de a l f a i a t e . Fato idêntico sucedeu

c o m S i m p l i c i o J o s é de A b r e u , n a t u r a l do R i o

de J a n e i r o e o p e r á r i o do A r s e n a l de G u e r r a . 3 0 9 N ã o e s t a v a p r e s e n t e q u a n d o da m o r t e da e s p o s a , A l b e r t i n a M a r i a da C o n c e i ç ã o , de 48 a n o s , t a m b é m n a t u r a l do R i o de J a n e i r o . Sua e s p o s a , f a l e c i d a de p l e u r o - p n e u m o n i a , f o r a s e p u l t a d a no c e m i t é r i o p ú b l i c o de São F r a n c i s c o X a v i e r , na v a l a dos l i v r e s , sob o n° 14, em 14 de j u l h o de 1858. S i m p l i c i o a s s i m se e x p r e s s o u na p e t i ç ã o d a t a d a de 17 de s e t e m b r o de 1861. Soube que a três annos ter falecido no Hospital (sic) sua mulher, facto este que soube por meio de uma carta de seo correspondente; a assistia com certa quantia mensal, Jorge Furtado de Mendonça e que depois da notícia do falecimento de sua dita mulher, não se tinha retirado desta cidade para outro lugar e que se achava livre de qualquer impedimento que pudesse obstar seo casamento.

A o c o r r ê n c i a i n v e r s a t a m b é m era c o m u m no c o t i d i a n o de m u l h e r e s . Ou s e j a , e s p o s a s que t o m a v a m c o n h e c i m e n t o do ó b i t o d o s h o m e n s q u e h a v i a m p a r t i d o a t r a b a l h o para o u t r a s f r e g u e s i a s , ou m e s m o p a r a o u t r a s p r o v í n c i a s , sem j a m a i s r e t o r n a r e m ao d o m i c í l i o .

308

Auto de justificação do estado de viuvez, 1861. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá,

309

Auto de justificação do estado de viuvez, 1861. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá,

caixa n° 8. caixa n° 8.

230

Dona

Guilhermina

d a t a d a de 7 de j u l h o de 1868

Maria

Brandão,

ao e n c a m i n h a r

uma

petição

à Câmara e Auditório Eclesiástico, solicitando

o a t e s t a d o de ó b i t o do m a r i d o , S i l v é r i o Luís B r a n d ã o , s e p u l t a d o em C a m p i n a s em 1867, p r e t e n d i a m a n d a r b u s c a r o e s p ó l i o do c ô n j u g e . 3 1 0 P a r a t a n t o , n o m e o u um p r o c u r a d o r e t e s t e m u n h a j u r a d a , A n t ô n i o de C e r q u e i r a C a l d a s , de 49 a n o s , 2 o t e n e n t e , que v i v i a de n e g ó c i o s e t a m b é m era viúvo. A s s i m d i z i a o r e f e r i d o procurador: Que sabe ter falecido Silvério Luiz por ter ouvido de João Maritano de Souza e do comando da tropa do fallecido que virão ele morto e assistirão seo enterramento naquella cidade de Campinas. O Juízo de Ausentes mandou-se arrecadar todo espólio do fallecido. Sabendo disso, a viúva mandou sacar todo espólio do fallecido nomeando para seo depositário elle testemunha, procurador, para mandar receber o espólio em Campinas e elle testemunha já recebeo o aviso de ter sido entregue pelo Juízo todo o espólio do fallecido que se acha em marcha para esta e assim não resta dúvida de que com effeito é fallecido o referido Silvério Luiz Brandão. Outra

viúva,

Maria

Antonia

Lopes,

obteve

em

1879,

mediante

p e t i ç ã o , a j u s t i f i c a ç ã o do ó b i t o do m a r i d o , falecido no lugar denominado Coroado, um quarto de légua distante da cidade de Poconé, onde se achava destacado na sua qualidade de Guarda Nacional e sendo conduzido o seo cadáver para a cidade referida, ali foi sepultado no Cemitério daquella Freguesia, conforme depuserão as testemunhas produzidos nesta justificação,311 O c a s o b e m d e f i n i d o de O r d o ñ o e A p o l ô n i a , m o r a d o r e s da p a r ó q u i a da Sé, nos p o s s i b i l i t a

afirmar

que

as u n i õ e s

consensuais

existiam

como

d e c o r r ê n c i a das c o n t i n g ê n c i a s c o n c r e t a s e m u i t o e s p e c í f i c a s do c o t i d i a n o das p e s s o a s . P a s c o a l O r d o ñ o , n a t u r a l de G ê n o v a , saiu da I t á l i a , em d i r e ç ã o à A m é r i c a , em

1855. N a é p o c a e r a c a s a d o

com E v e l i n a

Spiaggi.

p e r c o r r i d o d i v e r s o s p o n t o s da A m é r i c a , c h e g o u a C u i a b á

em

Após

1857.

ter

Anos

310

Auto de justificação do estado de viuvez, 1868. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá,

311

Auto de justificação do estado de viuvez, 1879. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá,

caixa n° 8. caixa n° 9.

2

d e p o i s , a i n d a r e s i d i n d o na c a p i t a l ,

soube

de mil oitocentos

em Carmo,

da Itália, esse

e sessenta

no dia trinta

e um de março,

dia, conservando-se

jamais

regressou

e hum,

em igual

à Itália

para

que sua mulher

ficando

estado

distrito por

do

até esta fato

no

de Gênova

conseguinte

de viuvez

certificar-se

fallecera

ou

no

viúvo data...

para

18

anno Reino desde

Ordoño,

rever

seus

f a m i l i a r e s . Q u a n d o f o r m u l o u a p e t i ç ã o r e q u e r e n d o a j u s t i f i c a ç ã o do e s t a d o de v i u v e z v i s a n d o c a s a r - s e na i g r e j a , h a v i a m t r a n s c o r r i d o 16 anos d e s d e a d a t a do óbito

da e s p o s a .

Na é p o c a ,

v i v i a em

união

consensual

com

a

viúva

A p o l ô n i a P i n t o de A z e v e d o e m o r a v a m na rua 27 de D e z e m b r o , em C u i a b á : Pascoal Ordoño, natural de Gênova, no Reino da Itália, residente nesta capital há vinte e dous annos mais ou menos, morador na rua 27 de Dezembro, viúvo por falecimento de Evelina Spiaggi com quem foi civilmente casado, desejando casarse nesta Província com Apolonia Pinto de Azevedo, viúva de Antonio Peixoto de Azevedo e sendo para este fim necessário passar que realmente se acha no estado de viuvez, rogo a V. Sra Revma, para que se digne admittil-o a justificar o seguinte: Io Que o justificante é a própria e idêntica pessoa de Pascoal Ordoño, natural de Gênova, no reino da Itália, onde fora civilmente casado com a finada Evelina Spiaggi, e.há vinte e dois annos residente nesta Capital, estabellecido com Polonia na rua 27 de dezembro nesta cidade. 2o Que há dezesseis annos fallecera na cidade de Cervo, no reino da Itália, Evelina Spiaggi, com quem era o justificante casado civilmente, ficando por conseguinte, viúvo por falecimento de sua dita mulher. 3o Que neste estado de viuvez, se tem conservado até o presente, sem forma de contrário. Cuiabá, 17 de novembro de 1879. O j u s t i f i c a n t e d e c l a r o u q u e v i v i a em C u i a b á e s t a b e l e c i d o com a m u l h e r com q u e m p r e t e n d i a c a s a r - s e . C o n f i g u r a - s e m a i s um c a s o de u n i ã o c o n s e n s u a l e s t á v e l . R e p r e s e n t a a q u i um e x e m p l o t í p i c o de v i ú v o c u j a v i d a , marcada pela itinerância,

impediu uma reaproximação

c o m os

familiares,

e s p o s a , e f i l h o s . N e s s e c a s o , n e m m e s m o a n o t í c i a da m o r t e da e s p o s a f o i r a z ã o s u f i c i e n t e p a r a que r e t o r n a s s e à sua t e r r a n a t a l .

232

Tal freguesias,

como

Ordoño,

províncias

ou

muitos

países,

outros

atendendo

homens, aos

naturais

mandos

de

do

outras

Estado

ou

c u m p r i n d o o r d e n s m i l i t a r e s , m i g r a v a m p a r a a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o e acabavam

por

nela permanecer.

Nessas

circunstâncias,

a constituição

de

Muitas vezes,

as

n o t í c i a s da v i u v e z c o m o q u e c o n f o r m a v a m u m a s i t u a ç ã o de s e p a r a ç ã o



novas famílias surgia como algo natural

existente

e incentivavam

a formalização

e irreversível.

das

novas

c o n t r a í d a s . A s s i m , a p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o ,

relações

afetivas

ali

que abrigara errantes e

a v e n t u r e i r o s , c o n v e r t e u - s e em a b r i g o para as r e l a ç õ e s i l í c i t a s e

em m-idrasta

dos i l e g í t i m o s . As f o n t e s e v i d e n c i a r a m q u e , a i n d a no f i n a l do s é c u l o XIX, consensualmente

na

sociedade

cuiabana

abarcava

práticas

o viver que

se

c a r a c t e r i z a v a m c o m o r e l a ç ã o f a m i l i a r t í p i c a de s e t o r e s p o p u l a r e s . Do m e s m o modo,

revelaram

que

tal

condição

conjugai

não

lhes

era

peculiar

ou

e x c l u s i v a , m a s que a b r a n g i a p e s s o a s dos g r u p o s m é d i o s e da p r ó p r i a elite. Tal c o n s t a t a ç ã o r a t i f i c a o p r e s s u p o s t o de que as t r a n s g r e s s õ e s , a p e s a r da i n j u n ç ã o da I g r e j a imprimiam acabavam cotidiano e

e de t o d a

uma legislação ordenadora

das r e l a ç õ e s

conjugáis,

contorno à sociedade mato-grossense. Essas relações familiares por

incorporar

e

reproduzir

práticas

que

se

cristalizavam

no

c a t a l i s a v a m c e r t a l e g i t i m i d a d e s o c i a l . A t í t u l o de c o n t r a p o n t o ,

p o d e m o s a f i r m a r q u e n ã o é n a t u r a l a i n f e r ê n c i a de q u e os i n d i v í d u o s baixas camadas subestimavam

a i m p o r t â n c i a s o c i a l do c a s a m e n t o .

das

I I I . 3 M U L H E R E S DE

Antes

de

JESUS

tudo,

é

NO UNIVERSO DOS ILEGÍTIMOS

válido

ratificar

a

idéia

de

que

a

produção

h i s t o r i o g r á f i c a . t e m f o c a l i z a d o o e s p a ç o s o c i a l d a b a s t a r d i a c o m o c e n á r i o da escravidão

e

da

miséria.

A

ilegitimidade

converteu-se

em

questão

e m b l e m á t i c a de m u l h e r e s e s c r a v a s , m e s t i ç a s , f o r r a s e l i v r e s p o b r e s , c o m o q u e a d s t r i t a ao u n i v e r s o d a s t r a n s g r e s s õ e s . J á p o n t u a m o s , n o c a p í t u l o

anterior,

q u e , e m b o r a a p r e s e n ç a de f i l h o s i l e g í t i m o s n ã o c o n s t i t u a u m a m a r c a e n t r e as m u l h e r e s da e l i t e , a i l e g i t i m i d a d e r o m p e o u n i v e r s o s o c i a l d a e s c r a v i d ã o e da miséria. No capítulo que trata das uniões c o n s e n s u a i s ,

apontamos

que

espaços

devem

melhor

onde

matizados,

se

em

reproduzem particular

as p r á t i c a s

em

uma

da b a s t a r d i a

sociedade

de

homens

ser

errantes

os

e

aventureiros. As

fontes

utilizadas

ao

longo

deste

estudo

c o n j u g a l i d a d e i n f o r m a l q u e se i n s t i t u i u e se i n s i n u a

revelam

p a r a l e l a às

uma

relações

f o r m a i s do m a t r i m ô n i o s a c r a m e n t a d o , p r o p i c i a n d o n ã o só f o r m a s o u t r a s d e organização

familiar, como também

ilegitimidade.

a constituição

de p r o l e s

Contudo, parece-nos que confinar a bastardia

p r á t i c a s i l í c i t a s ou d a s t r a n s g r e s s õ e s

fundadas

na

no i n t e r i o r d a s

nada mais é que reproduzir

o olhar

c e n s o r da I g r e j a . A t e n t o s ao o f í c i o de h i s t o r i a d o r , n o s s o p r o p ó s i t o é o u t r o . T r a t a - s e de t r a z e r à t o n a e l e m e n t o s q u e p e r m i t a m e x p l i c a r e r a m as m u l h e r e s

m ã e s d a s c r i a n ç a s i l e g í t i m a s e b a t i z a d a s em C u i a b á , ao

l o n g o da s e g u n d a m e t a d e do s é c u l o X I X . I n t e r e s s a a v e r i g u a r social

dessas

cotidiano,

de

quem

mulheres, modo

a

estratégias, delinear

passivos, nada submissos.

a

práticas identidade

e

ofícios

desses

qual a condição desenvolvidos

atores

sociais

no nada

234

Mulheres

negras

escravas

e

indígenas,

consideradas

objeto

de

d e s e j o s e x u a l dos h o m e n s b r a n c o s , n ã o e r a m d i s t i n g u i d a s c o m o c a s a m e n t o . N e m m e s m o q u a n d o g e r a v a m f i l h o s de s e u s s e n h o r e s m e r e c i a m

tratamento

d i f e r e n c i a d o , p o i s sua s e x u a l i d a d e não e s t a v a a s e r v i ç o da p r o c r i a ç ã o e da r e p r o d u ç ã o , tal c o m o as m u l h e r e s b r a n c a s . 3 1 2 N o u n i v e r s o s o c i a l m a r c a d o p e l a e s c r a v i d ã o , a s i t u a ç ã o da e s c r a v a , e n q u a n t o m ã e , n ã o a c a r r e t a v a

qualquer

r e g a l i a . O p r i v i l e g i a m e n t o se d a v a m a i s p e l o que ela p o d e r i a p r o d u z i r em t e r m o s de t r a b a l h o e m e n o s p e l o c a r á t e r de r e p r o d u t o r a . Os f i l h o s n a s c i d o s das r e l a ç õ e s c a r n a i s , da v i o l ê n c i a s e x u a l

que

s o f r i a m as e s c r a v a s por p a r t e de s e u s p r o p r i e t á r i o s , s o m e n t e p o d i a m e s p e r a r d e s v e n t u r a s : u m a vida s o l i t á r i a ao l a d o da m ã e , ou o a f a s t a m e n t o em r e l a ç ã o a ela q u a n d o a v o n t a d e do s e n h o r a s s i m o d e c i d i s s e . Essas

mulheres

deixaram

vestígios

profundos

no

meio

em

que

v i v i a m e e n g e n d r a r a m r e l a ç õ e s s o c i a i s e n t r e si e c o m seus h o m e n s e f i l h o s , q u e l h e s g a r a n t i r a m a s o b r e v i v ê n c i a f í s i c a e e s p i r i t u a l em um m u n d o m a r c a d o p e l o p o d e r do h o m e m b r a n c o . N ã o m u i t o d i f e r e n t e da c o n d i ç ã o das e s c r a v a s e s t a v a m as m u l h e r e s livres

pobres,

brancas

e

mestiças.

Também

em

Cuiabá

deixaram

suas

i m p r e s s õ e s , p o s s í v e i s de s e r e m v i s l u m b r a d a s n o s d o c u m e n t o s p a r o q u i a i s . N o c o n t i n g e n t e de a p r o x i m a d a m e n t e dez mil b a t i z a n d o s

na p a r ó q u i a S e n h o r B o m

J e s u s , o o l h a r de c e r c a de c i n c o mil m u l h e r e s t e s t e m u n h o u s e u s n a s c i t u r o s r e c e b e r e m o a t r i b u t o de n a t u r a i s . C o m b a s e nas atas de b a t i s m o , p o d e m o s a f i r m a r que e s s a p a r c e l a de m u l h e r e s n ã o p e r t e n c i a à e l i t e l o c a l , m a s , s i m , às c a m a d a s p o p u l a r e s . p o r q u e as de respectivos

312

boa estirpe nomes

era

r e c e b i a m do p á r o c o a d e s i g n a ç ã o de acrescido

o do

marido

e/ou,

pai

de

Dona seus

Isso e aos

filhos.

GIACOMINI, Sônia Mana. Mulheres escravas: uma introdução histórica ao estudo da mulher negra no Brasil. Petrópolis : Vozes, 1988. p. 65.

235

Mulheres

com

sobrenomes

a exemplo

de C o r r e i a

da C o s t a ,

Gaudie

Ley,

Cerqueira Caldas, Arruda, Leverger, invariavelmente recebiam a designação de Dona,

e os f i l h o s , o r e g i s t r o de

legítimos.

E sobre a o u t r a p a r c e l a de m u l h e r e s , as não d e s i g n a d a s de

Donas,

que recai n o s s a a t e n ç ã o n e s t e e s t u d o . N o p r i m e i r o m o m e n t o , o f o c o está c e n t r a d o nas m u l h e r e s q u e n ã o l e v a v a m o s o b r e n o m e de f a m í l i a s e,

sim,

n o m e s e v o c a t i v o s de s a n t o s ou de s i t u a ç õ e s de vida. O p r o c e d i m e n t o realizar primeiramente

análise

estratégia

para

penetrar

no

ilegítimos

c o m o um t o d o .

sobre essas mulheres

espaço

social

em

que

A identificação dessas

constitui-se viviam

mães

as

de

em

uma

mães

dos

torna-se

possível

q u a n d o r e l a c i o n a d a à i d e n t i d a d e do c o n t i n g e n t e dos b a t i z a n d o s na p a r ó q u i a S e n h o r Bom J e s u s . As c i f r a s a p r e s e n t a d a s cautela,

considerando-se

as

a seguir

condições

devem de

ser

produção

tomadas da

com

certa

documentação

p a r o q u i a l . Ou s e j a , d e v e m ser t o m a d a s a p e n a s c o m o p o s s í v e i s p i s t a s p a r a a c o m p r e e n s ã o das q u e s t õ e s p r o p o s t a s . referentes à mães e padrinhos glosados que

os

D e v e m o s ter em m e n t e que os d a d o s

dos b a t i z a n d o s p o d i a m

ser s e l e c i o n a d o s

e

pelos p á r o c o s e, por c o n s e g u i n t e , f i l t r a d o s . É c o m e s s a p e r s p e c t i v a montantes

a respeito

da

condição

racial

das

mães

deverão

ser

a n a l i s a d o s , pois n ã o se p o d e a q u i l a t a r , por e x e m p l o , se t o d o s os p á r o c o s registravam impreterivelmente

a c o n d i ç ã o é t n i c a das m ã e s . T a n t o

podiam

f a z ê - l o c o m o não. A t r a v é s dos s o b r e n o m e s s u b s t i t u t i v o s aos de f a m í l i a p o d e m o s c a p t a r a l g u n s m a t i z e s do p e r f i l s o c i o e c o n ó m i c o das

mulheres que registravam o

b a t i s m o dos f i l h o s n a t u r a i s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s . Ao l o n g o

das

d é c a d a s de 1850 a 1880, v á r i o s f o r a m os s o b r e n o m e s e n c o n t r a d o s nas a t a s , com d e s t a q u e p a r a os que s e g u e m : "de Jesus", "de Tal", "do Sacramento", "da Conceição, "dos Prazeres", "da Purificação", "da Cruz", "da Paixão", "da Guia", "do Espírito Santo", "do Nascimento", "de Deus", "da Ressurreição", "dos Santos", "das Dores", "dos

236

Anjos", "da Luz", "de Sant'Anna", "do Bom Despacho", Reis", "da Boa Morte", "da Encarnação". P a r a B U R M E S T E R , estes substituem

o nome

da família

também

encontrado

em São

santos,313

São

expectativa.

nomes

sobrenomes,

e r e v e l a m um Paulo

sobre

Possivelmente

novos

os

no século quais

alguma

usados

costume XVIII

de

pelas

notado como

certamente

crença

"das Mercês",

se

"dos

mulheres,

em

Curitiba,

homenagem

aos

colocava

alguma

divina,

alguma

bênção

e s p e r a n ç a de m u d a n ç a de v i d a ou a l g o em q u e v a l e s s e a p e n a

acreditar.

P o d i a m i g u a l m e n t e e x p r e s s a r a c o n d i ç ã o de v i d a de a l g u m a s d e s s a s m u l h e r e s , a e x e m p l o das que

usavam

o sobrenome

dos Prazeres.

Podemos inferir que

tais mulheres ganhavam a vida prostituindo-se. O u t r a s , a e x e m p l o de M a r i a de S o u s a do E s p í r i t o S a n t o e A u g u s t a Rosa,

mesmo

não

levando

o sobrenome

dos

Prazeres,

podiam

viver

da

p r o s t i t u i ç ã o . E s s a s duas m u l h e r e s a p a r e c e m c o m o d e p o e n t e s no p r o c e s s o de d i v ó r c i o m o v i d o por G e r t r u d e s M a r i a F e r r e i r a junto à Câmara e Auditório Eclesiástico

contra Marcelino dos Santos,

de C u i a b á ,

em

1864.

O e s c r i v ã o da C â m a r a e A u d i t ó r i o E c l e s i á s t i c o ,

ao r e g i s t r a r

os

d e p o i m e n t o s das t e s t e m u n h a s e m f a v o r do réu, e x t r a i u d a d o s s o b r e s u a s v i d a s . No primeiro caso, registrou que: Maria de Souza do Espírito Santo, de cinqüenta annos de idade que disse ter, solteira, moradora na rua da Boa Vista desta cidade, que vive dos serviços próprios do seu sexo, testemunha notificada e jurada aos Santos Evangelhos, em um livro delles, em que pôs a sua mão direita e prometeu dizer a verdade do que soubesse e perguntado lhe fosse aos costumes... Por sua vez, s o b r e a s e g u n d a t e s t e m u n h a a p o n t o u no r e g i s t r o que: Augusta Roza de quarenta e dous annos de idade, que disse ter, viúva, natural dessa Província, que vive dos serviços próprios do seu sexo, testemunha notificada e jurada dos Santos Evangelhos em um livro delles, em que pôz a sua

313

BURMESTER, Ana Maria. op. cit., p. 38.

237

mão direita, e prometeu dizer a verdade do que soubesse e perguntado lhe fosse aos costumes... A m b a s não s a b i a m 1er nem e s c r e v e r e d e l e g a r a m

aos

advogados

p r e s e n t e s que a s s i n a s s e m por elas no f i n a l dos r e s p e c t i v o s d e p o i m e n t o s . Através

de

outro

processo

de

divórcio,

movido

em

1858

por

D a m i a n a M a r i a da C o s t a c o n t r a P e d r o G o m e s de M e l o , l o c a l i z a d o i g u a l m e n t e no A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á , são o b t i d a s o u t r a s i n f o r m a ç õ e s que

delineiam

as c o n d i ç õ e s

de vida

das

mulheres

que

não

portavam

o

trabalhadoras

e

s o b r e n o m e de f a m i l i a . Os

dados

apontaram

que

essas

mulheres

eram

d e s e n v o l v i a m a t i v i d a d e s a r t e s a n a i s . C o s t u r a v a m e f a z i a m p e ç a s de c e r â m i c a . A l g u m a s d e l a s m o r a v a m no b a i r r o do P o r t o , l o c a l i z a d o às m a r g e n s do rio C u i a b á . P o s s i v e l m e n t e ali m e s m o c o m e r c i a l i z a s s e m as l o u ç a s de b a r r o que p r o d u z i a m com a a r g i l a q u e r e t i r a v a m do rio p r ó x i m o . B á r b a r a M a r i a J e s u s , s o l t e i r a , 50 a n o s de i d a d e , m o r a d o r a de São G o n ç a l o V e l h o , p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , vivia das Dores de J e s u s ,

de fabricar

louça

algodão

n a t u r a l da

Também Maria

25 a n o s , i g u a l m e n t e n a s c i d a na p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o

e m o r a d o r a de São G o n ç a l o V e l h o , d i z i a viver fiar

de barro.

de

e costurar.

louça

de

barro,

M a r i a do B o m D e s p a c h o , j o v e m de 18 a n o s e m a t o -

g r o s s e n s e , m o r a d o r a do P o r t o Geral,

vivia

sua vez, M a r i a R o d r i g u e s

do E s p í r i t o

vivendo

de barro

de fabricar

de fabricar

louça

de costurar, Santo,

e fiar

lavar

60 a n o s ,

algodão.

e engomar.

ainda

Por

trabalhava,

T a m b é m era

solteira,

m a t o - g r o s s e n s e e m o r a d o r a em São G o n ç a l o V e l h o . F i n a l m e n t e , a o c u p a ç ã o de M a r i a do R o s á r i o ,

40 a n o s ,

s o l t e i r a , n a t u r a l da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o

e m o r a d o r a de São G o n ç a l o V e l h o , não d i f e r i a das d e m a i s m u l h e r e s : vivia costurar

e de tecer

de

rede.

As c o n s t a t a ç õ e s p o n t u a m que as m u l h e r e s p o r t a d o r a s de s o b r e n o m e s s u b s t i t u t i v o s aos de f a m í l i a e r a m i g u a l m e n t e m ã e s t a n t o de i l e g í t i m o s c o m o de l e g í t i m o s . E n t r e e l a s ,

a m a i o r f r e q ü ê n c i a de c o n c e p ç ã o de i l e g í t i m o s era

238

de m ã e s com s o b r e n o m e s

de Jesus.

T o m a d o s os s o b r e n o m e s a c i m a r e f e r i d o s ,

e s s a s m u l h e r e s p e r f a z i a m 1.769, ou s e j a , 18% d e n t r e as m ã e s c o n s t a n t e s nos 9 . 8 2 0 r e g i s t r o s de b a t i s m o . D e s t a s , 934 e r a m m ã e s de i l e g í t i m o s e 835 de l e g í t i m o s . P a r a t o d o o p e r í o d o em e s t u d o , 1 8 5 3 - 1 8 9 0 , d e n t r e as m u l h e r e s c o m s o b r e n o m e m a i s r e p r e s e n t a t i v o , d e s t a c a r a m - s e a q u e l a s com a d e s i g n a ç ã o

de

Jesus. Do

contingente

de

287

mulheres

de

Jesus,

172

rebentos registrados como ilegítimos, indicativo, portanto,

tiveram

seus

da a u s ê n c i a do

pai da c r i a n ç a . Se p r e s e n t e no ato do b a t i s m o , p e r m a n e c i a i g n o r a d o p á r o c o . Os f i l h o s l e g í t i m o s das m u l h e r e s

de Jesus

E n t r e os a n o s de 1871 a 1890, e n t r e proporção

de

Isoladamente,

filhos esses

ilegítimos números

fornecem pistas para decifrar

foi

de

podem

130

não

pelo

s o m a r a m a p e n a s 115. 216 para

parecer

m u l h e r e s de Jesus, apenas

86

a

legítimos.

representativos,

porém

m ú l t i p l o s a s p e c t o s da i d e n t i d a d e de m u l h e r e s

responsáveis por proles bastardas. Tais observações tornam-se importantes para avaliarmos a tendência d e s s a s m u l h e r e s , c o m o um t o d o , p a r a g e r a r f i l h o s i l e g í t i m o s , ou s e j a , se por mais

de

uma

vez

conceberam

filhos

ilegítimos.

Para

responder

a

i n d a g a ç ã o , l e v a m o s em c o n t a d a d o s d o s r e g i s t r o s de b a t i s m o r e l a t i v o s

essa ao

n o m e c o m p l e t o da m ã e , n o m e e d a t a de n a s c i m e n t o da c r i a n ç a , n u m t r a b a l h o meticuloso reincidente

de

aproximação

aqui u t i l i z a d a e s t á

e

cruzamento

de

informações.

A

categoria

r e l a c i o n a d o à e x i s t ê n c i a de u m c o n t i n g e n t e de

m u l h e r e s não d e s i g n a d a s c o m o Dona

e cujos nomes possibilitaram o estudo

das reincidências.314

314

Sobre o conceito reincidente, cabe dizer ainda que foi desenvolvido e aplicado por vários estudiosos, relacionado com a idéia de uma subsociedade com propensão para a bastardia e ligada por laços de parentesco. (Citamos aqui: BRETTELL, Caroline B. op. cit., p. 227-276; KUSNESOF, op. cit., p. 164-74. In: NADALIN, Sérgio Odilon et alii. op. cit., p. 164-74).

239

A r e i n c i d ê n c i a de i l e g í t i m o s foi p o s s í v e l de ser d e t e c t a d a

tantas

vezes q u a n t a s o c o r r e u r e p e t i ç ã o de n o m e s de uma m e s m a mãe. A s s i m , para p r o c e d e r à t a b u l a ç ã o , f o r a m q u a n t i f i c a d a s as d a t a s ( d . m . a ) de n a s c i m e n t o dos filhos ilegítimos. observadas

as

Quando

de

batizado.

s o b r e n o m e de Jesus, encontradas.

Tais

m u l h e r e s de Jesus

não

constavam

Ao

tomarmos

datas

de n a s c i m e n t o ,

primeiramente

as

foram

mães

com

c r i a m o s l e g e n d a s p a r a m e l h o r dar c o n t a das v a r i a ç õ e s legendas,

de c e r t a

forma,

possibilitaram

classificar

as

em q u a t r o c a t e g o r i a s :

• M u l h e r e s com mais de dois filhos 0

as

c o n c e b i d o s em d i f e r e n t e s anos;

M u l h e r e s com r e g i s t r o s de dois

ou mais

filhos

c o n c e b i d o s em

d a t a s i n c o m p a t í v e i s com o t e m p o n e c e s s á r i o de g e s t a ç ã o de u m a c r i a n ç a , ou seja, inferior a 7 meses. Consideramos C

como mães diferentes;

M u l h e r e s com r e g i s t r o de filhos

em uma mesma

data ( d . m . a ) com

n o m e s d i f e r e n t e s e/ou, i d ê n t i c o s . C o n s i d e r a m o s m ã e s de g ê m e o s ; 0 crianças

M u l h e r e s com r e g i s t r o s de filhos

os mesmos

nomes.

em datas

diferentes,

tendo

as

C o n s i d e r a m o s tais c r i a n ç a s c o m o n ã o s e n d o f i l h o s

de uma m e s m a m u l h e r . P a r t i m o s do p r e s s u p o s t o de q u e c r i a n ç a s r e g i s t r a d a s em u m a m e s m a data, t e n d o ou não n o m e s i d ê n t i c o s , p o d e m ser c a r a c t e r i z a d a s c o m o f i l h o s g ê m e o s r e i n c i d e n t e s de u m a m e s m a m u l h e r . D e v e m o s a t e n t a r p a r a a a t i t u d e dos p á r o c o s

na é p o c a ,

assentando

o registro

de c r i a n ç a s

com a p e n a s

p r e ñ ó m e . Há que se c o g i t a r que os p á r o c o s d e s c o n s i d e r a s s e m - um

um

possível

s e g u n d o p r e ñ ó m e a t r i b u í d o ao f i l h o ; se não, c o m o e x p l i c a r o f a t o de a g r a n d e maioria dessas mulheres, já adultas, terem pelo menos dois prenomes? C o n s t a t a m o s , a t r a v é s do q u a d r o 28, que no p e r í o d o de 1853 a 1870, d e n t r e 172 m u l h e r e s de Jesus,

m ã e s de i l e g í t i m o s , 31 f o r a m r e i n c i d e n t e s . N o

p e r í o d o de 1871 a 1890, de 130 m u l h e r e s , 28 f o r a m m ã e s r e i n c i d e n t e s de i l e g í t i m o s por mais de uma vez, c o n f o r m e m o s t r a o q u a d r o 29.

240

Realizada

a contagem

da

freqüência

de

ilegítimos

a partir

da

l e g e n d a e n u n c i a d a , v e r i f i c a m o s q u e , t a n t o em um p e r í o d o q u a n t o em o u t r o , a p r e d o m i n â n c i a c o u b e às m u l h e r e s c o m 2 f i l h o s , s e g u i d a s de m ã e s c o m 3 f i l h o s , s e n d o q u e as de 4 e 5 f i l h o s a p a r e c e m em m e n o r n ú m e r o .

241

Q U A D R O N° 28 M U L H E R E S DE JESUS E R E I N C I D E N T E S DE F I L H O S I L E G Í T I M O S : 1853 - 1870 N o m e da m ã e Nome da D a t a de Freqüência criança nascimento 1. A n a c l e t a M a r i a de J e s u s 0 Benedicto 18/06/1855 -) Maria 14/08/1867 Antonia 05/03/1867 2. A n n a D e l f i n a de J e s u s • 2 Vicente 27/07/1863 Benedicto 12/05/1868 3. A n n a M a r i a de J e s u s • Martha 21/05/1865 Manoel 3 30/03/1 867 Maria 16/08/1869 4. Anna R o s a de J e s u s • Joaquim 23/08/1 857 Delmira 4 09/02/1860 José 27/07/1862 Braz 17/04/1865 5. B e n e d i c t a A n t o n i a de J e s u s • R o z a 14/10/1860 João 28/05/1862 5 Antonia 08/12/1863 Manoel 23/03/1866 Adelaide 30/10/1868 6. B r í g i d a M a r i a de J e s u s ® 2 Maria 14/02/1858 Francisco 15/12/1861 Francisco 2 29/05/1864 Manoel 07/01/1854 7. C â n d i d a M a r i a de J e s u s • Sebastião 06/09/1859

8. C l e m e n t i n a de J e s u s • 9. D o m i n g a s R o s a de J e s u s © 10. Ignes M a r i a de J e s u s •

11. Isabel T h e r e s a de J e s u s • 12. J o a n n a M a r i a de J e s u s •

João José Felicidade Leopoldino Manoel Manoel Pedro Anna Leopoldino Maria João Marianna Mariana Theodoro

29/1 1/1863 1 1/10/1865 16/05/1864 09/09/1860 28/03/1866 23/06/1861 09/1 1/1855 13/09/1 857 29/06/1861 23/04/1870 22/07/1854 19/11/1865 07/04/1863 29/04/1868

3 2 1 1 4

2 i

Xm

242

Continuação... Nome

da

mãe

13. J o a q u i n a Ignes de J e s u s •

14. Josefa Maria de Jesus C 15. Leopoldina Maria de Jesus •

16. Maria Benedicta de Jesus •

17.Maria Ressurreição de Jesus • 18. Maria de Jesus 0

®

19. Maria Domingas de Deus •

20. Maria Eleuthéria de Jesus C 21. Mana Thereza de Jesus •

Nome criança Anna Antonio José José Anna Manoel Francisco Benedicto Antonio Antonia Romana Manoel Angelina Claro Salustiano Manoel Basília Mana Filismena María Amelia Eleuthéno Luiz Philomena João Alexandre Anselmo Eugenio Margarida Felippe Benedicta Manoel Theresa Manoel

da

D a t a de nascimento 02/08/1858 25/05/1863 16/09/1866 10/07/1864 10/07/1864 29/06/1856 12/09/1858 28/05/1860 07/04/1864 01/05/1870 3 1/08/1856 31/07/1862 25/01/1870 13/06/1863 08/07/1864 09/12/1855 31/07/1859 05/02/1860 03/10/1860 22/1 1/1862 2 3 / 1 1/1 8 6 2 13/06/1863 27/06/1865 29/06/1 866 30/1 1/1868

Freqüência n 3

1 5

3 2 0

2

1

27/12/1862 21/04/1864 24/06/1866 06/03/1867 28/02/1870

5

3 0 / 1 1/1 8 6 3 3 0 / 1 1/1 8 6 3 13/07/1857 25/01/1861

1 2

243

Continuação...

Nome da mãe

Nome da criança

Data de nascimento

22. Mariana Rosa de Jesus •

Indalina Manoel Maria Theresa Julia Ros alma Jacinto Rosa Luisa João Custodio Francisco Feliciana Germana Joaquim Francelina Antonia Clara João Maria Anna Clementina João Maria Ambrosina Joana Benedita Luiza José Justina João Antonio

30/09/1855 29/12/1858 09/08/1857 08/08/1 868 06/10/1864 04/01/1870 05/08/1855 04/03/1858 14/09/1859

2

08/1 1/1856 24/1 1/1857 09/04/1856 06/01/1862 13/09/1862 08/01/1865 30/03/1 870

2

23. Mi queima Maria de Jesus • 24. Rita Maria de Jesus • 25. Rita Rosa de Jesus •

26. Ritta Maria de Jesus • 27. Rosa Maria de Jesus 0

28. Theodora Maria de Jesus • 29. Theresa Maria de Jesus 0

30. Theresa de Jesus 0

31. Thereza Maria de Jesus •

FONTE: L i v r o s

Freqüência

27/02/1859 25/12/1870 13/01/1856 25/05/1 856 16/10/1859 03/04/1860 18/11/1860 09/1 1/1862 24/02/1864 15/10/1865 04/08/1865 01/11/1868 1 1/05/1862 16/07/1864 22/10/1865 18/09/1870

de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á .

2 2 i j

2 'y J

2 2 2

4 2

4

Bom

244

MULHERES

Q U A D R O N° 29 R E I N C I D E N T E S DE F I L H O S I L E G Í T I M O S :

DE JESUS

1871 - 1890

Nome da mãe

Nome criança

1. Amância Theodora de Jesus •

Delfina Lina Ignes Anna Manoel Thomás Maria Manoel Manoel Antonio Mathias Anna Francisco Antonia João Manoel Antonio Zeferino Manoel Manoel Maria Cezar Anna Luiza Manoel Anamisia Maria Maria Luiza Edwirses Anna Maria Pedro Crescêncio

2. Anna Delfina de Jesus •

3. Antonia Maria de Jesus •

4. Benedicta Maria de Jesus 0

5. Bemadina Francisca de Jesus • 6. Clementina Maria de Jesus



7. Felicidade Francisca de Jesus 0

8. Florencia Maria de Jesus • 9. Francelina Maria de Jesus •

10. Gertrudes Maria de Jesus • 11. Joanna Maria de Jesus 0

12. Luiza Maria de Jesus • 13. Margarida Maria de Jesus C

da

Data de nascimento 27/1 1/1875 16/02/1879 09/05/1871 1 1/01/1874 01/07/1877 24/05/1879 1 1/09/1880 02/01/1887 10/11/1887 25/03/1883 12/07/1883 2 3 / 1 1/1 8 8 7 30/08/1877 24/08/1871 21/1 1/1880 23/05/1 887 02/03/1888 06/03/1888 06/08/1882 14/09/1 873 21/07/1880 24/01/1875 29/01/1876 01/01/1882 29/06/1876 26/12/1878 08/07/1873 25/01/1877 04/03/1877 16/05/1889 07/02/1874 17/06/1888 28/04/1874 28/04/1874

Freqüência 2

•*>

4

2 2 2

2 2

jo 2 2 n z. 2 1

Continuação...

Nome da mãe

Nome criança

14. Maria Benedicta de Jesus •

Antonio Edwirges Dionisio Maria Thereza Maria Manoel Maria Antonia Antonia Antonio Emilia Maria Francisca Joaquina Gresório Otilia Ottilia Benedicto Anna Manoel Maria João João Américo Carolina João Feliciana Maria Maria Maria Eliza Candido Anna

15. Maria Bernarda de Jesus • 16. Maria Isabel de Jesus • 17. Maria Luiza de Jesus C

18. Maria Romana de Jesus • 19. Maria Rosa de Jesus 0

20. Maria Silvéria de Jesus C 21. Mana Thereza de Jesus • 22. Rita Maria de Jesus •

23. Ritta Maria de Jesus • 24. Saturnina Maria de Jesus • 25. Theodora Maria de Jesus ®

26. Thereza Alves de Jesus •

da Data de nascimento 29/06/1874 18/03/1 876 23/05/1883 18/07/1875 14/10/1882 1 1/08/1878 19/03/1877 04/06/1879 14/10/1882 14/10/1882 22/07/1 883 12/06/1889 10/04/1890 03/06/1888 03/12/1 873 04/12/1873 13/04/1 884 13/04/1884 23/10/1880 19/05/1888 01/01/1875 12/12/1881 21/10/1883 21/10/1884 07/07/1888 07/01/1871 08/12/1 880 08/10/1881 1 1/07/1 883 01/11/1872 03/12/1 883 15/04/1888 07/01/1882 15/01/1877

Freqüência j 2 2

j

2 2 1 1 2

5

2 2

n J 2

246

Continuação

Nome da mãe

Nome da criança

27. Thereza Maria de Jesus ® • C

José Maria Francisco Maria Maneio Maria Maria Maria Adélia Maria

28. Thereza de Jesus •

Data de nascimento

Freqüência

31/12/1871 3 1/05/1 873 14/12/1874 19/06/1876 25/07/1878 08/01/1 882 05/06/1884 05/06/1884 15/07/1 882 19/09/1883

3

->

1 2

FONTE: L i v r o s

de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á .

Bom

A l e g e n d a i n d i c a t i v a de m u l h e r e s c o m r e g i s t r o s de filhos

em

datas

como

não

diferentes, sendo

tendo

filhos

as crianças

de

uma

os mesmos

mesma

mulher

nomes (®),

e consideradas

abre

perspectivas

para

outra

h i p ó t e s e : a de que as c r i a n ç a s com n o m e s r e p e t i d o s p o d i a m ser f i l h o s de u m a m e s m a m u l h e r . A s s i m , os f i l h o s

Marias

substituídos

e Franciscos

por

primeiros.

Se

o u t r o s M arias

assim

agiam,

tais

mulheres

c o s t u m e l e g a d o da c r i s t a n d a d e e u r o p é i a o filho(a)

que

nascia,

logo

após

e Franciscos nascidos pareciam

de se repetir

o falecimento

que m o r r i a m s e r i a m após

a morte

dos

estar

seguindo

um

o mesmo

de um seu

preñóme irmão.313

l e i t u r a é p o s s í v e l , s o b r e t u d o , c o m o f o r m a de e x p r e s s ã o de s e n t i m e n t o

para Outra de

p e r d a de um f i l h o : i n v o c a n d o sua l e m b r a n ç a e n o m e , p r o c u r a n d o t r a z ê - l o p a r a bem próximo,

a t r a v é s de o u t r o f i l h o . A p r á t i c a da r e p e t i ç ã o de n o m e s de

f i l h o s m o r t o s , q u a n d o do n a s c i m e n t o de n o v o s f i l h o s , p o d e ser a e x p r e s s ã o de a s p e c t o s da i n t i m i d a d e e dos s e n t i m e n t o s m a t e r n o s d i a n t e da m o r t e .

313

MARCÍLIO, Maria Luiza. Caiçara: terra e população - estudo de demografía histórica e da história social de Ubatuba. São Paulo : Paulinas, 1986. p. 204.

247

A u t i l i z a ç ã o das m e s m a s l e g e n d a s para as d e m a i s m u l h e r e s — de i l e g í t i m o s q u e l e v a v a m o s o b r e n o m e sobrenome

de santos

e ainda

aquelas

f a m í l i a , a s s i m c o m o as e s c r a v a s q u e

mães

de f a m í l i a , m ã e s q u e l e v a v a m

que não

levavam

o sobrenome

o de

t a m b é m não l e v a v a m s o b r e n o m e a l g u m

— p o s s i b i l i t o u a m o n t a g e m de q u a d r o s d e m o n s t r a t i v o s s o b r e as r e i n c i d ê n c i a s de i l e g í t i m o s na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , ao l o n g o do p e r í o d o de

1853 a 1890. O f a t o de u m a p a r c e l a d e s s a s m u l h e r e s

não

apresentar

s o b r e n o m e a l g u m p o d e ser um i n d i c a t i v o t a n t o da o r i g e m d e l a s q u a n t o de s u a s c o n d i ç õ e s de vida, l i g a d a s a s i t u a ç õ e s de p e n ú r i a e p o b r e z a . a v e n t a r que p e r t e n c i a m a c a m a d a s s o c i a l e e c o n o m i c a m e n t e

Podemos

desfavorecidas.

P o d i a m ser t a n t o e s c r a v a s c o m o f o r r a s , d e s c e n d e n t e s de e s c r a v o s ou, m e s m o , b r a n c a s livres. As e s c r a v a s , p o r e x e m p l o , em r a z ã o de n ã o l e v a r e m s o b r e n o m e a l g u m , e r a m i d e n t i f i c a d a s m a i s f a c i l m e n t e p e l o s n o m e s dos p r o p r i e t á r i o s , a e x e m p l o de Florinda, escrava

do

alferes

herança

do finado

escrava

do major

Antonio

Luiz

Manoel

Rodrigues,

Capitão

Manoel

P.

Observamos

que,

entre

os

Luiz

Brandão,

ou então,

Alexandrina,

Anna,

escrava

de

Azevedo. anos

de

1853

a

1870,

55

crianças

i l e g í t i m a s f o r a m r e g i s t r a d a s c o m o f i l h o s de e s c r a v a s e, e n t r e 1871 a 1890, a ocorrência

foi

perfizeram

232

de

177 r e g i s t r o s

registros,

ou

de

seja,

ingênuos 5,4%

livres.

dentre

um

Os

dois

universo

períodos de

4.269

ilegítimos. A p e n a s 11 c r i a n ç a s i l e g í t i m a s f o r a m r e g i s t r a d a s c o m o

f i l h o s de

m u l h e r e s l i b e r t a s . As m ã e s i n d í g e n a s s o m a r a m 67, c o m p r e e n d e n d o 0 , 7 % . I s s o s i g n i f i c a dizer q u e , na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , a p e n a s p e q u e n a p a r c e l a dos i l e g í t i m o s

(5,7%)

e r a m f i l h o s de e s c r a v a s

uma

e forras.

P o r t a n t o , os i l e g í t i m o s e r a m f i l h o s de m u l h e r e s q u e , p r e d o m i n a n t e m e n t e , n ã o e r a m e s c r a v a s , l i b e r t a s ou i n d í g e n a s , e sim l i v r e s e p o b r e s . Os q u a d r o s 30 e 31 i n d i c a m q u e , a l é m das m u l h e r e s

de Jesus,

as

d e m a i s , t a m b é m e r a m r e i n c i d e n t e s de f i l h o s i l e g í t i m o s . O q u a d r o 33 j u s t a p õ e a i n c i d ê n c i a de m ã e s com t r ê s ou m a i s f i l h o s , sobre as r e i n c i d e n t e s de d o i s ,

248

aos d a d o s das m u l h e r e s de Jesus.

N a m o n t a g e m d e s s e s dois q u a d r o s , o m i t i m o s

a a p r e s e n t a ç ã o dos n o m e s das m ã e s em r a z ã o do g r a n d e v o l u m e de d a d o s r e l a t i v o s às m ã e s . N e s s e s e n t i d o , d e m o n s t r a m o s a p e n a s os n ú m e r o s a b s o l u t o s das demais

mulheres,

r e i n c i d e n t e s de 2 e r e i n c i d e n t e s de 3 ou m a i s f i l h o s .

249

Q U A D R O N° 30 M U L H E R E S R E I N C I D E N T E S DE F I L H O S I L E G Í T I M O S P O R M A I S D E U M A VEZ: 1853 - 1870 ANO

Demais mulheres 2 filhos

3 ou m a i s filhos

M u l h e r e s de

Total

Jesus

1853

2

12

0

14

1854

14

26

2

42

1855

27

26

5

58

1856

16

25

6

47

1857

16

25

5

46

1858

17

31

5

53

1859

13

. 25

5

43

1860

13

37

8

58

1861

18

28

4

50

1862

18

35

10

63

1863

13

32

8

53

1864

18

34

9

61

1865

18

36

9

63

1866

16

26

5

47

1867

15

20

2

37

1868

11

25

6

42

1869

11

28

1

40

1870

11

30

8

49

Total

267

501

98

866

FONTE: L i v r o s de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á .

250

Q U A D R O N° 31 MULHERES REINCIDENTES DE FILHOS ILEGÍTIMOS POR MAIS D E U M A V E Z : 1871 - 1890 ANO

Demais mulheres

M u l h e r e s de

Total

Jesus

2 filhos

3 ou m a i s f i l h os

1871

6

15

4

25

1872

0

2

0

2

1873

7

25

6

38

1874

8

17

5

30

1875

15

14

4

33

1876

19

16

4

39

1877

7

22

6

35

1878

10

21

3

34

1879

21

13

3

37

1880

20

31

5

56

18

18

2

38

1882

12

24

7

43

1883

20

20

8

48

1884

10

7

3

20

1885

0

2

0

2

1886

4

2

0

6

1887

8

16

4

28

1888

11

7

7

25

1889

8

8

2

18

1890

6

2

1

9

Total

210

282

74

1881

566

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á .

25 1

A t a b e l a n° 2 e v i d e n c i a c o m m a i o r n i t i d e z que, ao l o n g o do p e r í o d o de 1853 a 1890, a r e i n c i d ê n c i a m a i o r de m u l h e r e s com f i l h o s o c o r r e u na p r i m e i r a f a s e , c u j a s b a l i z a s são de e n c o n t r o a u m a m e s m a t e n d ê n c i a

ilegítimos

1853 e 1870. E s s a c o n s t a t a ç ã o vai

de q u e d a em n ú m e r o s

absolutos

de

b a t i z a d o s de i l e g í t i m o s na d é c a d a de 70, c o m ê n f a s e na de 80, em r e l a ç ã o às décadas anteriores.

TABELA N° 2 M u l h e r e s r e i n c i d e n t e s de filhos ilegítimos: 1853 - 1890 Um

ANO

46 100 14 1 108

1853 1854 1855 1856 1857 1858 1859 1860 186 1 1862 1863 1864 1865 1866 1867

1 16

1868

1869 1870 SubTotal 1871 1872 1873 1874 1875 18 76 1877 1878 1879 1880

188 1 1882 1883 1884 1885 1886 1887 1888 1889 1890 SubTotal TOTAL FONTE:

filho

99 112 93 119 124 112 97 124 107 89 93 172 117 969 13 1 87 103 107 85 109 1 12

109 104 1 84 134 132 159 168 11 1 11 1 102 115 72 63 2.300" 4.269

Mais de u m filho 14 42 58 47 46 53 43 58 50 63 53 61 63 47 37 42 40 49 866 25 2 38 30 33 39 35 34 37 56 38 43 48 22 2 6 28 25 18 9 566 1.432

Livros de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m Jesus de C u i a b á . Arquivo da Cúria Metropolitana de C u i a b á - MT. * Para 2 crianças não consta o ano de registro.

F I G U R A



2

Mulheres c o m filho ilegítimo e reincidentes: 1853-1890

Mulheres com um filho ilegítimo Mulheres que tiveram mais de um filho ilegítimo

FONTE: Tabela número 2

254

No

espaço

de

quase

r e c e n s e a m e n t o s de 1872 e de população

solteira

em

vinte

anos,

segundo

os

1890, c o n s t a t a m o s c o n s i d e r á v e l

relação

à

casada,

bem

como

dados

dos

aumento

da

predominância

população feminina. A c o n j u g a ç ã o desses dois elementos poderia tendência

de

declínio

tanto

de

crianças

ilegítimas

quanto

da

explicar a

de

mulheres

r e i n c i d e n t e s nas d é c a d a s de 70 e 80. O m a i o r n ú m e r o de h o m e n s no i m e d i a t o p e r í o d o do p ó s - g u e r r a , r e v e l a d o p e l o c e n s o de 1872, na c a p i t a l e na p a r ó q u i a , foi por nós a v a l i a d o c o m o d e c o r r e n t e da p e r m a n ê n c i a de m i l i t a r e s em C u i a b á . E m 1890 era j á c o n s t a t a d a a s u p e r i o r i d a d e da p o p u l a ç ã o f e m i n i n a , e e s s a s u p e r i o r i d a d e d e v e ser a t r i b u í d a a u m a c o n j u g a ç ã o de v á r i o s f a t o r e s . D e n t r e e s t e s , o r e t o r n o de u m a p a r c e l a de m i l i t a r e s às p r o v í n c i a s de o r i g e m no

transcorrer

circunstancial caráter

das

décadas

dos h o m e n s

itinerante,

como

de em

70

e

80.

decorrência

extrativismo

e

Outro das

fator

atividades

mineração;

diminuta produtividade. E ainda, o comércio

seria

fluvial,

esta,

a

ausência

econômicas ainda

que

de de

q u e , a t i v a d o p e l a livre

n a v e g a ç ã o no rio P a r a g u a i , t e r i a c o n t r i b u í d o p a r a o a f a s t a m e n t o t e m p o r á r i o dos h o m e n s de seus lares. D o m e s m o m o d o , a u r b a n i z a ç ã o o c o r r i d a no pósguerra

incidiu

no

aumento

da

população

da

capital,

particularmente

da

f e m i n i n a , que p a r e c e ter e n c o n t r a d o na p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s , se n ã o melhores

condições

de

vida,

provavelmente

maiores

oportunidades

de

t r a b a l h o . E s s a s o p o r t u n i d a d e s e r a m g e r a d a s p e l a a t i v a ç ã o do c o m é r c i o l o c a l , p o i s p e l o p o r t o de C u i a b á c h e g a v a m as m e r c a d o r i a s , m o v i m e n t a n d o as c a s a s de i m p o r t a ç ã o e e x p o r t a ç ã o g e r i d a s p e l a e l i t e local. E n t r e t a n t o , a p r e s e n ç a de m u l h e r e s n ã o era v i s í v e l nas c a s a s de i m p o r t a ç ã o e e x p o r t a ç ã o e sim n a s p e q u e n a s c a s a s c o m e r c i a i s , misto de bar e armazém,316 a e x e m p l o das c a s a s que v e n d i a m a g u a r d e n t e . U s u a l m e n t e c o n h e c i d a s c o m o t a v e r n a s , c o n s t i t u í a m - s e em espaços de alegria e lazer,

316

FIGUEIREDO, Luciano. O avesso da memória: cotidiano e trabalho da mulher em Minas Gerais no século XVIII. Rio de Janeiro : Edunb, 1993. p. 188.

255

batuques

em que se dançava

(e) encontros

e cantava 317 acertados.

sexuais

Observadas

com

eram

desconfiança

ali freqüentemente

pelas

organizados

autoridades,

essas

p a s s a r a m a ser c o n t r o l a d a s q u a n t o ao h o r á r i o de a t e n d i m e n t o ao f i c a n d o p r o i b i d a s de depois

das

9

abrir

horas

da

antes noite,

das 5 horas quaesquer

da manhã

público,

e conservar

estabelecimentos

casas

abertas commercials,

318

inclusive

tavernas.

estabelecimentos civilização

O regulamento comerciais

levados

a

cabo

dos

horários

de

funcionamento

dos

integrava

os p r o j e t o s

de m o d e r n i z a ç ã o

e

pelas

autoridades

provinciais,

assim

p r o c u r a v a m m o d i f i c a r os h á b i t o s e c o s t u m e s da p o p u l a ç ã o

que

de

mato-grossense,

a d e q u a n d o - o s aos p a d r õ e s c u l t u r a i s e m o r a i s e u r o p e u s . O u t r o e s p a ç o de v i s i b i l i d a d e das m u l h e r e s das c a m a d a s p o p u l a r e s eram

as p r ó p r i a s r u a s , nas q u a i s a t u a v a m

como vendedoras

ambulantes.

S T E I N E N , v i a j a n t e a l e m ã o , em e x p e d i ç ã o p a r a a e x p l o r a ç ã o do rio X i n g u , no i n í c i o da d é c a d a de 80, a t e n t o u p a r a os t r a n s e u n t e s q u e m o v i m e n t a v a m ruas

próximas

ao

porto

de

Cuiabá,

assim

expressando-se

sobre

as tais

vendedoras: mulheres com vestidos de cores berrantes, oferecendo peixes, frutas ou rapaduras, balas (bombons) grosseiras do tamanho de um tijolo. Uma mocinha vendia cigarros pretos, embrulhados em palha de milho, uma outra oferecia bebidas refrescantes em garrafas de cerveja ou de vinho — todas tinham os braços pendentes, pois a mercadoria, ainda que fosse um limão, era carregada sobre a cabeça,319 N o i n t e n t o de m e l h o r d e l i n e a r as p o s s i b i l i d a d e s de r e l a ç õ e s s o c i a i s decorrentes

das

relações

de

parentesco

espiritual,

procuramos

apreender

d e t a l h e s das a t a s d o s r e g i s t r o s de b a t i s m o , por si r e v e l a d o r e s de e l e m e n t o s

. Mulheres nas Minas Gerais. In: PRIORE, Mary del (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo : Contexto, 1997. p. 146. 318

MATO GROSSO. Vice-presidente da província (1879-1881: Galvão). Fala do vice-presidente da província de Mato Grosso, tenente-coronel José Leite Galvão, na abertura da 2a Sessão da 23a Assembléia Legislativa Provincial, em 3 de maio de 1881. Cuiabá : Typ. de J. J. R. Calhão, 1881. Microfilme. 319

STEINEN, Karl Von Den. O Brasil central: expedição em 1884 para a exploração do rio Xingu. São Paulo : Ed. Nacional, 1942. p. 66.

256

c o n s t i t u t i v o s do

e s p a ç o s o c i a l m a i s a m p l o . Item i m p o r t a n t e , que os p á r o c o s

v a l o r i z a v a m s o b r e m a n e i r a e t r a t a v a m c o m e x t r e m a a t e n ç ã o , d i z i a r e s p e i t o ao p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l ; no c a s o , os p a d r i n h o s das c r i a n ç a s . O zelo dos p á r o c o s p e l o s padrinhos d e i x a r em b r a n c o

aquele campo, identificando-os com o respectivo nome e

profissão, e evidenciava CONSTITUIÇÕES

p a s s a v a p e l o c u i d a d o de não

preocupação

Primeiras

em o b e d e c e r

do Arcebispado

da Bahia,

ao q u e d i s p u n h a m

as

a esse respeito:

Conforr.iando-nos com a disposição do Santo Concilio Tridentino, mandamos que no bautismo não haja mais que hum só padrinho, huma só madrinha, que se não admittão juntamente dous padrinhos, duas madrinhas, os quaes padrinhos serão nomeados pelo pay, ou mãy, ou pessoa, a cujo cargo estiver a criança; sendo adulto, os que elle escolher. E mandamos aos Párochos não tomem outros padrinhos senão aquelles, que os sobreditos nomearem, escolherem, sendo pessoas já bautizadas, o padrinho não será menor de quatorze annos, a madrinha de doze, salvo de especial licença nossa. E não poderá ser padrinhos o pay ou mãy do bautizado, nem também os infiéis, hereges, ou públicos excomungados, os interdictos, os surdos, ou mudos, os que ignorão os princípios de nossa Santa Fé, nem Frade, Freyra, Conego Regrante, ou outro qualquer Religioso professo de Religião aprovada, (excepto o das Ordens Militares) per si, nem por procurador/20 Por sua vez, o pai

ou a m ã e ,

p a r e c i a m e s t a r c i e n t e s , ou a c r e d i t a v a m

quando nomeavam

no toque

os

padrinhos,

da fé e na r e s p o n s a b i l i d a d e

dos pais e s p i r i t u a i s em r e l a ç ã o aos seus f i l h o s q u a n t o à o b r i g a ç ã o de lhes e n s i n a r a d o u t r i n a c r i s t ã e os b o n s c o s t u m e s : Mandamos outro sim, que o padrinho, ou madrinha nomeados toquem a criança, ou a recebão ao tempo, que o Sacerdote a tira da pia bautismal feito já o Bautismo, que o Sacerdote, que bautizar, declare aos ditos padrinhos, como ficão sendo fiadores para com Deos pela perseverança do bautizado na Fé, como por serem seus pays espirituaes, tem obrigação de lhes ensinar a Doutrina Cristã, bons costumes. Também lhes declare o parentesco espiritual, que contrahirão, do qual nasce impedimento, que não só impede, mas dirime o Matrimonio: o qual parentesco conforme a disposição do Sagrado Concilio Tridentino, se contrahe somente entre os padrinhos, o bautizado, seu pay, mãy; entre o que bautiza, o

320

28-9.

CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro I, Título XVIII, § 64, p.

257

bautizado, seu pay, mãy; o não contrahem os padrinhos entre si, nem o que bautiza com elles, nem se estende a outra pessoa além das sobreditas,321 O s a c r a m e n t o do b a t i s m o p o s s i b i l i t a v a a a m p l i a ç ã o do c í r c u l o de p a r e n t e s c o e n t r e p e s s o a s das m a i s v a r i a d a s c l a s s e s s o c i a i s , ao t e m p o em que r e f o r ç a v a os v í n c u l o s

entre

indivíduos

de u m a

mesma

família. Em

uma

s o c i e d a d e e s c r a v i s t a , c o m o a de M a t o G r o s s o , o p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l p e r m i t i a u m a a p r o x i m a ç ã o e n t r e l i v r e s e e s c r a v o s , a s s i m c o m o e n t r e h o m e n s de p o s s e e livres p o b r e s . Os p a i s p r o c u r a v a m e l e g e r p a r a p a d r i n h o s de s e u s f i l h o s h o m e n s cuja

profissão

era

a

militar.

Tal

constatação

dizia

respeito

a

1.623

b a t i z a n d o s . A i n c i d ê n c i a das m a n i f e s t a ç õ e s de s a n t o s r e p r e s e n t a v a 863 c a s o s , e n q u a n t o que a e s c o l h a de p a d r e s i n c i d i u em 555 r e g i s t r o s . P o r ú l t i m o , a p r e f e r ê n c i a p o r e s c r a v o s f o i a n o t a d a em 91 b a t i z a d o s . T a i s c o n s t a t a ç õ e s e s t ã o p r e s e n t e s no q u a d r o

32.

Q U A D R O N° 32 BATIZADOS E COMPADRIO NA PARÓQUIA SENHOR BOM J E S U S D E C U I A B Á : 1853 a 1890 Compadrios

NoS absolutos 1853-1870 1871-1890

%

Total

4.274

5.546

9.820

Com m i l i t a r e s

563

1.060

1.623

16,53

Com s a n t o s

431

432

863

8,79

Com c l é r i g o s

341

214

555

5,65

Com escravos

68

23

91

0,93

Crianças batizadas

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á .

321

p. 29.

Jesus

CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro I, Título XVIII, § 65,

258

A r e l a ç ã o de c o m p a d r i o com os m i l i t a r e s , de c e r t a m a n e i r a ,

era

s e l a d a p e l a s r e l a ç õ e s de c a s e r n a . Aos vinte e tres de junho de mil oitocentos e cincoenta e cinco, na Matriz Senhor Bom Jesus de Cuiabá, baptize i e pus os santos óleos a Jorge, com idade de um ano e dois meses, filho do tenente Felippe Nery Monteiro e Dona Maria Alexandrina Nery. Foram seus padrinhos, o Brigadeiro Henrique José Vieira e Dona Jacinta do Espírito Santo Vieira. O Cura José Jacinto da Costa e Silva. O

aumento

considerável

de

batizandos

cujos

padrinhos

eram

m i l i t a r e s , no p e r í o d o c o m p r e e n d i d o e n t r e 1871 a 1890, p o d e e s t a r r e l a c i o n a d o à v a l o r i z a ç ã o do E x é r c i t o e à p r o f i s s i o n a l i z a ç ã o dos m i l i t a r e s a p ó s a G u e r r a do P a r a g u a i . P a r e c i a v i g o r a r o por c o n t a do p r e s t í g i o

lema

de

s o c i a l q u e ela p o d e r i a t r a z e r .

Por o u t r o lado, g e r a l . A i n c i d ê n c i a em

f o r a m p o u c o s os p a d r i n h o s e s c r a v o s no c ó m p u t o p a d r i n h o s e m a d r i n h a s c o m n o m e s de s a n t o s r e v e l a

uma forte religiosidade popular marcada da r e g i ã o , c o m o

maior proximidade com a farda,

p e l o a p e g o às d i v i n d a d e s c a t ó l i c a s

N o s s a S e n h o r a do B o m D e s p a c h o , da B o a M o r t e ,

Senhor

B o m J e s u s de C u i a b á , etc. R e s t a s a b e r , em s e g u n d o l u g a r , q u a i s as p o s s i b i l i d a d e s s o c i a i s d a d a s a p a r t i r das r e l a ç õ e s de p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l às m ã e s de i l e g í t i m o s , c o m o i d e n t i f i c a r a c o m p o s i ç ã o s o c i a l da compadrio. O quadro

parceria

e s t a b e l e c i d a a p a r t i r do

33 c o n t é m i n d i c a t i v o s do u n i v e r s o das r e l a ç õ e s

p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l dos n a s c i t u r o s i l e g í t i m o s .

322

bem

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 4.

de

259

Q U A D R O N ° 33 ILEGITIMIDADE E COMPADRIO NA PARÓQUIA SENHOR BOM J E S U S DE C U I A B Á : 1 8 5 3 - 1 8 9 0 NoS A B S O L U T O S

COMPADRIOS

TOTAL

%

1853-1870 1.969

1871-1890 2.300

4.269

Com m i l i t a r e s

230

296

526

12,3

Com clérigos

244

97

341

8,0

Com casais

265

53

318

7,4

Com Nossa Senhora + homem

149

135

284

6,7

Com escravos

37

18

55

1,3

Proprietários + mães

06

05

11

0,3

Nascimentos ilegítimos

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o s de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á . E

muito

significativo

que

em

todos

os

registros

de

batizados

c o n s t a s s e m os p a d r i n h o s . P e r c e b e - s e que os c o m p a d r i o s c o m p r e e n d i a m c a s a i s , manifestações

da

Virgem

Maria

com

homens,

possivelmente

solteiros

e

p r o p r i e t á r i o s das m ã e s dos i l e g í t i m o s , b e m c o m o e s c r a v o s . T a n t o o p a d r i n h o como

a

madrinha

apareciam

invariavelmente

acompanhados

de

seus

r e s p e c t i v o s p a r c e i r o s e n u n c a s o z i n h o s . Às v e z e s , os p á r o c o s e r a m l i s t a d o s c o m o p a d r i n h o s s o z i n h o s , m a s f o r a m r a r o s os b a t i s m o s e m que tal s i t u a ç ã o ocorreu. Ao t r a t a r dos r e g i s t r o s de b a t i s m o s de i l e g í t i m o s l i v r e s na p a r ó q u i a São C r i s t ó v ã o da c i d a d e do R i o de J a n e i r o e n t r e 1858 a 1867, K U S N E S O F j á h a v i a a t e n t a d o p a r a t a i s c a r a c t e r í s t i c a s . 3 2 3 D e n t r e os p a d r i n h o s e m a d r i n h a s apresentados como parentes rituais, a autora constatou, ainda,

a i n c l u s ã o dos

avós p a t e r n o s e m a t e r n o s , n u m a d e m o n s t r a ç ã o do e n v o l v i m e n t o f a m i l i a r nos

323

KUSNESOF, Elizabeth Anne. op. cit., p. 164-73.

260

r i t u a i s de b a t i s m o estivesse mãe e a

ausente,

das c r i a n ç a s

ao menos

ilegítimas.

um dos avós

estaria

Em

muitos

presente

casos, para

se

o

pai

acompanhar

a

criança.224 No c a s o da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á , i n f e l i z m e n t e não

foi p o s s í v e l o b t e r i n f o r m a ç õ e s s o b r e a p r e s e n ç a d o s a v ó s nas c e r i m ô n i a s de b a t i s m o , uma vez que seus n o m e s n ã o f o r a m a p o n t a d o s nos livros de r e g i s t r o . C o n t u d o , o e s p a ç o de tais r e l a ç õ e s de c o m p a d r i o p e s s o a s de

prestígio social, como comendadores,

podia

abrigar

doutores, advogados e

b a r õ e s , além d o s m i l i t a r e s j á e n f a t i z a d o s . E o c a s o , p o r e x e m p l o , de Avelina, filha natural de Antonia Vicencia Dias, nascida um mil, oitocentos e sessenta e cinco e batizada aos doze oitocentos e sessenta e cinco na Matriz Senhor Bom recebeu como padrinhos, o Comendador Henrique José Henriqueta Vieira.223 Por sua vez, A n a nascida

em dezembro

igualmente o Major

na Matriz Lauriano

de Senhor

Xavier

filha um

natural

mil,

oitocentos

Bom Jesus

da Silva

de Joanna

Ferreira

e sessenta

de Cuiabá,

e Dona Firmina

aos quatorze de abril de de novembro de um mil, Jesus de Cuiabá, que Vieira e Dona Bal bina

e sete,

recebeu Xavier

de

como

da

Moraes, batizada padrinhos,

Silva.326

E v i d e n c i a - s e a e x i s t ê n c i a de r e l a ç õ e s , se n ã o a f e t i v a s , p e l o m e n o s de

proximidade

entre

os

parentes

espirituais

e

as

mães,

provavelmente

a c e n t u a d a s a p ó s a c e r i m ô n i a do b a t i s m o . É p o s s í v e l s u p o r que e s s a s m u l h e r e s , estrategicamente,

escolhiam

para

padrinhos

homens

com

determinado

p r e s t í g i o s o c i a l , c o m o f o r m a de g a r a n t i r a m p a r o p a r a si e para seus f i l h o s . A n o m e a ç ã o dos p a d r i n h o s p o d i a p r e s u m i r , de a l g u m a f o r m a , que m ã e s e c r i a n ç a s f o s s e m a m p a r a d a s , q u e f i l h o s de e s c r a v a s p u d e s s e m g a n h a r a a l f o r r i a e que f i l h o s n a t u r a i s p u d e s s e m c o n v i v e r c o m f i l h o s l e g í t i m o s , c o m o

324

Ibid., p. 173.

325

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 6.

322

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 4.

261

u s u f r u t o do p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l . C o m o b a t i s m o , g e r a v a - s e uma a m b i ê n c i a de

sociabilidade

e n t r e a f i l h a d o s , p a d r i n h o s e p e s s o a s do m e s m o c o n v í v i o .

C o m o e x e m p l o d e s s a c o n v i v i a l i d a d e p o s s í v e l , a l é m de A v e l i n a / 2 7 apadrinhado quatro,

aos sete dias do mês de fevereiro

pelo

Leverger,328

Capitão

Cesário

Corrêa

da

de mil oitocentos Costa

e Dona

Manoel,

e cincoenta Emilia

e

Augusta

O n a s c i t u r o era f i l h o n a t u r a l de M a r i a I s i d o r a . A m b o s p o d e r i a m

vir a ser b e n e f i c i a d o s p e l o p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l c o n t r a í d o com um m i l i t a r e com a f i l h a do p r e s i d e n t e da p r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r . As c i f r a s d e m o n s t r a m estavam

presentes

na

lista

a i n d a a i n t e n s i d a d e c o m que os

dos

padrinhos

V e r i f i c a m o s q u e , d e n t r e os i l e g í t i m o s ,

dessas

12,3%

crianças

militares ilegítimas.

receberam como padrinhos

h o m e n s c u j a p r o f i s s ã o p r i n c i p a l era a m i l i t a r . Tal c o n s t a t a ç ã o p o d e r i a r e v e l a r o u n i v e r s o s o c i a l em que v i v i a m e s s a s m ã e s e os p a d r i n h o s de seus f i l h o s : um e s p a ç o que, a p e s a r da e s c r a v i d ã o , p o s s i b i l i t a v a o e s t r e i t a m e n t o de r e l a ç õ e s e n t r e p e s s o a s dos m a i s v a r i a d o s s e g m e n t o s s o c i a i s . A c e r i m ô n i a do b a t i s m o p o d e ser e n t e n d i d a c o m o p o s s i b i l i d a d e de a p r o x i m a ç ã o e n t r e as p e s s o a s da elite

e as p o b r e s

livres

e escravas.

e s t r e i t a v a os l a ç o s de s o c i a b i l i d a d e humildes.

As

mulheres

pareciam

O batismo

como

e n t r e os homens perceber

a

que a p r o x i m a v a de

bem

importância

e os

da

e

mais

cerimônia

b a t i s m a l e por isso m e s m o i n v e s t i a m no e v e n t o . O c o t i d i a n o dessas m u l h e r e s i m p l i c a v a a a m p l i a ç ã o das r e d e s de s o l i d a r i e d a d e , nas q u a i s o c o m p a d r i o se revestia

de

importância

vital,

pois

comportava

relações

ampliadas. O parentesco espiritual, sobretudo, ancorava uma

de

parentesco

solidariedade

f o r j a d a no c o t i d i a n o das p e s s o a s , r e s t r i t a ao p r i v a d o , m a s i n s i n u a n d o - s e em espaços sociais mais

fluidos.

N o u n i v e r s o s o c i a l das m ã e s dos i l e g í t i m o s ,

os v a l o r e s

morais

c o n t r a p u n h a m - s e aos d e s a f i o s i m p o s t o s p e l a s d i f i c u l d a d e s da vida. N a b u s c a da s o l u ç ã o de p r o b l e m a s

no â m b i t o do p ú b l i c o ou do p r i v a d o , c o m o o

327

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 8.

328

Livro de registro de batizados da paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá, n° 4.

262

r e c r u t a m e n t o do f i l h o

a r r i m o de f a m i l i a , ou do c o m p a n h e i r o ou m a r i d o , ou

a i n d a a g r a v i d e z i n d e s e j a d a , tais m u l h e r e s e m e r g i a m e a l ç a v a m o e s p a ç o da v i s i b i l i d a d e , do p ú b l i c o e do o b s e r v á v e l , f a z e n d o uso dos i n s t r u m e n t o s q u e seu u n i v e r s o

lhes p e r m i t i a .

Na

solução

c i r c u n s t â n c i a s , a luta p e l a s o b r e v i v ê n c i a

dos p r o b l e m a s

impostos

pelas

era e n t e n d i d a , por v e z e s ,

como

d e f e s a da h o n r a : No dia 24 de janeiro, Anna das Dores, paraguaia, queixou-se a esta Chefatura que Pedro Alexandrino Ribeiro raptara e deflorara sua filha Victoriana de Freitas, menor de 14 annos de idade. Antes de instaurar-se o competente processo, fiz ver ao raptor que do mesmo se isemptaria no caso de querer elle reparar o mal causado, desposando a offendida, tendo o reff er ido raptor declarado que estava prompt o a fazer esta reparação pela forma proposta; foi effectuado o casamento pelo Cura da Sé, tendo precedido o mesmo a Portaria competente do Exm° Bispo Diocesano, a qual foi requisitada por esta Chefatura. 329 Aos o l h o s da c h e f a t u r a de P o l í c i a , a a t i t u d e de A n a das D o r e s era em d e f e s a da h o n r a da f i l h a . O c a s a m e n t o de V i t o r i a n a com

seu r a p t o r

iria

c o r r i g i r um e r r o c o m e t i d o e a f i l h a p o d e r i a r e p a r a r a h o n r a p e r d i d a . M a i s do que sair em d e f e s a da v i r g i n d a d e da f i l h a , Ana das D o r e s l u t a v a p e l o n ã o d e s a m p a r o da f i l h a e do f u t u r o n e t o . M a i s do q u e d e f e n d e r a h o n r a , A n a das D o r e s d e f e n d i a a f i l h a c o n t r a as a g r u r a s f i n a n c e i r a s que c e r t a m e n t e

seriam

a c e n t u a d a s a p ó s o n a s c i m e n t o da c r i a n ç a . Ao agir d e s s a f o r m a , Ana das D o r e s t e n t a v a e v i t a r q u e sua f i l h a i n t e g r a s s e o g r u p o das m u l h e r e s que d a v a m à luz f i l h o s i l e g í t i m o s e do qual a p r ó p r i a das Dores A tendência certamente

não

deve

de d e c l í n i o de ser

explicada

p a r e c i a ser i n t e g r a n t e .

ilegítimos

e de m ã e s

exclusivamente

por

essa

reincidentes atitude

de

i n t e r v e n ç ã o d a s m ã e s . T a i s i n t e r f e r ê n c i a s p o d e r i a m ter r e d u z i d o , em m u i t o s c a s o s , o n a s c i m e n t o de c r i a n ç a s n a t u r a i s m e d i a n t e a r e a l i z a ç ã o do c a s a m e n t o . Entretanto,

não

é

explicação

suficiente

para

modificar

uma

tendência

histórica.

329

MATO GROSSO. Vice-presidente da província (1879-1881. Galvão). Fala do vice-presidente da província de Mato Grosso, tenente-coronel José Leite Galvão, na abertura da 2a Sessão da 23a Assembléia Legislativa Provincial, em 3 de maio de 1881. Cuiabá : Typ. de J. J. R. Calhão, 1881. Microfilme.

263

A

apresentação

de

queixas

à

chefatura

de

Polícia

da

capital,

d e c o r r e n t e s de r a p t o s e d e f l o r a m e n t o s de m e n o r e s , p a r e c i a ser u m a p r á t i c a das m u l h e r e s na t e n t a t i v a de s o l u ç ã o de p r o b l e m a s de c o n v í v i o f a m i l i a r . 3 3 0 As queixas apresentadas pelas mulheres

d e v e m ser e n t e n d i d a s c o m o e x p r e s s ã o

de r e s i s t ê n c i a c o t i d i a n a e m e s m o de e s t r a t é g i a de s o b r e v i v ê n c i a no â m b i t o do •5*5 i

privado.

E r a m m u l h e r e s que p r o c u r a v a m a s s e g u r a r

o b e m - e s t a r de f i l h a s e

s o b r i n h a s , a m p a r a n d o - a s a t r a v é s da r e a l i z a ç ã o do c a s a m e n t o . N e s s e a s p e c t o , p a r a os s e g m e n t o s m a i s p o b r e s , o m a t r i m ô n i o p o d i a ter m a i s u m a c o n o t a ç ã o de p r o t e ç ã o f i n a n c e i r a do que p r o p r i a m e n t e

de v a l o r i z a ç ã o do

c o m o um s a c r a m e n t o i n s t i t u í d o p e l a I g r e j a C a t ó l i c a : O último sete

instituídos

por

Christo

nosso

Senhor

princípio

um contrato

cÕ vinculo

a mulher

se entregão

um ao outro,

razão

confere

graça

indissolúvel,

o mesmo

aos que dignamente

Sacramento

he o do Matrimonio.

perpetuo,

o

pelo

Senhor,

casamento dos

E sendo

a

qual o homem

e

a sua Igreja,

por

cuja

recebem.332

O u t r a e s t r a t é g i a m u i t o u t i l i z a d a p e l a s m u l h e r e s p o b r e s era a de r e q u e r e r a d i s p e n s a do s e r v i ç o m i l i t a r de s e u s f i l h o s . D e n t r e os v á r i o s c a s o s , e n c o n t r a m o s o de Maria

Josefa

serviço

do Corpo

de Guarda

Ribeiro,

allegando

servir-lhe

dos recursos

da Cruz,

Nacionaes este

n ã o s o m e n t e de

pedindo

destacado

de arrimo.333

que

seja

o seo filho

dispensado José

do Manoel

R e q u e r e r a d i s p e n s a era um

mulheres livres e pobres, mas também

de

330

Tomamos ainda, como exemplo, a queixa de Domingas Rodrigues Chaves a I o de setembro de 1881, contra Trajano B. de Camargo, que raptara sua filha, Dulcina, menor de 17 anos, e a deflorara. Também fez igual queixa, a 19 de dezembro, Deolinda Maria do Espírito Santo, contra o cabo do 3° Regimento de Artilharia a Cavalo, Lúcio A. de Sousa, que raptara e deflorara sua sobrinha Feiismina M. do Espírito Santo, menor de 14 anos, sob seu poder e guarda. In: MATO GROSSO. Presidente da província (1879-1881: Galvão). Fala do vicepresidente da província de Mato Grosso, tenente-coronel José Leite Galvão, na abertura da 2a sessão da Assembléia Legislativa Provincial, em 3 de maio de 1881. Cuiabá: Typ. J. J. R. Calhão. 1881. Microfilme. 331

Seguindo o mesmo caminho, encontramos Mariana Antonia da Silva, no dia 17 de janeiro de 1882, dando queixa do defloramento de sua filha menor de 13 anos de idade, Balbina da Silva, por Apolinário de Tal. Ao reconhecimento das faltas cometidas por parte dos raptores, sucederam-se os casamentos ainda nas mesmas datas das queixas. In: MATO GROSSO. Presidente da província (1881-1882: Alencastro). Relatório com que o coronel Dr. José Maria de Alencastro, abriu a I a sessão da 24a Legislatura da respectiva Assembléia no dia 15 de junho de 1882. Cuiabá: Typ. J. J. R. Calhão. 1882. Microfilme. 332

CONSTITUIÇÕES Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). Livro I, Título LXII, § 259, p.

333

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 20 jan. 1876. p. 1.

114.

264

outros

segmentos

recrutamento,

sociais

envolvidos,

que i m p l i c a v a

numa

o afastamento

demonstração

dos h o m e n s

de

que

de seu

o

convívio

f a m i l i a r , não era a c a t a d o p a s s i v a m e n t e p e l a p o p u l a ç ã o . 3 3 4

dispensa Seja

Algumas

obtinham

deferimento,

do Corpo

destacado

do seo filho

dispensado."3

como

Rita

Venância,

de nome Pedro

Celestino

pedindo da

O u t r a s , p o r é m , c o m o M a r i a J o s e f a da C r u z , t i n h a m

Silva. seu

requerimento indeferido. Fatores como estado físico, idade e possivelmente a l g u m t i p o de i n f e r ê n c i a r e l a c i o n a d o a n o m e s de f a m í l i a , p o d i a m i n t e r f e r i r nas r e s p o s t a s dos r e q u e r i m e n t o s . A v a l i a m o s , a i n d a , c o m o a t i t u d e de r e s i s t ê n c i a c o t i d i a n a , o i n t e r e s s e q u e a l g u m a s m u l h e r e s p a r e c i a m ter na s o c i a l i z a ç ã o e e d u c a ç ã o de s e u s f i l h o s , q u a n d o p r o c u r a v a m i n s t r u m e n t a l i z á - l o s em a l g u m o f í c i o . O r e q u e r i m e n t o

de

Maria

de

Justina

aprendizes

Pereira

Artífices

de Souza, do Arsenal

pedindo

para

de Guerra,

se admitir

seo filho

na Companhia

menor

de 12 annos,

de

336

nome

Manoel

José

Pereira,

a p o n t a i n d í c i o s da u t i l i z a ç ã o q u e as m u l h e r e s

p o d i a m f a z e r dos e s p a ç o s p ú b l i c o s em b e n e f í c i o de si e de s e u s f i l h o s . Ana privacidade

de M o u r a para

expor

Meireles em

não

público

hesitou os

em

sair

problemas

de que

sua

recôndita

possivelmente

e n f r e n t a v a em r e l a ç ã o aos f i l h o s . A f i r m a v a a um dos j o r n a i s da c i d a d e de

334

Achamos oportuno citar alguns dos muitos requerimentos encontrados no jornal A SITUAÇÃO, pois revelam a intensidade com que as demais mulheres, as que levavam sobrenomes de família, também resistiam diante do recrutamento de seus filhos. No expediente do dia 27 de setembro de 1875 da administração do presidente da província, general Hermes Ernesto da Fonseca, chegava o requerimento conjunto de D. Maria Pires Corrêa, Escolástica Maria Villa-Bôas, Maria Alves Pereira, Constantino Ribeiro Jorge, Leonarda de Lara Ferraz e Feliciana Margarida de Campos, pedindo dispensa do serviço do Corpo destacado a seos filhos Joaquim Pinto de Miranda, José Villa-Bôas e Joaquim Villa-Bôas, João Lopes de Sousa, Adolpho Jorge da Cunha, Manoel Amâncio da Costa e João Maciel de Campos. E, no expediente de 28 de outubro de 1875, citamos ainda o requerimento de Antonio Casimiro de Oliveira, pedindo dispensa do serviço do Corpo destacado à seo camarada Manoel Pedro de Almeida. Outro, o tenente José Maria Botelho pede para 'dispensa do serviço do Corpo destacado a seo capataz Domingos de Oliveira Pinto'. João Ventura de Andrade talvez tenha conseguido dispensa ao apresentar um requerimento 'pedindo escusa do serviço da companhia da força policial, para o que offereceu à seo substituto o paizano Sebastião Fernandes de Britto, obtendo a seguinte resposta: 'seja o substituto ojferecido inspeccionado pela Junta médica militar '. 335

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 28 out. 1875. p. 1.

335

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 05 jun. 1875. p. 4.

265

Cuiabá desta

que não se responsabiliza em diante.3^7

data

por

negócio

algum

feito

por

seus

É de se s u p o r q u e Ana de M o u r a p o s s u í a

filhos bens,

e x e r c e n d o f u n ç õ e s e c o n ô m i c a s d e t e r m i n a n t e s na c o n d u ç ã o e a d m i n i s t r a ç ã o dos n e g ó c i o s da f a m í l i a , em d e c o r r ê n c i a da m o r t e ou da a u s ê n c i a t e m p o r á r i a do m a r i d o . Os e x e m p l o s c i t a d o s p e r m i t e m q u e p e r c e b a m o s as m ú l t i p l a s f o r m a s de r e s i s t ê n c i a e x p r e s s a s p e l a s m u l h e r e s c u i a b a n a s , l i v r e s , p o b r e s ,

solteiras,

c a s a d a s ou v i ú v a s , na d e f e s a de seus i n t e r e s s e s . O e s t u d o da de

ilegitimidade

estratégias

de

r e i n c i d ê n c i a de f i l h o s i l e g í t i m o s , a b u s c a de p a d r õ e s

associam-se, vida

de

maneira

à

apreensão

das m u l h e r e s p o b r e s , l i v r e s ou e s c r a v a s ,

p a r a dar c o n t a da p r o l e . N e m s a n t a s , q u e , sem

imbricada,

d e i x a r de p a r t i c i p a r

de

construídas

nem transgressoras, apenas

mulheres

dos sutis m o v i m e n t o s da h i s t ó r i a do c o t i d i a n o ,

a g i a m e i n t e r a g i a m . N o e s p a ç o da p r o d u ç ã o e da s o c i a b i l i d a d e ,

conseguiram

c r i a r l a ç o s m u i t o f o r t e s de s o l i d a r i e d a d e e de v i z i n h a n ç a , n u m a d e m o n s t r a ç ã o de que não e r a m a g e n t e s p a s s i v o s da h i s t ó r i a . seus

A c o m p a n h a d a s ou n ã o de

homens, desenvolveram tarefas variadas, produzindo e comercializando

g ê n e r o s a l i m e n t í c i o s , t r a b a l h a n d o em t a v e r n a s ou p r o s í i t u i n d o - s e . C h e f i a v a m f a m í l i a s e c r i a v a m seus f i l h o s , sós ou a p o i a n d o - s e na r e d e de s o l i d a r i e d a d e por elas t e c i d a .

337 338

A SITUAÇÃO. Cuiabá, 05 set. 1869. p. 3-4. DIAS, Maria Odila Leite da Silva. op. cit., p. 9.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O empirismo pode culminar num jarro Ming, nunca numa taça de plástico. A. R u p e r t H a l l

Lugares diferentes, historicidades outros

signos,

outras

representações

específicas, podem

decorrentes

da

conduzir

cristalização

a

das

m a n i f e s t a ç õ e s de c o n v i v i a l i d a d e e s o c i a b i l i d a d e g e s t a d a s no c o t i d i a n o

dos

i n d i v í d u o s . A s s i m , a r e t o m a d a c u i d a d o s a das e s p e c i f i c i d a d e s h i s t ó r i c a s

da

região

de

Mato

viabilizadoras

Grosso

se

deu

da r e p r o d u ç ã o

em

razão

da b a s t a r d i a

da

apreensão

das

no c o n t i n g e n t e

condições

mais

amplo

da

p o p u l a ç ã o . S o m o u - s e , a q u i , a p r e o c u p a ç ã o em a v a l i a r o n í v e l de a c e i t a ç ã o dos filhos ilegítimos

nas f a m í l i a s

cuiabanas,

independentemente

da

condição

s o c i a l , q u e r e n t r e a p o p u l a ç ã o e s c r a v a , q u e r e n t r e a livre, p o b r e ou da e l i t e . O e s t u d o da i l e g i t i m i d a d e c o n s t i t u i u - s e em i n d i c a d o r de sociais

constitutivas

revelador

de

uniões

de

formas

de

consensuais

organização

duradouras

e

familiar

práticas

diferenciadas,

esporádicas

inseridas

no

u n i v e r s o n o r m a t i v o da I g r e j a C a t ó l i c a . O l e q u e de p o s s i b i l i d a d e s de a n á l i s e s tornou-se

m a i s a m p l o a p a r t i r da i n s e r ç ã o

dos i l e g í t i m o s

nas f o r m a s

de

organização familiar. E m u m a s o c i e d a d e de e r r a n t e s e a v e n t u r e i r o s , as u n i õ e s c o n s e n s u a i s puderam

ser

apreendidas

capazes

de

externar

como

traços

manifestações

e

contornos

de c o n j u g a l i d a d e de

constituição

informal, familiar

e

m e r e c e d o r a s de a c e i t a ç ã o s o c i a l . E m b o r a r e p r e s e n t a d a s c o m o m a n i f e s t a ç õ e s de tratos

ilícitos

e em c o n f r o n t o c o m a m o r a l da I g r e j a , as u n i õ e s c o n s e n s u a i s

estáveis

se r e v e l a r a m

como

práticas

comuns

recorrentes

e revestidas

de

legitimidade social. Nossas fontes revelaram homens e mulheres

e n v o l v i d o s na l a b u t a

do c o t i d i a n o , em c o n f r o n t o c o m as a d v e r s i d a d e s de u m a r e g i ã o m a r c a d a p e l a s especificidades

históricas

da

fronteira

oeste.

Seres,

relacionados

a f e t i v a m e n t e em r e s p o s t a à c o n t i n g ê n c i a de v i v e r n u m a r e g i ã o de f r o n t e i r a e

268

de

itinerância,

onde

instabilidade,

precariedade,

provisoriedade

e

a m b i g ü i d a d e t o r n a r a m - s e m a r c a s da v i d a c o t i d i a n a . S e r e s , p o r é m , e n l a ç a d o s por r e l a ç õ e s s o c i a i s e f a m i l i a r e s , c u j o a l v o da p r e o c u p a ç ã o ú l t i m a

acabava

s e n d o a p r o l e , no s e n t i d o m a i s a m p l o , e a sua l e g i t i m a ç ã o , no s e n t i d o m a i s restrito. A imersão signos,

outras

no e s p a ç o

dos tratos

representações

diversas

ilícitos das

conduziu-nos concepções

c o n j u g a l i d a d e , da e s t r u t u r a f a m i l i a r e da i l e g i t i m i d a d e ,

a

outros

acerca

da

tomadas quase que

c o n s e n s u a l m e n t e de f o r m a e q u i v o c a d a . O d e s d o b r a m e n t o da a n á l i s e da i l e g i t i m i d a d e c o m p o r t o u a i n s e r ç ã o das m u l h e r e s p o b r e s em r e l a ç õ e s f a m i l i a r e s f u n d a d a s em u n i õ e s c o n s e n s u a i s e viabilizadoras

da b a s t a r d i a .

Grande

parte

de n o s s a

atenção

voltou-se

ao

e s t u d o d e s s a s m u l h e r e s , m ã e s de i l e g í t i m o s , f o c a l i z a d a s a p a r t i r da c o n d i ç ã o s o c i a l , de p r á t i c a s e o f í c i o s v o l t a d o s à s o b r e v i v ê n c i a , das i n ú m e r a s r e l a ç õ e s c o n s t i t u t i v a s da s o c i a b i l i d a d e . N e m s a n t a s n e m t r a n s g r e s s o r a s ; a p e n a s m u l h e r e s e n v o l t a s na t a r e f a do s u s t e n t o

da p r o l e b a s t a r d a ,

na m a t e r n i d a d e

de

tiveram seus espaços esquadrinhados

no

a p r e e n d e r p r á t i c a s e e s t r a t é g i a s r e v e l a d o r a s da c o n s t r u ç ã o

da

i l e g í t i m o s . As mulheres s e n t i d o de ambiência

familiar

e

em g e r a l

de Jesus

das

tênues

reincidentes

delimitações

da

vida

privada,

tomada

e n q u a n t o e s p a ç o em c o n s t i t u i ç ã o . E m b o r a n ã o p u d é s s e m o s r e s g a t a r a i n t i m i d a d e d e s s a s m u l h e r e s , em seus m ú l t i p l o s a s p e c t o s ,

r e c u p e r a m o s s e g r e d o s de m u l h e r e s da e l i t e , em g e r a l

c o m p a r t i l h a d o s com p a r e n t e s e e s c r a v o s , s e l a d o s nos m o m e n t o s de d e c i s ã o da e x p o s i ç ã o d o s f i l h o s i l e g í t i m o s . R e p e t i n d o M i c h e l l e P e r r o t , o d i t o e o não dito t e c e m um u n i v e r s o de c o m u n i c a ç õ e s i n t e r n a s t a n t o m a i s sutil

quanto

m a i s c o n t r a s t a n t e s são os i n t e r e s s e s , o a m o r , o ó d i o , a v e r g o n h a . A

ilegitimidade

no

interior

da

moral

familiar

tornou-se

fato

r e c o r r e n t e . E n t r e as c o n t i n g ê n c i a s de um c o t i d i a n o real e as c o n d e n a ç õ e s à

269

bastardia,

foi t e c i d o um e s p a ç o de t r a m a , r e s i s t ê n c i a e e s t r a t é g i a s v o l t a d a s a

i m p r i m i r s o l u ç õ e s aos n a s c i m e n t o s de i l e g í t i m o s . T a n t o a r e d e de s o l i d a r i e d a d e

q u e se i n s i n u a v a e n t r e as m ã e s , a f i m

de que a p r o l e i l e g í t i m a p u d e s s e f i c a r sob s e u s c u i d a d o s , q u a n t o a

exposição

do n a s c i t u r o na c a s a de p a r e n t e s p r ó x i m o s , e r a m e s t r a t é g i a s de r e s i s t ê n c i a às i m p o s i ç õ e s e c o n t r o l e da I g r e j a . E n q u a n t o o p r i m e i r o r e c u r s o era u m a s o l u ç ã o p ú b l i c a e s o l i d á r i a , o s e g u n d o v i n h a s e l a d o p e l a m a r c a do s e g r e d o .

Fica

p a t e n t e , p o i s , a r i g o r o s a v i g i l â n c i a da I g r e j a n ã o a p e n a s s o b r e os a t o s , m a s , s o b r e t u d o , sobre as i n t e n ç õ e s dos i n d i v í d u o s . . N o â m b i t o da s o c i a b i l i d a d e ,

n o s s o a l v o f o r a m as r e l a ç õ e s s o c i a i s

d e c o r r e n t e s do p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l e o o b j e t i v o foi v i s l u m b r a r as e s t r a t é g i a s que se i n s i n u a v a m em e s p a ç o s s o c i a i s m a i s f l u i d o s , e r e s t r i t a s à v i d a p r i v a d a . • A rede de p a r e n t e l a e v i z i n h a n ç a s u s t e n t a v a p r á t i c a s e e s t r a t é g i a s de m ã e S | p o b r e s p a r a s o c i a l i z a r os f i l h o s i l e g í t i m o s , l a s t r e a d a s p o r r e l a ç õ e s de p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l . O r e c u r s o aos p a r e n t e s e v i d e n c i a v a - s e c o m o

solução

comurn e' f r e q ü e n t e no c u i d a d o d o s i l e g í t i m o s , e a f a m i l i a , de m o d o g e r a l , coh¿f'ituía-se no e s p a ç o i d e a l p a r a a c o l h i d a e a b r i g o d e s s a s c r i a n ç a s . : -*

.

As r e l a ç õ e s de c o m p a d r i o

se c o n v e r t i a m

em um d o s

elementos

f u n d a n t e s da s o l i d a r i e d a d e f o r j a d a no c o t i d i a n o dos s e t o r e s m a i s p o b r e s da população. Eram seladas pela conivência e segredo e convertidas em relações de p a r e n t e s c o g e n e r a l i z a d o e n t r e p a r e s de i d ê n t i c a c o n d i ç ã o , i n c l u s i v e e n t r e os setores; m a i s e m p o b r e c i d o s . D e r i v a daí a i n f e r ê n c i a

da e x i s t ê n c i a de u m a

f o r t e s o c f a b i l i d a d e i n s c r i t a no â m b i t o da v i d a p r i v a d a . A r e c u s a à e x p o s i ç ã o das c r i a n ç a s i l e g í t i m a s na R o d a , b e m c o m o o r e c u r s o ao p a r e n t e s c o e s p i r i t u a l são i g u a l m e n t e e l e m e n t o s r e v e l a d o r e s t e n s õ e s p r e s e n t e s no e s p a ç o da v i d a p r i v a d a .

O f a t o de ser m u i t o r a r o o

r e c u r s o à R o d a d o s E x p o s t o s p o d e ser um f o r t e i n d i c a t i v o da a t i t u d e n e g a ç ã o da e s f e r a p ú b l i c a no c o n t r o l e da v i d a p r i v a d a . um e s p a ç o de t e s s i t u r a

das

de

E p r o v á v e l r e s i d i r aí

de a t i t u d e s de r e s i s t ê n c i a à i n t e r m e d i a ç ã o da I g r e j a ,

270

ancoradas

em

práticas

de

solidariedade

que

acabavam

por

agir

como

a t e n u a n t e s de t e n s õ e s e n t r e as e s f e r a s da v i d a p r i v a d a e da v i d a p ú b l i c a . N e s s e s e n t i d o , a b u s c a d o s s i n a i s de i n t e r v e n ç ã o e de c o n t r o l e , a a p r e e n s ã o de c o n f l i t o s , t e n s õ e s e r e s i s t ê n c i a s , f u n d a r a m - s e no norteador

de

que

a vida

privada

é um

espaço

de

pressuposto

especificidades

e

de

d i f e r e n ç a s c o n t i d a s em u m a d a d a r e a l i d a d e h i s t ó r i c a . A a b o r d a g e m de um fenômeno

complexo

como

o da

ilegitimidade

suscitou

interrogações

que

g i r a m em t o r n o das r e l a ç õ e s e n t r e o p ú b l i c o e o p r i v a d o , o c o l e t i v o e o individual.

Embora buscássemos

d e l i n e a r o t r a ç o dos c í r c u l o s

idealmente

concéntricos entre a sociedade civil, o privado, o íntimo e o individual, nem s e m p r e c o n s e g u i m o s a c e n t u a r as l i n h a s t ê n u e s e f u g i d i a s d e m a r c a d o r a s vida p r i v a d a e da vida p ú b l i c a . N e m

s e m p r e as n o ç õ e s

se r e f i n a m ,

da nem

s e m p r e as p a l a v r a s e as c o i s a s se p r e c i s a m . A a b o r d a g e m da i l e g i t i m i d a d e c o n d u z i u - n o s a e s p a ç o s r e c ô n d i t o s e aos m e a n d r o s da c o n s t r u ç ã o da v i d a p r i v a d a no â m b i t o da p a r ó q u i a B o m J e s u s de revelou-nos

Cuiabá.

A visitação

desses espaços, trajetória

Senhor

palpitante,

a d i n â m i c a da e d i f i c a ç ã o de d i v i s ó r i a s q u e se i n s i n u a m m a i s em

f o r m a de p e r s i a n a s , ora a f i l t r a r , ora a b a r r a r , a l u m i n o s i d a d e e n t r e a v i d a privada e a pública.

ANEXOS

272

ANEXO 1 F I C H A DE ANO:

(1) Data

BATISMO

PARÓQUIA:

(2) Sexo

(3) Nome da criança

(4) Data Nase.

LIVRO

(5) Legítimo

(6) Natural

(?) Idade

(8) Pai Nome Prof.

(9) Mãe Nome Prot".

N°:

(10) padrinhos Nome Prof.

F O N T E : D A U M A R D , A d e l i n e et alii. H i s t ó r i a s o c i a l do B r a s i l - t e o r i a e m e t o d o l o g i a . C u r i t i b a , U F P R . 1994.

273

ANEXO 2 BATIZADOS POR ANO 1853-1890 P A R Ó Q U I A S E N H O R B O M J E S U S DE C U I A B Á - M T

ANO 1853 1854 1855 1856 1857 1858 1859 1860 186 1 1862 1863 1 864 1865 1866 1867 1868 1869 1870 187 1 1872 1873 1874 1875 1876 1877 1878 1879 1880 188 1 1882 1883 1884 1885 1886 1887 1888 1889 1890 TOTAL

QUANTIDADE 89 21 5 308 232 245 256 24 1 21 1 25 1 257 233 244 32 1 252 199 188 3 02 230 248 182 225 256 223 245 274 222 252 376 322 340 360 443 297 33 1 272 296 180 195 9.820

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á - M T .

274

ANEXO 3 PROFISSÃO DOS PADRINHOS 1853 a 1870

Profissão militar

Quantidade

Tenente Coronel

66

Capitão

165

Major

52

Coronel

12

Tenente

140

Alferes

124

C h e f e de E s q u a d r a

02

A j u d a n t e de A l f e r e s

01

Coronel Comandante

01

TOTAL

563

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá - Mato Grosso.

275

ANEXO 4 PROFISSÃO P r o f i s s ã o dos pais - 1 8 5 3 - 1 8 7 0 Doutor

27

Professor

01

Comendador

01

TOTAL

29

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá - Mato Grosso.

ANEXO 5 P r o f i s s ã o dos p a d r i n h o s - 1 8 5 3 - 1 8 9 0 Doutor

108

Comendador

28

Presidente

01

Inspetor

04

Contadoria

01

Vice-Consul

01

Professor

03

Conselheiro

01

Barão

02

TOTAL

149

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i z a d o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá - Mato Grosso.

276

ANEXO 6 PROFISSÃO DOS PADRINHOS: 1871-1890

Profissão

Quantidade:

Militares Tenente-coronel

20

Capitão

337

Major

90

Coronel

22

Tenente

355

Alferes

227

Cabo

9

Furriel

0

Doutor

208

Commendador

31

Barão

24

Conde

1

Pharmaceutico

1

TOTAL

519

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i s m o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á - M a t o G r o s s o

277

ANEXO 7 PROFISSÃO DOS PAIS: 1871-1890

Profissão:

Quantidade:

Militares Tenente-coronel Capitão Major

18 108 12

Coronel

5

Tenente

123

Alferes

136

Cabo

4

Furriel

2

Doutor

60

Pharmaceutico TOTAL

3 519

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i s m o s da p a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á - M a t o G r o s s o

278

ANEXO 8 CLÉRIGOS PADRINHOS DE CRIANÇAS NATURAIS (ILEGÍTIMAS). PARÓQUIA SENHOR BOM JESUS DE CUIABÁ - 1853-1870

Nome do Pároco

N o m e da M ã e

Data/Batismo

José da

L e o p o l d i n a M a r i a de Jesus

29/06/56

José Joaquim Graciano Pina.

L e o p o l d i n a M a r i a de Jesus Maria Miquilina Vaz Guimarães

José Jacintho da C o s t a e Silva

Maria Miquilina Vaz Guimarães Victoriana C r e s c e n c i a de S a l l e s

Joaquim Ferreira Cunha

Victoriana C r e s c e n c i a de S a l l e s Maria Benedicta Maria Benedicta Innocencia Delfina de A r r u d a Innocencia Delfina de A r r u d a Innocencia Delfina de A r r u d a Rosaura Correa Rosaura Correa Luis Coelho

Ignacio

Isabel

N° de v e z e s em que foi p a d r i n h o dos f i l h o s de uma mesma mulher 02

12/09/58 25/12/61 02 25/12/68 12/06/60

29/08/61

02

06/06/63 31/07/56

02

03/05/65 01/11/65

03

07/07/61 02/02/56 02/02/56

01

21/04/66

30/07/65 Isabel 02 F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i z a d o . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá.

279

ANEXO 9 CLÉRIGOS PADRINHOS DE CRIANÇAS N A T U R A I S 1871-1890 N o m e do Pároco

Antonio Benedicto D'Araujo Filgueira

Aureliano Botelho

Pinto

N o m e da M ã e

Data/Batismo

A n t o n i a ( E s c r a v a de propr. de D.Anna Antonia)

22/09/81

A n t o n i a ( E s c r a v a de propr. de D.Anna Antonia)

i 1/08/79

Maria Ferreira Maria Ferreira Thereza Jesus Thereza Jesus

Bernarda

13/06/84

Bernarda

13/06/84

Emilia Castro Emilia Castro

05/06/84

Maria

de

05/06/84

Martha

de

19/01/89

Joaquim de Souza Caldas

01

01

01 de

18/01/89

Romana

27/11/83

Romana

27/11/83

Rita (Escrava do finado João Cerqueira Caldas)

07/10/83

Rita (Escrava do finado João Cerqueira Caldas) C l a r a M a r i a da S i l v a

07/10/83

Martha

Leopoldina da Silva Leopoldina da Silva Bento Severiano da Luz

02

de

Maria

N° de v e z e s em que foi p a d r i n h o dos f i l h o s de uma mesma mulher

ft U i1

01

16/06/84 01

C l a r a M a r i a da S i l v a 16/06/84

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de b a t i z a d o . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá.

280

A N E X O

10

L O C A L I D A D E S DAS O R I G E N S E R E S I D E N C I A S D O S C Ô N J U G E S DA PARÓQUIA SENHOR BOM JESUS DE CUIABÁ, MATO GROSSO, NO P E R Í O D O DE 1871 - 1890. P O P U L A Ç Ã O L I V R E E E S C R A V A CATEGORIAS A- B i s p a d o de C u i a b á e P a r ó q u i a Bom J e s u s B- O u t r o s M u n i c í p i o s e P a r ó q u i a s N. S. S a n t ' A n n a C h a p a d a N. S. da G u i a São G o n ç a l o de P e d r o II N. S. d a s B r o t a s S a n t o A n t ô n i o do Rio A b a i x o N. S. da S a n t í s s i m a T r i n d a d e S a n t a C r u z de C o r u m b á Poconé N . S . do R o s á r i o São L u i z de C á c e r e s SUBTOTAL C- O u t r a s P r o v í n c i a s Alagoas Bahia Ceará Goiás Maranhão Minas Gerais Pernambuco Piauí Paraná Rio de J a n e i r o Santa Catarina São P a u l o Rio G r a n d e do N o r t e Sergipe Rio G r a n d e do Sul SUBTOTAL D- E x t e r i o r Á fr i c a Argentina Bolívia França Itália Portugal Paraguai Prússia Espanha Suiça SUBTOTAL E- I n d e t e r m i n a d o *

Senhor

SUBTOTAL TOTAL FONTE: Livros de registro de M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á .

Masculino

Feminino

Total

345

480

825

06 16 08 1 1 03 01 01 01 01 48 01 30 10 20 08 22 09 01 02 21 02 15 02 01 07 15 1 04 01 03 03 02 10 03 03 0I 01 31 75 650 casamentos. 1871- 1 890.

14 13 04 12 01 01

01 01 47

02

04

02 03 02 - -

02 15 03 01 - - -

01 - -

25 - -

30 78 650 Arquivo

20 29 12 23 04 0I 01 01 02 02 95 01 32 10 20 08 26 09 01 04 24 02 17 02 01 09 166 07 02 03 03 03 10 28 03 01 01 61 153 1.300 da Cúria

281

A N E X O 10

ORIGEM DOS CÔNJUGES - POPULAÇÃO LIVRE E ESCRAVA: PARÓQUIA DO SENHOR BOM JESUS DE CUIABÁ - 1871-1890 CATEGORIAS A- N a t u r a i s do B i s p a d o de Cuiabá e moradores na P a r ó q u i a da Sé B- N a t u r a i s do B i s p a d o de C u i a b á e m o r a d o r e s em o u t r a s P a r ó q u i a s ou l o c a l i d a d e s : S a n t ' A n a da C h a p a d a N o s s a s e n h o r a da G u i a São G o n ç a l o de P e d r o II N. S e n h o r a d a s B r o t a s S a n t o A n t o n i o do Rio A b a i x o São L u i z de C á c e r e s N. S. S a n t í s s i m a T r i n d a d e N. S e n h o r a do R o s á r i o S a n t a C r u z de C o r u m b á Poconé SUBTOTAL C- De o u t r a s P r o v í n c i a s Minas Gerais Pernambuco Goiás São P a u l o R i o G r a n d e do Sul Ceará R i o de J a n e i r o Maranhão Bahia Piauí Santa Catarina Paraná Alagoas R i o G r a n d e do N o r t e Sergipe SUBTOTAL D- Do e x t e r i o r África Portugal Itália Prússia Bolívia Paraguai França Espanha Argentina SUBTOTAL E- O r i g e m i n d e t e r m i n a d a TOTAL GERAL FONTE:

1871 - 1880

1881

1890

Masc.

Fem.

190

289

155

19 1

02 02 07 0 1

02

04 14 01 10 03 01

1 1 0 1

03 01 01

Masc.

Fem.

2 3 1 1

01

01

12 08 07 14 12 07 07 19 05 25 01 01 02 01

08

02 02 02 02

14 02 06 03

04

03 02 03 05

39

01

01 - -

10

03 04 02 03 02 01

02

- -

02 01 42 02 06

05 01

01 - -

17 - - -

L i v r o s de r e g i s t r o s de c a s a m e n t o s . de C u i a b á . 1 87 1 - 1 8 9 0 .

01

02

109

15 52 378

01 01 01 36

20 51 3 78 Arquivo

01 02 03 01 01 16 23 272 da C ú r i a

08 - -

01 10 27 272 Metropolitana

282

A N E X O 10 FREQÜÊNCIA DE C A S A M E N T O POR IDADE NOIVOS: Idade : 17 a n o s 18 " 19 " 20 " 21 " 22 " 23 " 24 " 25 " 26 " 27 " 28 " 29 " 30 " 31 " 32 " 33 " 34 " 35 " 36 " 37 " 38 " 39 " 40 " 41 " 42 " 43 " 44 " 45 " 46 " 47 "

Quantidade:

NOIVAS: Idade : 12 a n o s 13 " 14 " 15 " 16 " 17 " 18 " 19 " 20 " 21 " 22 " 23 " 24 " 25 " 26 " 27 " 28 " 29 " 30 " 31 " 32 " 33 " 35 " 36 " 38 " 40 " 41 " 42 " 45 " 50 " 55 " NC " TOTAL =

2 3 3 9 10 20 19 21 17 18 15 16 20 24 11 7 4 9 7 8 5 5 3 7 4 5 3 1 5 2 2 49 " 1 50 " 3 51 " 1 52 " 2 53 " 1 54 " 1 60 " 1 NC " 355 TOTAL = 650 * M a i o r f r e q ü ê n c i a de i d a d e d o s n o i v o s n a é p o c a d o

Quantidade: 1 7 19 26 26 28 34 23 26 10 17 10 18 8 7 5 2 6 5 j 7 1 1 1 3 2 1 1 1 1 1 348 650

casamento Quantidade :

- Noivos - Noivas

= 30 a n o s = 18 a n o s

24 34

F O N T E : L i v r o s de r e g i s t r o de c a s a m e n t o s . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á - M a t o G r o s s o .

283

A N E X O 10 O r i g e m dos J u s t i f i c a n t e s S o l t e i r o s - P o p u l a ç ã o m a s c u l i n a Local/Nascimento

1850

1860

02

01

1870

1880

Total

04

07

Províncias Mato Grosso R i o de J a n e i r o

01

São P a u l o

02

Bahia

01

01 01

01

01 02

R i o G r a n d e do Sul

01

01

Minas Gerais

01

01

Goiás

01

Ceará

02

03

07

01

01

03

01

01

02

01

Alagoas

01

Piauí Maranhão





01

01

01

01

Sergipe Rio

Grande

04

do

01

01

01

01

Norte Pernambuco

02

02

Países Portugal

01

02

02

01

06

Itália

01

01

Espanha

01

01

Bolívia

01

01

Paraguai

Total

09

13

09

01

01

13

44

F O N T E : P r o c e s s o s de J u s t i f i c a ç ã o do e s t a d o de s o l t e i r o . P a r ó q u i a S e n h o r B o m J e s u s de C u i a b á . A r q u i v o da C ú r i a M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á - MT.

A N E X O 14 Origem dos J u s t i f i c a n t e s - Viúvos Local/Nascimento

1850

1860

1870

1880

Total

01

01

06

08

Províncias Mato Grosso Minas Gerais

02

02 01

Rio de Janeiro

01

Rio Grande do Sui

01

Bahia

01

Goiás

_

01

04

05

01

01

Países Itália





01

01

Bolívia

01

01

Paraguai

01

01

13

21

Total

02

02

04

FONTE: Processos de Justificação do estado de viuvez. Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá - MT. Observações: (1) Em 04 processos não constou a naturalidade dos noivos. (2) Nesta tabela foi considerado tanto o lugar de origem dos viúvos como das viúvas.

Nome

Naturalidade

Victor Carlos Província Mato Grosso (Jaurú) Leite

A N E X O 15 - P r o c e s s o s de J u s t i f i c a ç ã o de e s t a d o de s o l t e i r o . D é c a d a de 1 8 5 0

Batizado (local)

Filiação/Idade

Ele: filho natural "pais incógnitos", 19 anos.

João Ele: Prov. São 2) Paulo - Villa de Freguezia de Ele: Baptista Itapctinga - SP Legitimo, 23 d'Oliveira e Itapetininga. Ela: Província Silva anos Mato Grosso 3) Manoel Província RS Correa da Silva (Porto Alegre)

Capella Viarmão

de Ele: legítimo, 28 anos

Patente Noiva (Nome e Procedência) Ele: Maria Leite Mariana Bartha Militar do Nascimento de Toledo Corpo Fixo Cavallaria Ligeira Capitão Anna Francisca Valeriano dos Santos. d'Oliveira e D. Therese Isfrazina da Silva. Ele: Victorino D. Rosalina Al feres Correa da Silva dos Praseres Esquadrão e D. Clotilde Gaudir Nunes. Cavalaria. Joaquina da Silva. Ela: Maria Anna Luisa Luíza e Ignacio Ferro. José Ferro.

4) João Ela: Província Thomas de Mato Grosso. Ele: Província Aquino. São Paulo

Ela: legítima.

5) Joaquim Ele: Província Ele: Cidade de Januário de Minas Gerais Serra do Frio. (Mariana). Carneiro. Ela: Província Mato Grosso.

Ele: filho Ele: Celestino legítimo. Ferreira Ela: filha Carneiro e legítima. Januária Cândida da Conceição. Ela: Fernando Pereira da Costa e Maria Policena.

6) Estevão Ele: Província Martins de Goiás. Coelho. Ela: Província Mato Grosso.

Ele: Villa Ele: legítimo Formosa dos Couros. Ela: Ela: natural. Igreja Paróquia, da Santíssima Trindade.

Pai profissão

Pais (Nomes)

do de

do de

de

Ano Processo

Freguezia

e 28/08/1853

São Luiz de Villa Maria

10/05/1850

Freguezia de Itapetininga -SP.

08/05/1858

Freguezia de São Luiz de Villa Maria.

"vive de seos 14/01/1858 pequenos trabalhos". Camarada de tropa.

Paróquia de São Gonçalo de Pedro II.

Sapateiro militar Militar

d' Cecília de Cabo Paula ou Esquadra do Batalhão de Cecília Caçadores. Fernandes.

Ele: Lino Gertrudes Martins Coelho Cardosa e Joaquina Camargo. Alves de Moura. Ela: Escolástica de Camargo.

Profissão Justificante

285

Militar

arrieiro militar.

e 11/10/1857

Condutor de mercadorias da 10/08/1855 Província Mato Grosso para o Rio de Janeiro e do Rio de Janeiro para o Mato Grosso.

Ele: Bispado de Mariana. Ela: Paróquia S. B. J. Cuiabá.

Ela: Paróquia da Santíssima Trindade.

Itinerário

Do R S foi para Prow de MT no ano de 1856. De São Paulo para Província do Mato Grosso. De M. G. seguiu p/ Goiás de onde conduziu tropas para Corte do R. J. por 7anos, seguindo depois para MT. Ele: Goiás para MT, Cuiabá em 1839. Ela, chegou em Cuiabá em 1852.

286 (Continuação... Nome

Naturalidade

7) Melchior República Bolívia Borba. (Santa Cruz).

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1850. Batizado (local)

Filiação/Idade Pais (Nomes) Noiva (Nome e Procedência) filho Pedro Borbo e legítimo, 27 Maria Joana anos. Negrete.

8) Domingos Portugal. Ele: Freguezia Ele: 19 anos dos Santos. Santo filho Bispado do de André. legítimo. Ela: Porto. filha legítima.

9) Luiz Província Mato Benedicto Grosso. Pereira Lete.

Patente

Pai profissão

Ele: Antonio Zelidonia de dos Santos e Rita D. Maria da Moraes. Silva. Ela: Manoel Antonio e Joaquina do Sacramento.

Ele: filho João Pereira D. Anna Capitão de Militar legítimo. Leite e D. Jacinta de Artilharia. (Coronel) Maria Josefa Sampaio. de Jesus Leite.

Profissão Justificante

Ano Processo

"vive de sua .1857 taberna".

Operário de .1859 carpintaria do Arsenal da Marinha de Cuiabá.

Militar

.1859

Freguezia

Itinerário

Da Bolívia para o Destacam ento de Corixá em 1846 + ou Ele: De Paróquia Portugal de São para o Gonçalo. Brasil, Rio de Janeiro em 1856. Em 1858 seguiu para Mato Grosso a bordo do vapor Amambay De cuiabá para a Cõrte e da Côrte do Rio de Janeiro para Cuiabá.

F O N T E : P r o c e s s o s de j u s t i f i c a ç ã o de e s t a d o de s o l t e i r o . P a r ó q u i a S e n h o r B o m Jesus de Cuiabá. A r q u i v o da Cúria M e t r o p o l i t a n a de Cuiabá - MT.

287 ANEXO 16 - Processos de Justificação de Estado de Solteiro. Década de 1860 Nome

Naturalidade Batizado (local)

1) Manoel João da Silva

Província de Campinas São Paulo.

2) João Augusto de Francici.

Corte Rio Janeiro.

3) Luiz Felippe Fernandes Cuiabano.

Província Mato Grosso, Cuiabá.

4) Dr. Augusto Novis (médico)

Província da Bahia

5) Francisco Dansa.

Reino Nápoles Itália

Idem à Campinas São Paulo.

do de

de

Filiação

Filho legítimo.

Idade

26 anos

Pais (Nomes) Antonio José Gertundes Maria.

Noiva (Nome e Procedência)

48 anos

Joaquim José de Francici e D. Joaquina Roza do Rozário.

Legítimo

22 anos

Manoel Felippe Fernandes Cuiabano e D. Luiza Galvão Cuiabano.

24 anos

José Francisco Novis e D. Maria Luiza Novis.

Legítimo.

Pai profissão

e

Legítimo

Freguezia da Sé.

Patente

Raphael Dança e D. Catharina Melção

Alferes reformado do Corpo de Cavalaria da Província Mato Grosso

D. Umbelina Maria Pinto de Jesus filha legitimada do Alferes Luiz Ernesto Pinto.

2o Tenente.

Brigadeiro

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

Itinerário

Camarada de Tropa e depois Carpinteiro

21/11/1860

Paróquia da Chapada.

De São Paulo, seguiu para MT.

Militar

23/07/1861

Militar

02/01/1861

Doutor Medicina

D. Josepha de Arruda Leite, filha natural. Villa Maria-

em

27/02/1862

04/05/1863

Paróquia de São Luiz de Villa Maria.

Do RJ, seguiu em 1836 para o RS a serviço. Voltou à Côrte em 1838; em 1840 seguiu para MT. Retirouse em 1857 para a Côrte, d regresso em 1864 para MT. Da Bahia seguiu para RJ e depois para MT em 1861. Itália, França, Espanha Mont, e Bolívia. Chegou em MT em 1860

288 (Continuação...

Processos de Justificação de Estado de Solteiro. Década de 1860 6) José Sabino Maciel Monteiro.

Província Pe.

7) Antonio da Costa Figueira

Lisboa Portugal

de

Freguezia de São Pedro.

Legítimo

24 anos

Capitão 2a Linha José Eustóquio Maciel Monteiro.

D. Antonia Maria Vianna.

Legítimo.

20 anos

Manoel Antonio de Carvalho e Josefa M. da Conceição.

Leopoldina Nunes

2° Tenente do Batalhão de Artilharia a pé, e em 1866, Alferes do Batalhão e Infantaria n° 18.

Capitão de Milícias da 2a Linha.

Militar

21/04/1863

De Pernam -buco, foi para o RJ e depois para MT.

"Camarada para tirar boiada".

24/09/1860

Passou por PE, Maceió RJ, MG, e Monte vidéu e depois MT.

289 ( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de Esltado de So teiro. Década de 1860. Nome

Naturalidade

Batizado (local)

Filiação/Idad<

Pais (Nomes)

8) Liberato Lins Cavalcante d' Oliveira.

Pernambuco

Freguesia de Santo Antonio do Porfirio.

Legítimo, 26 anos.

9) João Antonio Luis Galvão.

Alagoas.

Legítimo, 31 anos.

10) Antonio Cai Elipse.

Valença (Espanha).

Villa de Nova Assembléia (Mata Grande). Valença (Espanha).

11) Severino de Oliveira Braga.

Minas Gerais

Igreja de Santo Amaro Arraial da Província de Minas Gerais.

Natural, anos.

12) Francisco Carlos Pereira Caldas.

Rio Grande do Sul.

13) Luiz Monteiro d' Aguiar

Porto (Portugal)

Legítimo, 27 anos

53

Legítimo, 21 anos.

Portugal

Legítimo, 40 anos.

Profissão Justificante

Ano Processo

Militar. Escrivão da Armada

06/12/1860

Fins de 1853 para 1854 chegou em Mato Grosso percorrendo por quase todos as províncias litorâneas do Brasil.

Mariana Gonçalves (Mato Grosso)

Camarada de Tropa.

04/04/1861

Chegou em MT em 1857, passando por Goiás, RJ, Goiás e MT.

D. Rita Ferreira de Souza (Província de Mato Grosso). Francelina de Arruda Leite (Província de Mato Grosso)

Agencias

12/01/1863

Ferrador

28/04/1868

Militar

01/08/1861

Noiva (Nome e Procedência)

Patente

José Jorge Rodrigues d' Oliveira. D. Emilia Cardim Cavalcante d'Oliveira

Mariana Margarida de Jesus e Silva.

2o Tenente da Armada Nacional e Imperial.

José Luis de Mendonça e Anna Clemencia de Jesus. Domingos Cai Elipse e Theresa Brum Miguel. Sypriana Pereira

José Maria Pereira Caldas e D. Francisca Pinto Bandeira Caldas Antonio Monteiro d' Aguiar e Maria Joaquina da Silva

2o Tenente do 2o Batalhão da Artilharia a pé. D. Maria Antonia da Silva.

Pai Profissão

Major

24/01/1868

Freguezia

Santo Antonio do Rio Abaixo (Noiva).

Itinerário

Chegou em MT em 1860. Antes percorreu Inglaterra, Montevidéu e Buenos Aires. De Minas Gerais seguiu diretamente para Província MT onde chegou em 1863.

Do Rio Grande do Sul foi para o Rio de Janeiro e deste para Mato Grosso onde chegou em 1860. Paróquia de Gonçalo Pedro 2o.

De Portugal seguiu para o Rio de Janeiro. Chegou em Mato Grosso em 1859.

290

ANEXO 17 - Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1870. Nome

Naturalidade

O Sebastião Amancio Rodrigues.

Pyauí

2) Mathias José de Souza Ribeiro.

Maranhão

3) Benedicto Antonio dos Santos.

São Paulo

Batizado (local)

Filiação/Idad(

Pais (Nomes)

Legítimo.

Antonio Amancio Rodrigues e Fortunata Maria do Espirito Santo.

Igreja Matriz de São Luiz.

Legitimo, + ou - 30 anos.

José Manoel da Silva Ribeiro e D. Custodia Francisca de Souza Ribeiro.

Taubaté (Provincia de São Paulo)

Natural, anos.

Maria Rita

28

Noiva (Nome e Procedência) Margarida Castaña da Silva (Miranda Mato Grosso). Filha natural, batizada na Colônia de Nioac. Mãe Anna Gertrudes da Silva. D. Salomé de Cerqueira Ramos (Mato Grosso). Filha de militar Capitão Tenente Antonio Joaquim Ferreira Ramos e D. Antonia de Cerqueira Caldas Ramos. Durçulina Alves dos Santos (Mato Grosso).

Patente

Pai Profissão

Soldado do Batalhão de Infantaria n° 21.

Alferes do 8 o Batalhão de Infantaria

Músico do 8 o Batalhão de Infantaria

Capitão

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

Itinerário

Militar

1874

Sé (Noivo e Noiva).

Saiu do lugar de nascimento para viver na Província de Mato Grosso.

Militar

21/12/1877

Sé (noivo e noiva).

Do Maranhão foi para o Paraguai (Guerra), Maranhão, para o Paraguai (Guerra) e depois para o Mato Grosso em 1876.

Militar

1879

De São Paulo, seguiu para o R. J., Paraguai (Guerra) e finalmente MT em 1876.

( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1870. 4) João Victorino Martins

Paracatú (Minas Gerais)

5) Luiz Fontenelle

Ceará

6) Antonio Xavier Martins.

Freguezia de Pilar (Goyás)

Paracatú (Minas Gerais).

Freguezia de Nossa Senhora do Pilar.

Legítimo, 28 anos

Victorino Martins dos Santos e Benedicta Roza Gonçalves.

Natural

Angelina Maria do Espírito Santo.

Maria Barbara Ferreira Azevedo

Natural, anos.

35

d'

Praça do Batalhão de Voluntá rios da Pátria n° 20

Camarada e lavoura.

14/02/1879

Rita Amália (Minas Gerais) filha natural de Maria Rita

Soldado do 1° Corpo de Cavalaria

Militar

08/06/1875

Sé (noivo e noiva)

D. Amancia Baptista de Carvalho

Praça do Esquadrão de Cavalaria da Província Goyás

Militar, vive do trabalho de seu braço.

29/05/1877

Nossa Senhora da Guia (Noivo)

De Minas Gerais, foi para o Paraguai por conta da Guerra e depois para MT em 1868. Cuiabá e depois para o Sul de MT devido a Guerra, retornando à Cuiabá, em 1867. De Goiás, p/ sul de MT (Coxim) em razão da Guerra e passou a viver em Cuiabá em 1867.

292 (Continuação

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1870. Nome

Naturalidade

Batizado (local)

Filiação/ídad<

Pais (Nomes)

7) Virgílio José d' Araújo

Portugal

Ilha de Cerro Arquipélago dos Açores (Portugal)

Legítimo, 18 anos

Baldoíno José de Araújo e Salviana Maria de Jesus.

8) Joaquim Antonio de Bonfim

Minas Gerais

Igreja Matriz de Paracatú (Minas Gerais).

Natural, anos.

Constança Nunes de Moraes.

36

Noiva (Nome e Procedência) D. Maria Virginia Ri salva (Mato Grosso).

Patente

Pai Profissão

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

Itinerário

de

16/01/1879

Sé (Noiva).

De Portugal p/ o Chile, Província M.G., S.P., Goiás (Meia Ponte) e MT em 1874.

Oficial de tropeiro, e vivia da lavoura.

27/06/1878

Oficial Pintor.

De M. G. para S.P., Goiás, Paraguai. Em MT (Coxim), em 1866.

9) Antonio Ribeiro Bastos.

04/01/1879 D. Maria Negócios Augustinha d'Arruda (Mato Grosso) filha de militar. Capitão Bartholino d' Arruda Martins e D. Candida Ferreira d' Arruda. FONTE: Processos de justificação de estado de solteiro. Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropoi itana de Cuiabá -MT. Barrozendo, Freguezia de Santo André d' Tulões Conselho de Amarante, Arcebispado de Braga de Bispado do Porto (Portugal).

Freguezia de Santo André de Tulões.

Legítimo, 35 anos.

Manoel Ribeiro da Silva Bastos e D. Maria Teixeira Ribeiro Bastos.

De Portugal para R.J., Países do Prata (Paraguai, Assunção) e MT (Corumbá).

293

ANEXO 17 - Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1870. Nome

Naturalidade

1) Marianna Benedicta da Silva em nome da filha Christina Maria Thereza de Jesus. 0 sobrinho José Fernades da Silva Bispo. 2) Norberto José de Souza

Província Mato Grosso (Corumbá)

3) Francisco de Pina e Vasconcel

Província de Minas Gerais (Poracatú).

OS

Província de Sergipe

Batizado (local)

Em Sergipe

Filiação

Idade Pais (Nomes)

Noiva (Nome e Procedência)

noiva, 15 anos

Ele: Escolástica da Silva

Christina Maria Thereza de Jesus.

Legítimo

37 anos

Lourenço Rodrigues de Souza e Anna Maria de Souza

Maria Joaquina Costa e Faria (Filha de Capitão)

Legítimo

36 anos

Francisco Luiz Lopez e Maria dePina e Vasconcelos.

Patente

Pai Profissão

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

06/11/1885

Corumbá

Capitão da 21° Batalhão de Infantaria.

Militar

04/04/1881

Voluntário da Pátria.

Militar

14/07/1880

Freguezia de São Gonçalo

Itinerário

De Sergipe para Bahia, de Pernambuco para Paraguay, da Corte para Mato Grosso. Saiu em 1865 de MG. (20 anos) para Paraguai, depois para o Sul do Mato Grosso, e finalmente Cuiabá.

294 ( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1880. Nome

Naturalidade

Batizado (local)

Filiação/Idade

Pais (Nomes)

Noiva (Nome e Procedência)

4) José Pires Dantas.

Portugal

Freguezia de Darque, Districto de Vianna do Castelo Portugal.

Legítimo, 30 anos + ou -.

Mathias Pires Dantas e Rosa Maria Dantas.

Philomena d' Arruda (Mato Grosso)

5) Manoel Juvenilo Barboza

Mato Grosso

Cuiabá

Legítimo, 33 anos.

Joaquim José Moreira e D. Benedicta de Campos Maciel.

D. Eliza Carolina e Mamoré. (Mato Grosso).

6) Viriato de Cerqueira Caldas.

Mato Grosso.

Legítimo, 29 anos.

Barão de Diamantino e D. Maria Antonia de Cerqueira Caldas.

D. Anna de Cerqueira Ramos (Mato Grosso) filha de Militar; Capitão Antonio Joaquim Ferreira Ramos e de D. Antonia de Cerqueira Caldas.

Patente

Capitão do 2o Batalhão d' Artilharia a pé.

Pai Profissão

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

Itinerário

Negócios

17/02/1882

De Portugal para Paraguai (Guerra) Assunção, Corumbá e Cáceres.

Militar

23/01/1882

Foi estudar na Escola Militar do Rio de Janeiro.

Médico

1882

Foi estudar medicina na Côrte do Rio de Janeiro.

295 ( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1880. 7) Manoel Joaquim Cabral

Ceará

8)João Feliciano Pinto

Sabará (Minas Gerais)

Legitimo, 33 anos.

9) João Theotonio Rodrigues (Roiz).

Mato Grosso

Ele: legítimo. Ela: 15 anos.

Ele: legítimo, 23 anos. Ela: 16 anos.

Mariano Joaquim Cabral e Delfina Maria Aprigio. José Pinto Ribeiro e Pulsina Maria de Jesus

Antonio Albino Rodrigues e Maria Felicia da Conceição.

Caetana Pinto de Jesus (Uberaba, Minas Gerais) - 16 anos. D. Bernardina de Sousa Canavarros (Mato Grosso). Filha natural de Paschoala Maria do Espírito Santo. Maria Angélica da Conceição (Paraguay) 15 anos.

Músico do 8° Batalhão de Infantaria.

Cabo de Esquadra do 21° Batalhão de Infantaria de Linha

Militar

1882 Do Ceará passou por Rio de Janeiro, Assunção e Mato Grosso.

Agencias

1885

Militar

1885

São Gonçalo de Pedro 2° (Noivo e Noiva)

De Minas Gerais seguiu para Goiás e depois para Mato Grosso.

296 ( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1880. Nome

Naturalidade Batizado (local)

10) Modesto Ferreira da Costa.

Formiga (Minas Gerais)

Legítimo, 31 anos.

Modesto Ferreira e Maria Jeronima de Jesus.

Anna (Mato Grosso). Filha natural da escrava Vicencia.

11) Deogratios Lescano

Vila de Pyrajú (Paraguay)

Legítimo, 23 anos.

Izidro Vargas Gabriela Lescano.

Mariana Rosa de Souza (Mato Grosso).

12) João Rosa Soares.

Goyás

Legítimo, 30 anos.

Ignácio Oliveira Rosa Oliveira.

Legítimo

Noiva (Nome e Procedência)

e

d' e d'

Antonio Gomes de Mendonça e Maria Martinha da Conceição. FONTE: Processos de justificação de so teiro. Paróquia Senhor Bom 13) Joaquim Gomes da Silva

Goianinha (Rio Grande do Norte)

Paróquia de Curralinho

Filiação/Idade Pais (Nomes)

Patente

Praça da Companhia de Polícia, graduado cabo de Esquadra da Companhia do Commando.

Maria Domingas de Jesus (Mato Grosso) filha natural de Maria Thomázia de Souza. Anna Francisca Cruz.

da

Recruta e depois praça do Exército.

Pai Profissão

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

Itinerário

Lavoura

06/02/1884

Nossa Senhora Santa Anna da Chapada.

Saiu do lugar de nascimento para viver em MT onde aportou em 1857.

Militar

10/01/1884

Santo Antonio do rio abaixo (Noiva). (Noivo) Paróquia da Sé.

Do Paraguai para Província de Mato Grosso onde chegou em 1870

Ajustes, como camarada.

03/02/1884

Rosário do rio acima

De Goiás, seguiu para o Rio de Janeiro, São Paulo e Mato Grosso (Coxim) em 1872.

Ex-militar

08/02/1884

Jesus de Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá -MT.

Do RN seguiu para o RJ, RS, Paraguai e Mato Grosso.

297

ANEXO 17 - Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1870. Noine

Naturalidade

l)Josefa Pereira e Antonio Paula de Souza.

Diamantino, MG.

Batizado (local)

Filiação/Idad<

Pais (Nomes) Ela: enteada de José Coelho Liserva.

esposo/esposa Gabriel Borges, falecido Pará.

José

Patente

Pai Profissão

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

Itinerário

1850

no

2) Capitão Ela: Minas Ela: Bispado 05/08/1854 Ela: José Cândida Capitão Militar Joaquim da Gerais. de Mariana Duarte Leite Florentina de Silva (MG). e Senhorinha Lúcio, Pereira Vianna falecida, na Guiñeó e Martins. cidade de Carolina Mato Grosso. Antonia Duarte FONTE: Processos de justificação de estado de viuvez. Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá - MT.



De Minas Gerais, Bispado de Mariana; para Goiás, e Mato Grosso.

298

ANEXO 17 - Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1870. Nome

Naturalidade

1) Francisco Gonçalves de Queirós e Anna Francisca da Glória. 2)Simplício José d' Abreu.

MT, Poconé

03) D. Guilhermina Maria Brandão.

Rio Janeiro

de

Batizado (local)

Filiação/Idadt Ele: Legítimo 33 anos.

Pais (Nomes)

Esposo/Esposa Gertrudes Petroniiha Rocha

da

Albertina Maria da Conceição

Patente Sargento do Batalhão de Caçadores.

Pai Profissão

Profissão Justificante

Ano Processo

Militar

1861

Operário do Arsenal de Guerra.

17/09/1861

Freguezia

07/07/1868 Silvério Luiz Brandão.

FONTE: Processos de justificação de estado de viuvez. Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá - MT.

Itinerário Poconé, Vila Bela e Corumbá.

299 ANEXO 16 - Processos de Justificação de Estado deSolteiro.Década de 1860 Nome

Naturalidade

Batizado (local)

1) Joaquim Antonio Correa de Faria e Anna de Campos Botelho.

Ele: Província Rio Grande do Sul, cidade de Rio Pardo.

Ela, na Freguezia de Albuquerque MT.

Filiação Ele: Legítimo. Ela: Legítima.

Idade Pais (Nomes) esposo e esposa 32 anos.

Ela:

2)Manoel Francisco d' Oliveira, viúvo.

Província da Bahia

3) Manoel Francisco de Oliveira e Eugênia de Cerqueira Ramos. 4) Anna Margarida d' Almeida e João da Cruz Ribeiro.

35 anos.

Ela: Legítima

Província Mato Grosso

Ele: Joaquim Antonio Corrêa e D. Maria Emilia de Faria Corrêa. Ela: Anna de Campos Maciel e Luiz José Botelho.

D. Joanna Augusta Corrêa de Faria.

D. Carolina de Oliveira.

Ela: Teniente Antonio Joaquim Ferreira Ramos e D. Antonia de Cerqueira Caldas. José Alexandrino d'Almeida

Patente

Pai Profissão

Profissão Justificante

Alferes de Comissão de Batalhão de Infantaria, n° 19.

Farmacêutic 0

Ano Processo

Freguezia

Itinerário

16/08/1871



Do Rio Grande do Sul para Minas Gerais, depois para Mato Grosso e para Villa Maria a partir de 1865.

27/01/1875

28/01/1875

15/01/1878

300 (Continuação

Processos de Justificação de estado de viuvez. Década de 1880.

5) Pascoal Ordoño, Apolônia Pinto de Azevedo.

Reino da Itália (Gênova)

6) Maria Antonia Lopes.

Paraguai

Ele: 74 anos

Ele: Evelina Espiaggi. Ela: Antonio Peixoto de Azevedo.

18/11/1879

Membro Guarda Nacional.

da

14/11/1879

FONTE: Processos de justificação de estado de viuvez. Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá - MT.

Chegou em Cuiabá, MT em 1857, há 22 anos, mais ou menos, após percorrer diversos pontos da América. Sé

301

ANEXO 17 - Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1870. Nome

Naturalidade

1) Pedro José Gonçalves.

Província de Mato Grosso.

2) Maria Ignes Paes da Costa

Província de Mato Grosso, Vila de Diamantino.

3) João Baptista da Silva e Maria de Jesus Flores

Ele: Província da Bahia

4) Joaquim Dias d' Andrade e Marianna de Tal

5) Calisto Chaves e Maria Carolina das Mercês.

Ela: natural da República Paraguaia Assunção Paraguai. Província Bahia.

República da Bolívia

Batizado (local)

Filiaçãc

Idade

Pais (Nomes)

49 anos.

Ele: legíti mo. Ela: legíti ma.

Ele: 34 anos Ela: 30 anos.

50 anos.

esposo/esposa

Pai Profissão

Patente

Maria Bibiana de Jesus falecida por varíola ou pela epidemia da bexiga. Francisco Alves da Ressurreição (Sitiante Diamantino) João da Silva Rebolso e Ignês Maria do Amor Divino.

Maria Jerônima Castelhano (paraguaia)

Marcolina Maria do Espírito Santo (Livre), morreu na Chapada (lugar chamado de Pau de Pedra). Gregória Sanches falecida em Santa Cruz, ano de 1875.

Profissão Justificante Vive lavoura.

da

Ano Processo

Freguezia

03/02/1881

Paróquia da Sé ("Aricá")

Itinerário

03/10/1882

Soldado

3o

do

Regimento d' Artilharia a cavalo.

Batalhão 21° de Infantaria

Ele, músico de 3a classe do Regimento Militar. Ela: vive de agências.

21/10/1882

Militar

08/06/1890

Mascate (carregamento de sal.)

05/10/1883

Ele: Da Bahia para R J, depois Paraguai e Cuiabá, MT.

Ambos da Paróquia da Sé.

Nossa Senhora do Rozário, Poconé

Bolívia para Poconé (MT) desde 1878.

302 ( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1880. Nome

Naturalidade

6) Jesuíno Diocleciano de Souza Bruno e D. Joana Dolores Lara (paraguaia) 7)Manoel Faustino (escravo liberto), e Luíza, escrava. 9) D. Augusta Amália de Souza Guimarães.

Província da Bahia, Santo Amaro.

Ela: Província MT. Ele: Bahia.

Ela: legíti ma. Ele: legíti mo.

10) Maria Rodrigues Prado e José Sylvério de Campos

Freguezia do Livramento, MT.

Ele: legítimo

11) Hermogenia Renovata dos Santos

Província de MT.

Ele: Mato Grosso. Ela: Bahia.

Batizado (local)

Filiação

Ela: filha legítima.

Ela: filha natural

Idade

Pais (Nomes)

Ele: 43 anos.

Ela: José Vicente Lara e Maria Mercê A. Lara.

Ela: 23 anos.

Patente

Pai Profissão

Profissão Justi ficante Militar

Ano Processo

26/10/1883

Paraguaia Maria Aguida R. Bruno, falecida em 1880 no Paraguai. Silveira Maria de Jesus.

Capitão do 8° Batalhão de Infantaria.

Joaquim José Gomes da Silva e Innocencia do Nascimento

Maritano Martilino de Sousa Guimarães (falecido)

2° Tenente da Armada.

Joaquim José de Campos e Anna Pinto de Figueiredo

Antonio José Modesto, falecido em 1864

09/09/1884

Benedicto André da Silva, falecido em abril de 1854.

26/12/1884

Ela: 32 anos.

Ele: 42 anos

Esposo e Esposa

Militar

Freguezia

Itinerário

Paróquia de São Gonçalo de Pedro II.

Ela: de Assunção, Paraguai, veio direto para Cuiabá, em 1878.

16/02/1882

Luisa: Bahia para RJ, Cuiabá (MT) com 10 a 12 anos.

30/10/1883

Ele: da Bahia para Corumbá (MT).

Ambos da Paróquia de São Gonçalo de Pedro II.

303

( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de estado de viuvez. Década de 1880. 12) João José Augusto Moreira e D. Anna Viegas de Mesquista

D. Maria Viegas Moreira, falecida na Paróquia de S. Gonçalo em agosto de 1887 (nefrite).

27/12/1884

Freguezia de São Gonçalo

304

( C o n t i n u a ç ã o ...

Processos de Justificação de estado de solteiro. Década de 1880. Nome

Naturalidade

13) Joaquim Antonio Rodrigues e Maria Ignes Rodrigues

Província de Mato Grosso (ambos)

14) Silvestre da Silva Pedrosa e Rita, escrava.

Ele: Província de Goiás cidade de Meia Ponte.

Batizado (local)

Filiação Idade Ele: legítimo.

28 anos

Ela: legítima.

Ela: filha natural.

Ela: 25 anos. Ele: 28 anos.

Pais (Nomes) Esposo e Esposa Ele: João José dos Santos e Innocência Maria do Rosário. Ela: João Rodrigues Lemes e Anna Rodrigues. Ela: mãe Bárbara escrava de Matheos Pereira.

Patente

Pai Profissão

Maria Vicência de Lara, falecida em 1884 no Engenho do Bom Fim no Serra Acima, Santa Anna da Chapada.

Maria Balbina falecida em 1877, mais ou menos.

Ele: Camarada.

Profissão Justificante

Ano Processo

Freguezia

24/07/1888

Ambos da Paróquia da Sé.

09/08/1884

Ambos da Paróquia de Sant'Anna da Chapada.

Ela: cozinheira.

Ela: Província de Minas Gerais, Uberaba. FONTE: Processos de justificação de estado de viuvez. Paróquia Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Arquivo da Cúria Metropolitana de Cuiabá - MT.

Itinerário

Ele: De Goiás para MT(1880) Ela: De Minas Gerais para Mato Grosso. (Marabá).

FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FONTES

1 Fontes Manuscritas

1.1 - A r q u i v o da Cúria M e t r o p o l i t a n a de C u i a b á - M T .

A - Registros

Paroquiais.

Livros

de R e g i s t r o s

de

batizado.

Paróquia

S e n h o r Bom J e s u s de C u i a b á .

N° 4 - 1853 a 1857. (94 f o l h a s ) . N° 5 - 1857 a 1861. (100 f o l h a s ) . N° 6 - 1861 a 1865. (100 f o l h a s ) . N° 7 - 1865 a 1869. (100 f o l h a s ) . N° 8 - 1869 a 1873. (100 f o l h a s ) . N° 9 - 1873 a 1874. (50 f o l h a s ) . N° 10 - 1874 a 1878. (101 f o l h a s ) . N° 11 - 1878 a 1882. (100 f o l h a s ) . N° 12 - 1879 a 1881. (14 f o l h a s ) , ( i n g ê n u o s l i v r e s ) . N° 13 - 1882 a 1884. (58 f o l h a s ) . N° 14 - 1882 a 1887. (17 f o l h a s ) . N° 15 - 1883 a 1890. (100 f o l h a s ) . N° 16 - 1886 a 1895. ( 2 0 3 f o l h a s ) .

B - A u t o s de j u s t i f i c a ç ã o do e s t a d o de v i u v e z . J u s t i f i c a n t e - J o s e f a P e r e i r a . A n o de 1850. C a i x a n° 8. J u s t i f i c a n t e - J o a q u i m da S i l v a P e r e i r a G u i ñ e ó . A n o de 1854. C a i x a n° 8. J u s t i f i c a n t e - F r a n c i s c o G o n ç a l v e s de Q u e i r ó s . A n o de 1861. C a i x a n° 8.

306

J u s t i f i c a n t e - S i m p l i c i o J o s é de A b c o . Ano de 1861. C a i x a n° 8. J u s t i f i c a n t e - D o n a G u i l h e r m i n a M a r i a B r a n d ã o . Ano de 1868. C a i x a n° 8. J u s t i f i c a n t e - J o a q u i m A n t o n i o C o r r e a de F a r i a . Ano de 1871. C a i x a n° 9. J u s t i f i c a n t e - M a n o e l F r a n c i s c o d ' O l i v e i r a . A n o de 1875. C a i x a n° 9. J u s t i f i c a n t e - A n n a M a r g a r i d a d ' A l m e i d a . A n o de 1878. C a i x a n° 9. J u s t i f i c a n t e - M a r i a A n t o n i a L o p e s . A n o de 1879. C a i x a n° 9. J u s t i f i c a n t e - P a s c o a l O r d o ñ o . A n o de

1879.

C a i x a n° 9.

J u s t i f i c a n t e - P e d r o J o s é G o n ç a l v e s . A n o de 1881. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - D. M a r i a I g n e s P a e s da C o s t a . Ano de 1882. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - J o ã o B a p t i s t a da Silva. A n o de 1882. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - C a l i x t o C h a v e s . A n o de 1883. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - C a p i t ã o J e s u í n o D i o c l e s i a n o de Souza B r u n o e D. J o a n a D o l o r e s . A n o de 1883. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - A u g u s t a A m á l i a de S o u z a G u i m a r ã e s . Ano de 1883. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - M a r i a R o d r i g u e s do P r a d o . A n o de 1884. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - H e r m o g e n i a H o n o r a t a d o s S a n t o s . Ano de 1884. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - J o ã o J o s é A u g u s t o M o r e i r a . A n o de 1887. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - J o a q u i m A n t o n i o R o d r i g u e s . A n o de 1888. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - S i l v e s t r e da Silva P e d r o s a e R i t a , e s c r a v a de h e r a n ç a . A n o de 1884. C a i x a n° 10. J u s t i f i c a n t e - J o a q u i m D i a s d ' A n d r a d e . Ano de 1890. C a i x a n° 10.

C - A u t o de j u s t i f i c a ç ã o do e s t a d o l i v r e de s o l t e i r o . J u s t i f i c a n t e - J o ã o B a p t i s t a de O l i v e i r a e Silva. Ano de 1850. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - V i c t o r C a r l o s L e i t e . A n o de 1853. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - R a f a e l J o s é de M o r a e s . A n o de 1853. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - E s t e v ã o M a r t i n s C o e l h o e G e r t r u d e s C a r d o s o de C a m a r g o . A n o de 1855. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - M e c h i o r B o r b a . A n o de 1857. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - J o a q u i m J a n u á r i o C a r n e i r o . A n o de 1857. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - A l f e r e s M a n o e l C o r r e a da Silva. A n o de 1858. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - J o ã o T h o m a s de A q u i n o . Ano de 1858. C a i x a n° 3.

307

J u s t i f i c a n t e - Luís B e n e d i c t o P e r e i r a Leite. A n o de 1859. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - D o m i n g o s d o s S a n t o s . A n o de 1859. C a i x a n° 3. J u s t i f i c a n t e - M a n o e l J o ã o da Silva. Ano de 1860. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - L i b e r a t o N i z C a v a l c a n t i d ' O l i v e i r a . A n o de 1860. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - A n t o n i o da C o s t a F i g u e i r e d o . Ano de 1860. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - A l f e r e s J o ã o A u g u s t o de F r a n c i . Ano de 1861. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - T e n e n t e L u i z F e l i p p e F e r n a n d e s C u i a b a n o . A n o de 1861.

Caixa

n° 04. J u s t i f i c a n t e - J o ã o A n t o n i o L u i z G a l v ã o . A n o de 1861. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - T e n e n t e F r a n c i s c o C a r l o s P e r e i r a C a l d a s . A n o de 1861. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - Dr. A u g u s t o N o v i s . A n o de 1862. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - A n t o n i o Cai E l i p e . A n o de 1863. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - F r a n c i s c o D a n ç a . A n o de 1863. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - T e n e n t e J o s é S a b i n o M a c i e l M o n t e i r o . A n o de 1863. C a i x a



04. J u s t i f i c a n t e - Luiz M o n t e i r o d ' A g u i a r . A n o de 1868. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - S e v e r i n o d ' O l i v e i r a B r a g a . A n o de 1868. C a i x a n° 04. J u s t i f i c a n t e - S e b a s t i ã o A m a n c i o R o d r i g u e s . Ano de 1874. C a i x a n° 06. J u s t i f i c a n t e - L u i z F o n t e n e l l e . A n o de 1875. C a i x a n° 06. J u s t i f i c a n t e - A l f e r e s M a t h i a s J o s é de S o u s a R i b e i r o . A n o de 1877.

Caixa

n° 06. J u s t i f i c a n t e - A n t o n i o X a v i e r M a r t i n s . A n o de 1877. C a i x a n° 06. J u s t i f i c a n t e - J o a q u i m A n t o n i o do B o n f i m . Ano de 1878. C a i x a n° 06. J u s t i f i c a n t e - B e n e d i c t o A n t o n i o dos S a n t o s . Ano de 1878. C a i x a n° 06. J u s t i f i c a n t e - J o ã o V i c t o r i n o M a r t i n s . A n o de 1879. C a i x a n° 06. J u s t i f i c a n t e - A n t o n i o R i b e i r o B a s t o s . A n o de 1879. C a i x a n° 06. J u s t i f i c a n t e - M a n o e l F a u s t i n o . A n o de 1882. C a i x a n° 07. J u s t i f i c a n t e - J o s é P i r e s D a n t a s . A n o de 1882. C a i x a n° 07. J u s t i f i c a n t e - M a n o e l J o a q u i m C a b r a l . A n o de 1882. C a i x a n° 07. J u s t i f i c a n t e - C a p i t ã o M a n o e l J u s c e l i n o B a r b o z a . Ano de 1882. C a i x a n° 07. J u s t i f i c a n t e - J o ã o F e l i c i a n o P i n t o . A n o de 1885. C a i x a n° 07.

308

J u s t i f i c a n t e - M o d e s t o F e r r e i r a da C o s t a . A n o de 1884. C a i x a n° 07. J u s t i f i c a n t e - D e o g r a t i a s L e s c a n o . A n o de 1884. C a i x a n° 07. J u s t i f i c a n t e - J o ã o R o s a S o a r e s . A n o de 1884. C a i x a n° 07.

D - L I B E L O C i v i l de d i v o r c i o . A u t o r a - D o n a C a t h a r i n a E m i l i a R i b e i r o . A n o de 1866. C a i x a n° 11. A u t o r a - G e r t r u d e s M a r i a F e r r e i r a . A n o de 1864. C a i x a n° 11. A u t o r a - D a m i a n n a M a r i a da C o s t a . A n o 1858. C a i x a n° 11.

1.2 - A r q u i v o P ú b l i c o do E s t a d o de M a t o G r o s s o . ( A P E M T ) . Correspondências L i v r o n° 125. L i v r o de r e g i s t r o de c o r r e s p o n d ê n c i a o f i c i a l da P r e s i d ê n c i a da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o com o M i n i s t é r i o da G u e r r a . A n o s de 1 8 5 2 a 1853. L i v r o n° 125, 149 f o l h a s . - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

de

Souza

e

Mello,

M i n i s t r o S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á , 16 de a g o s t o de 1852. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

de

Souza

e

Mello,

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o dos N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á , 02 de j u l h o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao

Senador

Manoel

Felisardo

de S o u z a

e

Mello,

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á , 07 de j u l h o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

de

Souza e

Mello,

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á , 11 de j u l h o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao

Senador

Manoel

Felisardo

de

Souza

e Mello,

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á , 23 de j u l h o

309

de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

de S o u z a

e

Mello,

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o dos N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á , ( s i c ) de j u l h o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s

de S o u z a

da G u e r r a .

e

Mello,

Cuiabá,

12 de

a g o s t o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

de S o u z a

e

Mello,

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á , ( s i c ) de a g o s t o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r M a n o e l

Felisardo

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s

de S o u z a

da G u e r r a .

e

Cuiabá,

Mello, 22

de

a g o s t o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

de S o u z a

e

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s da G u e r r a . C u i a b á ,

Mello, 23

de

a g o s t o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s

de S o u z a

da G u e r r a .

e

Cuiabá,

Mello, 30

de

a g o s t o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s

de S o u z a

da G u e r r a .

e

Cuiabá,

Mello, 01

de

s e t e m b r o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r M a n o e l

Felisardo

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s

de S o u z a

da G u e r r a .

e

Cuiabá,

Mello, 03

de

s e t e m b r o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

de S o u z a

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s da G u e r r a .

e

Mello,

C u i a b á , 03

de

s e t e m b r o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

Manoel

Felisardo

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o d o s N e g ó c i o s

de S o u z a

e

Mello,

da G u e r r a . C u i a b á ,

13 de

s e t e m b r o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r M a n o e l

Felisardo

de S o u z a

e

Mello,

3 18

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o

dos Negócios

da G u e r r a .

Cuiabá,

20

de

s e t e m b r o de 1853. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

ao S e n a d o r

M i n i s t r o e S e c r e t á r i o do E s t a d o

Manoel

Felisardo

dos N e g ó c i o s

de S o u z a

da G u e r r a .

e

Mello,

C u i a b á , 22

de

s e t e m b r o de 1853.

L i v r o n° 128. R e g i s t r o de C o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e a P r e s i d ê n c i a e C o m a n d o s

Militares.

A n o s de 1852 a 1855. 190 f o l h a s . - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e do D i s t r i c t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a y . C u i a b á , 21 de j u l h o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l l a r i a . C u i a b á , 28 de j u l h o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l l a r i a . C u i a b á , 21 de a g o s t o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l l a r i a e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 21 ago. 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao Major

Comandante

interino

do

Batalhão

de

Caçadores.

Cuiabá,

09

de

s e t e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l l a r i a e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 15 de s e t e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l l a r i a . C u i a b á , 16 de s e t e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao M a j o r C o m a n d a n t e i n t e r i n o do C o r p o d ' A r t i l h a r i a . C u i a b á , 19 de s e t e m b r o de 1854.

311

- O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao Capitão

Comandante

do D i s t r i t o M i l i t a r

de M a t o

Grosso.

Cuiabá,

20

de

s e t e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 21 de o u t u b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao Capitão

Comandante

do D i s t r i t o

Militar

de M a t o

Grosso.

Cuiabá,

6

de

n o v e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l a r i a . C u i a b á , 20 de n o v e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao M a j o r C o m a n d a n t e i n t e r i n o do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 20 de n o v e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao Capitão Comandante

do D i s t r i t o M i l i t a r

de M a t o

Grosso.

Cuiabá,

22

de

n o v e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 22 de n o v e m b r o de 1854. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r ao Tenente

Coronel

Comandante

do

Corpo

de

Cavalaria

e encarregado

do

r e c r u t a m e n t o em V i l a M a r i a . C u i a b á , 20 de j a n e i r o de 1855. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 20 de j a n e i r o de 1855. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 22 de j a n e i r o de 1855. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . F o r t e de

3 12

C o i m b r a . C u i a b á , 28 de f e v e r e i r o de 1855. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i F o r t e de C o i m b r a . C u i a b á , 7 de m a r ç o de 1855. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M a t o G r o s s o . C u i a b á , 15 de m a r ç o de 1855. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e G u a r n i ç ã o da C a p i t a l . F o r t e de C o i m b r a . C u i a b á , 15 de m a r ç o de 1855. - O f í c i o do P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , A u g u s t o L e v e r g e r , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e da G u a r n i ç ã o da C a p i t a l . F o r t e de C o i m b r a . C u i a b á , 15 de m a r ç o de 1855.

L i v r o n°190. L i v r o de r e g i s t r o de C o r r e s p o n d ê n c i a e n t r e a P r e s i d ê n c i a da P r o v í n c i a de Mato

Grosso

e

o

Comandante

de

Corpos,

Distritos

e

destacamentos

m i l i t a r e s . A n o s de 1 8 6 0 - 1 8 6 3 . 2 0 2 f o l h a s . - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao e n c a r r e g a d o das o b r a s m i l i t a r e s de M i r a n d a . C u i a b á , 3 de o u t u b r o de 1860. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D e l e g a d o de C i r u r g i ã o do E x é r c i t o . C u i a b á , 13 de n o v e m b r o de 1860. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D e l e g a d o de C i r u r g i ã o do E x é r c i t o . C u i a b á , 16 de n o v e m b r o de 1860. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

Alencastro,

Comandante

ao C a p i t ã o

C u i a b á , 26 de n o v e m b r o de 1890.

de M a t o do D i s t r i t o

Grosso, Antônio Pedro militar

de M a t o

de

Grosso.

313

- O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao T e n e n t e C o r o n e l J o ã o N e p o m u c e n o da S. P o r t e l l a . C u i a b á , 3o de n o v e m b r o de 1890. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao e n c a r r e g a d o das o b r a s m i l i t a r e s de M i r a n d a . C u i a b á , 10 de d e z e m b r o de 1890. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l l a r i a . C u i a b á , 13 de d e z e m b r o de 1860. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do F o r t e de C o i m b r a . C u i a b á , 17 de d e z e m b r o de 1860. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

Alencastro,

Comandante

ao

Coronel

de M a t o

Grosso, Antonio

do 2 o B a t a l h ã o

Pedro

de A r t i l h a r i a

de

a

pé.

Pedro

de

C u i a b á , 24 de d e z e m b r o de 1860. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e da C o m p a n h i a de A r t i f i c e s . C u i a b á , 28 de d e z e m b r o de 1860. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 03 de j a n e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 04 de j a n e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e da C o l o n i a de M i r a n d a . C u i a b á , 05 de j a n e i r o de 1861. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o F r a n c i s c o N u n e s da C u n h a . C u i a b á , 03 de j a n e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e Alencastro,

ao

da P r o v í n c i a

Comandante

interino

de M a t o da

8a

Grosso, Antonio

Companhia

do

Pedro

de

Batalhão

de

318

C a ç a d o r e s . C u i a b á , 16 de j a n e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D i r e t o r do H o s p i t a l M i l i t a r . C u i a b á , 07 de f e v e r e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o do D i s t r i t o M i l i t a r de M a t o G r o s s o . C u i a b á , 11 de f e v e r e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D e l e g a d o C i r u r g i ã o M ó r do E x é r c i t o . C u i a b á , 23 de f e v e r e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D e l e g a d o C i r u r g i ã o M ó r do E x é r c i t o . C u i a b á , 23 de f e v e r e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do 12° B a t a l h ã o de A r t i l h a r i a à pé. C u i a b á , 26 de f e v e r e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o do B a i x o P a r a g u a i .

Pedro

de

C u i a b á , 28 de

f e v e r e i r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 01 de m a r ç o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o r o n e l C o m a n d a n t e da G u a r n i ç ã o da C a p i t a l . C u i a b á , 18 de m a r ç o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 03 de a b r i l de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 03 de abril de 1861.

- O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 18 de abril de 1861. Livro n° 190.

315

- O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 22 de abril de 1861. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao M a j o r D i r e t o r do H o s p i t a l m i l i t a r . C u i a b á , 27 de a b r i l

de

1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o C o m a n d a n t e do D e s t a c a m e n t o de M i r a n d a . C u i a b á , 7 de m a i o de 1861. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D i r e t o r do H o s p i t a l M i l i t a r . C u i a b á , 14 de m a i o de 1861. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o m i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 17 de m a i o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e da C o m p a n h i a de A r t í f i c e s . C u i a b á , 18 de m a i o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do 2 o B a t a l h ã o de A r t i l h a r i a à pé. C u i a b á , 20 de m a i o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D e l e g a d o do C i r u r g i ã o - m ó r do E x é r c i t o . C u i a b á , 20 de m a i o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 12 de j u n h o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 25 de j u n h o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do 2 o B a t a l h ã o de A r t i l h a r i a à pé. C u i a b á , 01 de j u l h o de 1861.

316

- O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 25 de j u l h o de 1861.

- O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 29 de j u l h o de 1861. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao T e n e n t e C o r o n e l C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l a r i a . C u i a b á , 01 de a g o s t o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 20 de a g o s t o de 1861.

- O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao M a j o r D i r e t o r do H o s p i t a l M i l i t a r . C u i a b á , 28 de a g o s t o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 30 de a g o s t o de 1861. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do 2 o B a t a l h ã o de A r t i l h a r i a à pé. C u i a b á , 31 de a g o s t o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l a r i a . C u i a b á , 10 de s e t e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 13 de s e t e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do 2 o B a t a l h ã o de A r t i l h a r i a à pé. C u i a b á , 25 de s e t e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

Alencastro,

Coronel

ao

Tenente

de M a t o

Hermenegildo

Grosso, Antônio Albuquerque

Pedro

de

Portocarrero.

317

C u i a b á , 30 de s e t e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 01 de o u t u b r o de 1861. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 09 de o u t u b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de C a v a l a r i a e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 10 de o u t u b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e M i l i t a r da C o l ô n i a de D o u r a d o s . C u i a b á , 10 de o u t u b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 17 de o u t u b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Alencastro,

Joaquim

Gama

ao

Capitão

da

Grosso, Antônio

Lobo

D'Eça.

Pedro

Cuiabá,

de

09

de

Pedro

de

n o v e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o F r a n c i s c o N u n e s da C u n h a . C u i a b á , 29 de n o v e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 06 de d e z e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o J o a q u i m da G a m a L o b o d ' E ç a . C u i a b á , 09 de d e z e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 18 de d e z e m b r o de 1861. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

3 18

Alencastro,

ao D e l e g a d o

de

Cirurgião

Mór

do E x é r c i t o .

Cuiabá,

04

de

Pedro

de

f e v e r e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

A l e n c a s t r o , ao D i r e t o r do H o s p i t a l M i l i t a r . C u i a b á , 08 de j a n e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o G r o s s o , A n t ô n i o P e d r o

de

A l e n c a s t r o , ao e n c a r r e g a d o do D e p ó s i t o de M i r a n d a . C u i a b á , 18 de j a n e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o r p o de A r t i l h a r i a . C u i a b á , 21 de j a n e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o G r o s s o ,

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do B a t a l h ã o de C a ç a d o r e s . C u i a b á , 24 de j a n e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a , H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao e n c a r r e g a d o do r e c r u t a m e n t o em M a t o G r o s s o . C u i a b á , 24 de j a n e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a , H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 15 de f e v e r e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a , H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 17 de f e v e r e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a , H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao C o m a n d a n t e da C o l ô n i a M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 19 de f e v e r e i r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao I o T e n e n t e

Herculano

C a r l o s F e r r e i r a P e n n a . C u i a b á , 07 de m a r ç o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao e n c a r r e g a d o das o b r a s do n o v o q u a r t e l . C u i a b á , 10 de m a r ç o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a , H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao I o T e n e n t e H e r c u l a n o C a r l o s F e r r e i r a P e n n a . C u i a b á , 28 de m a r ç o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao e n c a r r e g a d o do r e c r u t a m e n t o e m Vila M a r i a . C u i a b á , 28 de m a r ç o de 1862. - Ofício

do

Presidente

Província

Herculano

Ferreira

Penna,

ao

capitão

Joaquim Pinto Guedes e Io Tenente Herculano Carlos Ferreira Penna. Cuiabá, 11 de abril de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao C o m a n d a n t e da

318

C o l o n i a M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 22 de abril de 1862. - O f i c i o do P r e s i d e n t e P r o v i n c i a H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao D i r e t o r

do

H o s p i t a l M i l i t a r . C u i a b á , 24 de a b r i l de 1862. - Oficio

do P r e s i d e n t e

Provincia

Herculano

Ferreira

Penna,

ao

Capitão

J o a q u i m da G a m a Lobo D ' E ç a . C u i a b á , 16 de m a i o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e P r o v í n c i a H e r c u l a n o F e r r e i r a P e n n a , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 05 de j u n h o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o J o a q u i m da G a m a L o b o D ' E ç a . C u i a b á , 05 de j u n h o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e Alencastro,

ao

Tenente

da P r o v í n c i a

de M a t o

d'Engenheiros

Grosso, Antônio Pedro

Herculano

Carlos

Ferreira

de

Penna.

C u i a b á , 27 de a g o s t o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 06 de s e t e m b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 13 de s e t e m b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 27 de s e t e m b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 04 de o u t u b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 10 de o u t u b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á ,

de

10 de

o u t u b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

320

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o F r a n c i s c o N u n e s da C u n h a . C u i a b á , 11 de o u t u b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D i r e t o r do H o s p i t a l M i l i t a r . C u i a b á , 17 de o u t u b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o F r a n c i s c o N u n e s da C u n h a . C u i a b á , 06 de n o v e m b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de V i l a M a r i a . C u i a b á , 06 de n o v e m b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Alencastro,

Joaquim

Gama

ao

Capitão

da

Grosso, Antônio

Lobo

D'Eça.

Pedro

Cuiabá,

de

25

de

Pedro

de

n o v e m b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 05 de d e z e m b r o de 1862. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao D i r e t o r do H o s p i t a l M i l i t a r . C u i a b á , 20 de j a n e i r o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 03 de f e v e r e i r o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao T e n e n t e C o r o n e l H e r m e n e g i l d o de A l b u q u e r q u e P o r t o c a r r e r o . C u i a b á , 09 de f e v e r e i r o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o P e d r o D i a s P a e s L e m e s . C u i a b á , 21 de f e v e r e i r o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

Alencastro,

Herculano

ao T e n e n t e

de M a t o

Carlos

Grosso, Antônio

Ferreira

Penna.

Pedro

Cuiabá,

de

23

de

Pedro

de

f e v e r e i r o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antônio

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o P e d r o D i a s P a e s L e m e s . C u i a b á , 24 de f e v e r e i r o de

32 1

1863.

- O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o P e d r o D i a s P a e s L e m e s . C u i a b á , 05 de m a r ç o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 13 de m a r ç o de 1863. - O f i c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o M a n o e l P a c h e c o de Lima. C u i a b á , 16 de m a r ç o

de

1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso, Antonio

Pedro

de

A l e n c a s t r o , ao C a p i t ã o J o a q u i m da G a m a L o b o D ' E ç a . C u i a b á , 09 de m a i o de 1863. - O f í c i o do V i c e - P r e s i d e n t e A u g u s t o L e v e r g e r , ao I n s p e t o r dos C o r p o s

da

P r o v í n c i a . C u i a b á , 16 de m a i o de 1863. -

Ofício

do

Vice-Presidente

Augusto

Leverger,

ao

Comandante

do

D e s t a c a m e n t o do P a r a n a h y b a . C u i a b á , 18 de m a i o de 1863. - O f í c i o do V i c e - P r e s i d e n t e A u g u s t o L e v e r g e r , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 12 de j u n h o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e A l e x a n d r e M a n o e l A l b i n o de C a r v a l h o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o M i l i t a r de M i r a n d a . C u i a b á , 15 de j u l h o de 1863. - O f í c i o do P r e s i d e n t e A l e x a n d r e M a n o e l A l b i n o de C a r v a l h o , ao C o m a n d a n t e do D i s t r i t o do B a i x o P a r a g u a i . C u i a b á , 20 de s e t e m b r o de 1863.

Documentos Avulsos. Latas e caixas. - O f í c i o do I n s p e t o r da T e s o u r a r i a , M a n o e l J o s é de A r a ú j o ao P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , J o ã o J o s é da C o s t a P i m e n t e l . C u i a b á , 07 de m a i o de 1850. L a t a 1850 B. - O f í c i o do C o l e t o r I g n á c i o da C u n h a A r r u d a e Sá ao I n s p e t o r da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , M a n o e l J o s é de A r a ú j o . M a t o G r o s s o , 10 de abril de 1850. L a t a

322

1850 B. - O f í c i o do T e n e n t e

Coronel Comandante

Batalhão

de

Infantaria

Superior

da

Guarda

da

Guarda

Nacional

da

do Q u a r t e l

do 3 o

do C o m a n d o

Nacional

em

Cuiabá,

Província

de

Mato

ao

Comandante

Grosso,

Barão

de

2o B a t a l h ã o

de

D i a m a n t i n o . C u i a b á , 03 de j u l h o de 1877. C a i x a 1877 C. - Proposta Infantaria

para da

Comandante

preenchimento Guarda

das

Nacional

vagas

por

existentes

Antonio

do Q u a r t e l do 2° B a t a l h ã o

no

Cesário

de

Figueiredo,

e I n f a n t a r i a da G u a r d a

Nacional.

C u i a b á , 20 de s e t e m b r o de 1877. C a i x a 1877 C. - P r o p o s t a p a r a o f i c i a i s do 3 o B a t a l h ã o de I n f a n t a r i a da G u a r d a N a c i o n a l por A n t o n i o M a n o e l da Silva P o n t e s , C o m a n d a n t e do Q u a r t e l do 3 o B a t a l h ã o de Infantaria

da

Guarda

Nacional.

C u i a b á , 20 de s e t e m b r o de 1877. C a i x a

1877 C. - P r o p o s t a p a r a p r e e n c h i m e n t o de v a g a s e x i s t e n t e s no I o B a t a l h ã o da r e s e r v a da G u a r d a N a c i o n a l a p r e s e n t a d a por J o a q u i m J o s é R e i s , C o m a n d a n t e i n t e r i n o do I o B a t a l h ã o da r e s e r v a . C u i a b á , 09 de a g o s t o de 1877. C a i x a 1877 C.

Lata 1857 A. - O f í c i o do C o m a n d a n t e do Q u a r t e l do C o m a n d o da G u a r n i ç ã o de C u i a b á , G a b r i e l A l b u q u e r q u e F e r n a n d e s ao v i c e - p r e s i d e n t e A l b a n o de S o u s a O s ó r i o . C u i a b á , 28 de j u l h o de 1857. L a t a 1857 A. - O f í c i o do C o m a n d a n t e

do Q u a r t e l

do

Comando

da

Guarnição

Gabriel

A l b u q u e r q u e F e r n a n d e s ao v i c e - p r e s i d e n t e A l b a n o de S o u s a O s ó r i o . C u i a b á , 31 de j u l h o de 1857. L a t a 1857 A. - O f í c i o do C o m a n d a n t e

do Q u a r t e l

do

Comando

da

Guarnição

Gabriel

A l b u q u e r q u e F e r n a n d e s ao v i c e - p r e s i d e n t e A l b a n o de S o u s a O s ó r i o . C u i a b á , 05 de a g o s t o de 1857. L a t a 1857 A. - Mapa

geral -.da f o r ç a

efetiva

existente

na

Província

de

Mato

Grosso

p e r t e n c e n t e ao t r i m e s t r e de abril a j u n h o de 1857. L a t a 1857 A. - O f í c i o do C o m a n d a n t e do Q u a r t e l do C o m a n d o da G u a r n i ç ã o de C u i a b á , G a b r i e l A l b u q u e r q u e F e r n a n d e s ao v i c e - p r e s i d e n t e A l b a n o de S o u s a O s ó r i o . C u i a b á , 14 de s e t e m b r o de 1857. L a t a 1857 A.

323

Io Cirurgião

- O f í c i o do d o u t o r M a c á r i o P a m p h i l o N o g u e i r a ,

Tenente

do

C o r p o de S a ú d e do E x é r c i t o ao C o m a n d a n t e da G u a r n i ç ã o de C u i a b á , G a b r i e l A l b u q u e r q u e F e r n a n d e s . C u i a b á , 14 de s e t e m b r o de 1857. Lata 1857 A. - O f í c i o do d o u t o r A n t o n i o da S i l v a D e i r ó , I o C i r u r g i ã o T e n e n t e do C o r p o de Saúde

do

Exército

ao

Comandante

da

Guarnição

de

Cuiabá,

Gabriel

A l b u q u e r q u e F e r n a n d e s . C u i a b á , 18 de s e t e m b r o de 1857. L a t a 1857 A. - O f í c i o do C o m a n d a n t e do Q u a r t e l do C o m a n d o da G u a r n i ç ã o de

Cuiabá,

G a b r i e l A l b u q u e r q u e F e r n a n d e s ao v i c e - p r e s i d e n t e A l b a n o de S o u s a O s ó r i o . C u i a b á , 29 de a g o s t o de 1857. L a t a 1857 A. - O f í c i o do C o m a n d a n t e do Q u a r t e l do C o m a n d o da G u a r n i ç ã o de C u i a b á , Gabriel

Albuquerque

Fernandes

ao

vice-presidente

Província,

Albano

de

Sousa O s ó r i o . C u i a b á , 25 de a g o s t o de 1857. L a t a 1857 A.

1.3 - N ú c l e o de D o c u m e n t a ç ã o e I n f o r m a ç ã o H i s t ó r i c a R e g i o n a l - U F M T . (Microfilmagem).

Relatórios. - Relatório

apresentado

ao

Chefe

da

Esquadra

Augusto

Leverger,

Vice-

P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o p e l o B r i g a d e i r o A l e x a n d r e M a n o e l de C a r v a l h o ao e n t r e g a r

a administração

da P r o v í n c i a ,

em a g o s t o

de

1865,

( R o l o 2). C u i a b á . - R e l a t ó r i o a p r e s e n t a d o à A s s e m b l é i a L e g i s l a t i v a P r o v i n c i a l p e l o E x m o . Sr. P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o T e n e n t e C o r o n e l F r a n c i s c o C a r d o s o J ú n i o r , a 20 de a g o s t o de 1871. ( R o l o 2). C u i a b á . - R e l a t ó r i o a p r e s e n t a d o à A s s e m b l é i a L e g i s l a t i v a P r o v i n c i a l de M a t o G r o s s o , no dia 03 de m a i o de 1874, p e l o P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a E x m o . Sr. G e n e r a l Dr. J o s é de M i r a n d a da Silva R e i s . ( R o l o 2). C u i a b á . - Relatório

com

que o E x m o .

Sr. Dr.

João José Pedroza, Presidente

P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o a b r i u a s e s s ã o da 22 a L e g i s l a t u r a da A s s e m b l é i a , no dia I o de n o v e m b r o de 1878 ( R o l o 3). C u i a b á .

da

respectiva

324

- Relatório

com

que o E x m o .

Sr. Dr. J o ã o

José Pedroza,

Presidente

da

P r o v i n c i a de M a t o G r o s s o a b r i u a 2 a s e s s ã o da 22 a L e g i s l a t u r a da r e s p e c t i v a A s s e m b l é i a , n o j d i a I o de o u t u b r o de 1879 ( R o l o 3). C u i a b á . - R e l a t ó r i o c o m q u e o E x m o . Sr. Dr. G e n e r a l B a r ã o de M a r a c a j ú , P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a

de M a t o

Grosso,

abriu

a

Ia

sessão

da

23 a

Legislatura

da

r e s p e c t i v a A s s e m b l é i a , no d i a I o de o u t u b r o de 1880. C u i a b á . - R e l a t ó r i o c o m que o E x m o .

Sr. C o r o n e l Dr. J o s é M a r i a de

Alencastro,

P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a , p a s s o u a a d m i n i s t r a ç ã o da m e s m a ao V i c e - P r e s i d e n t e T e n e n t e C o r o n e l J o s é L e i t e G a l v ã o , no dia 31 de m a i o do c o r r e n t e ano 1881. Cuiabá. - Relatório com que o Exmo.

Sr. C o r o n e l Dr. J o s é M a r i a de

Alencastro,

P r e s i d e n t e de M a t o G r o s s o , a b r i u a I a s e s s ã o da 24 a L e g i s l a t u r a da r e s p e c t i v a A s s e m b l é i a , no d i a 15 de j u n h o de 1882. C u i a b á . - R e l a t ó r i o a p r e s e n t a d o à A s s e m b l é i a L e g i s l a t i v a P r o v i n c i a l de M a t o G r o s s o , no dia I a de o u t u b r o de 1884, p e l o P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , G e n e r a l B a r ã o de B a t o v y . C u i a b á . - R e l a t ó r i o a p r e s e n t a d o à A s s e m b l é i a L e g i s l a t i v a P r o v i n c i a l de M a t o G r o s s o , no dia 12 de j u l h o de 1886, p e l o P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o , Joaquim Galdino Pimentel. Cuiabá. - R e l a t ó r i o a p r e s e n t a d o à A s s e m b l é i a L e g i s l a t i v a P r o v i n c i a l de M a t o G r o s s o , no dia 09 de d e z e m b r o

de

1886, p e l o V i c e - P r e s i d e n t e

da P r o v í n c i a ,

Dr.

R a m i r o de C a r v a l h o . C u i a b á . - R e l a t ó r i o a p r e s e n t a d o á A s s e m b l é i a L e g i s l a t i v a P r o v i n c i a l de M a t o G r o s s o , no dia 11 de f e v e r e i r o , p e l o P r e s i d e n t e da P r o v í n c i a , Dr. F r a n c i s c o R a f a e l de Mello Rego. Cuiabá.

Falas - Fala c o m que o E x m o . Sr. G e n e r a l H e r m e s E r n e s t o da F o n s e c a a b r i u a I a s e s s ã o da 21 a L e g i s l a t u r a da A s s e m b l é i a P r o v i n c i a l de M a t o G r o s s o , no dia 3 de m a i o de 1876. ( R o l o 3). C u i a b á . - Fala c o m q u e o E x m o .

Sr. V i c e - P r e s i d e n t e

Tenente Coronel José

Leite

325

G a l v ã o , a b r i u a 2 a s e s s ã o da 23 a L e g i s l a t u r a da A s s e m b l é i a d e s t a P r o v í n c i a , s e g u i d a do R e l a t ó r i o c o m q u e o E x m o . G e n e r a l de M a r a c a j ú , E x - P r e s i d e n t e da Província

de M a t o

Grosso

pretendia

abrir a mesma

sessão

da

respectiva

A s s e m b l é i a , no dia 3 de m a i o de 1881. C u i a b á . - Fala do E x m o . Sr. T e n e n t e C o r o n e l L e i t e G a l v ã o , V i c e - P r e s i d e n t e de M a t o G r o s s o , no dia 3 de m a i o de 1883. C u i a b á .

Jornais. 1 - A I m p r e n s a de C u i a b á . C u i a b á , 1 8 5 9 / 1 8 6 5 . ( R o l o 1). 2 - O P o p u l a r . C u i a b á , 1868. ( R o l o 1). 3 - A S i t u a ç ã o . C u i a b á , 1 8 6 9 - 1 8 8 7 . ( R o l o 1). 4 - A P r o v í n c i a de M a t o G r o s s o . C u i a b á , 1 8 7 9 - 1 8 8 9 . ( R o l o 5).

Recenseamentos. FUNDAÇÃO

INSTITUTO

BRASILEIRO

ESTATÍSTICA. IBGE. R e c e n s e a m e n t o de 1872. M a t o G r o s s o . R e c e n s e a m e n t o de 1890. M a t o G r o s s o .

DE

GEOGRAFIA

E

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trabalho

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da

indústria

de

Mato

Grosso.

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3 2 7

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mato-grossense.

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Rio

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